Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

É a guerra!

Alberto João Jardim tornou, infelizmente, a mostrar o cimento carnavalesco de que é feito.

Em cerca de 15 minutos, com uma solenidade de palhaço em desgraça, insultou os órgãos de soberania nacionais, por certo esquecendo-se que ele também é português, os socialistas madeirenses, os seus companheiros de partido, visto que justificou a sua recandidatura por palavras em que enxovalhava todos os outros potenciais candidatos do seu próprio partido. Clamou contra a quebra de solidariedade do país, esquecendo-se da falta de solidariedade que ele demonstrou sempre ao gastar mais do que podia.

Enfim, fez muito barulho, grande estardalhaço, mas não explicou como, depois de legitimado pelo voto dos madeirenses e dos porto-santenses, vai combater o governo central.

Eu aposto na declaração simultânea de secessão de guerra, entre o Soberano Reino da Madeira e Porto Santo contra a República Portuguesa.

Que tristeza!

A urgência da informação

Como era previsível está a repetir-se o que se passou com o fecho das maternidades: a inabilidade política de Correia de Campos, a chantagem dos autarcas, a manipulação das populações, pegando num dos assuntos mais sensíveis e importantes para a generalidade das pessoas.

As manifestações das populações e dos autarcas fazem parte, manifestamente, da luta política dentro e fora do PS. E tenho poucas dúvidas da existência de manipulação populista e demagógica da população, receosa e amedrontada por aquilo que pensa ser um serviço de urgência eficiente e de qualidade.

Vendo o problema pelo aspecto da redistribuição dos serviços às populações, talvez ajudasse a reorganização da divisão administrativa do país, acabando com freguesias e concelhos nuns sítios, aumentando freguesias e concelhos noutros sítios, aproveitando para alterar a distribuição do número de autarcas por esse país fora. Talvez a manutenção do status quo seja uma motivação adicional para protestar. E poder-se-ia aproveitar, quanto antes, para renovar os cadernos eleitorais com um novo recenseamento, por exemplo.

Por muita razão que tenha, Correia de Campos, mais uma vez, está a tratar do assunto com os pés. As pessoas têm razão para se preocupar. As pessoas não sabem, nem têm que saber, que a qualidade e a extensão de serviços que os SAP prestam, sem possibilidades técnicas mínimas e sem pessoal mínimo de atendimento, é um engano e um desperdício de recursos humanos, técnicos e financeiros.

É ao ministro responsável, às comissões por ele nomeadas e às organizações das diversas classes profissionais, que cabe o esclarecimento das populações com informação detalhada e serena, as vezes que forem necessárias.

Pra que somar se a gente pode dividir?

Se Vinicius existisse hoje, se calhar não podia existir. Vinicius era o excesso, a necessidade de viver, de amar, de paixão, do pranto, do canto, do carinho, da mulher, da dor, da bebida, do cigarro, de rir, de procurar, de esbanjar, de querer.

Vinicius era tudo o que hoje não se pode ser, porque agora a nossa imaginação e criatividade têm objectivos, deveres e haveres, contabilidade, água de rosas e desodorizante, dentes brilhantes e preservativos, viagra e lençóis de seda, limites de velocidade, limites de desejos e de prazer, limites para o sofrimento, limites.

O filme Vinicius, de Miguel Faria Júnior, transpira ternura e respeito, abraços e lágrimas que crescem, música, divina e tão terrena, transpira negros e ritmos que nos fazem dançar por dentro.

Para guardar do lado esquerdo do peito.

Como dizia o poeta

Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai

Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não

Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão

(Vinicius de Moraes / Toquinho)

“Broken Bicycles/Junk”

Broken Bicycles

Broken bicycles, old busted chains
Rusted handlebars, out in the rain
Somebody must have an orphanage for
All these things that nobody wants anymore

September's reminding July
It's time to be saying goodbye
Summer is gone, our love will remain
Like old broken bicycles out in the rain

Junk

Motorcars, handlebars
Bicycles for two
Broken-hearted jubilee
Parachutes, army boots
Sleeping bags for two
Sentimental jamboree

"Buy! Buy!" says the sign in the shop window
"Why? Why?" says the junk in the yard

Broken Bicycles

Broken bicycles, don't tell my folks
'Cos all those playing cards pinned to the spokes
Laid out like skeletons out on the lawn
The wheels won't turn when the other half's gone

Seasons can turn on a dime
Somehow I forget every time
For the things that you've given me
Will always stay
They're broken
But I'll never throw them away


[Tom Waits (Broken Bicycle) / Paul McCartney (Junk); Elvis Costello, Anne Sofie Von Otter – For the Stars (2001)]

"Broken Bicycles"

Broken bicycles,
old busted chains,
with busted handle bars
out in the rain.
Somebody must
have an orphanage for
all these things that nobody
wants any more
September's reminding July
it's time to be saying good-bye.

Summer is gone,
our love will remain.
Like old broken bicycles
out in the rain.

Broken Bicycles,
don't tell my folks;
there's all those playing cards
pinned to the spokes,
laid down like skeletons
out on the lawn.
The wheels won't turn
when the other has gone.
The seasons can turn on a dime,
somehow I forget every time;
for all the things that you've given me
will always stay
broken, but I'll never throw them away.


[Tom Waits: Broken Bicycles (One from the Heart, 1982)]

Paredes

Os passos que constroem paredes
ressoam alto nas sombras.
Ao fundo esperam-me cantos
de luz.
Seja eu capaz
de descobrir os anéis do tempo
nas pedras

com que caminho e construo paredes.

(fotografia de Hugo Madeira)

Peculato

A situação na Câmara de Lisboa é surrealista. Não se consegue perceber a honestidade política de um indivíduo, funcionário público, que sabia há cerca de 3 meses que era arguido num processo relacionado com as funções que exerce nesse cargo público, e não dizer nada a ninguém, sabendo que, para além de tudo o que é decência, da sua posição dependerá a viabilidade política da Câmara.

Isto é verdadeiramente inacreditável. E se o PS tivesse algum candidato credível, ou seja, excluindo o João Soares, o António José Seguro e outros que tais, já teria clamado por novas eleições, tal como o BE tem feito.

Mas com candidatos ou sem eles, não possível manter a Câmara da capital do país neste estado!

Trabalho

Alguma coisa tem de mudar na nossa administração pública, nomeadamente no que diz respeito aos vínculos contratuais e à flexibilidade de emprego.

O despedimento de mais de 3000 estagiários que completam o seu estágio profissional, para o qual foi investido muito dinheiro, para depois não se aproveitarem aqueles que se distinguem pela motivação, pelo empenho e pela competência, apenas e só porque a enormíssima quantidade de funcionários públicos que existe, tantos com fraca produtividade, com fraco empenho e com fraca competência, entope qualquer possibilidade de renovar os quadros de pessoal e de dar emprego aos jovens, que precisam de iniciar a sua vida adulta e autónoma.

É claro que não há artes mágicas que, num abrir e fechar de olhos, solucionem um problema crescente nas nossas sociedades tecnológicas e automatizadas. O trabalho transforma-se num luxo, num privilégio a que só alguns têm acesso. Mas a prestação dos representantes dos trabalhadores tem que olhar para essa fatia da população, tem que defender propostas que dêem hipóteses aos mais jovens.

Em Portugal o movimento sindical, na sua generalidade, tem tentado manter aquilo que já não é possível manter, tem tentado defender o trabalho de quem já tem trabalho, em vez de defender a possibilidade de todos terem acesso ao trabalho, em igualdade de circunstâncias, com o mínimo de dignidade.

Estes jovens são usados depois como mão-de-obra barata, sem protecção social, sem qualquer vínculo, por precário que seja, sem qualquer horizonte de continuidade, de formação, de realização profissional.

Eu não sei quais são as soluções. Mas alguma coisa tem de mudar, e depressa!