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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Alternativas a Sócrates

A entrevista de Manuel Alegre a Judite de Sousa, como aliás se demonstra por um pequeno excerto transcrito na Câmara Corporativa, é a prova provada de que não há alternativa à esquerda.

 

O triste é que Manuel Alegre está convencido que os votos que quase o levaram à 2ª volta das eleições presidenciais também se agregarão à sua volta para uma eventual coligação das esquerdas. Não há esquerdas credíveis e o Bloco de Esquerda usa a mesma retórica de Manuel Alegre, reciclada de moderno.

 

Quem fará parte de uma tal coligação de esquerdas? É transparente a ausência de ideias e de alternativas, pois quando se perguntam coisas concretas, as respostas são grandiosas com imensas palavras cheias de nada.

 

Se há alternativas à governação socialista elas estão à direita e não à esquerda. E é por isso que a movimentação do Bloco aproveita a situação, visto que não tem havido oposição ideológica à direita. Assim é fácil acusar o governo socialista de governar com capitalismo socialista.

 

Quanto à total lavagem cerebral sobre a grandiosidade da queda do governo, do descontentamento popular, da crise horrível que todos vivemos, dos maus ricos e dos pobres bons, obviamente encabeçados e organizados pelo PCP e engrossados por todos os descontentes de tudo o que aconteceu desde há 8 ou 10 anos, pela crise internacional, etc, lembro-me das grandiosas manifestações que o PCP mobilizava em 1974, das enormes quantidades de trabalhadores, operários e camponeses que marchavam contra todos os reaccionários (que eram todos os que não eram comunistas) e pela surpresa dos resultados eleitorais em 1975.

 

Vendo e ouvindo o que Joana Amaral Dias está a dizer no Expresso da Meia-Noite (outra personagem urticariforme, e quanto a arrogância, falta de humildade e retórica vazia…) continuo convencida que não há alternativa a Sócrates à esquerda. Pode haver alternativas a Sócrates, mas dentro do espaço ocupado pela esquerda socialista e moderna, onde não se inscreve o Bloco de Esquerda.

Regresso a casa

Sinto sempre uma desconfiança instintiva quando ouço falar de políticas de apoio à natalidade e à maternidade. Arrepio-me de cada vez que se enaltecem as qualidades das mulheres que cuidam dos seus rebentos, que quereriam estar em casa 6 meses, 8 meses, 12 meses, para amamentarem, para darem papas e banhos e para assistirem ao gatinhar, ao rir, ao andar dos seus rebentos.


Estranho a enorme quantidade de consultas a que têm que ir acompanhadas dos respectivos companheiros, quer eles queiram quer não, esperando horas infinitas para poderem ouvir os dois que o feto ainda na barriga da mãe tem que ter a companhia do pai, o amor, o apoio, enfim, toda aquela retórica que acompanha o amor e a educação primorosa que nos ensinam que é a correcta e única possível.


É claro que acho muitíssimo bem que quem quiser fique em casa a cuidar dos filhos. O que me parece é que, encapotada e subliminarmente, se vai fazendo de novo uma lavagem ao cérebro da sociedade ensinando às mulheres que a sua função primordial é procriar, amamentar e acompanhar os filhos, e que só o não fazem por razões económicas.


Se o tempo gozado em licença de maternidade fosse dividido entre o pai e a mãe, ambos teriam oportunidade de acompanhar os filhos e de prosseguirem as suas careiras profissionais. A coberto de um grande apoio social à família e à mulher, empurra-se de novo o género feminino para a sua função reprodutora, esquecendo que as mulheres são maioritárias no desemprego em geral e no desemprego de longa duração, em particular.


As políticas de apoio à natalidade deveriam ser igualitárias, com a existência de creches na proximidade dos locais de trabalho, horários em part-time, teletrabalho, tudo o que facilite a vida de quem tem filhos, mas em pé de igualdade para ambos os sexos. Em vez de se insistir para que os homens ajudem e acompanhem a gravidez das mulheres como uma obrigação, por vezes ridícula e sem justificação, olhando quem não o faz como um machista sem remédio, seria melhor que se insistisse na necessidade de os homens ficarem em casa metade da licença de parto, no acompanhamento dos filhos ao médico e aos infantários, na facilidade com que os podem alimentar, exactamente da mesma forma que as mães. E não condenar as mães que optam por dar biberão, que querem regressar ao trabalho rapidamente após o nascimento da criança, que também gostam de beber um copo com amigos ou colegas de trabalho ao fim da tarde, que adoram a sua independência económica, que não gostam de ficar em casa. Não são piores mães por isso.


E também se pode ter liberdade de escolher não ter filhos.


Depois da revolução da pílula, da conquista da independência económica e da realização profissional, a sociedade parece quer fazer sentir de novo que as mulheres têm uma obrigação imperiosa, da qual depende até a sobrevivência da espécie, de regressar a casa.

 

 

(Nota: este texto foi hoje publicado no Corta-fitas, respondendo a um amável convite do Pedro Correia. Espero que os corta-fiteiros não se desiludam. Obrigada.)

Radicalismo reciclado

Para quem lhe apetecer ficar embasbacado com o seu esquerdismo ou, pelo contrário, com o seu liberalismo, autoritarismo ou liberalismo, divirta-se a fazer este teste: political compass (retirado daqui).

 

Acho que já o fiz há uns anos, e parece-me que estou cada vez mais radical...

 

 

The Political Compass
Economic Left/Right: -6.75 Social Libertarian/Authoritarian: -5.33
 

Público e privado

Há uma coisa (se calhar até há mais) em que estou em total acordo com Manuel Alegre: no facto de se diabolizar o público e de se endeusar o privado.

 

O estado tem um papel essencial nas sociedades democráticas modernas e determinante no assegurar de igualdade de oportunidades em sectores de sobrevivência, coesão e solidariedade sociais. O discurso neoliberal de tudo privatizar e tudo confiar à sociedade civil, transforma um dever social em caridade de ricos para os pobres, transforma a sociedade num grupo de classes que se perpetuam.

 

Mas não aceito as críticas do economicismo deste governo. É absolutamente indispensável rentabilizar e melhorar a qualidade, a eficiência e a produtividade dos serviços públicos, porque é para eles que todos os anos pagamos impostos. E a falta de eficiência e o desperdício são o que de pior podemos fazer se defendemos o estado com garante e detentor de funções como a segurança, a justiça, a saúde e a educação.

Transparências

(fotografia de Don Moorcroft: Shadows with Leaves

 

 

1.
Transparências opacas e densas
por entre o brilho enganador da luz difusa
ofusca e cega.
Atiro-me contra o vidro
quero chegar ao outro lado.
Estou só.


2.
Escrevinho vagarosamente letras
sem tinta
sem dedos
não as consigo entender.


3.
Não sei porque espero que o mundo goste de mim
se eu gosto do mundo
mas pouco
cada vez menos
este mundo que eu própria reduzo e encolho.


4.
Esvaziei a minha secretária.
Não vale a pena cobrir de papéis
a sombra dos dias que não passam.

Que esquerdas?

Manuel Alegre defende que a intervenção política, como intervenção cívica que é, não pode nem deve esgotar-se nas organizações partidárias.

 

Completamente de acordo, apoiei a sua candidatura independente à Presidência da República e o Movimento de Intervenção e Cidadania, como um espaço de intervenção política de quem não se revê em qualquer partido político em particular, ou não gosta da disciplina ou da vida partidária e, memo assim, gosta de debater ideias e dar o seu contributo, na medida do que sabe e pode.

 

Manuel Alegre tem tido uma postura crítica a várias medidas deste governo e tem defendido publicamente uma governação socialista mais à esquerda. Ora Manuel Alegre pertence ao Partido Socialista, é um dos seus fundadores e, segundo Ana Gomes, membro da Comissão Nacional do PS. Espera-se que Manuel Alegre defenda as suas posições nos órgãos legítimos do seu partido, para além de o fazer para o resto da comunidade.

 

Por outro lado, ao juntar-se numa reunião/comício ao Bloco de Esquerda e Reformadores Comunistas, dizendo que os portugueses estão arrependidos de ter votado no PS e reclamando-se contra o novo capitalismo socialista, depreendo que está contra a votação no PS nas próximas eleições.

 

E, nesse caso, para além de ser importante que clarifique quais as políticas e os valores de esquerda que iria promover em vez das que têm sido desenvolvidas, conviria também que esclarecesse se será protagonista de algum movimento associativo/ coligação partidária ou de tendências de outra esquerda nas próximas eleições. Advoga a votação noutros partidos/coligações que não no PS? Qual o seu programa, qual a sua equipa?

 

É que não basta dizer frases interessantes, não basta reafirmar-se como defensor de valores de esquerda sem que explicite o que e como quer promover essas políticas. Não basta dizer que se é solidário com os emigrantes e com quem sofre, mas quais as políticas para reduzir o desemprego, como vai redistribuir a riqueza, como vai ter um SNS sustentável, quais as políticas para melhorar a Escola Pública, mas concretizando, não apenas mostrando boas intenções e boa vontade.

 

Não sei se Manuel Alegre tem agendas escondidas ou se pensa nas próximas eleições presidenciais. Tenho dele uma ideia de generosidade e dedicação a causas diferente destes calculismos. Mas não me parece que Manuel Alegre esteja a prestar um bom serviço à esquerda democrática.


O país e o mundo evoluíram e não é agitando as bandeiras do que significou o socialismo democrático há 30 anos que asseguramos uma melhoria na qualidade de vida e na assistência social às populações. Não me revejo nas críticas de capitalismo socialista deste governo, nem me revejo naqueles que querem colar a governação socialista à direita. E talvez agora, que o PSD ameaça poder vir a cumprir ligeiramente melhor o seu papel de oposição, se comece a perceber as diferenças que sempre existiram.

 

 

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