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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Palavras


Olho para a infinita combinação de letras,
para o desmedido tesouro de palavras
e não encontro as suficientes para te amar.

Pacientemente vou coleccionando vogais,
retocando sílabas, refazendo vírgulas,
para esta longa carta de amor
que te ofereço, dia a dia.

(quadro de Justin Simoni: Words are Sweet Sounds for Objects Unreal)

Despachos sumptuosos

Não há dúvida que é refrescante ver um ministro que assume por escrito e assina em baixo aquilo que, à portuguesa, sempre se ouve dizer, sem que haja consequências.

Na verdade todos os funcionários assistem, sempre que há mudanças nas chefias, a uma remodelação dos gabinetes das novas direcções, que incluem mobiliário e decoração, assim como a renovação das frotas de automóveis, habitualmente substituindo topos de gama por topos de gama, ao mesmo tempo que se insiste na retórica da crise financeira, da reorganização de recursos, da necessidade de reduzir os desperdícios.

Mas como todos sabemos, nada disto se passa só a nível hospitalar, passa-se a nível de toda a administração pública, desde os ministérios até às mais pequenas repartições.

Portanto, mesmo aplaudindo o facto do ministro mostrar que não assobia para o lado, não percebo, tal como não percebeu Pinho Cardão, que se o despacho foi desencadeado pelas despesas sumptuosas da administração do hospital de Guimarães, não percebo, repito, porque é que a mesma administração não foi sumariamente demitida. Afinal o ministro só fez como o cão que não morde…

Ingerência

Para ajudar Israel acha-se no direito de prender ministros palestinianos, legitimados pelo voto popular. A democracia só serve quando o povo escolhe o que certos democratas querem…

A distância mais curta...

A pouco e pouco a propaganda e o bombardeamento de imagens, opiniões e comentários, bem intencionados ou não, a hiper racionalização e a procura de explicações e fundamentos para tudo, acaba por transformar coisas que, numa visão mais simplista mas, se calhar, mais autêntica, seriam aberrantes, em assuntos triviais, compreensíveis e até aceitáveis, de tal forma que passam a fazer parte dos dados da discussão.

É o que se passa com o conflito entre Israel e o Hezbollah. Na realidade o Líbano tem um exército libanês, mas que não tem qualquer poder de intervenção no sul, território dominado pelo Hezbollah, que a si próprio se apelida de exército de guerrilheiros, não disposto ao desarmamento. E no entanto estamos todos empenhadíssimos em assegurar um cessar-fogo entre Israel, um estado soberano, e o Hezbollah, um grupo de guerrilheiros que se sobrepõem ao exército do seu país, um pseudo país dentro doutro.

Bem sei que tudo é muito complexo, sendo esta uma abordagem demasiado ingénua. Mesmo assim não devíamos nunca esquecer-nos que a distância mais curta entre dois pontos continua a ser a linha recta.

(Entretanto Israel já violou o cessar-fogo e a força multinacional está muito difícil de reunir…)

Gunter Grass

Günter Grass confessou ter sido voluntário nas SS. Bem, de vez em quando encontramos alguém que definitivamente fez parte do 3º Reich, porque para os incautos, dá a sensação que aquilo foi tudo virtual!

Não me parece estranho que só agora o confesse. A coragem para o assumir é enorme. O que acho pouco edificante é o posicionamento que teve, em termos políticos, durante cerca de 50 anos. Talvez lhe tivesse mais respeito se, mesmo que em silêncio, compartilhasse com os seus compatriotas, e com a restante humanidade, a inexorável tendência para a maldade e para o abismo.

Mais uma vez, a relação entre a essência e a ética do artista, a dádiva à sociedade, e a qualidade e grandeza da sua arte, é questionável, ou mesmo inexistente.

A capacidade de criar beleza não é directamente proporcional à beleza da alma humana. É doloroso e incompreensível, mas é assim.

Manipulação


vários blogues se referiram à efeméride ontem comemorada: o centenário do nascimento de Marcello Caetano.

No documentário que passou na RTP1, de uma forma tosca e pirosa, traçou-se o panegírico de um homem que, apesar das suas com certeza muitas qualidades intelectuais, fica para a nossa história como o continuador de uma ditadura, como o indivíduo que cujas intenções não passaram disso mesmo, de intenções. De um político que não era ingénuo nem impoluto, que não soube ou não quis fazer a transição para a democracia, que manteve a censura e a lei do partido único, que teimosamente e em público defendia a guerra colonial, atacava os seus opositores apelidando-os de anti patriotas, que manipulava a informação.

De uma maneira despudorada tentou fazer-se passar a imagem de um homem desapegado do poder, idealista, um escravo da causa pública, quase subentendendo, por oposição, o regabofe de oportunistas e arrivistas que apareceram após o 25 de Abril.

Já não falo da entrevista à filha, Ana Maria Caetano, conduzida por Judite de Sousa que, tal como sucedeu com a entrevista à irmã de Álvaro Cunhal, foi acéfala.

As pessoas vivem de acordo com o carácter, consciência, personalidade, inteligência e segundo a época, o tempo, o espaço, a moda, as ideologias. Não se prestam favores, nem às suas memórias, nem às memórias colectivas dos povos, alisando arestas, ocultando factos ou apresentando uma realidade distorcida e mais ou menos açucarada. Foi vergonhoso.

Pelo contrário e entre o que li, destaco o artigo de Vasco Pulido Valente no Público que, apesar da acidez e da crueza que lhe são características, é muito bom.

Em branco


Esta noite branca
ao lado dos corpos nus
os amantes brancos
absorvem sôfregos o frio
que paira no tempo
que lentamente se afasta
escorregando
do amor em branco
que desesperadamente
se desenha e arrefece.


(Pintura de Nikolay Reznichenko: White Night)

Fim de dia


Está fresquinho, e que bem que sabe um intervalo na torreira de Agosto.

Depois de um jantar de conversa, remata-se com café e um pastel de Belém, morno, estaladiço, polvilhado com açúcar e canela.