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Pandemia

por Sofia Loureiro dos Santos, em 29.05.07
Seguramente, embora ainda não identificado, há um vírus extremamente perigoso, com latência variável, que infecta todos os que ocupam lugares de poder.

Os sintomas são variados mas conduzem sempre ao mesmo desfecho: autoritarismo crónico intenso, tentativa de controlo dos subordinados, desconfiança, suspeição e autismo.

Não se conhece vacina nem cura e a terapêutica sintomática é, habitualmente, rejeitada pelos doentes que não reconhecem a própria enfermidade.

Sugere-se a formação de equipas multidisciplinares de forma a desenvolver estudos científicos que possibilitem a descoberta de uma vacina minimamente eficaz.

A única arma é a prevenção: nunca assumir a direcção ou a condução de quaiquer processos, por muito inócuos que pareçam, nem que seja a escolha do local de encontro de amigos, para o habitual almoço psicanalítico!

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publicado às 18:06

Blogues com tomates

por Sofia Loureiro dos Santos, em 27.05.07

Bom, de facto, embora ligeiramente espantada com esta distinção, como dizer, tão vegetal, não posso deixar de agradecer ao J.F. por tão gentil (?) nomeação!

E, tal como ele, aqui publicito as minhas cinco nomeações:

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publicado às 21:31

A duas mãos

por Sofia Loureiro dos Santos, em 27.05.07
Inventar um sorriso
à distância de um segredo
desenhar o amor
à sombra de um degredo
abrir as cortinas
derrubar o muro
apagar o medo.

(poema de Ana)



Sal e sangue
nos dias do paraíso
são nossos os braços em cruz
com que erguemos o muro.

Sal e sangue
nos dias em que é preciso
moldarmos pedras e ventos
com que enfrentamos o mundo.


(pintura de Nereida García Ferraz: De Semillas)

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publicado às 16:03

Supor

por Sofia Loureiro dos Santos, em 26.05.07
Supor felicidade
à distância de um sorriso
supor amor
à distância das palavras
supor dias seguros
à distância dos dedos.

Abrem-se neblinas
sinais de gozo
gotas de sol transparente.
Mas persistem cortinas
e medos
muros desenhados
e secretos.


(pintura de
Arnaud Juncker: terres lointaines)

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publicado às 12:28

Maiorias absolutas

por Sofia Loureiro dos Santos, em 26.05.07
Talvez por conflito intrínseco com tudo o que me pareça autoritarismo, sempre desconfiei das maiorias absolutas, principalmente desde as do PSD, conseguidas por Cavaco Silva.

Por um lado as maiorias absolutas facilitam a implementação das medidas preconizadas pelo partido ou coligações no poder, com a responsabilização directa, pelos cidadãos, da sua actividade governativa, e o respectivo julgamento eleitoral.

Por outro lado, e não sei se por fado português ou se por fado dos seres humanos, mas acredito que mais por este último, as maiorias absolutas tendem a transformar-se em absolutismo, autoritarismo, bajulação dos chefes e abuso do poder, principalmente pelas chefias intermédias que usam a confiança política que têm ou pensam ter para calarem quaisquer vozes discordantes ou incómodas.

Instala-se em todo o lado um clima subliminar de intimidação e as pessoas passam a pensar várias vezes antes de exprimirem as suas opiniões, não só sobre o dia a dia, a sociedade, a política, mas inclusivamente sobre opções técnicas e profissionais que, quando não são do agrado do chefe, podem servir como pretexto para manobras de intimidação e represálias.

Como as estruturas hierárquicas se apoiam cada vez mais em compadrios e conhecimentos, as nomeações sobrepõe-se aos concursos e os amigos são sempre para as ocasiões, os trabalhadores ficam sem qualquer capacidade de se defenderem das eventuais arbitrariedades dos seus superiores hierárquicos.

É claro que têm sempre a hipótese de recorrer às associações sindicais e aos tribunais, no nosso hipotético estado de direito. No entanto, e sem que qualquer um de nós se espante, preferem não arrastar a sua situação e o seu nome durante anos nos tribunais, para nada se provar, concretizar, indemnizar, repor ou punir, preferindo calarem-se ou mudarem de emprego, caso seja possível.

A função pública é o paradigma de tudo isto. Em vez de um conjunto de profissionais que pugnem pelo serviço público, pela competência profissional, pelo mérito, está transformada num labirinto de posso, quero e mando pequenos e mesquinhos, que usam e abusam dos seus pretensos subordinados, usam e abusam do erário público, distribuindo prémios e facilidades a quem lhes confere o estatuto de inatacáveis, a quem lhes demonstra fidelidade.

A verdade é que, no geral, este governo tem governado bem, com determinação e coragem. Mas estes sinais são todos preocupantes da parte de que detém o poder, embora me pergunte, ao ver as sondagens que vão saindo, se não estamos nós os que se procupam, totalmente desfasados da realidade, tal como acusamos os políticos de o estarem.

A oposição é lamentável, e o caso da OTA é exemplificativo da falta de opções dos partidos que deveriam questionar e vigiar o exercício governamental. Não tenho conhecimentos técnicos sobre engenharia, ambiente ou aviação, para ter uma opinião sobre a melhor localização do novo aeroporto, como não tinha sobre a melhor localização da segunda ponte sobre o Tejo. Mas ao fim de décadas de estudos pagos a peso de ouro, aceites por governos de várias cores partidárias, o aeroporto deveria já estar construído, em vez de continuarmos a pedir mais estudos, também pagos a peso de ouro, sobre os prós e contras de outras eventuais localizações para o novo aeroporto. Qual a credibilidade de um PSD que teve dois governos anteriores a concordar com esta solução, vindo agora exigir transparência no caso da OTA? E qual o objectivo do Presidente da República em alimentar este lamentável e artificial facto político?

Em vez de dizerem graçolas e se comportarem como comentadores de café, talvez fosse uma boa ideia os ministros desencadearem quando tal é necessário, discussões abertas sobre os verdadeiros problemas a resolver.

Nomeadamente sobre a sustentabilidade financeira do SNS. Correia de Campos não abandona o estilo provocador, ora dizendo que sim ora dizendo que não, ora negando impostos, ora sugerindo alteração das isenções das taxas moderadoras.

É este estilo prepotente, errático numas coisas, teimoso noutras, que inaugura uma nova época de descrença e suspeição, pouco democrática e eticamente doente.

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publicado às 12:06

Investir em ti - lado A

por Sofia Loureiro dos Santos, em 22.05.07

(…)
4.
Amanhã, se me voltares a tocar quando estivermos no elevador, vou pegar a tua mão e conduzi-la pelo meu corpo. Vou perder o medo: e investir em ti.
(…)

(Paulo Kellerman: Os mundos separados que partilhamos)

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publicado às 22:17

Proibir

por Sofia Loureiro dos Santos, em 22.05.07
É natural, nós gostamos muito das proibições, principalmente porque temos um especial gosto em não as cumprir.

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publicado às 22:06

Zelosos

por Sofia Loureiro dos Santos, em 22.05.07
Lá que temos candidatos, lá isso temos. E mandatários, muitos mandatários. Pelos vistos estão na moda os mandatários financeiros, Helena Roseta também já tem um.

Agitam-se os partidos, os aparelhos e os outros, muito bem vistos quando são independentes por um determinado partido, muito mal vistos quando são independentes, ponto.

Tudo se agita, tentando arranjar notícias, agora à volta da eventual candidatura de Carmona Rodrigues.

Sócrates vai aumentando a altura da sua torre de marfim, armando os guardas, que serão todos iguais a Pedro Silva Pereira, com excelentíssimos, digníssimos e zelosos servidores, que patrulham os campos em volta punindo qualquer esgar, anedota ou assobio que possa ameaçar o respeito com que se deve tratar o chefe.

No fundo, é destes zelosos servidores que é feita a história, porque eles almofadam e condenam os que se pensam protagonistas. E é nos protagonistas que o povo se vinga dos pequenos algozes que castigam os bobos do reino.

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publicado às 21:33

Mudanças

por Sofia Loureiro dos Santos, em 22.05.07
Depois da bonança, vem a tempestade.

Há alturas em que tudo acontece em turbilhão, as janelas abrem-se com estrondo e o pó é varrido por ventos e assobios. E nós levados como folhas bailarinas, sem querer ou destino, enrodilhados na voragem dos acontecimentos.

Assim estou eu.


(pintura de Bill Dixon: changes)

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publicado às 21:28

Passear

por Sofia Loureiro dos Santos, em 18.05.07

Desde a senhora gordíssima que conduzia o táxi que me trouxe do aeroporto ao hotel, passando pela empregada do café junto ao convento, onde me inclino perante os cientistas e a ciência, as pessoas com quem me cruzo na rua e a quem pergunto direcções e opiniões, até ao generoso empregado do restaurante que, desta vez, me recomendou uma especialidade da casa e da região, trazendo-me, inchado e orgulhoso, metade de um frango panado mal frito, sem qualquer acompanhamento, só encontrei uma senhora antipática, magra, tipo espinafre, azeda que nem vinagre, repetindo exactamente as mesmas palavras incompreensíveis depois de eu lhe ter dito, o mais delicadamente possível, que não falava a sua língua. Parecia um computador com voz grasnante.

Ainda por cima eu estava totalmente descomposta, cheia de sacos, o casaco pendurado na pasta pesadíssima (com papéis, resumos de comunicações e mapas), totalmente alagada depois de duas horas a pé, à torreira do sol.

Sim: ontem chovia e hoje, na televisão do quarto, consegui descortinar que estavam nove graus (às 8:00h). Portanto, apesar de transpirar por todos os poros devido à temperatura climatizada, armei-me de casaco, chapéu e guarda-chuva dentro da pasta, para além de um lenço à volta do pescoço. Depois do pequeno-almoço, e perante um céu imaculadamente azul, decidi que era melhor desistir do peso do guarda-chuva e do lenço do pescoço.

É claro que a meio do caminho (meia hora até ao dito convento) já eu resmungava pelo casaco, pela carteira, pela pasta, enfim, pelo calor que já estava àquela hora da manhã.

No convento estava uma temperatura agradável e, apesar das cadeiras desconfortáveis (deve ser para os ouvintes não adormecerem) e do esforço para entender o inglês dos palestrantes, foi uma manhã e uma tarde interessantes e proveitosas.

No fim do programa cumprido, cheia de novidades e projectos futuros, decidi conhecer mais um pouco da cidade andando pelas ruas, hoje bastante animadas (ontem era feriado), entrando nas lojas, olhando, ouvindo, cheirando as flores nas ruas. Perdi-me por diversas vezes o que só aumentou a canseira e o calor com que me arrastava. Mas valeu a pena. É uma cidade muito simpática. Fico com vontade de voltar.

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publicado às 21:25

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