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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Animalidade

Égua tu foras
e sem rédea
e sem trégua
te montara
por trás
em pêlo
pelo gozo que me dás.

Se vaca foras
então
tuas tetas ordenhara
e teu leite
meu deleite
por todo corpo espalhara
em louca avacalhação
de touro de cobrição.

Fosses porca de chiqueiro
e contigo chafurdava
na lama
como na cama
para guardar o teu cheiro
e nem sequer me lavava
para o ter o dia inteiro.
Varrasco me comportava
como poço de carinho
envolvendo-te em toucinho.

Talvez cabra te quisesse
para contigo saltar
e por ti toda esfregar
uma barbicha aparada
de bode que quer e pode.
Disputava-te à marrada
amarrada e bem vendada
e levavas uma esfrega
que nenhuma cabra-cega
ou menos cega imagina…
Questões de lana-caprina!

E se cadela nasceras
cada cio teu atendia
dia e noite
noite e dia
a teu sexo me prendia
e eu ladrava
e gania
sem me importar com a dor.
Podia até
por amor
tirar-te trela e coleira
mesmo que fosses rafeira
desde que fosses fiel…
Amava-te sem quartel!

Até gata te queria
com requebros nos miados.
subia por ti telhados
em noites de lua cheia
servindo-te
volta-e-meia
suculentos linguados
ou outros peixes que tais…
Amava-te nos beirais
pelas noites de janeiro
com requintes naturais
de felino cavalheiro.

Mas tu nasceste mulher
e uma mulher me gerou
homem como sou hoje
e um homem que te quer
num desejo natural
pelo mais belo animal
que Deus ao mundo deitou!

(poema de Pedro Neves; escultura de Auguste Rodin: femme accroupie)

Rascunho


No rascunho diário
em que pernas, olhos e pele
ensaiam a existência,
procurando a perfeição da voz,
a certeza no olhar,
o dedilhar dos receios
com subtileza de sombra,
amarroto as folhas amareladas
deste Setembro.
Sinto-me já crepitante e volátil
e o dia apenas amanheceu.


(Fotografia de Nadezda Koldysheva: Autumn shadows)

Pelas Ruas da amargura

Fernando Ruas e a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) deram, mais uma vez, uma triste imagem do poder autárquico, apostado em manter as regras de endividamento e má gestão, chegando à ameaça de incumprimento das obrigações públicas para que foi eleito.

A redução do défice é uma imposição da administração central e das autarquias e é um imperativo para tentar melhorar o estado da nossa economia. Talvez seja altura de auditar a gestão autárquica e perceber como são gastos os dinheiros dos contribuintes, que devem ser exactamente para as funções que a ANMP ameaçou cortar: educação, saúde, segurança e salubridade.

O espanto indizível de quem ouve as declarações de Fernando Ruas só é ultrapassado pela tentativa de marcha-atrás, protagonizada pelo mesmo Fernando Ruas quando, questionado na TSF sobre a ameaça de cortes de financiamento, deu o dito por não dito afirmando que manteria intactos todos os compromissos com todas as entidades, nomeadamente PSP, GNR, escolas e recolha de lixos.

Triste, triste, tristíssimo.

Prometida irresponsabilidade

Despedir 200.000 funcionários públicos, sem se saber de que sectores, melhorando os serviços públicos, reduzir o IRC para o mais baixo da Europa, liberalizar os despedimentos, privatizar a CP, a ANA, a TAP, a Administração do Porto de Lisboa.

Penso mesmo que os empenhados e dinâmicos empresários estão a ser modestos. Podiam privatizar as praias, os rios, as pontes, as rotundas, depois cobravam portagens. Só nas rotundas, o que não arrecadaria o empresário que exploraria as ditas! O Estado limitava-se a fiscalizar, em todas as rotundas, se era cumprido o código da estrada!

Não sei bem o que faziam a 200.000 desempregados, mais às suas famílias, para aí umas 400.000 almas, mas enfim, talvez decidissem emigrar, visto que aqui não havia trabalho para eles.

Já agora eu incluiria António Carrapatoso nos número dos liberalmente despedidos, após a maravilhosa liberalização da legislação laboral. Não era necessário fundamentar a coisa, mas podia alegar-se a sua enormíssima irresponsabilidade!

Fora de moda

A moda é um espartilho em todas as áreas do comportamento e do pensamento.

Estamos na moda com privatizações, estado gastador, estado paternalista, estado prestador, função reguladora (do estado), competitividade, mercado, distorção, actividade empresarial, alienar, sustentabilidade.

Tantas vezes são repetidas estas palavras e as ideias que lhes estão associadas que se chega a acreditar que outras palavras como solidariedade, comunidade, repartição da riqueza, melhoria da qualidade, serviço público, partilha, distribuição, são conceitos incompatíveis com os dias de hoje.

Eu estou definitivamente fora de moda!

Quebras contratuais


Está tudo muito entusiasmado com o movimento “Compromisso Portugal”. Uns entusiasmam-se a maravilhar-se, outros a denegrir aqueles dignos membros da sociedade civil, nomeadamente António Carrapatoso, que entende que o Estado é muito paternalista.

A TSF buliçosamente reporta o bulício de tantas ideias juntas e de tantos aprendizes de Carrapatoso. Entre eles, não sei se um dos intervenientes ou se um dos observadores atentos, do público anónimo, ao ser entrevistado em directo e ao vivo, pronunciou-se sobre a proposta de reforma da segurança social.

Perorou longa e excitadamente acerca da quebra sistemática do contrato que o Estado fez com os trabalhadores, ao alterar as regras unilateralmente sobre as fórmulas de cálculo das pensões, o que levará, inexoravelmente, à redução das mesmas.

Pensei então que, em vez de ser trabalhadora eu era o Estado, o mau, gastador, pesado, horrífico e inútil Estado.

Este tipo de segurança social é, de facto, um contrato celebrado entre o Estado e os cidadãos. Quando se implementou, há cerca 30 ou 40 anos, a taxa de natalidade era muito superior à de agora, tendo diminuído gradualmente, à medida que aumentava a esperança de vida das populações.

Ou seja, o contrato pressupunha que os cidadãos cumpriam os seus deveres de nascer, trabalhar, reproduzirem-se muito e morrerem 5 anos após o início da reforma, e o Estado cumpria o seu dever de os apoiar na doença, no desemprego e nos anos da reforma.


Será que o Estado pode alegar quebra das cláusulas contratuais, por parte dos cidadãos, pelo facto destes terem menos filhos e viverem mais anos sem trabalhar, usufruindo mais anos (o dobro ou o triplo) da reforma do que aquilo que tinha sido contratualizado?

A decisão do Triunvirato

Já está nomeado outro Procurador-Geral da República (PGR). Sobram casos por resolver, sobra a Casa Pia, sobra o segredo de justiça, sobra o “envelope 9”, sobra o apito dourado, sobra a inconstitucionalidade de Gomes Canotilho!

Ouvi na rádio rasgados elogios a Souto Moura. Provavelmente Souto Moura é tudo aquilo que disseram dele. Mas inequivocamente foi um péssimo PGR.

Novo triunvirato e pacto acordado com a escolha de Fernando José Matos Pinto Monteiro. A tarefa a que se propõe é hercúlea: restituir alguma credibilidade à justiça.

Modere-se, Sr. Ministro!

Pois é, começam a ensaiar-se medidas de aumento dos impostos, mesmo indirectos, para a sustentabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Só que não se percebe, mais uma vez, a estratégia, caso ela exista, deste ministro e deste governo.

Como o próprio nome indica, moderar significa conter, regular. O objectivo primário da existência de taxas moderadoras para urgências, consultas e exames complementares, era reduzir ao estritamente necessário as mesmas urgências, consultas e exames complementares. Não sei se resultou.

A criação de taxas moderadoras para os internamentos hospitalares e para as cirurgias de ambulatório não pode moderar nada porque os decisores não são os doentes e porque não me parece lícito pensar que se internam e operam doentes sem necessidade.

Qual é a ideia de Correia de Campos? Não seria mais aconselhável explicar o problema ao país e decidir o que fazer, sem estes subterfúgios infantis e disparatados?

Modere-se, Sr. Ministro!