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Notícias

por Sofia Loureiro dos Santos, em 27.12.07
Há dias que ficam marcados pelas primeiras notícias, outros que ficam marcados por algumas notícias.

Ingrid Betancourt fez 46 anos a 25 de Dezembro. Há vários anos em cativeiro, esta combatente pela liberdade e pela democracia esvai-se nas caminhadas, na falta de tudo o que nós damos por garantido. Todo o dia me acompanharam as palavras húmidas da mãe, as palavras doloridas, quase resignadas dela própria, escritas na última prova de vida.

Hoje, numa pausa entre vários assuntos de trabalho, li nos jornais online que Benazir Bhutto tinha sido assassinada, ao mesmo tempo ou depois de um atentado suicida. Finalmente conseguiram calar uma voz incómoda, reduzir a nada as eleições que estavam marcadas para Janeiro e elevar outra vez ao rubro a tensão naquela parte do mundo.

Será que o regime democrático está agonizante? Há um recrudescimento dos fundamentalismos, da violência como arma política, do primado despudorado do poder económico, do dinheiro, proveniente de negócios escuros e pantanosos, do tráfico de armas, de bens, de pessoas, de drogas.

O que se está a passar, ou já se passou, com o BCP é assustador. Não porque chegamos à conclusão de que a corrupção é uma constante nas esferas onde se trocam dinheiro e influências, mas porque percebemos que só se sabem e só se comentam estes casos porque alguém resolveu dar informações a outro alguém e não porque há moralidade, ética ou, em última análise, justiça.

Os negócios políticos entre o PS e o PSD estão agora a dar os seus frutos. Os acordos de cavalheiros em que se mexe ou não em determinados assuntos, para assegurar que eles e só eles partilham o banquete de príncipes, determinam distorções da representatividade democrática e dos direitos de cidadania, ao acabarem com os partidos que têm menos de 5000 assinaturas. Ninguém percebe qual é a justificação para esta medida ou seja, todos percebem que é injustificável.

Amorfos e adormecidos pelas festas de quem não sabe festejar, vamos levando o dia a dia, cada vez mais a preto e branco, crentes ou ateus na nossa impotência.

Assim foi 2007, e assim será 2008. Ou não?

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publicado às 19:19

Romance Tradicional

por Sofia Loureiro dos Santos, em 24.12.07
Um pastor vindo de longe
À nossa porta bateu;
No seu recado nos disse:
- O Deus-Menino nasceu

Esse recado escutámos
Já meia-noite seria.
Estrelas do céu, lá vamos
Dar parabéns a Maria.
Mas que havemos de levar
A Jesus que tudo tem?
Quem tudo tem também gosta
Que alguma coisa lhe dêem.
- Eu lhe levo um cordeirinho,
O mais lindo que encontrei!
- E eu lhe levo um requeijão,
O melhor que requeijei.
- Pois também comigo levo
Fofinhos, se ele quiser,
Bons merendeiros de leite,
E mel para ele comer!
Vamos ter com os mais pastores,
Não se percam no caminho.
Vamos todos mui dapressa,
Adorar o Deus-Menino.
- Vinde todos, pastorinhos,
Vinde, correi a Belém;
Vinde visitar Maria
Que divino Filho tem.

Esta noite é santa noite,
Quente, quente, embora fria.
Vamos todos a Belém
Visitar Jesus, Maria.

- Ai que formoso Menino!
Ai, a graça que ele tem!
Ai, que tanto se parece
Com Senhora Sua Mãe!...


[poema de José Régio (?); Oficina da Terra: presépio]

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publicado às 18:18

Flexisegurança

por Sofia Loureiro dos Santos, em 23.12.07
Muito gostam alguns partidos, nomeadamente o CDS, o PSD e o PS, de falarem da rigidez das leis laborais, principalmente no que diz respeito à dificuldade de despedimento dos trabalhadores.

Num programa de há alguns dias, na RTP-N (Pontos de Vista), o representante do PSD citava um estudo que demonstrava as diferenças abissais entre as leis laborais em Portugal e na restante Europa, nomeadamente em Espanha que, segundo ele, também as tem muito quadradas.

A moderadora (Sandra Sousa) informou-o que o mesmo estudo comparava as taxas de criação de emprego em Portugal e na restante Europa, ficando Portugal à frente da Alemanha, que tem uma legislação muito mais flexível.

Mas o representante do PSD não esmoreceu e, defendendo que a criação de emprego em Portugal era feita apenas à custa de empregos precários e de baixa formação, que Portugal tem que obrigatoriamente reduzir, segundo ele, cantou loas ao futuro e ao estado da arte do emprego na Europa, ou seja à flexisegurança.

Mas há uma coisa que eu não percebo nesta argumentação. Segundo o que tenho lido o conceito de flexisegurança é, precisamente, um aumento da capacidade de mobilização das pessoas pela facilidade de ser despedido de uma empresa e ser admitido noutra, assegurando o Estado um provento económico nos intervalos.

Isto parece-me a própria essência da precaridade do emprego. Por outro lado, como é que este sistema melhora as qualificações do trabalhador? Já não falando da mais que provável incapacidade do estado em aguentar tanta segurança flexível.

Compreendo a necessidade de alterar a legislação laboral. O emprego é um bem escasso e, portanto, quem o consegue tem obrigação de lutar por ele e de o manter, numa ou noutra empresa. O conceito de uma competência para sempre já se modificou: temos que ter a noção de que poderemos ter que nos adaptar e adquirir competências em áreas diferentes ao longo da nossa vida profissional.

Mas não inventem palavras e fórmulas novas para mascarar o que é de sempre. É claro que a flexibilização das leis laborais serve o interesse dos empregadores, mais que o dos empregados, e que isso é fruto da escassez de um bem precioso – o trabalho.

[Pintura de Fernand Léger: L'équipe au repos (Etude pour les Constructeurs)]

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publicado às 14:44

Boas Festas (2)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 23.12.07
Ouvi outro dia, a propósito da situação no BCP, dizer que este deveria informar o mercado não sei de quê. Claro que comecei logo a escrever Mercado com letra maiúscula. É um ser omnipotente, omnipresente mas não omnisciente, pois tem que ser informado.

Também ouvi, ontem, durante uma acesa discussão sobre o referendo ao Tratado de Lisboa, a necessidade e/ou a legitimidade da ratificação, o significado da não ratificação, a representatividade das estruturas cimeiras da União Europeia, que essas Instituições e a Europa têm vontade própria e capacidade de elaborar tratados e de incluir ou excluir da sua vida os povos, cujo entendimento não atinge estes intrincados assuntos.

Resta-me estender a estas misteriosas e autoritárias entidades os votos de Feliz Natal, se bem que não entendo como se casam o Mercado com as cidades de lona que vão crescendo no país mais rico do mundo, que não tem protecções sociais para os deserdados da Fortuna (mais uma entidade), onde o Mercado tem plenos e alargados poderes; ou como se ligam conceitos de Mercado, desemprego e inexistência de salário mínimo nacional, assunto muito discutido entre alguns bloguistas, que até conseguem defender que haveria sempre alguém disponível para trabalhar a troco de comida, ou de cama, mesa e roupa lavada, ou de qualquer outra protecção neofeudal.

Mas claro que isto sou eu a tresler.

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publicado às 12:41

Boas Festas (1)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 23.12.07
Não sou particularmente fã desta época, em que mais do que nunca se evidenciam as hipocrisias sociais e pessoais, as falsas solidariedades e a capacidade que o ser humano tem de fazer muito ruído para não ouvir o essencial, onde quem está só ou doente ainda se sente mais só ou mais doente.

No entanto existem muitas pessoas que, nestes dias e nos restantes dias do ano, trabalham, estudam, dão generosamente o seu tempo e as suas capacidades na tentativa de construção de uma sociedade mais justa. São nesses que penso quando vejo os restos da orgia consumista pelas ruas, a 25 de Dezembro, quando envio mensagens a quem passa a consoada vigilante, nas ruas, nos hospitais, nos lares, a quem nos assegura uma ceia farta e saborosa.

A todos os amigos que tenho, e eles sabem bem quem são, desejo um Natal tranquilo e leve, na companhia de quem mais gostarem.

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publicado às 12:39

J. S. Bach - Missa em Si menor, BWV 232

por Sofia Loureiro dos Santos, em 23.12.07
Bach usa linhas melódicas que repete em vários tons e cambiantes, interligando as notas e os instrumentos com uma exactidão quase matemática que, servidas por um coro e uma orquestra excepcionais, fazem de um concerto uma experiência quase mística.

A música como redenção de um tempo materialista, individualista e competitivo, a mostrar-nos que os caminhos da arte são os que unem, são os que abrem a mente para dentro e para fora de nós, para os outros.

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publicado às 11:47

Osso buco

por Sofia Loureiro dos Santos, em 22.12.07
São 10 horas da manhã de um sábado véspera de Natal. Apesar de tudo, as compras da semana e as compras para as festanças natalícias, Consoada de 24, dia de 25 e restantes dias até ao fim-de-semana seguinte, têm de ser feitas, custe o que custar.

Pega na carrinha e, com a calma possível, ao chegar ao hipermercado, único local onde cortam a carne exactamente como deve ser, arranja um lugar de estacionamento com relativa facilidade. As caves ainda não estão interditas.

Moeda no carrinho e é vê-lo destemido e rápido, mexendo determinadamente as pernas, empurrando o carrinho com firmeza, a dirigir-se como uma flecha certeira para o balcão das carnes, que fica na outra ponta do hipermercado. Mas conhece-o como a palma das mãos e não há canto de agricultura biológica, nem área de detergentes para lãs que desconheça. Troca simpaticamente de sacos com uma senhora avantajada, pesa rapidamente limões e escolhe as batatas com a certeza de quem sabe o que faz.

Em completa subjugação, a esposa segue a energia deste dono de casa como um cordeirinho, comprando sob as suas ordens queijos, leite e ovos. Até a arrumação dos sacos, após uma hora na fila da caixa registadora, ou não fosse Natal, é organizada segundo um método de gestão de alimentícios de quem tem mestrado e doutoramento.

É deliciosamente arrasador.

Alternativa para almoço de Natal -
Osso Buco (4 pessoas):
  • 4 cenouras médias, sem pele, cortadas aos bocados
  • 4 tomates, sem pele nem sementes, cortados da mesma maneira
  • 4 aipos/alhos franceses, também cortadas
  • 4 cebolas médias, (o mesmo)
  • 1 dente de alho e azeite
  • 4 rodelas de osso buco (carne do pernil da vitela, cortado perpendicularmente)

Levam-se os legumes com o azeite e o alho ao lume brando, numa grande panela, durante 30 minutos.

Juntam-se as rodelas de carne e 1 copo (ou 2) de vinho branco (ou tinto), sal e pimenta; deixa-se cozer tudo, em lume brando, durante 1 hora. Mexe-se de vez em quando e se estiver sem molho, acrescenta-se vinho; prova-se e rectificam-se os temperos.

Acompanha-se com esparguete ou puré de batata, ou batata cozida, e um bom vinho tinto.

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publicado às 17:57

BCP em maus lençóis

por Sofia Loureiro dos Santos, em 21.12.07
Que grande confusão que vai pelo BCP.

Então e o Governador do Banco de Portugal só agora dá pelo imbróglio?

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publicado às 22:20

Fazer sentido

por Sofia Loureiro dos Santos, em 21.12.07
Também não sei o que é o verdadeiro espírito de Natal. De ano para ano agrava-se a vontade de me encolher a um canto e dormir, com a hora do despertar lá para meio de Janeiro.

E no entanto, o ritual das couves e do bacalhau, das rabanadas e da aletria, da mesa que se põe vagarosamente, da cozinha envolta em bruma nevoenta de vapor d’água e de cheiros, a sensação de estar a fazer o que é certo quando se abre a porta à família, dos encontros com os amigos a sério, a quem se deseja a sério que tudo lhes corra bem, nem que seja neste intervalo quase virtual, quase verdadeiro, esta sensação não passa, apenas se aprofunda de ano para ano.

Quando a cidade está em silêncio, à noite, e rodamos pelas avenidas ladeadas de árvores luminosas, com o barulho dos pneus nos restos da chuva, parece que a paz é possível, que há uma regra misteriosa e universal a que obedecemos, que nos torna ligeiramente melhores, por alguns instantes, aqueles maravilhosos instantes em que tudo parece fazer sentido.

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publicado às 21:16

Bastidores

por Sofia Loureiro dos Santos, em 20.12.07
Esta época de filas intermináveis de trânsito, de acotovelamentos sucessivos e desagradáveis, de toneladas de papel de embrulho a restolhar, de melopeias inaguentáveis, luzinhas a tremeluzir, musgo de plástico e Pais Natal pendurados nas janelas, oblitera totalmente qualquer resquício de boa vontade, tolerância e sentimentos de abnegação.

E no entanto, o esforço de tanta gente que trabalha o dobro ou o triplo que nos restantes dias do ano, que nos atura o enfado e as queixas, que se levanta de noite para bater massas e fritar filhós, para demolhar o pão e misturar leite e farinha, para matar leitões e perus, para nos transportar em segurança e nos proporcionar um Natal tradicional, sufocante, verde, vermelho e indispensável, que nos trata as indisposições, é esquecido e passa nos bastidores das prendas, pelas traseiras das nossas vidas.

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publicado às 22:43



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