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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Aos amigos

Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
– Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

(poema de Herberto Hélder; pintura de Jo Derbyshire: fire)

"As mulheres da minha vida"


Fui ver a peça As mulheres da minha vida, de Neil Simon, encenada por Daniel Filho e protagonizada por António Fagundes.

É uma peça sobre a relação entre um homem, escritor de sucesso, e as mulheres da sua vida, mãe, irmã, esposas, filha e psicanalista, sobre a dificuldade da intimidade e a incapacidade de se expor emocionalmente, sobre a realidade do imaginário e a ficção da vida real.

Os actores cumpriram, mas não entusiasmaram. O som não estava grande coisa, o cenário era frio, pouco envolvente. Não fiquei particularmente agradada.

Oposição

À falta de uma oposição política credível, com as declarações de Marques Mendes a merecerem um sorriso de comiseração, temos a oposição liderada por jornais/jornalistas, como se pode apreciar pelas páginas do Público, sobre a Semana horribilis de Sócrates antecipa maior contestação ao Governo.

Desde o início da governação socialista que se vem vaticinando a perda do estado de graça, que se vem predizendo as grandes dificuldades de um governo que queira atacar os problemas do país, que se vem estruturando a quebra das intenções de voto no PS, no governo e em Sócrates.

Esses profetas têm vindo a refazer as profecias, à medida que o tempo vai passando, por um lado em coro com os que criticam o não apertar o cinto a sério, por outro com os que criticam o apertar o cinto demais.

Há ministros que ciclicamente sofrem as atenções da imprensa, como Manuel Pinho, Correia de Campos e Maria de Lurdes Rodrigues, para não falar de Freitas do Amaral. Desta vez é António Costa que, segundo a mesma notícia do Público, se afunda no Prós e Contras, nos dez episódios que abalaram a máquina do governo, depois de ter escapado aos incêndios do país, no Verão.

É verdade que tem havido uma modorra geral em volta das alternativas às medidas do governo, primeiro porque não deve ser fácil encontrá-las, segundo porque Sócrates está a desertificar a discussão na área socialista, terceiro porque a oposição, à esquerda e à direita, está agonizante, quarto porque o discurso da crise se colou às almas das pessoas.

Assim assiste-se à necessidade de criar factos políticos, para que alguma coisa se mexa neste lamaçal invernoso. Está prestes a inventar-se uma crise governamental, já começaram a correr rumores de uma provável remodelação.

A semana correu bastante mal para o governo, muito por responsabilidade de alguns ministros, e vai haver semanas a correr pior. Todos esperávamos a contestação social, com a entrada do Outono. É natural que as pessoas protestem, é natural e desejável que os jornalistas confrontem os ministros com as suas insuficiências e com as suas incongruências.

Mas martelar na opinião pública interpretações extraordinariamente exageradas e mesmo abusivas, para induzir extrapolações e criar instabilidade, não me parece um papel consentâneo com a ética que esperamos, pelo menos em jornais que se querem de referência.

Lá fora

Lá fora as pedras alagadas
lembram a solidão.
Tempestades de granito
a que habituamos os olhos
tendo as mãos isoladas.

Atrás das portas trancadas
esperam silenciosas
as almas resistentes.
As outras desistentes
voaram.

(quadro de Katarzyna Gajewska: loneliness)

Toque a reunir III

E agora é um pacto para a saúde, patrocinado pelo Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, mas já com o beneplácito do Bastonário da Ordem dos Médicos, a Bastonária da Ordem dos Enfermeiros, o Presidente do Observatório Português de Sistemas de Saúde, profissionais dos diversos sectores e políticos do PSD e até do PS.

Não sei muito bem porque é que repentinamente todos começaram a querer pactos para todas as áreas. Não percebo porque é que votamos em partidos diferentes, com políticas diferentes, para depois fazerem pactos e, nas próximas eleições, não termos a quem responsabilizar pelas escolhas entretanto feitas.

Na saúde, se calhar mais do que noutras áreas, como disse Maria de Belém Roseira, uma coisa são os objectivos, que até podem ser semelhantes para muitas forças políticas, outra muito diferente é a forma de se atingir esses objectivos.

E também desconfio sempre muito das súbitas prédicas a favor dos argumentos técnicos e científicos, em desfavor dos argumentos políticos.

A orientação da política de saúde é um dos deveres dos políticos eleitos. Não foi aos médicos, enfermeiros e farmacêuticos que os cidadãos deram um mandato para definirem a política de saúde. Todos os representantes das Ordens profissionais são parceiros, que devem ser ouvidos e cujas opiniões devem pesar nas decisões ministeriais.

Mas é ao governo, apoiado em partidos políticos, com uma determinada ideologia, que compete orientar e gerir a melhor forma de prestar cuidados de saúde às populações. O PS foi eleito, com maioria absoluta, é o PS que tem a responsabilidade de governar e é o PS que eu quero julgar, nas próximas eleições.

Por princípio sou avessa a pactos de regime. Neste caso particular, sou totalmente contra.

Referendemos

Percebo e até concordo com a posição do PCP no que diz respeito à capacidade da Assembleia da República legislar sobre a interrupção voluntária da gravidez (ivg). Não concordo, no entanto, que houvesse espaço político para se dispensar um novo referendo.

António Guterres “amarrou” o partido à sua escolha, desde o momento em que fez depender uma alteração legislativa de uma consulta referendária. José Sócrates não quis dar razão ao PCP e prometeu promover o novo referendo, tendo-se inclusivamente comprometido, politicamente, a fazer campanha pelo “sim”.

aqui referi que o PS não deveria aceitar o resultado do referendo, caso houvesse uma afluência às urnas inferior a 50%, ao contrário do que António Costa já anunciou, não colocando a hipótese de vencer o “não”.

O PCP votou contra a proposta de referendo, evidenciando uma postura coerente. Mas será que no altar dessa coerência está disposto a perigar o resultado do “sim”? Será que vai fazer campanha pelo “não” ou, simplesmente, abster-se de fazer campanha?

Tenho ouvido e lido várias opiniões de pessoas que pensam que esta questão deve ser resolvida na Assembleia e ponderam a hipótese de não votar. Há mesmo homens que defendem que a ivg é uma questão de mulheres, e que não tem sentido os homens pronunciarem-se a favor ou contra.

Independentemente da nossa opinião sobre quem tem mandato para alterar a lei, a Assembleia ou todos nós, faltar ao referendo é dar a possibilidade aos defensores do “não” de manterem o status quo. Quem é a favor da despenalização da ivg deve ter a iniciativa.

Para além disso, sejamos homens ou mulheres, este é um problema que toca à sociedade e não a metade dela. A decisão de punir quem interrompe uma gravidez é da sociedade, não de metade dela.

Quadratura do Círculo



Gosto de assistir à Quadratura do Círculo. Habitualmente as posições do representante do PS eram sempre as mais parciais, e falo de José Magalhães e de Jorge Coelho, sendo as suas opiniões não mais que uma caixa de ressonância do governo.

Sempre considerei Pacheco Pereira um político preparado, com honestidade intelectual, apesar de não concordar muitas vezes com ele. Mas de há uns tempos a esta parte, talvez desde a campanha para as eleições presidenciais, Pacheco Pereira, sempre que intervém num debate, seja sobre o Iraque, o terrorismo islâmico ou o anti-americanismo, seja sobre Sócrates e o governo socialista, tem sido de um sectarismo que toca as raias do incrível.

Quando fez a apreciação ácerca do programa Prós & Contras, sobre a lei das finanças locais, perguntei-me se teria visto o mesmo programa que ele, de tal forma a minha opinião era o oposto da dele!

Quanto às políticas do governo, tão depressa o governo está apenas a fingir que faz reformas e a empobrecer-nos a todos, como devia olhar para as manifestações e para as greves, como tinha muitas soluções alternativas, por exemplo, à reforma da segurança social.

Pacheco Pereira está a perder a capacidade de se fazer ouvir, o que é uma pena. Até Jorge Coelho começa a fazer figura de sensato!

Viver português

A somar a todas as excelentes notícias dos últimos dias, fiquei hoje a saber que a culpa do aumento da electricidade é minha, partilhada com os restantes consumidores, visto que não estávamos a pagar o suficiente. Sem que me tivesse dado conta, entrei em dívida para com a EDP, eu e os restantes caloteiros que se apelidam de consumidores!

Até posso compreender a crise, o aumento do preço do petróleo, a inflação, os congelamentos vários do nosso poder de compra, a chuva e o vento, as estradas esburacadas, as filas de trânsito, este viver português.

Mas há que ter o mínimo de respeito pelos pagadores/consumidores. O Sr. Secretário de Estado estava a praticar um pouquinho de humor?

A mim, ignorante confessa de assuntos económicos e totalmente incapaz de fazer fortuna, nem no euromilhões, porque me esqueço sempre de jogar, e é tanto dinheiro que até mete medo, sempre me escaparam as razões pelas quais o negócio da banca não paga impostos semelhantes aos das outras empresas.

Se ano após ano os lucros da banca aumentam, porque é que têm sido poupados à solidariedade orçamental? Qual a armadura invisível contra o ataque do fisco? Será que estas notícias são em sentido contrário, que finalmente a banca começa a pagar a sua partilha de esforço de consolidação do défice?

E agora, depois da guerra das SCUTS, afinal os nossos vizinhos do norte vão passar a pagá-las?

Explique, Sr. Engenheiro, explique, com desenhos, se possível, todos estes contorcionismos, como consegue virar a cabeça sem que entorte o nariz!

Consciências

Ainda relativamente à lei de despenalização do aborto, actual e futura, li algures que, nos hospitais públicos, os médicos têm o direito de serem objectores de consciência e de se recusarem a praticar o que eles consideram inaceitável. Parece-me bem.

Mas também me parece que os hospitais públicos sejam obrigados a terem serviços de ginecologia e obstetrícia com profissionais que assegurem o cumprimento da lei. Ou seja, os serviços públicos são obrigados a integrar nos seus quadros médicos que não sejam objectores de consciência relativamente à prática de aborto. Dentro dos limites da lei, obviamente.

Crise

Em Portugal tudo se adia até ao último minuto, até não ser já mais possível adiar mais.

Adiam-se as horas de estudo, adia-se o pagamento das contas, adia-se o começo das reuniões, adia-se o princípio e o fim das obras, adia-se a hora do despertar.

Por isso somos tão bons, nós, portugueses, na hora H. Fazemos das fraquezas forças, improvisamos, inventamos, imaginamos e concretizamos, com excelentes resultados, quantas vezes diferentes do que prevíamos. Obviamente apenas naquilo que se não pode adiar mais.

Com a crise é a mesma coisa. Desde há muitos anos que estamos em crise, que não saímos da crise, que a crise é cada vez maior, ai meu Deus que temos que poupar, que gastamos mais do que produzimos, que não temos chefias, que não temos organização, que agora é que é, que Bruxelas nos castiga, que já não há mais oportunidades, que isto é que vai ser um horror, que temos que apertar o cinto, agora é que vão ser elas!

Pois o dia chegou! Desde manhã que ouvimos na rádio e lemos nos jornais, que o Orçamento de Estado vai ser um horror, que vamos ter aumento de impostos, para os pensionistas e para os deficientes, que vamos pagar mais nos medicamentos, para além das taxas moderadoras e de utilização, que vai aumentar a electricidade, que vão diminuir os salários e as reformas, que há uma greve de professores sem precedentes, e que amanhã vai continuar a greve sem precedentes, que somos feios, gordos, pobres, ignorantes, endividados, preguiçosos e eu sei lá que mais.

Está, portanto, tudo a postos para tirarmos algum coelho do chapéu, termos alguma ideia luminosa de equilibrista. E que seja depressa, porque já estamos mesmo no último segundo possível…