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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

O negócio informativo (1)

Por vezes ouço os comentários dos comentadores oficiais da TSF e calhou, há uns dias, ouvir a crónica de Joana Amaral Dias, que andou à volta de Berlusconi, provavelmente a propósito da estreia do filme de Nanni Moretti Il Caimano (O Caimão). Lembro-me de Joana Amaral Dias se ter espantado pela passividade do povo italiano, ao permitir a permanência de Berlusconi tantos anos no poder.

Confesso que aquilo que me preocupa não é a passividade do povo italiano, mas sim a possibilidade de um qualquer indivíduo, pelo facto de ter capacidade económica para comprar os media, poder controlar a quase totalidade da informação.

Será possível a indispensável independência da informação relativamente ao poder económico? Onde está a indispensável independência do poder político relativamente ao poder económico?

Como poderá a sociedade agir manietada e orientada por alguém que tem o poder da informação sob o seu total controlo? Como podem as nossas sociedades regular e impedir uma tal concentração de poder económico, como se pode impedir e controlar a concentração do poder informativo?

Pode ser a própria essência daquilo a que chamamos democracia, com a livre informação, a estar posta em causa.

Cumprir a lei

O caso da criança que foi dada pela mãe a um casal com intenção de a adoptar, à margem dos procedimentos legais, a manutenção da criança com este casal, mesmo após uma ordem do tribunal para a mesma ser entregue ao pai biológico, que entretanto a reconhecera como filha e reclamava o direito de a educar, tem-se arrastado nos anos e pelos jornais de tal forma que, neste momento, para que a criança sofra o menos possível, ela deverá permanecer com o casal que sempre se negou a cumprir as ordens judiciais.

Paralelamente, e sem que haja quaisquer semelhanças aparentes entre os dois casos, também foi notícia exaustivamente repetida, em todos os jornais, rádios e televisões, a descoberta do paradeiro de uma criança que tinha sido raptada há cerca de 1 ano de uma maternidade, vivendo com a raptora e o companheiro desde os 3 dias de vida ao ano de idade, não conhecendo outros pais, a não ser os que, ilegitimamente, a educaram durante esse tempo. Também neste caso, se levanta o problema de qual a melhor solução para a criança, se voltar de imediato à mãe e à restante família que por ela espera desde que lha roubaram, ou se deverá decorrer um tempo de adaptação.

É claro que 1 ano de vida não tem o significado de 5 anos, mesmo em termos de formação de afectos, e que as restantes circunstâncias são diferentes. Mas será que o facto de se conviver com uma criança durante um determinado período temporal, resta defini-lo, legitima um crime, como é evidente ter acontecido no 2º caso? E se em vez de 1 ano a criança só fosse encontrada aos 5 anos de idade? Qual a melhor solução para a criança?

Por vezes é difícil definir fronteiras entre o certo e o errado, entre o melhor e o pior. Mas as leis fizeram-se exactamente para tentar organizar aquilo que é muito difícil entregar a emoções. Justiça pelas próprias mãos, mesmo que moralmente possa parecer defensável, é sempre muito perigosa.

Mas a justiça só o é se for rápida a actuar, o que não aconteceu, pelo menos no 1º caso. As leis servem para proteger todos os cidadãos, mas voltam-se precisamente contra os mais fracos, quando não são cumpridas nem feitas cumprir.

Pérolas do jornalismo de investigação

Penso que foi no Blogo Existo que se colocou a questão essencial: Mas, então, se o Público não apurou nada de substancial, por que é que publicou a peça?

Não sei se foi o José Manuel Fernandes, pela cabeça dele ou mandatado pelo Belmiro de Azevedo, quem se lembrou da investigação de uma suposta fraude na forma como José Sócrates completou a licenciatura. Porque a peça é exactamente isso que insinua e o facto de se murmurar seja o que for na blogosfera é uma justificação descabida (quantas insinuações não se fizeram já na dita blogosfera, que não mereceram quaisquer investigações?).

Direi apenas, também como João Pinto e Castro: Não foi bonito. Direi mesmo mais: foi muito feio!

Poemas

Os poemas são nocturnos:
têm luas e letras
flores imediatas
que crescem entre dedos
atados de mãos insensatas.

Os versos são madrugadas:
acendem a luz do farol
desdobram brandos sorrisos
nas diáfanas cortinas
com que cobrimos o sol.


(pintura de Nancy Tuttle May: New Dawn I)

O estado dos assuntos

Será que o que restar do CDS / PP após o assalto ao poder, tão ansiado, propagandeado e implorado por Paulo Portas e seus apaniguados terá um décimo do interesse que têm merecido estas lutas tristes e de baixo nível?

Onde está a pose de estadista responsável que Paulo Portas criou enquanto Ministro de Estado, Ministro da Defesa e dos Assuntos do Mar e Ministro da Defesa Nacional?

Interpretações (deficitárias...)

Para quem gosta de balanços e os tem feito, dos dois anos de governo de Sócrates, o défice a 3,9% em vez dos programados (e ansiados) 4,6%, pode ser uma forma de aferir se as politicas governamentais estão ou não a dar resultados.

Segundo alguns comentadores, isto terá sido estudado, ou seja, o governo sugeriu um número superior para se poder gabar de ter conseguido ficar num número inferior. Noutros casos, há quem afirme que isto foi conseguido por aumento de impostos e redução da fuga ao fisco, outros afinal descobrem, em artigos relegados para os fundos das páginas interiores dos jornais, que foi à custa da redução da despesa (tudo isto fui lendo na blogosfera, o verdadeiro espaço de informação).

São tudo interpretações, fluidas, é claro!

Também é claro que só mesmo Marques Mendes pode desafiar o governo a baixar os impostos, já que conseguiu reduzir o défice demais, um autêntico horror! Mais claro ainda é que se fosse o PS ou o Sócrates a sugerirem levemente uma subtil redução de impostos, não passariam de manobras eleitoralistas.

Enfim, seriedade, precisa-se. E já agora, poderia acabar-se com aquela farsa da discussão mensal no parlamento, de um tema escolhido pelo governo. Porque não escolhe a oposição? A fiscalização da acção governativa não é sobre temas cómodos mas sim sobre aqueles que o governo não quer discutir!

Será que o Parlamento e os seus deputados não poderiam mudar esta peça mal encenada e muito mal interpretada?

Inteiro

Uma só palavra
bem soletrada
bem rolada

entre a língua
os dentes,
o som da voz
bem modelada
bem espalhada
como sementes
como restos esmagados
de nós.

Uma só palavra
que sintetize o poder
de ser inteiro.


(pintura de Ogambi: Women's Burden 3)

Adormecer

A raiva esfuma-se pelo peso que encolhe, pelo peso que abate, pelo peso que impede. Não querer saber, o mundo fica melhor sem os poucos loucos que um dia pensaram nos caminhos a direito.

A raiva transforma-se em rugas e olhares vazios, em encolher de ombros e mudanças de assunto, em sorrisos fátuos e palavras de circunstância,

A raiva é substituída por uma tal sensação de exaustão física, que daremos tudo para adormecer.

Dentro da vida

Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer

(poema de Gastão Cruz; pintura de Tom Lieber: sem título)

Nadir Afonso

Nadir Afonso é um pintor único, pelas formas, pelas cores, pela geometria, pelo urbanismo, pelo rigor do traço e do pincel, pela sua figura longilínea, ossuda, com dedos de pincel e olhos escavados e abstractos.

Nadir Afonso é um pintor único pela juventude perpétua, pelo olhar rejuvenescido e vibrante que nos devolve, pela dimensão das suas telas e da sua energia.

Na Galeria António Prates, até 18 de Abril, obras recentes (acrílicos, guaches) da 1ª década do séc. XXI, como ele diz; na galeria de arte do Casino Estoril, desde 9 deste mês, uma retrospectiva da obra, incluindo serigrafias, acrílicos e guaches, das diferentes fases do pintor (do figurativo ao abstracto).


(pintura de Nadir Afonso: Vera Cruz – 1ª décado do séc. XXI)