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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

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Teimosamente, insisto em ver alguns programas que, por puro preconceito, tenho como interessantes, porque as pessoas que os integram são, à partida, pessoas interessantes.

Isto a propósito de “O Eixo do Mal”, na SIC notícias. Vejo-o todos os sábados e irrito-me sempre, de tal maneira a frustração é grande.

Com um ar “blasé” e sofisticado, de intelectuais modernos e espirituosos, aqueles personagens permitem-se dizer barbaridades com as certezas de um ego bem nutrido, comentários supostamente “giros” e irreverentes, gesticulando muito e dizendo piadas que só têm graça entre eles.

São estes os nossos pretensos intelectuais, de um pedantismo bacoco, que olham as pobres velhas desdentadas, despenteadas, gaiteiras, como se de peças de artesanato se tratassem, com paternalismo e distância, dando-se ao luxo de debitarem tolices que nós, estupidamente, estamos predispostos a ouvir.

Desisti. Vou superar o preconceito pseudo-intelectual.

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Tu e Eu

Tu enches os meus pensamentos
Dia após dia;
Saúdo-te na solidão
Fora do mundo;
Tu tomaste posse
Da minha vida e da minha morte.

Como o sol ao nascer
A minha alma contempla-te
Com um único olhar.
És como o alto céu,
Eu sou como o mar infinito
Com a lua cheia no meio;
Estás sempre em paz,
Eu estou sempre inquieto,
Embora no horizonte distante
Nos encontremos sempre.


(poema de Rabindranath Tagore; pintura de S.K.Sirajuddin)

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A constituição na gaveta?
Se há palavra rara no discurso cavaquista é a Constituição. E no entanto, o papel do Presidente da República, que começa justamente por jurar a Constituição, é o de a cumprir e fazer cumprir e de promover e dinamizar os valores constitucionais (entre os quais o desenvolvimento é apenas um entre muitos). Sabendo-se que o candidato não morre de amores pela Lei fundamental e que entre os seus apoiantes estão os defensores de "outra constituição", será excessivo temer que uma eventual presidência cavaquista possa significar meter a Constituição "na gaveta"? – Vital Moreira no Super Mário


Não percebo porque é que os candidatos a presidente e seus apoiantes afirmam veementemente que não precisam de mais poderes, e que cumprirão escrupulosamente a Constituição. Nem poderia ser de outra forma, pois essa é uma das suas principais funções (cumprir e fazer cumprir a Constituição).

No entanto, a Constituição e a sua revisão não são, penso eu, temas tabus. Se, de facto, existe na sociedade o sentimento de que é necessário discutir os poderes presidenciais, essa discussão deveria ser levantada agora, e os candidatos deveriam explicitar quais os poderes a mais (ou a menos) que reivindicam. Não para que o presidente eleito se sinta legitimado a exercê-los, mas para que motive os partidos com assento parlamentar a esclarecerem os eleitores sobre as suas posições e, eventualmente, numa próxima revisão, modificarem a constituição.

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É muito fácil denegrir a imagem seja de quem for. Os portugueses são exímios em denegrirem a sua própria imagem. Lamentamo-nos e queixamo-nos sempre de tudo e de todos, especialmente do Estado, aquela entidade ou aquele ente, a quem culpamos de tudo. No entanto, somos os primeiros a exigir do estado o que ele não pode nem deve dar, e os primeiros a ludibriar o estado, sempre que pudermos.

Penso que nos esquecemos que o estado deveria assegurar alguns serviços aos cidadãos (e aí há divergência de opiniões relativamente a que serviços). Mas a filosofia do serviço público deveria ser servir os cidadãos, não os funcionários do estado.

A organização dos serviços públicos, nomeadamente na saúde, na educação, na justiça e na segurança, deve ser pensada e implementada, reorganizando-os geograficamente, em termos de recursos humanos, na rentabilização dos espaços físicos, etc, na medida em que sejam melhores e mais eficazes. O estado gastaria menos e melhor se premiasse quem trabalha bem, a tempo inteiro e em dedicação exclusiva, se definisse objectivos a cumprir, se responsabilizasse os responsáveis, se remunerasse condignamente, sem subsídios, horas extraordinárias e outros subterfúgios.

Para o serviço público deveriam ser recrutados os melhores. E nas várias carreiras envolvidas, deveria ser considerado um privilégio e uma promoção ser contratado pelo Estado.

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Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento…

(poesia de Alberto Caeiro; pintura de Chaim Tamir)



Os alinhamentos editoriais são muito semelhantes, nas rádios, televisões e jornais. Todos chamam os mesmos assuntos às primeiras páginas, às notícias de abertura, com tons alarmistas e espectaculares, em letras gordas e espectrais, em vozes estridentes e tonitruantes.

Hoje acordei ao som do estudo divulgado pelo Expresso sobre a falta de equipas de detecção e acompanhamento de crianças abusadas e maltratadas, do boletim clínico de Ariel Sharon, das perguntas a Alberto João Jardim sobre o Sr. Silva e da desgraça profetizada por Mário Soares, no caso de Cavaco Silva ser eleito presidente.

Por outro lado, repentinamente descobrem-se ou redescobrem-se personagens que passam a comentar tudo, a dizer qualquer coisa sobre qualquer assunto, a aparecer em fotografias etc. Exemplos do que digo são o Prof. Sobrinho Simões e Maria Filomena Mónica.

Começo por afirmar que respeito e considero ambos. São pessoas que nos habituaram a uma postura de trabalho, rigor, inteligência e qualidade. Mas agora e sob qualquer pretexto, a sua opinião escrita e falada é pedida a propósito de tudo e de nada. Nesta sociedade de mediatização enorme e feérica, segue-se a destruição implacável dos ídolos de um dia, nem que seja pelo esquecimento, tão súbito quanto o prévio reconhecimento. Tanto se banalizam os assuntos e as pessoas, que se usam e deitam fora com o maior à-vontade.

As últimas sondagens presidenciais demonstram apenas uma coisa: que Cavaco Silva tem IMENSAS probabilidades de vencer à primeira volta. Apesar da “Grândola vila morena”, da bajulação a Alberto João Jardim, personagem inqualificável e bem demonstrativa do nível de caciquismo da nossa classe política. Ou do abraço de Mário Soares a Valentim Loureiro (outro personagem inqualificável e etc.).

Enfim, gostaria que restasse, à esquerda, a dignidade de conseguir uma segunda volta, com Manuel Alegre.

Quem dera que chovesse!


Les enquêtes du Comissaire Maigret

(Jean Richard; Comissaire Maigret)

Este é o Comissaire Maigret de Simenon, grande, pesado, sempre a fumar o seu cachimbo, na Brasserie Dauphine, a beber uma demi, ou no seu escritório, au Quais des Orfèvres, com Janvier, Lucas, Torrence ou le petit Lapointe, nos passeios au bord du Seine, na sua casa du boulevard Richard Lenoir, com Madame Maigret, que abre a porta enquanto ele ainda sobe as escadas, excepto no dia em que ficou presa num jardim, a tomar conta de um menino (L'amie de Madame Maigret).
A preto e branco, com acordeão e passo de dança, sem acompanhamento musical de fundo, personagens verdadeiramente humanas, vulgares, em que se ouvem os ruídos das canalizações quando se abrem torneiras, em que as velhas fofoqueiras são espantosas, é esse Maigret, interpretado por Jean Richard, que eu vou saborear: L'ombre chinoise.

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Começou a campanha presidencial. Antes era só pré-campanha (???).
Mário Soares qeixa-se da descriminação A QUE ELE ESTÁ SUJEITO (!!!) na comunicação social, mais precisamente, na SIC. É extraordinário, não que não haja descriminação, porque a há e bastante desavergonhada, mas Mário Soares é dos que mais beneficia da dita descriminação.
Os media decidiram, desde o início desta pré-eleição, que o interessante era um combate Soares-Cavaco e tudo têm feito, escolhendo as notícias, dando ênfase a alguns factos, escolhendo cirurgicamente algumas frases, que depois gritam de meia em meia hora, para que seja esse o desfecho da primeira volta.
O que não sei é se os eleitores vão estar de acordo. Suspeito que Mário Soares suspeita que não. Por isso este choro de menino mimado, já não gostam mais de mimmmm.............

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(pintura de Bobak Etminani)

Ligeiramente atrasada neste começo de ano, devido a (até agora) insolúveis problemas informáticos.
Como de costume, multiplicam-se as retrospectivas (de 2005) e as resoluções (para 2006).
Temos grandes problemas para resolver, mas o que gostaríamos mesmo é que alguém os resolvesse por nós! E trabalhar? Que grande maçada, que enorme desperdício de energia! Enquanto nos queixamos vamos deixando passar tempo, oportunidades, planos tecnológicos, grandes eventos.
Resolução (porque não?) par este (e o próximo) ano - trabalhar mais e melhor, exigir mais e melhor, viver mais e melhor.

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