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O desmoronamento do sistema democrático (tragédia em 4 actos)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 25.03.06

1º Acto
Conheço alguém que, após a reforma, decidiu pôr o seu tempo e a sua disponibilidade ao serviço do bem público, ou seja, decidiu intervir politicamente.
Para isso filiou-se num partido político.
Na altura das eleições para a concelhia, em que havia 3 candidatos, um deles angariou votos pagando as quotas a 10 indivíduos, no dia das eleições. Isto passou-se na secção à qual o meu conhecido pertence. Não sei se o candidato terá pago quotas noutras secções, e a quantos militantes.
Esse candidato ganhou as eleições. Portanto, quem tiver algum dinheiro, nem precisa de ser muito, compra por muito pouco um punhado de cidadãos, que são militantes de um determinado partido, que a troco de influências e/ou dinheiro, elegem um cacique. Imagine-se o que se passará nas distritais, para quem tiver muito dinheiro e/ou muita influência.
2º Acto
Apesar de, em França, haver um poder executivo que emanou do voto, em eleições livres e democráticas, o poder não tem capacidade de suster e controlar movimentos populares que se transformaram em arruaças e violência desenfreada, cedendo e vergando-se ao medo e à incapacidade de exercer o poder que lhe foi conferido pelos cidadãos.
Portanto as instituições democráticas, que são o cerne da democracia representativa (partidos políticos, eleições, assembleias, governos, presidentes) deixam de funcionar e são substituídas pela população ululante e violenta, que destrói e tenta negociar directamente com o poder executivo.
Não ponho em causa, como é óbvio, o direito à livre manifestação pacífica das ideias, dos anseios, das reivindicações dos cidadãos. A democracia não se esgota em eleições. Mas o que se está a passar em França está muito longe da capacidade da sociedade civil politizada (ou não) intervir nos intervalos das consultas eleitorais.
3º Acto
Cruzando o que se passou nas eleições para a concelhia do tal partido, em Portugal, com o que se passa nas ruas de França, chego à conclusão de que os representantes do povo na realidade não representam ninguém, com excepção dos seus próprios interesses, que pensam assegurar nesta lógica de caciquismo.
Sendo assim e extrapolando, as instituições democráticas não são mais do que um conjunto de indivíduos eleitos por alguns, para defesa de muito poucos, sem qualquer interesse no bem comum.
O que acaba por justificar que, como a população não se sente representada nem defendida pelos seus governantes, e de facto não o é, o poder seja exercido pela gritaria e pela violência dos grupos, legitimando o poder na rua.
4º Acto
A insegurança geral e a incapacidade de desfazer esta lógica, por parte de quem tem responsabilidades políticas, e por parte dos cidadãos que, cada vez mais, por desinteresse ou desânimo, se divorciam da intervenção cívica, pode levar a extremos perigosos.
Tudo isto, somado ao mal-estar de quem não vê grandes perspectivas de manutenção dos padrões de vida e de bem-estar social a que estamos habituados, pode ser o caldo de cultura para grandes descontrolos sociais e para aprendizes de futuros ditadores, que poderão aparecer como o garante da ordem e da paz, e como os verdadeiros intérpretes da vontade popular.
Já vimos tudo isso acontecer, aquando da ascensão de Hitler e de Stalin ao poder. Será que não aprendemos?

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publicado às 15:44

Fim-de-semana

por Sofia Loureiro dos Santos, em 25.03.06
O bom dos fins-de-semana é que não são programáveis.

Mesmo que tenhamos pensado em ocupar os dias com afazeres culturais, sociais ou apenas e só domésticos, o que têm de absolutamente sublime é o podermos estar totalmente desocupados.

Só assim os rituais do lazer se transformam em pequenos prazeres indispensáveis à sanidade de uma semana trabalhosa e, por vezes, acinzentada.

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publicado às 11:50

O lugar das coisas

por Sofia Loureiro dos Santos, em 24.03.06

Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.

Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.

Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.

Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.

Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.

Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro deles e as possamos ver nos seus lugares.

(poema: Nuno Júdice; pintura: Scott - simple things)

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publicado às 23:47

O misterioso caso da alegada fuga (ao fisco)

por Sofia Loureiro dos Santos, em 23.03.06
Adensa-se a intriga.

Será que António Carrapatoso pagou e não devia ter pago, ou não pagou e devia ter pago? Será que é ele que deve dinheiro ao estado ou o estado que lhe deve dinheiro a ele? Será que foi ele que interpretou bem a lei, e mesmo assim pagou, ou que foi o estado que não a interpretou mal, e mesmo assim não recebeu?

Esperam-se os novos desenvolvimentos desta novela (de mau gosto e perigosa, não sabemos é bem para quem) nos próximos dias (ou até cair tudo no abençoado esquecimento).

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publicado às 21:18

Irritação bloguística

por Sofia Loureiro dos Santos, em 22.03.06
Não sei o que se passa mas não consigo fazer "upload" das imagens nos "posts". Alguém sabe o que se passa? Sou só eu?

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publicado às 22:27

"Consolidar agora para um futuro melhor"

por Sofia Loureiro dos Santos, em 22.03.06
O nosso primeiro descobriu um método excelente de propagandear a sua política – pôr os funcionários das finanças a fazer a mini-maratona com camisolas oferecidas com o lema: “consolidar agora para um futuro melhor”. Esperemos que os funcionários públicos colaborem, a bem da nação! Mas afinal acabou por desistir.

Não sei porquê. A ideia até se podia estender a outros ministérios. Ele era professores, médicos, enfermeiros, técnicos administrativos, eu sei lá, todos esses milhares de funcionários a mostrarem entusiasmo e alegria por irem parar ao quadro de excedentes. Até vão ter mais tempo para praticar desporto!

Hilariante.

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publicado às 22:05

Notícias

por Sofia Loureiro dos Santos, em 22.03.06
Cada vez mais desconfio das grandes frases noticiosas gritadas pela TSF, logo de manhã.

Hoje a notícia era dada pelo DN, segundo o qual António Carrapatoso se tinha livrado de pagar ao fisco setecentos e tal mil euros porque as finanças tinham deixado caducar o prazo de exigência do pagamento.

Li cautelosamente as duas notícias, a primeira em que se conta que houve uma auditoria à declaração do IRS de 2000 apresentada por António Carrapatoso, que concluiu, QUATRO ANOS depois, que este devia um monte de dinheiro ao fisco. Entretanto, embora constasse informaticamente que a notificação para a liquidação da dívida tinha seguido em 30 DE DEZEMBRO (a um dia do final do prazo), a verdade é que só foi enviada APÓS o fim do prazo, ou seja, caducou a pretensão do estado.

A segunda notícia é a justificação de António Carrapatoso, por interposta pessoa, de que não devia nada ao fisco, dando a entender que a sua declaração estava correcta e que a interpretação das finanças estava errada.

Várias observações se me deparam:

1. Porque é que só agora sai esta notícia no jornal, quando as informações, processos, etc, datam do fim de 2004 e do meio de 2005?

2. Como é possível tanta negligência da parte das repartições de finanças? Parece que se instauraram processos que, provavelmente, não chegarão a lado nenhum.

3. Independentemente de António Carrapatoso ter agido dentro da lei, fica a desconfortável sensação de que foram usados truques para não pagar impostos, o que fica muito mal a quem defende acaloradamente a reforma da administração e a redução das regalias dos funcionários públicos, pois o estado não pode gastar tanto. Pois é, mas se talvez recebesse o que devia de quem devia…

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publicado às 21:55

Todo o tempo é de poesia

por Sofia Loureiro dos Santos, em 21.03.06

Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas qu'a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

(poema de António Gedeão; pintura de Lees: coffeemaker)

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publicado às 21:11

Partículas

por Sofia Loureiro dos Santos, em 20.03.06
Apaguei véus e suspiros,
gotas e pedras. Só a raiz permanece,
essencial, mínima, germinal.

Da sombra a asa oblíqua,
o reflexo da luz invertida,
cósmica, fugidia.

Do joelho do tempo
o arco amanheceu.

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publicado às 22:24

Pequenas infâmias

por Sofia Loureiro dos Santos, em 20.03.06
Ao fim de 3 anos, Durão Barroso reconheceu o que já todos tinham reconhecido, que o pretexto da invasão do Iraque foi apenas um estratagema mentiroso. Durão Barroso, o anfitrião da cimeira dos Açores. Durão Barroso, que prometeu salvar o país da crise, mas que desistiu a meio. Enfim.

Fátima Felgueiras continua a gozar com a justiça, e a justiça deixa-se gozar. Enfim.

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publicado às 21:31



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