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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Em vão

Em vãos gestos de alegria
suporto a certeza do mundo
numa teia apertada invisível
em lenta
rota
previsível.

(pintura de Christopher Le Brun: the speech of light)

Que contas são essas, Sr. Ministro?

A sustentabilidade financeira do SNS tem sido uma das bandeiras do ministro Correia de Campos para concretizar muitas das políticas de saúde a que temos assistido, nomeadamente a manutenção e alargamento do modelo Hospitais-Empresa.

A notícia veiculada pelos media sobre as questões levantadas pelo Tribunal de Contas, relativamente às contas do SNS de 2005 e 2006 são muitíssimo preocupantes e requerem urgente esclarecimento do ministro.

Se a seriedade das contas, da metodologia e da apresentação dos resultados é posta em causa, ou se demonstra que não há razão para tal ou quem deixa de ser sustentável é esta política de saúde.

Em que ficamos?

Maus hábitos

Durante o dia de ontem, desde manhã, que ouvimos, nas rádios, incitações para acarinharmos a selecção, pois se apoiássemos a selecção os jogadores teriam muita vontade de corresponder e dar alegria aos portugueses. Fomos lembrados pelo treinador Scolari, que devíamos vaiar o seleccionador e os jogadores finlandeses, independentemente do que a selecção fizésse.

Portanto, se quiséssemos ter um bom espectáculo, teríamos que mostrar à selecção quanto a amamos, para que ela, na sua infinita generosidade, se dignasse dar um bom espectáculo.

No fim de mais um jogo da selecção (de que só vi resumos), determinante para o apuramento da fase final do campeonato europeu, depois de os portugueses, obedientemente, terem apoiado a selecção, o jogo terminou empatado e, dizem os entendidos, ninguém vibrou com a qualidade.

Pois Scolari, no auge da sua importância, indignado pela falta das humildes criaturas que ousam dizer que Portugal não joga bem e que o apuramento foi sofrido, ofende-se enormemente e abandona a sala com estrépito.

Nós estamos, de facto, mal habituados, pois aguentamos estas notícias e estas estopadas todas, estas arrogâncias e estas prima donas, dando-lhes a importância que elas não merecem.

Infância

Onde estão o pião e o arco com que brincávamos,
o que foi feito do pátio e da casa enorme,
em que momento perdemos a inocência da infância?
O tempo era o nosso maior brinquedo
mas isso foi antes de termos relógios
e de sermos controlados por eles,
isso foi antes de termos agendas e calendários
para tornar os dias previsíveis e antecipados.
Inventávamos o mundo,
éramos cowboys, índios, marcianos,
podíamos ser tudo por sermos crianças
e não tínhamos imagens para nos aprisionar os sonhos.
Sabíamos talvez menos sobre as coisas
mas as descobertas eram nossas
e as sensações que tínhamos eram mais verdadeiras
porque não condiziam com as que vêm nos manuais.
Dizem que todas as infâncias são lugares mágicos
mas a nossa, por ser nossa e única,
tem uma magia que ultrapassa as palavras
e obriga-nos a libertar outra vez a criança
que o tempo submergiu neste nosso corpo das certezas.


(poema de José Torres; fotografia de Shirley Baker: street kids)

Cantos

Encontro cantos
esquinas neste espaço
curvas de tempo
por gastar.

Escrevo enquanto
me lembrar
dos olhos das mãos
do teu olhar.


(pintura de Rose Lynn: Eagle’s Nest & Blue Sky)

Como se brincava antes da PlayStation

Com o post anterior respondi ao desafio que me fez José Simões, do DER TERRORIST, sobre como se brincava antes da PlayStation (Com'eravamo, i giochi prima della PlayStation).

Éramos mais livres, aprendíamos com tentativas e erros, as nossas famílias confiavam mais na humanidade, em geral, e em nós, em particular. E nós confiávamos uns nos outros, só chamávamos os adultos em último caso. O mundo era o nosso reino e os pais, avós, enfim, as pessoas crescidas, só serviam para atrapalhar.

Passo esta corrente (mais uma) a outros cinco blogues:

Férias grandes

O Avô já tinha saído, aí pelas 5 da manhã, bem pela fresquinha, segundo ele. Até à Tapada eram uns 2 quilómetros a pé, por caminhos de terra que atravessavam a aldeia, onde homens e animais partilhavam os passos.

O Avô era muito poupado, aproveitando tudo o que a natureza dava, mesmo que fosse o desperdício de alguma natureza, como o estrume dos burros e dos cavalos, que ele recolhia religiosamente levando, tão precavido que era, uma pá e um saco para o depositar. Era para adubar a terra, dizia ele aos netos que lhe perguntavam, angélicos mafarricos, para que queria ele bostas de burro.

Eram os Cinco, todos os Verões, mesmo que o cão fosse a criança mais nova. Tendo entre os 12 e os 5 anos, caminhavam sozinhos de madrugada, durante cerca de 2 quilómetros, sem telemóvel, cotoveleiras ou joelheiras, sem água nem comida, sem adultos por perto, e ficavam a manhã inteira a subir aos cabeços, com sandálias escorregadias, a picarem-se nos cactos, a comerem fruta das árvores, cheias de pó, maduras ou verdes de mais, em quantidades industriais, a caírem e a ferirem os joelhos e as cabeças, a pegarem em lagartixas para se assustarem uns aos outros.

Não havia melhor coisa no mundo. As partidas de badminton no quintal, com a corda da roupa a servir de rede, os jogos de escondidas, em que o mais afoito e admirado por tal feito se escondia na pocilga dos porcos, pelo que ninguém o iria encontrar nunca, embora a retrete antiga, numa casinhota com aspecto infecto, e o galinheiro ou a coelheira, também fossem lugares a que poucos se arriscavam.

A adega e o forro, cheios de tralhas antigas, móveis estropiados, arcas em que os livros contavam histórias de um amor ridículo e proibido, como proibida era a leitura de qualquer livro que não fosse Uma família Inglesa, As pupilas do Senhor Reitor, As duas Mães e poucos mais, umas escadas imensamente perigosas, que rangiam horrores, não tinham corrimão e estavam às escuras, pregos ferrugentos, toneladas de pó branco e espesso, de muitos e muitos anos, que se viam pairando no ar, pela luz baça que entrava pelo telhado, uma enorme quantidade de perigos que eles adoravam e que ninguém parecia entender.

Abandonados à sua própria sorte mas inigualavelmente felizes.

(pintura de Andrew Macara: three boys with tyres)