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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Pensar é viver

Os livros de auto ajuda, como os comentadores dos discursos, os analistas políticos como Marcelo Rebelo de Sousa e outros, estão na moda e são o espelho da sociedade actual.

É muito mais fácil ler ou ouvir o que devemos fazer e pensar em determinadas circunstâncias, do que utilizar a nossa própria experiência, personalidade e massa cinzenta, tentando discernir o que é melhor para nós próprios, que não o é forçosamente para outros.

Tipificam-se atitudes e opiniões, emoções e respostas, massificam-se vidas e estruturam-se comportamentos. Desde a forma como nos devemos relacionar com os pais, os filhos, os maridos, como encaramos a violência urbana, as birras das crianças ou a incontinência urinária, tudo está explicado em livrinhos bem intencionados e bem publicitados. A padronização de muitos aspectos da vida tem adormecido a capacidade de pensar com a própria cabeça.

Talvez escreva um livro de auto ajuda subordinado ao lema: pensar é viver!

A propósito

A propósito do Dia da Mãe, e embora não me reveja em 100% do que diz, o artigo de Helena Matos “Dias assim” no “Público” de hoje, é brilhante.

O exagero, o politicamente correcto, o pensamento dogmático pseudo científico demonstram-se em toda a sua plenitude em temas como a maternidade e a paternidade. As regras, as necessidades, o comércio à volta das mães, das crianças, dos bebés, das roupas, dos carrinhos, dos automóveis espaçosos, das chupetas, da amamentação, da comida, da posição para dormir, do tabaco, do álcool, da comida saudável e das caminhadas, das fotografias das ecografias e dos filmes das ecografias, dos acompanhamentos dos pais às consultas, enfim, de todas as obrigações e proibições que rondam quem pensa ter filhos, transforma o que é natural numa empresa dificílima. Tudo serve para culpabilizar as mães, os pais e a sociedade em geral pela incapacidade em ter dado amor, coisas e filhos à nação.

Isto para já não falar da própria decisão em ter filhos. Se não acontece no mês programado para o efeito ou, pior ainda, nos 6 meses seguintes, acciona-se toda a parafernália da infertilidade, como posteriormente, se acciona outra parafernália para a hora marcada do nascimento.

Nem tudo se compra nos supermercados, nem tudo se programa à hora, minuto ou segundo, não se é criminoso por beber vinho ou comer doces durante a gravidez, ou por não ter uma loja de bebés dentro de casa, uma carrinha e uma casa de quatro assoalhadas. Não se é mau pai por se não ter acompanhado a mãe a todas as consultas de gravidez nem a todas as consultas do primeiro ano de vida dos rebentos. Era preferível que o pai tomasse conta, sozinho, de algumas consultas posteriores, conversas com professores na escola, ou compra de sapatos quando é preciso, mudança de fraldas, banhos e refeições, etc.

Como Helena Matos diz, os antigos dogmas são substituídos por novos dogmas. A maternidade e a paternidade, a decisão de ter muitos, poucos ou nenhuns filhos, está cada vez mais legislada, compartimentada e espartilhada, pertencendo cada vez menos aos próprios.

Claro que todas estas preocupações existem na sociedade da abundância, em que há cada vez mais carência de bom senso!

Faltas

Não percebo muito bem a lógica do aviso das faltas às aulas. Segundo me parece as faltas deverão ser sempre excepcionais. Se os professores adoecem, não podem saber com antecedência que vão estar doentes.

Se as faltas são devidas a congressos, cursos de formação ou visitas de estudo, não me passa pela cabeça que os professores, individualmente ou em grupo, não acautelem os tempos de aulas com outras actividades ou com outros professores.

Para que servem os grupos por disciplina, os Delegados de Grupo, ou o Conselho Directivo?

A febre legisladora e controladora do governo não resolve nem pode substituir a responsabilidade dos órgãos dirigentes de uma escola, hospital, empresa ou assembleia (da República também). Todos devem assumir as responsabilidades que lhes cabem e ser responsabilizados.

Não se podem criar polícias nem inspectores individuais para cada situação. O que se pode e, quanto a mim, se deve é pedir contas aos responsáveis pelas más prestações, ou pelas faltas dos seus colaboradores, para que eles próprios possam exigir e responsabilizar directamente os indivíduos.

Marca Portugal

Ontem andei todo o santo dia a pensar e hoje continuei. A TSF, como é sua obrigação matinal, acordou-me ontem com uma maravilhosa sondagem em que os portugueses estavam tristes e desiludidos com o seu país, concluindo que se Portugal fosse uma marca, estava condenada a desaparecer. Desafiava depois os portugueses optimistas (presumivelmente os que não tinham colaborado na sondagem) para, no fórum TSF, declamarem as razões para se gostar do país.

Não tive oportunidade para ouvir o Fórum, mas não deixei de me considerar optimista e tenho andado a pensar nas características que podem contribuir para ter orgulho no meu país.

Continuo a pensar mas já encontrei duas boas razões: somos muito imaginativos nas reportagens e nas manchetes informativas e temos um grande sentido de humor!

Amostra de Frida



Um dia de férias desgarrado do resto sabe bem, quebra o ritmo e aproveita-se ao segundo.

Assim sendo resolvi finalmente ir ver a exposição de Frida Kahlo. Saí de lá bastante desiludida, não com a Frida Kahlo mas com a exposição.

A exposição está dividida em 7 grupos: infância e juventude, 4 quadros (entro os quais “o autocarro” de 1929) e 3 desenhos; paixão por Diego Rivera, 2 quadros (“Hospital Henry Ford” de 1932 e “umas quantas facaditas” de 1935); casa azul, 10 quadros (“a minha ama e eu” de 1937, “a coluna partida” de 1944, “auto-retrato com macaco” de 1945); diário, 3 retratos; altares dos mortos; trajes de Tehuana; um documentário sobre a pintora, com testemunhos de sobrinhas, escritores e críticos de arte. Nos primeiros quatro grupos estão expostas fotografias de Frida Kahlo, feitas por inúmeras pessoas, entre as quais o pai e Diego Rivera.

A iluminação é muito fraca, os pequenos textos de introdução a cada parte da exposição e aos quadros, desenhos e pinturas lêem-se mal, porque a cor das paredes não faz contraste suficiente com a cor das letras. Há poucos quadros, poucos desenhos, pouco de tudo. Dá a sensação de que é apenas uma pequena amostra de uma verdadeira exposição, se calhar o pouco a que tivemos direito. Senti-me defraudada.

O documentário, pelo contrário, é interessante e esclarecedor. Dá-nos uma ideia de que o fenómeno Frida Kahlo é recente, que foi criado um comércio à volta da história revista, aumentada e retocada da pintora, carregando nas cores do sofrimento, da boémia com aventuras bissexuais, esquecendo-se o principal, a obra.

Não tenho conhecimentos de pintura ou de história de arte para discorrer sobre a técnica e / ou o valor da pintura de Frida Kahlo. Mas quem olha para os quadros sente uma força e uma imaginação prodigiosas. Naquela época deve ter sido inovador aquele tipo de imagética, de temas, de figuração da dor e da ansiedade, do corpo como altar.

Como apreciadora de pintura gosto das formas, das cores, dos mortos e do sangue, dos pássaros e do macaco, das camas, do sol e da lua chorosa. É uma pintura incómoda, atractiva e admirável.

Quanto à própria Frida era com certeza uma mulher extraordinária porque diferente, porque lutadora, romântica, amante e amadora da vida, da beleza, dela própria, da dor, dos homens e das mulheres, uma divulgadora orgulhosa da cultura do seu país.

(Frida Kahlo: a coluna partida – 1944)

Primeiro de Maio

Sou totalmente avessa aos aglomerados de causas, opiniões, expressões literárias, músicas na moda, tudo o que é a cultura do unânime.

É até preconceito não me apetecer ler os livros que toda a gente cita, ver os filmes que todos já viram, ir à praia quando luz o primeiro raio de sol, comprar sandálias tipo andas, pintar o cabelo de louro com madeixas vermelhas, usar as saias-hippies-pós-modernas-com-flores-e-túnicas deste verão.

Por isso hoje levantei-me cedo, apitei furiosamente ao carro do vizinho que se atravessava atrás do meu, li 2 jornais, tomei café 3 vezes consecutivas (o último já foi descafeinado) com 5 pessoas diferentes, enviei 3 e-mails, fartei-me de pecar na Internet e vou trabalhar durante a tarde.

Hoje estou bem, muito bem. Hoje sinto-me feliz.

(David Keen: New World)

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