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"Que a voz não te esmoreça/vamos lutar"

por Sofia Loureiro dos Santos, em 23.02.07
Foi em Cabo-Verde, em 1973 que, pela primeira vez, ouvi Zeca Afonso. Não fazia ideia de quem era, o que representava, o que era a política ou qual era o regime em que vivíamos. Não sabia o que era a censura.

Dos problemas de que falavam poucos e das dores de muitos, só me apercebia a 10 de Junho, dia de Portugal, quando o Presidente Américo Tomás condecorava garotos, viúvas, velhos pais e velhas mães, rapazes e homens estropiados, alguns com as mangas dos blusões e as pernas das calças vazias, outros sem olhos, outros conduzidos em cadeiras de rodas, com aquela voz monocórdica lembrando aos portugueses que eles tudo tinham dado pela pátria. Eram momentos de silêncio arrepiante, em que os olhos da minha mãe se marejavam de lágrimas.

Outras vezes em que a palavra pátria nos estremecia era por alturas do Natal, no desfile de rapazes que enviavam, pela televisão, aos seus "entes queridos, pai, mãe, minha adorada mulher e minha filha, um Feliz Natal e um ano cheio de prosperidades. Adeus, até ao meu regresso". Entes queridos que, provavelmente, nunca ouviram esses postais, enredados nas suas vidas feitas de ausências e suspiros, pela inevitabilidade do tributo a prestar à mãe pátria.

Mas em Cabo-Verde, local que o meu pai nos tinha mostrado, numa tarde de Verão, abrindo o Atlas e apontando as ilhas no meio do Atlântico: “é para aqui que vamos, por 2 anos”, totalmente desconhecido, em que aterrámos virgens de mornas e coladeiras, de pão de custarda e de cachupa, bebendo água de um dessalinizador, regalámo-nos de vida boa e de liberdade, adolescentes que éramos entre os 10 e os 15 anos.

A pracinha do Mindelo, a Baía das Gatas, o Monte Cara, os pátios das casas, os terrenos envolventes, as noites cálidas em que os grupos se juntavam a conversar e a participar em sessões de espiritismo, que acabavam sempre à gargalhada, a vida ao ar livre, o crioulo, o liceu, os colegas de várias cores, as recepções nas varandas das casas, as modistas, a má língua, das capitoas, majoras, comandantas e almirantas, o professor de canto coral, as aberturas solenes dos anos lectivos, tudo era uma descoberta, tudo era bom e eterno, mesmo sabendo que estávamos a prazo.

Não havia televisão, mas não fazia falta. Tínhamos as rádio-novelas e os gira-discos, um móvel de pés cónicos, com tampa superior, onde se colocavam os discos que os Alferes milicianos ou as suas esposas traziam da metrópole.

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou

E foi este o encanto que nunca se quebrou. Ainda hoje, depois de tantos anos, ainda ouço, como se ainda estivesse sentada no chão fresco de tijoleira, com o cão a tentar acomodar-se debaixo de uma mesa:

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul

Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar

Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar

Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu

Era o canto de Maio e da esperança. Estávamos todos na Primavera. Após estas estações invernosas apetece cantar com o Zeca Afonso: “Que a voz não te esmoreça/Vamos lutar”. Sempre.

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publicado às 19:09


7 comentários

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De A.Teixeira a 25.02.2007 às 12:15

ejqqbqNão me compete pronunciar sobre os outros aspectos dos comentários de Lino, mas faço-lhe notar o paradoxo de invocar a televisão espanhola (TVE), que estava sob um apertado controlo franquista, como elemento de “alvorada” em relação à nossa “longa noite” fascista…
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De Sofia Loureiro dos Santos a 24.02.2007 às 22:16

É verdade, tive uma infância menos infeliz que muitos. Era ainda miúda, em 25/Abril. Lembro-me vagamente de algumas conversas que se diziam em voz mrmurada, de algumas colegas que falavam da PIDE, dizendo que eram homens muito maus, e apercebi-me muito bem da realidade da guerra colonial. Duma forma ou de outra, há marcas em toda a gente.
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De lino a 24.02.2007 às 19:52

Acho que tiveste uma adolescência menos infeliz que muitos, Sofia. Pelo que escreves, julgo que o teu pai foi militar profissional, não sei se será mesmo o general que tem o mesmo apelido que tu. Às vezes, o desconhecimento poupa-nos agruras. Eu ainda me recordo das eleições de 1958, em que diziam às pessoas que tinham de votar no Américo Tomás, até porque ele era "de Deus" (Américo de Deus Rodrigues Tomás) e o Humberto Delgado comia criancinhas. Era uma aldeia de província, a 5 Km da sede do concelho onde tinha nascido o Norton de Matos e havia lá alguns do "reviralho" que se lembravam da campanha de 1948, ainda eu não tinha nascido. Aos 11 anos passei a ter acesso à televisão espanhola e a jornais estrangeiros e, aí, comecei a perceber a longa noite em que vivíamos.
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De Anónimo a 24.02.2007 às 13:45

Bonitas palavras. Saborosa recordação...
LS
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De impaciente a 24.02.2007 às 01:34

Deve ter sido bom conhecer Zeca Afonso nessas condições!

Tenho uma estória, passada há 36 anos e com o Zeca como “responsável”.

Fomos chamados à ordem, a mãe e eu, porque no infantário, quando a educadora perguntou se alguém sabia uma canção, o Bruno, do alto dos seus três anos, cantou: “Eles comem tudo/eles comem tudo/eles comem tudo e não deixam nada...”.

“- Tenham cuidado!” avisou a senhora.

Continuamos a não ter... e gostamos!
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De J.F a 23.02.2007 às 22:25

Bonito.... Parabéns
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De Cristina Loureiro dos Santos a 23.02.2007 às 20:26

Ah Sofia, que bem me fez ler o teu artigo e recordar tudo isso... E eu acrescentaria, como disse Zeca um dia, que somos filhos da madrugada também.

Hoje é dia de lembrar Zeca Afonso, sim. E a melhor maneira é ouvirmos as suas canções, continuam lindas! Eu sou como tu: ainda me emociono com as Cantigas do Maio e com as outras canções dele... mas também com tudo o que, além da música, da composição, da voz, ele representou na nossa vida.

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