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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Candidatar vs. Mandatar

Há algumas coisas que ferem o equilíbrio, seja ele de que tipo for.

Falo do facto de Fernando Negrão, candidato à Câmara de Lisboa pelo PSD, ter como mandatária (nunca percebi para que servem os mandatários)
Manuela Ferreira Leite!

Não seria melhor e mais lógico ser Manuela Ferreira Leite a candidatar-se em vez de mandatar a campanha do cordeiro sacrificial? Claro que Manuela Ferreira Leite (ou Paula Teixeira da Cruz) não devem achar graça a este tipo de sacrifícios, mas mesmo assim…

Os partidos estavam em verdadeira agonia para encontrar candidatos, mas já os encontraram, com excepção do CDS/PP. Paulo Portas (que tem estado a ser levado ao colo pela comunicação social pois não há jornal ou televisão que não perca tempo a mostrar as suas opiniões sobre tudo e sobre nada, relevantes ou irrelevantes, dando-lhe oportunidade para treinar a voz, o sorriso, o brilho dental e as frases bombásticas) ainda não conseguiu tirar da cartola um candidato, da enorme quantidade que espera, ansiosa, o chamamento do chefe.

Ele não, claro (cruz credo), porque ir a votos pode voltar a ser um fiasco, e isso Portas deixa para os seus fiéis servos...

Adenda: José Miguel Júdice a mandatar António Costa?? De facto, não devo mesmo perceber para que servem os mandatários.

Intervalo

Gosto das bicicletas, dos cafés com mesas redondas e toalhas de tecido, dos jornais esticados por pauzinhos de madeira à disposição de quem os quer ler, do pequeno tabuleiro com o café, o açúcar, o leite e o copo de água, da tranquilidade, dos eléctricos.

Mas não é fácil quando se desconhece a língua nativa. Os panfletos que me deram na recepção do hotel, sem sequer os pedir, estão em alemão, tal como os mapas e as ementas.

Hoje, depois de grandes esforços de parte a parte (de mim e do empregado), em que dei a entender com o meu inglês macarrónico que queria qualquer coisa leve, por exemplo vegetais (estava a pensar em sopa de legumes, salada, guisado), ele presenteou-me com um prato de beringelas panadas, acompanhada de um molho com maionese e pickles. Não estava mau, mas depreendi que o inglês dele era tão macarrónico como o meu.

Tem chovido, mas nem isso impede as caminhadas pela margem do rio, para desenjoar de palestras ditas num inglês inclassificável (igual ao meu!), sobre milhares de coisas tecnológicas e de ficção científica que, felizmente, já estão ao alcance da maioria dos nossos países europeus. Tem havido um desenvolvimento exponencial na ciência e nem sempre conseguimos aplicá-la às nossas necessidades. Se calhar alguma não tem aplicabilidade (ainda…).

Também gosto daquelas carteiras enormes e cheias de moedas que os empregados dos cafés e restaurantes transportam à cintura. São desmedidas!

De perto

Nesta distância de te amar
olhos na memória dos teus
mãos que procuram as tuas
em gestos banalizados
o vinho no copo de tão natural
a partilha do pão do riso do sal
de todo este tempo
a qualquer distância
de te amar.

(pintura de Marc Chagall: Wedding)

Fitas



De facto já percebi as razões que levaram à colocação de parras em frente ao sexo das figuras nuas, fossem elas estátuas ou pinturas. O fundamentalismo e o politicamente correcto, a hipocrisia e a idiotice, que já levou a substituir o cigarro de Lucky Luke por uma palhinha, estão em alta e em perigoso avanço!

Intercalares na governação


José Sócrates resolveu o problema. Substituiu António Costa por Rui Pereira, uma pessoa com prestígio e uma imagem de competência e rigor, embora me pareça no mínimo estranho abandonar-se um cargo que se ocupou há apenas um mês...

Por outro lado, se for verdade que Luís Amado será o número dois do governo, também parece ser uma boa escolha.

Mas o peso político de António Costa e a existência de um ser pensante com valor intrínseco próprio ao lado de Sócrates pode ter-se perdido. E é um luxo a que o país e o próprio primeiro-ministro não se podem dar. O deserto e a aridez aumentam em torno dele. Vai ficando cada vez mais rodeado de aparelho e aparelhistas.

Para Lisboa é uma boa notícia. Helena Roseta teve, para já, esse mérito. A marcação das eleições para dia 1 de Julho inviabilizam, na prática, candidaturas independentes. É um gesto de uma democraticidade muito duvidosa. Mas será que Helena Roseta ainda tem espaço político para se defender em eleições? A hipótese de coligação à esquerda é impossível, até pela indisponibilidade dos próprios partido comunista e bloquistas.

Mas se Helena Roseta tiver uma boa lista, constituída por pessoas credíveis e com vontade de trabalhar, pode fazer alguma mossa ao PS.

Considero o aparecimento de candidaturas independentes um bálsamo. Mais uma vez o PS e, mais precisamente Sócrates, meteram os pés pelas mãos. A solução que arranjaram é de peso, mas de um enorme risco para o país.

Quanto ao PSD, até faz pena. Palavra que faz pena!

Sócrates na câmara (escura?)

Acordei hoje com o Rádio Clube Português e a bombástica notícia da iminente candidatura de António Costa à Câmara lisboeta. Luís Osório assegurou que tinha informações seguras de que António Costa já tinha aceite, analisando satisfeito que o PS queria mesmo ganhar as eleições.

À medida que o dia foi avançando a notícia diluiu-se, nos jornais on-line nada se diz, discute-se nalguns bogues a sageza da decisão de Sócrates, avançam-se nomes como Silva Pereira para a substituição de António Costa mas, na verdade, fica-se com a suspeita de que esta foi uma manobra de diversão lançada, talvez, por alguns sectores dentro do PS, e que nada está confirmado.

Ganhar a Câmara de Lisboa no meio da legislatura é muito importante para o PS, principalmente porque estas eleições têm sempre uma dimensão nacional.

Mas há o risco de as perder, mesmo com António Costa. O que significaria uma aposta muito forte, perdida, com custos elevadíssimos também no governo que, irremediavelmente, teria que ser remodelado.

Silva Pereira não tem a dimensão política de António Costa. Não me parece nada bem que seja esta a solução de Sócrates. A não ser que esteja desesperado, e o desespero nunca foi bom conselheiro.

Adenda: Não é verdade que a notícia não esteja nos jornais on-line, pelo menos agora. Tanto o Expresso, como o Jornal de Notícias, como o Público, como o Sol, referem a hipótese de António Costa.

A arrogância da quietude

Escritos de luz invadem a sombra, mais prodigiosos do que meteoros.
A alta cidade irreconhecível avança sobre o campo.
Seguro da minha vida e da minha morte, contemplo os ambiciosos e desejo entendê-los.
O seu dia é ávido como o laço no ar.
A sua noite é a trégua da ira no ferro, pronto a acometer.
Falam de humanidade.
A minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma penúria.
Falam de pátria.
A minha pátria é um palpitar de guitarra, uns retratos e uma velha espada, a prece clara do salgueiral ao entardecer.
O tempo vive-me.
Mais silencioso do que a minha sombra, cruzo o tumulto da sua exaltada cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã.
O meu nome é alguém e qualquer um.
Caminho com lentidão, como quem vem de tão longe que não tem esperança de chegar.


(poema de Jorge Luis Borges)

E agora, Lisboa!

Helena Roseta desistiu do PS. É natural, muitos de nós estamos a desistir do PS, mesmo os que não são militantes.

Tudo o que se tem passado na Câmara de Lisboa é uma vergonha para todos os partidos. Não se pode conceber que o calculismo político, os arranjinhos, as cobardias e o aparelhismo tolham desta forma a governação da capital do país.

É bom e meritório que ainda existam pessoas que estejam dispostas a lutar pelas suas ideias, que tenham ambição de participar porque acreditam nelas e nas suas propostas, à margem do emperramento partidário.

Seria muitíssimo bom que se gerassem grupos de cidadãos que se mobilizassem e apoiassem essas pessoas. A tal sociedade civil de que tanto se fala e que tão pouco se vê.

António Barreto, no seu último e excelente programa da série Portugal, Um Retrato Social, falou da administração pública, da falta de produtividade de toda a administração pública, da corrupção, do poder autárquico, dos interesses que se movem e se entrecruzam, dos que se sentem donos nos vários sectores da administração, da promoção do partidarismo e da falta de importância do mérito e da competência.

Mas não é obrigatório, não é preciso que assim seja. Há que perceber e que intuir que a administração pública é para servir o público, que os serviços existem para servir a população e não as classes profissionais que integram os vários sectores, que é possível fazer mais e melhor.

Os nossos governantes deveriam ser os primeiros a pensar no bem comum.

O PS e, especificamente, José Sócrates, têm uma enorme responsabilidade nesta trapalhada.
Quem é a figura que se prestará a concorrer como cabeça de lista? António José Seguro, João Soares, Manuel Maria Carrilho, Ana Gomes, Sérgio Sousa Pinto, António Vitorino (o eterno), Edite Estrela, Vitalino Canas, Maria de Belém? Quem será a misteriosa arma secreta?

E porque não Helena Roseta, enquanto ainda era militante do PS? Porque não tem currículo, peso político, porque é uma não alinhada?

Espero que haja outras pessoas a avançarem como independentes para as eleições intercalares em Lisboa, pessoas com vontade de trabalhar, que discutam as várias opções, as ideias que cada uma tem para a cidade, por exemplo Maria José Nogueira Pinto.

É tempo de abanar o status quo. E além disso, era muito mais interessante!