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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Soltam-se os cães

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Há coisas que, por muito que racionalmente saiba que são assim, sempre me surpreendem.

Fernando Medina, após as notícias de que António Costa se teria irritado com os técnicos e com a ministra da Saúde, não sei se por iniciativa própria ou se por estratégia concertada, resolveu abrir fogo.

Instalada a ideia de que a pandemia está a correr mal em Lisboa, é preciso arranjar responsáveis por este facto (alternativo). Já ninguém se lembra, e também não interessa a ninguém lembrar, que há escassas semanas as mesmas autoridades, as mesmas chefias e os mesmos exércitos eram os melhores do mundo.

Em primeiro lugar, após a decisão de reduzir as medidas de confinamento e há já várias semanas, temos uma evolução de novos casos à volta de 1% , uma letalidade a reduzir-se paulatinamente (à volta de 4%), o número de internamentos e de camas de UCI ocupadas também controladas. Até hoje, e felizmente, temos conseguido controlar a pandemia apesar da pobreza, das desigualdades gritantes, nomeadamente na região da Grande Lisboa, da imensidade de imigrantes em situações precárias, dos bairros sociais, dos lares clandestinos, dos transportes apinhados, do escasso número e do envelhecimento dos profissionais de saúde, da obsolescência dos sistemas informáticos, da inadequação dos equipamentos, do cansaço, da necessidade de retomar a economia e a sanidade mental.

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Evolução dos novos casos por semana (DGS)

 

Estes problemas já existiam antes da pandemia e não desapareceram nestes últimos meses, altura em que éramos o exemplo mundial no combate à COVID-19. Por isso as palavras de Fernando Medina são ainda mais obscenas. Já agora, o que fez ele, como responsável autárquico, para tentar resolver o problema do distanciamento físico nos transportes públicos? Será que não podia, por exemplo, implementar o desfasamento de horários para mitigar as horas de ponta? Aumentar o número de autocarros alternativos? Ou mesmo usar uma varinha mágica e acabar em 2 meses o que não conseguiu em 5 anos?

É uma pena que o SARS-Cov-2 não se comporte como António Costa gostaria. Nós todos preferiríamos que ele tivesse desaparecido, que o conhecimento sobre máscaras, desinfecções, confinamentos e desconfinamentos, terapêuticas, etc, fosse maior e mais certo.

A evidência científica perde terreno nestes tempos de chumbo. Não é só Trump nem Bolsonaro. O pensamento mágico substitui a racionalidade. E a forma como os responsáveis políticos manipulam os factos e a opinião pública para os seus proveitos é tão asquerosa quanto velha.

A necessidade de dizer coisas

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Realmente, é claro que a DGS não tem estado à altura!. Nem aqui nem na Alemanha, nem na China, nem na Nova Zelândia!

Não percebo a quem interessa este arrazoado diário. Estamos numa pandemia, será que já todos se esqueceram?

Se o disparate pagasse imposto, havia sempre excedentes governamentais. Já agora, Sr. Primeiro-ministro, nos tempos que correm ainda não sabe que os antibióticos não servem para tratar infecções virais?

E se voltássemos à sanidade mental?

Do medo que paralisa

Depois de se ter repetido à exaustão, desde o início da pandemia, que haveria tempos muito difíceis, que nada seria como dantes, que tínhamos que estar preparados para a profunda recessão, etc., multiplicam-se agora as notícias dos problemas da baixa do turismo, do vazio dos restaurantes e das lojas de comércio, da crise em todas as áreas económicas.

Por muito que as evidências existam e se espraiem diante dos nossos olhos, nunca acreditamos realmente naquilo que nos é muitíssimo desagradável, que nos assusta, que nos coloca em risco, tal como Jonathan Safran Foer diz, a propósito da crise climática.

Vamos ter, de facto, muitos meses pela frente cheios de complicações, pobreza, desemprego, falências e aprofundamento das desigualdades. Em vez de estarmos todos a pedir impossíveis depois de termos todos jurado mudar, passando a amar os outros, a abraçar a solidariedade e a refazer as nossas prioridades, clamamos pela vida que tínhamos e que conhecíamos, esquecendo todas as músicas à janela, os aplausos e os heróis.

Convém que sejamos realistas e que usemos a nossa cabeça e a nossa imaginação, mas sobretudo que exerçamos as nossas obrigações para com os outros, exercitemos o nosso compromisso para com a sociedade, para que façamos mais do que exigimos. E que deixemos de julgar os nossos concidadãos a que nos apressamos a apontar as responsabilidades pela falta de distanciamento, de desinfecção, da não observação de etiquetas, porque no fundo foram eles que nos permitiram as semanas filosóficas em que publicámos fotos e poemas em louvor dos novos amanhãs.

Deixemo-nos de criancices e hipocrisias. Trabalhemos, desconfinemos responsavelmente, olhemos criticamente para as notícias que nos amedrontam, tenhamos a noção de que a vida e o mundo são muito mais que os nossos receios.

Construções

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Women's Canteen at Phoenix Works

Flora Lion

 

Se me derem paus farei o tronco da minha casa

se me derem pedras apoiarei a parede com janelas

se me derem água regarei de fontes o meu jardim

se me derem lume acenderei estrelas na minha noite.

 

Se me tirarem os paus as pedras a água o lume

irei de noite a uma fonte e juntarei algas areia mar e sol

para refazer as manhãs com que construo a minha vida.

 

São João

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Oh meu rico São João

Que já estou tão empenada

O corona que se vá

Vou ficar desconfinada

 

Vou ficar desconfinada

À procura do destino

Oh meu rico São João

A ver se não desatino

 

A ver se não desatino

Neste baile sem ter par

Oh meu rico São João

O que quero é cantar

 

O que quero é cantar

Que a vida é pra se viver

Oh meu rico São João

De medo não vou morrer

 

COVID-19: desconfinamento e gestão dos riscos

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Os meios de comunicação, as redes sociais e os inúmeros comentadores, virologistas e epidemiologistas que pululam pelo espaço mediático, já decidiram que estamos muito mal, que o governo, a ministra da Saúde, a DGS e o Presidente, para além dos jovens, dos velhos e dos de meia-idade, estão a portar-se terrivelmente e a promover surtos de COVID-19, tanto que já há países na Europa que nos baniram como bons companheiros para o turismo dos seus concidadãos.

A política é feita de percepções e eu confesso que não percebo a quem interessa continuar a espalhar a irracionalidade do medo. Os países da Europa, que propagandeiam a solidariedade e escondem as suas estatísticas para se promoverem a eles próprios, não surpreendem.

Mas o alarmismo social constante, diário, com a demonstração de hecatombes e pedidos de mais confinamento, cercas sanitárias, multas, etc., parecem-me exageradas e sem sustentação.

Nada disto significa que não esteja preocupada. Só se fosse tola ou irresponsável. Mas não percebo tanto alarido. Será que se esperava que com o desconfinamento o vírus desaparecia?

Apesar de não ter sido (e não ser) adepta de medidas draconianas de confinamento, reconheço que tiveram uma enorme vantagem – achatar ou aplanar a curva em Portugal. Mas aplanar a curva não significa acabar com a pandemia.

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Número de casos confirmados por dia e percentagem da evolução de novos casos (dados da DGS - 21/06/2020)

 

Aquilo que se conseguiu e muito bem, foi evitar a infecção simultânea de muitas pessoas, inundando os serviços de saúde e impossibilitando o tratamento daqueles que precisavam de internamento, nomeadamente nas unidades de cuidados intensivos (UCIs).

Ou seja, o contágio continua mas o número de doentes ao mesmo tempo foi controlado, provavelmente uma das maiores razões para a manutenção de uma taxa de letalidade relativamente baixa, comparando com outros países que não conseguiram suster a avalanche (Itália, Espanha, Reino Unido, por exemplo).

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Taxa de letalidade em Portugal (dados da DGS - 21/06/2020)

 

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Taxa de letalidade comparada com alguns países europeus (dados de 21/06/2020)

 

Logo que se permitiu a reabertura das actividades económicas, escolas e algumas actividades de lazer, por muito cuidado que haja – e é preciso que continue a haver e que se seja rigoroso nas medidas de prevenção – é impossível impedir que haja novas infecções. Isso só se resolverá ou com a vacina ou com a imunidade de grupo.

A percentagem de crescimento de novos casos tem-se mantido à volta de 1%, com os internamentos nas enfermarias e nas UCIs controladas, também mais ou menos estáveis, embora a descer ligeiramente (se olharmos para as variações semanais e não diárias).

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Número de casos por dia e evolução dos internamentos (enfermarias gerais e UCIs - dados da DGS - 21/06/2020)

 

Na realidade Portugal mantém um número de infectados por milhão habitantes inferior a muitos países que nos querem barrar a entrada, e uma letalidade à volta dos 4%, também inferior a muitos desses países.

É importante perceber que as comparações directas são difíceis, pois os dados não são apresentados de uma forma homogénea e, pior, nem sempre podemos acreditar na fiabilidade dos mesmos. Por exemplo – testes significam testes diagnóstico ou todo o tipo de testes? E contam-se todos os que se fazem ou por pessoa? E como são contados os óbitos?

Por isso em vez de arrepelarmos agora os cabelos, flagelando-nos e aos responsáveis pela gestão da epidemia, como antes nos congratulávamos pelo bom exemplo, olhemos com serenidade a situação e tentemos ser racionais.

Cumprir todas as medidas preconizadas pela DGS e pela OMS – concordemos ou não, é nas instituições que nos devemos apoiar. O vírus é desconhecido e há muitíssimas coisas que só serão claras daqui a uns anos, nomeadamente a avaliação das estratégias usadas – confinamentos mais ou menos restritivos, usos de máscaras (vários tipos), terapêuticas, etc. Por isso temos que ter a humildade de reconhecer a nossa ignorância e nos irmos adaptando às evidências que vão surgindo.

Combater os mitos, as fake-news, os alarmismos e, sobretudo, os estados bipolares da sociedade, que tanto aplaude entusiasticamente – somos os maiores – como se denigre estupidamente – somos os piores.

É forçoso que regressemos o mais rapidamente à vida, usando o conhecimento já existente e as cautelas inerentes, mas aceitando que não há risco zero. É imperioso que recomecemos a tratar as outras patologias que não se confinaram à espera que o SARS-Cov-2 passasse. É indispensável que mantenhamos as rotinas de vacinação porque há já doenças que se podem evitar com vacinas – aproveitemos para nos livrarmos das crenças reactivadas que têm levado a um recrudescimento de infecções que também são perigosas e que matam, essas totalmente evitáveis.

E preparemo-nos para outras pandemias. Esta não é a primeira nem será a última.

O jornalismo a que temos direito (2)

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Não sei se é por ignorância: só há UMA Ordem dos Médicos, que tem órgãos representativos regionais - a Secção Regional do Norte, a Secção Regional do Centro e a Secção Regional do Sul, cada uma com o seu Presidente, ou por não saber expressar-se por escrito. Para a jornalista Rita Rato Nunes o Presidente da Ordem dos Médicos do Sul (Alexandre Valentim Lourenço) fez declarações retumbantes, pelo que é preciso dar-lhes o devido realce, mesmo dando-lhe uma função inexistente.

Mas o mais cómico, ou dramático, é que esta asneira foi replicada por variados meios de comunicação que, de forma acéfala e sem qualquer juízo crítico, propagam disparates com o maior desplante. Mas incompetentes são os ministros novatos e titubeantes.

O jornalismo a que temos direito (1)

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Vale a pena ler esta notícia, escrita por João Pedro Henriques, na sua qualidade de jornalista e não na de opinador.

Começa logo pelo título: A entrada de Leão: retórica hesitante mas os truques de sempre.

Portanto o novo ministro das Finanças está a ser avaliado pelo jornalista – esteve hesitante. Quanto aos truques de sempre já todos sabemos que os políticos são uns aldrabões, e pretendem enganar-nos com truques, mas ainda por cima são pouco espertos, porque recorrem aos de sempre. E o Sr. Jornalista, já rodado nestas coisas de ministros e truques, fareja-os à distância.

Depois continua a notícia - ele é novato e titubeante, sempre ao lado do Primeiro-ministro (pois estaríamos à espera de que estivesse ao lado de quem?), usando as armas dos socialistas (o ataque é a melhor defesa), ele explica como se fosse o elemento de um júri o resultado do exame de um aluno particularmente mal dotado.

É tal a arrogância, a pesporrência, o desprezo e a deselegância que dói ver o DN a abraçar o estilo dominante e modernaço dos pseudojornalistas que pensam que quem os lê está interessado em saber a sua opinião.

Do mundo que vai rodando

Hoje decidi que me apetecia cozinhar.

Depois de tantos dias a tentar arrumar coisas que estavam em caixotes e sacos por causa das obras, achei que fazer uma bela compota de alperce e um arroz de peixe era o remédio para o pó, os sacos, os livros e as muitas fotos desorganizadas correspondendo a várias épocas da minha vida.

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Para a compota comprei alperce – uma das frutas da época – limões, laranjas, canela e açúcar amarelo. É fácil de fazer e não dá muito trabalho. Os alperces devem estar sem nódoas (um dos meus filhos, quando era pequeno, achava que as manchas na pele da fruta eram nódoas; nunca mais deixámos de lhes chamar assim), nem demasiado verdes nem demasiado maduros, e é só retirar-lhes os caroços, limpar as nódoas existentes e fatiá-los em fatias fininhas. De 1.800 g de alperce resultaram 1.500 g de fruta aproveitável para a compota. No tacho juntei a casca de 1 limão (só a parte amarela), o sumo de uma laranja, 3 paus de canela e 1.000 g de açúcar amarelo. Misturei tudo muito bem e deixei a marinar durante um bom bocado até que ficasse uma espécie de calda de alperce.

O uso das mãos é libertador e relaxante. Enquanto preparava os alperces para a compota a minha mente vagueava pelos anos que foram passando, a minha primeira casa, os natais, as festas de anos, os casamentos, os baptizados, as vestimentas, os amigos, os meus filhos, de bebés a criancinhas, depois a rapazinhos, adolescentes, jovens e adultos. Perscrutar os seus olhos, os seus sorrisos. Será que fui uma boa mãe? Será que atendi às suas personalidades, aos seus desejos, aos seus medos, às suas necessidades? Será que fui demasiado severa? Muitos dos que me rodeavam assim achavam, tenho a certeza. Será que deixei passar alguma coisa importante, irreversível? Será que foram felizes, que são felizes? Acho que todas as mães carregam consigo culpa, receio e esperança.

E a passagem do tempo nos nossos cabelos, nos nossos corpos, nas nossas roupas, óculos, penteados. As viagens, os locais, os risos, as expressões atentas ou desatentas, instantâneos de disparate ou flagrantes de distracção. Algumas pessoas que desapareceram, outras que vão entrando e ficando. O mundo a rodar e nós, de vez em quando, a darmos conta disso.

Depois de uma a uma hora e meia a marinar, o tacho com os alperces em calda foi para o lume, onde ficou até fazer ponto de estrada. Desliguei o lume, retirei os paus de canela e reduzi tudo a puré com a varinha mágica. Já enfrasquei, já provei e…. está muito bom!

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A seguir coloquei duas boas postas de perca a cozer em água, louro, sal e cominhos, durante 10 minutos (após ferver). Retirei depois as postas para um prato e coei a água da cozedura para usar mais tarde. Piquei uma cebola e dois dentes de alho, cortei dois tomates, um pouco de pimentos verde e vermelho, uns bocadinhos de bacon, coentros, aipo fresco, três cravinhos, dois piripiri e azeite a refogar. Quando começou a secar juntei um pouco de vinho, miolo de camarão e berbigão. Após os pimentos e a cebola amolecidos, juntei duas chávenas de arroz e quatro da água de cozer o peixe. Deixei ferver, baixei o lume e, após cinco minutos de cozedura em lume brando com o tacho tapado, misturei o peixe aos bocadinhos ao qual, entretanto, tinha tirado pele e espinhas. Mais 7 minutos a cozer, e estava pronto.

Também ficou uma perfeição!

Refeição muito agradável encerrando um dia de memórias e interrogações.

 

Santo António

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Santo António adivinha
O que nós vamos fazer
Assar a bela sardinha
No terraço p'ra comer
 
E tu Santo padroeiro
De Lisboa e manjericos
Serás sempre o feiticeiro
Dos primeiros namoricos
 
Nestes tempos em que as mãos
Têm de estar apartadas
Seremos todos irmãos
A cantar nas esplanadas
 
Santo António meu santinho
Vem connosco à romaria
Come o pão e bebe o vinho
Que esta noite é de folia.