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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Pombos de guerra

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Cher Ami

 

 

Na era das comunicações digitais, globais e internáuticas, em que a comunicação é instantânea e os segredos deixaram praticamente de existir, causa-nos uma enorme estranheza a utilização de pombos como mensageiros, ainda por cima em tempo de guerra, em que as informações são extremamente sensíveis.

 

E, no entanto, os pombos (especificamente uma determinada raça, os homing pigeons) foram importantíssimos para o esforço de guerra, em todos os lados do conflito, pela capacidade única de conseguirem regressar a um local de onde partiram (homing) por aquilo a que se chama magnetorecepção (capacidade de detectar um campo magnético para estabelecer coordenadas de altitude, direcção e localização). Há registos da utilização dos pombos como mensageiros militares desde o império romano.

 

Nas I Guerra Mundial um pombo (o Cher Ami) foi condecorado com a Croix de Guerre, pelos valorosos serviços prestados na Batalha de Verdun. Na II Guerra Mundial a Dickin Medal foi atribuída a 32 pombos.

 

Mesmo neste século ainda há notícias de pombos usados em comunicações militares. É extraordinária a capacidade do Homem em colocar a natureza ao seu serviço, transformando os animais em extensões das suas necessidades.

Ecos

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Crescent

Thomas Joynes

 

 

Os teus olhos as tuas mãos

as vozes no rumor do começo.

Onde estou agora? Por onde

passaram os dias que me espreitam

de longe? Ecos de uma vida

que já não reconheço.

Redoma

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Papoilas de cerâmica

Lincoln Castle

 

Da janela enfrento as nuvens dentro da redoma do esquecimento.

Espero o vagar do sono os gestos do descanso a que me obrigo

aplicadamente para suster a respiração. As bandeiras

deixaram a cor empalidecer e os hinos estão calados. Amanhã

acordarei a alma por eles.

A poesia na Grande Guerra

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Gassed

John Singer Sargent

 

All a poet can do today is warn. That is why the true poet must be truthful

Wilfred Owen

 

poesia é um dos grandes testemunhos da I Guerra Mundial. Muitos dos poetas eram jovens que combateram e morreram nas batalhas ou como consequência delas. A poesia foi um meio de expressarem o seu medo, a sua fúria, a sua tristeza, a sua vulnerabilidade. Transformaram-se nas vozes das consciências dos povos, pela sua comovedora sinceridade e honestidade, numa linguagem que se desligou de artificialismos formais e nos aproxima do sofrimento, da amizade e da solidariedade.

 

Muitos foram os que publicara os seus poemas durante a Grande Guerra, havendo inúmeras antologias já do pós-guerra.

 

IN FLANDERS FIELDS

 

In Flanders fields the poppies blow

Between the crosses, row on row,

    That mark our place; and in the sky

    The larks, still bravely singing, fly

Scarce heard amid the guns below.

 

We are the Dead. Short days ago

We lived, felt dawn, saw sunset glow,

    Loved and were loved, and now we lie,

        In Flanders fields.

 

Take up our quarrel with the foe:

To you from failing hands we throw

    The torch; be yours to hold it high.

    If ye break faith with us who die

We shall not sleep, though poppies grow

        In Flanders fields.

 

John Mccrae

 

 

THE DEAD

 

These hearts were woven of human joys and cares,

      Washed marvellously with sorrow, swift to mirth.

The years had given them kindness. Dawn was theirs,

      And sunset, and the colours of the earth.

These had seen movement, and heard music; known

      Slumber and waking; loved; gone proudly friended;

Felt the quick stir of wonder; sat alone;

      Touched flowers and furs and cheeks. All this is ended.

 

There are waters blown by changing winds to laughter

And lit by the rich skies, all day. And after,

      Frost, with a gesture, stays the waves that dance

And wandering loveliness. He leaves a white

      Unbroken glory, a gathered radiance,

A width, a shining peace, under the night.

 

Rupert Brooke

won't you celebrate with me

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won't you celebrate with me

what i have shaped into

a kind of life? i had no model.

born in babylon

both nonwhite and woman

what did i see to be except myself?

i made it up

here on this bridge between

starshine and clay,

my one hand holding tight

my other hand; come celebrate

with me that everyday

something has tried to kill me

and has failed.

 

Lucille Clifton

através de O Som que os Versos Fazem ao Abrir

Extraordinário

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Habituei-me a lidar com a exigência, a pontualidade, as regras, a voz de comando. Aprendi as conversas, os livros, a necessidade de pensar e reflectir. Cresci a sentir a seriedade, o sentido do dever, do serviço, da obrigação, da superação.

 

A minha casa era o espelho do que julgava ser o mundo. Sempre a fazer mais e melhor, independentemente de qualquer necessidade ou mesmo esperança de reconhecimento, fazer o máximo como um dever. À medida que os anos passaram percebi que a minha casa não era a norma, nem um hábito generalizado. À medida que fui assumindo outras responsabilidades reconheci que a minha casa era, de algum modo, extraordinária.

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E ontem, mais uma vez, ao ouvir o que pessoas a quem tanto devemos diziam do meu pai, ao ver tanta gente a comover-se, a cumprimentá-lo e a agradecer-lhe o exemplo, ao ler o seu percurso descrito por pessoas estranhas à minha casa, posso assumir sem pudor que sou filha de um pai extraordinário.

A carruagem do Armistício

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Clairière de l'Armistice é o local onde se encontra uma réplica da carruagem de comboio onde foi assinada a rendição da Alemanha, na I Guerra Mundial, a 11 de Novembro de 1918 e onde também foi assinada a capitulação da França, na II Guerra Mundial, a 22 de Junho de 1940.

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Esta carruagem, no fim da I Guerra, foi colocada na zona onde está agora, não exactamente no mesmo sítio, tendo sido comprada pelo Governo Francês e restaurada para que fosse o símbolo vivo da vitória dos Aliados.

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Mas Hitler, vingando-se dos Franceses quando, em poucas semanas, esmagou a França, decidiu que a suprema humilhação destes e a suprema vitória dele seria obrigar a França a assinar a sua rendição precisamente na mesma carruagem e precisamente no mesmo sítio. Para isso foram demolidas as paredes do museu para a conduzir exactamente ao mesmo local.

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 Após a assinatura do Armistício de 1940, a carruagem foi transportada para Berlim.

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Em 1945, com o avanço das forças aliadas sobre Berlim, foi levada para a Turíngia, onde foi incendiada pelas SS por ordem de Hitler. A que vemos de novo na Clairière é uma carruagem adquirida novamente pelo governo francês, da mesma série da original (2419D), e recolocada com um museu adjacente.

 

Compiègne foi a última etapa. Tanto que ficou por ver, tanto que ficou por saber. As brumas adensam-se outra vez sobre a Europa. As crises da democracia, bem visíveis nos aproveitamentos populistas dos líderes de extrema direita, manipulando o medo do desemprego, e a insegurança, fazendo dos estrangeiros e dos refugiados o bode expiatório dos problemas económicos e do terrorismo, incentivando a xenofobia e o racismo, fazem temer uma nova ascensão das ditaduras, do nacionalismo e do racismo.

 

É essencial que nos lembremos do resultado dessas falácias e das manipulações que não são novas mas são sempre perigosas. É essencial que nos informemos e não cedamos ao medo. O conhecimento é o nosso melhor amigo.

La Madelon

Pays du coquelicot

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Aproximando-nos já a largos passos do fim desta espécie de peregrinação, fomos para Albert, uma cidade no departamento do Somme, que foi vastamente martirizada durante a I Guerra Mundial, precisamente na Batalha do Somme, uma ofensiva dos exércitos aliados, especificamente do Francês e do império Britânico, contra o Alemão. Iniciou-se a 1 de Julho e terminou a 18 de Novembro de 1916 e foi a mais sangrenta da Grande Guerra, com cerca de 1 milhão de homens mortos ou feridos. O primeiro dia da batalha foi ainda a mais mortífera para os ingleses, que perderam 57.470 homens, entre Albert e Bapaume.

 

Em todo o caminho vamos encontrando vários memoriais e monumentos que lembram episódios da guerra, inúmeros cemitérios de australianos, ingleses, etc.. Um deles, que ficava no local mais elevado da Batalha, onde se encontrava um moinho, lembrava a bravura e heroicidade dos australianos. 

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Noutro local presta-se homenagem ao Regimento do Newfoundland, um território pertencente ao Império Britânico que foi quase totalmente dizimado nesse primeiro dia da Batalha do Somme - 80% de mortos, feridos e desaparecidos, a maior parte deles nos primeiros 30 a 60 minutos de combate. Vimos ainda outro monumento que recorda a utilização de tanques, em Poizières. Uma enorme quantidade de memoriais, cemitérios e locais de homenagem em relação aos caídos no Somme.

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Chegados a Albert, num dia que começava a clarear, nada melhor que um café (que, convenhamos, poucos franceses sabem fazer) antes de nos aventurarmos pelo Musée Somme - 1916. Entrámos num café com aspecto simpático, decididos a beber um capuchino (deliciosa alternativa depois do meu companheiro se ter lembrado da iguaria). À porta dos toilettes um aviso importante e peculiar...

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... apenas porque 5 minutos não dá para grandes leituras, mas mesmo assim...

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... havia um confortável sofá para esperarmos, convidando a puxar de um livro.

 

Certos do grande amor pela literatura dos habitantes e visitantes de Albert, entrámos no museu do Somme. Depois de descermos para uma espécie de túnel subterrâneo, onde se encontrava um magote de adolescentes (ingleses) ruidosos de mais, assistimos primeiro a um filme de 15 minutos sobre a Batalha do Somme e os vários locais a visitar, para percorrermos depois uma espécie de trincheira onde se expunham várias cenas, muito bem montadas, sobre a vida dos militares nas trincheiras, com fardamentos, equipamentos, restos de armas e cacos de utensílios de todos os dias - higiene, saúde, alimentação, etc. - que dá uma ideia muito nítida do que deve ter sido aquele inferno e como se incorporava uma espécie de normalidade, inclusivamente com artesanato que os soldados faziam com os restos do metal das bombas, das balas, etc.

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Há ainda uma vitrine que lembra os feridos na face e os problemas de reconstituição cirúrgica e da evolução das próteses, através de fotografias de uma associação criada na altura pelo Coronel Picot - Union des Blessés de la Face et de la Tête ou, mais prosaicamente, Gueles casséesNo fim da "trincheira" pudemos ver o que tinha acontecido com o militar do qual nos tinham dado, à entrada, uma reprodução da sua carta militar. Tinha morrido, como tantos e tantos outros.

 

Ficámos alojados mesmo em frente à Catedral, num turismo de habitação muito simpático. O fim de tarde e a noite estavam tão fantásticos que jantámos na esplanada do "La Basilique". 

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Vim de lá com os olhos inundados de papoilas.

It's a long way to Tipperary