Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Trabalhadores de Natal

Para muitos estão a começar umas mini férias. Por motivos religiosos ou não, esta quadra é sempre especial e convida à reflexão.

Se pararmos um pouco, apercebemo-nos do esforço, do desconforto, da entrega e da generosidade de todos os que, por deveres profissionais ou apenas por dever de consciência, velam para que todos tenhamos acesso à gastronomia, aos embrulhos, às limpezas dos desperdícios, às deslocações de rotina ou de urgência, às exigências de consumo, do corpo ou do espírito, aos socorros, às ajudas na solidão, aos abraços de amizade.

Para todos os que nos proporcionam a capacidade de concretizar um feliz Natal, o meu desejo de que nos ajudem a partilhar essa sua dádiva.

Parlamento

O debate parlamentar mensal entre governo e oposição é uma peça de teatro repetitiva e algo grotesca: o primeiro-ministro grita e finge-se zangado; a oposição chora e finge-se ofendida.

Convinha substituir o encenador, já que os actores têm contrato para uma longa temporada…

Em Cascais

Isto não são horas, mas depois do café bebido às 11 da noite, para afastar os vapores do álcool das nossas mentes, em festividades pouco consentâneas com o recolhimento desta época natalícia, vai custar a adormecer.

Pois a Enoteca de Cascais é mais teca que eno. Fica perto da baía, da lindíssima baía de Cascais nesta noite límpida e gelada, como das noites quentes e vagarosas. Sobem-se umas escadas íngremes (há elevador, provavelmente mais adequado à descida…) e entra-se numa sala bastante acolhedora, com poucas mesas e uma estante cheia de garrafas de vinho. O atendimento é muito simpático.

O problema é quando se pretende escolher vinhos. Os que têm cruzinhas (muito mais de metade da lista) não há. Ou seja, o cliente escolhe um vinho, mesmo que não tenha cruzinha, e o solícito e conhecedor empregado sugere outro, pois aquele não há, devido à falta de pontualidade dos fornecedores de Dezembro. A sério, foi isso que disseram.

Provámos (comemos!) menus de degustação (não há restaurante onde agora não haja menus de degustação) o que significa que comemos muito e bem, bebemos bastante e melhor, e pagámos horrores!

Gostei... mas continuo fiel ao Chafariz do vinho, na Rua da Mãe d’Água.

Jornada

Ao ouvir o cd de Fernando Lopes Graça, no meu escritório de paredes brancas, sinto-me numa catedral, com o mesmo fervor que sentem os verdadeiros crentes. Há uma religiosidade, um ascetismo, uma simplicidade, um rigor monástico, uma pureza de visionários, um sentido missionário naqueles versos, naquele piano incisivo, naquelas vozes heróicas, que me faz estremecer, socialista, republicana, anti clerical que sou.

A liturgia da solidariedade, do hino à esperança, da apologia a uma sociedade de homens novos, mais livres, mais fraternos, mais justos, a certeza da verdade, da vitória no combate, os versículos que comandam, os coros que seguem com entusiasmo crescente, um autêntico ritual de fé, absolutamente arrebatador e comovedor.

JORNADA

Solo

Não fiques para trás, ó companheiro,
é de aço esta fúria que nos leva.
Pra não te perderes no nevoeiro,
segues os nossos corações na treva.

Coro

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
havemos de chegar ao fim da estrada,
ao sol desta canção.

Solo

Aqueles que se percam no caminho,
que importa! Chegarão no nosso brado.
Porque nenhum de nós anda sozinho,
e até mortos vão a nosso lado.

Coro

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
havemos de chegar ao fim da estrada,
ao sol desta canção.

(poema de José Gomes Ferreira; música de Fernando Lopes Graça - Canções Heróicas, Canções Regionais Portuguesas - Coro da Acadmia de Música Fernando Gomes e Olga Prats - EMI-Valentim de Carvalho, Música, Lda, 1995)

Acordai

Acordai
Acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
Acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
Acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!


Poema de José Gomes Ferreira
Música de Fernando Lopes Graça



Fernando Lopes Graça nasceu a 17 de Dezembro de 1906. As suas canções heróicas ainda hoje me deixam toda arrepiada.

Passamos pelas coisas sem as ver


PASSAMOS PELAS COISAS SEM AS VER

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos como animais envelhecidos;
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos:
como frutos de sombra sem sabor
Vamos caindo ao chão apodrecidos.

(poema de Eugénio de Andrade; pintura de Arpad Szenes)

Boicote


Mais uma vez se observa o desrespeito que algumas pessoas têm pela lei, seja ela qual for.

Entre estas, e segundo o Público de hoje, os conselhos de administração de algumas unidades de saúde privadas (Hospitais da Cuf, Clínica de Santo António, Clínica de Todos-os-Santos, em Lisboa, Casa de Saúde da Boavista, no Porto, Clínica de São Lázaro, em Braga), têm a audácia de proclamar que não executarão IVG, mesmo que o “sim” ganhe no referendo, por questões de ordem ética e deontológica, ou seja, não cumprirão a lei.

O facto de serem unidades privadas não as coloca acima da lei. O facto de permitirem aos seus profissionais recusarem-se a executar esse tipo de procedimento, por terem objecção de consciência, é totalmente diferente de a instituição, ela própria, ser objectora de consciência.

Não há dúvida que o boicote está na ordem do dia. É pena é ser exercido por quem tem responsabilidades acrescidas, pelos médicos e pelas instituições de saúde, as primeiras que deveriam pugnar pelo cumprimento da lei. Isso sim, seria ético.

La Féria, pois claro


Na altura em que se desenvolveu todo o protesto rocambolesco de algumas pessoas contra a gestão privatizada do Rivoli, a minha posição era de abertura total a uma hipótese de rentabilização de um elemento do património cultural da cidade do Porto.

Tenho alguns, mas não muitos, preconceitos relativamente ao que se entende por cultura. Não me parece que o estado deva subsidiar todas as propostas, mas deve pugnar por que seja oferecido um leque alargado de escolhas, apoiando as que, embora para públicos minoritários, são boas, diferentes e inovadoras.

Essa avaliação é subjectiva e quem é nomeado para assumir essa responsabilidade deve exercer os seus direito e dever de escolha, exigindo resultados.

O Rivoli é património da cidade do Porto e de todos os seus habitantes. A Câmara do Porto deveria assegurar que quem fosse escolhido para o gerir fornecesse uma programação variada, desde as grandes produções à experimentação e à pesquisa, teatral ou qualquer outra.

A escolha de Filipe La Féria, mais do que previsível, por uma comissão não se sabe exactamente formada por quem, cujas "Linhas de Orientação" não se sabe exactamente quais são (fiz uma pesquisa no site da Câmara Municipal do Porto e não fui minimamente esclarecida), dá razão às mais negras expectativas.

Vamos ter Carmens Mirandas, Madalenas Iglésias, Músicas nos Corações, grandiosas e tonitruantes sem que haja espaço para outras produções menos glamorosas e esplendorosas.

Quem não gosta de espectáculos revisteiros deverá deslocar-se a outras cidades. Rui Rio, pelos vistos, está feliz.


Câmara Municipal do Porto

  • Presidente - Rui Rio

  • Direcção Municipal de Cultura - Raúl Manuel Pacheco Matos Fernandes

  • Divisão Municipal de Património Cultural - Maria Isabel de Noronha e Azeredo Pinto Osório