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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Finanças Regionais


Nunca é demais realçar este facto político inédito, desde que Alberto João Jardim é Presidente do governo regional da Madeira, ou seja, desde sempre, que há um governo e um ministro das finanças que afrontam a demagogia, o populismo e a incrível falta de noção do que é a dignidade de um cargo público e o que significa esse cargo público.

Alberto João Jardim tem usado o facto de ser eleito para dizer todas as enormidades que lhe passam pela cabeça, chegando a ameaçar o Contnente com a independência do arquipélago, numa forma e com uns modos absolutamente inadmissíveis. Ele acha que as regras não se aplicam, nem a ele nem ao seu governo regional, partindo do princípio que o dinheiro continuará a fluir sem reservas, sem que as contas sejam feitas, assumindo-se como uma excepção, não se sabe ao abrigo de que leis, à prestação dessas mesmas contas.

Até agora, Presidentes da República, Primeiros-Ministros e líderes do PSD têm-se calado, assobiando para o ar, permitindo esta insanidade.

Finalmente, e como diria um grande e prezado amigo, Teixeira dos Santos e José Sócrates aplicaram-lhe um torniquete numa parte delicada da sua anatomia...

Gulodice

Guloso te lambo
como se um doce foras
servido sem restrições
à minha gula
até me lambuzar
todo
em ti
no exagero
que excede
do doce
e da fome
as dimensões.

Faço do teu ventre
guardanapo
limpando nele
a boca transbordante
e não resisto
num gesto de criança
a lamber os dedos
um a um
como me ensinaram
a nunca fazer.


(poema de Pedro Neves; pintura de Gina Bold: faun with shepardess)

Revista de imprensa (muito) matinal

Preferia que o suplemento “Mil Folhas” saísse ao sábado. Tenho mais tempo e disposição para saborear os jornais nas manhãs do fim-de-semana. Serei só eu?

Muito me interroguei sobre os acordos com o MIT, desde a célebre pergunta de José Tavares acusando Sócrates de ter sepultado o projecto, por pressões ou outras coisas escusas que não se perceberam, mas também não foram explicadas. É bom que comecem a ser divulgadas as áreas científicas que vão sendo abrangidas, as Universidades e os Institutos que estão englobados.

José Sócrates afirmou que o PS irá fazer campanha pela despenalização do aborto. Finalmente acabaram-se as meias tintas guterristas sobre este assunto. A posição do partido não colide com opções individuais, ao contrário do que António Guterres parecia defender.

A novela entre a Refer e a Teixeira Duarte por causa do túnel do Rossio é estranhíssima. Afinal, depois da Teixeira Duarte ter reduzido as obras de CINCO anos para UM ano e meio, a Refer afinal rescinde mesmo o contrato, e a Teixeira Duarte NÃO ENTENDE! Quem não percebe nada sou eu!

Em tempos em que se tenta impedir o fenómeno crescente da imigração ilegal, com a construção de muros legais e de pedra, é muito interessante a opinião de pessoas como Demetrios Papademetriou, que alerta para o futuro da crescente mobilidade de pessoas, em busca de trabalho, de melhor qualidade de vida, de felicidade, o que coloca desafios aos governos das nações que se dizem livres e democráticas, no sentido de facilitar e aprender a administrar essa mobilidade, cujos centros serão cidades em vez de países.

Continuação das agendas políticas

Paulo Gorjão, do Bloguítica, referiu-se ao meu “post” anterior, dizendo-se espantado pelas ilações que nele tirei relativamente à sua opinião sobre o trabalho de Correia de Campos como Ministro da Saúde.

De facto não foi apenas aquele texto que me levou a tirar essas ilações. Se não estou em erro, de há 1 ano para cá, as únicas vezes que Paulo Gorjão se tem referido a Correia de Campos têm sido num tom crítico, tendo-se as críticas agrupado no último mês, porque nos restantes, mais uma vez se não me engano, Paulo Gorjão foi omisso em relação ao Ministério e ao Ministro da Saúde. Como ele próprio me esclarece (e se calhar não só a mim), não criticou a liberalização da venda de medicamentos que não necessitam receita médica, o encerramento das maternidades ou a reestruturação das urgências. Não criticou, não aplaudiu, não comentou. Talvez por isso, pelos vistos abusivamente, interpretei as suas críticas como opinião pouco favorável.

Até porque tenho de Paulo Gorjão a ideia de um homem bem informado e interventivo, pelo menos na blogosfera, que não se esquece dos assuntos que questiona, e que os persegue sem descanso, até obter uma resposta. Tem sido assim com o MIT, com a notícia errada do DN sobre o novo Procurador-Geral da República. Por outro lado, do elenco governativo, tem particular atenção às actuações de alguns ministros (Freitas do Amaral, António Costa, Manuel Pinho e, mais recentemente, Correia de Campos).

Relativamente às teorias da conspiração, devo confessar que as adoro, mais de umas do que de outras, claro. Por exemplo, intriga-me que, perante a sua insistência em criticar António Costa pela má época de incêndios, não tenha ainda obtido o “Relatório Provisório” sobre incêndios florestais, do passado dia 3 de Outubro, disponível no site da Direcção Geral dos Recursos Florestais, em que se demonstra que o número de incêndios e a área total ardida, de 1 de Janeiro a 30 de Setembro deste ano foram, respectivamente, 57,4% e 32,5% das médias observadas entre os anos de 2001 e 2006.

Também é interessante o facto de ter elaborado uma potencial intriga explicativa da presença de Freitas do Amaral no governo (trampolim para a Presidência da República), seguindo-se a sua reflexão sobre uma eventual remodelação governamental (em Março), apontando Freitas do Amaral como remodelável, tendo este acabado por demitir-se em Junho…

Não tenho rigorosamente nada contra as teorias/teses da conspiração, as agendas políticas e as opiniões de cada um. Somos todos livres de pensar, exprimir esses pensamentos e até livres de errar nas interpretações que fazemos dos pensamentos dos outros.

Agendas políticas

Não deixa de me surpreender (ou talvez não…) que alguns comentadores estejam a usar a proposta da reforma dos serviços de urgência para tecerem considerandos sobre a permanência de Correia de Campos no governo, ou sobre a confiança do PS, ou de algum PS, neste ministro.

As preocupações que expliquei no meu post anterior, relativamente ao facto de 1 milhão de pessoas ficar a mais de 45 minutos de uma urgência polivalente, tal como outros comentadores blogosféricos, não invalida a importância e urgência desta reforma.

Pedir implicitamente que Sócrates venha apoiar o seu ministro da Saúde é, para todos os efeitos, retirar-lhe peso político e, portanto, espaço de manobra. Parece que há uma agenda oculta que primeiro “trabalhou” para a demissão de Freitas do Amaral e agora, de uma forma sub-reptícia, pede a cabeça de Correia de Campos.

O ministério da Saúde, tal como o da Educação, são dos que mais necessitam de reformas, reformas essas que mais custos terão em termos sociais. Mudar de ministro sempre que há algo polémico e perturbador do status quo é uma cedência aos que pedem um espírito reformista ao governo, mas que se assustam imediatamente quando as mudanças se avizinham.

Laranjas


Descasco uma laranja
voluptuosamente,
borrifando o rosto.

Separo os gomos
delicadamente,
mordendo deliciada
a película transparente.

Saboreio o sumo
e lambo os dedos
levemente pegajosos.

Aproximas-te,
guiado pelo odor,
meio intrigado

pela sua origem
e só percebes o engodo
quando te colo as mãos
com beijos molhados.

Amo-te.


(pintura de Kathrine Frances Milns: oranges)

A (des)localização das urgências


O estudo para a redefinição e reestruturação dos serviços de urgência está em debate público. Parece-me um passo indispensável na reforma do SNS.

Já tenho aqui dito e repetido que não há reforma de urgência que resulte se, em primeiro lugar, não forem reformados os cuidados primários, Centros de Saúde (CS) ou Unidades de Saúde Familiares (USF) ou seja, se o acesso dos doentes ao seu médico não for rápido e atempado e se não houver capacidade para satisfazer o mínimo de exames complementares de rotina sem recorrer ao Hospital.

A grande maioria das situações que levam os doentes às urgências hospitalares são situações que poderiam e deveriam ser resolvidas em consulta.

Por isso estou esperançada nas USF, por isso estou esperançada na reforma das urgências. A divisão entre Serviço de Urgência Básica (SUB), Serviço de Urgência Médico-Cirúrgica (SUMC) e Serviço de Urgência Polivalente (SUP) parece-me lógica. A hierarquização do nível de cuidados médicos necessários e a concentração de meios técnicos e humanos em unidades de referência é uma forma acertada de especializar (desde que se caminhe para serviços especializados de urgência, com pessoal formado e remunerado para tal) e de rentabilizar os parcos recursos existentes.

Mas a notícia de que há cerca de 1 milhão de portugueses a mais de 45 minutos de um SUP é inaceitável.

Espera-se de um estado em que todos os cidadãos pagam impostos para assegurar determinados serviços, nomeadamente o serviço de saúde, que não haja portugueses de primeira – os que vivem junto a centros urbanos – e de segunda – o que vivem no interior desertificado. Mais de 45 minutos pode ser a diferença entre a vida e a morte. Mesmo que seja caríssimo, o estado tem que prover ao bem-estar da população.

Os peritos fizeram o seu papel: analisaram tecnicamente a situação e propuseram soluções técnicas. Do estado espera-se uma solução política, que tenha obviamente em conta o relatório e a recomendação dos peritos, mas que tenha em conta o seu papel equitativo e de garante da saúde de todos os cidadãos, sem distinção.

Por estado entende-se governo e autarquias. Em vez de desatarem aos gritos e a promover manifestações histéricas e demagógicas, devem, todos, sentar-se à mesa e procurar as melhores soluções.

Atrasar o fecho das urgências nessas zonas, investir em ambulâncias de emergência e em pessoal qualificado para acompanhar os doentes, em helicópteros, dotar os SUB e os SUMC dessas zonas de meios de consulta rápida on-line, enfim, posso lembrar-me de várias modalidades.

Mas é imprescindível que isso aconteça e que não se olhe esse milhão de pessoas como apenas 10% da população. E parece-me que até ao fim de Outubro é pouco tempo para discutir este problema.

Teimosamente continuo a acreditar que este governo é mesmo socialista. Este é um momento óptimo para o demonstrar.

Quem tramou Zita Seabra?

Não percebi nada da trapalhada sobre a retirada do projecto-lei de Zita Seabra que defendia a suspensão e o fim dos julgamentos de mulheres acusadas do crime de aborto.

Primeiro não percebo o que é que uma notícia no jornal, por mais venenosa, conspirativa e de política baixa que seja, tem a ver com a desistência, por uma deputada, da apresentação de uma proposta de decreto-lei.

Depois não percebo porque é que quem não é favorável à despenalização do aborto não quer que as mulheres sejam acusadas e condenadas. Se o aborto é considerado um crime, tem que ser penalizado e quem o pratica acusado e condenado a cumprir a pena estabelecida por lei. Se todos estão de acordo que é chocante condenar em tribunal a penas de prisão mulheres que abortaram, então é porque é chocante considerar o aborto um crime.

E ainda não percebo como é possível Zita Seabra ser a protagonista deste episódio. Devo afirmar que não conheço em pormenor a posição de Zita Seabra sobre este assunto. Mas Zita Seabra foi durante anos e anos membro do PCP e deputada por esse partido às diversas assembleias. Que me lembre, a posição do PCP foi e tem sido sempre a favor da despenalização do aborto, defendendo uma alteração legislativa sem necessidade de recurso a referendo. Sabendo que o PCP é sempre unânime nas suas decisões, fala sempre no plural (mesmo na campanha para a Presidência da República falava sempre na “nossa candidatura”), sempre depreendi que Zita Seabra era a favor da despenalização do aborto.

Ter-me-ei enganado? Não devo ter percebido mesmo nada!

Intervenção e cidadania

Estamos, de facto, perante encruzilhadas, nós todos como sociedade, cada um de nós como indivíduo, parte da mesma sociedade.

As mudanças que decorreram nas últimas décadas, após a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria e a chamada globalização, com o aumento do consumismo, a glória do mercado, o apelo aos valores do individualismo, competitividade, sucesso a todo o custo, concentração de capital, de serviços, de pessoas, levanta um vendaval de problemas que nos levam a desequilibrar as nossas próprias convicções.

A nova esquerda, a refundação da esquerda, os novos ideais socialistas, a intervenção e cidadania. Palavras e expressões grandiloquentes mas, muitas vezes, vazias de significado. Começa porque não sabemos qual é a noção de cidadania que cada um de nós aceita e, principalmente, pratica. Porque cidadania não é só escrever num blogue, ler jornais e dizer mal do governo à mesa de café, queixarmo-nos do aumento de impostos ou da morosidade da justiça.

Individualmente a cidadania também se exprime na noção de que a nossa atitude cívica é essencial para a coesão social. Ter do trabalho a noção de serviço público, do cumprimento das leis a noção de segurança e equilíbrio, do pagamento de impostos a noção de equidade, da distribuição dos recursos a noção de solidariedade.

A voragem das mudanças, a propaganda e a miragem do consumo têm tentado convencer-nos que a ordem económica e social têm prioridades inversas, que o bem estar e a realização individual são directamente proporcionais ao tamanho do carro, ao número de televisores e telemóveis, à efémera glória do espectáculo mediático.

Sinais de constrangimento e medo assolam a Europa. O envelhecimento populacional, a extrema pobreza numa grande parte do mundo, a imigração crescente e a falta de soluções para a integração dos imigrantes, o desemprego, o crescer dos fundamentalismos religiosos e o uso desses fundamentalismos com objectivos políticos e belicistas, assim como a capitulação perante os extremistas, podem levar-nos a descrer de valores que sempre considerámos universais, convictos que assim podemos travar o avanço para novas formas de totalitarismo.

Refundar, em cada um dos cidadãos, a ideia de pertença, a ideia de que cada pessoa é um elo indispensável à comunidade e a uma vida mais feliz, repensar a noção de cidadania no respeito pela sociedade – talvez seja essa a função mais importante da nova esquerda.

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