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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Quadras de Natal (6)

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Presépio em burel

 

Fui à feira dos afectos

que se vendem bem baratos

mas os meus predilectos

estavam já desbotados.

 

Fui à loja dos carinhos

para enfeitar a amizade

achei apenas uns ninhos

de cinismo e má vontade.

 

Onde estão os corações 

os abraços e a bondade? 

Onde andam as canções 

paz e solidariedade? 

 

Voltei a casa cansada

de tanto buscar em vão

as luzes claras da estrada

acesas num turbilhão.

 

Mas a porta estava aberta

nos teus olhos de Natal

com amor na dose certa

sem hora nem ritual.

 

No teu enlace a quentura

conforto de quem se quer

nesta festa de ternura

Jesus já pode nascer.

 

Nada eterno

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Retrato de Outono

Salvador Dali

 

Nem sei se gente se janelas

à minha volta os ruídos da existência

gestos que se repetem e se multiplicam

como as folhas de outono que rangem

e se desfazem sem que o vento

se demore.

Nem sei se dedos se olhos

para quê ou para quem tanto se morre

sem que a vida se conforte e se repita

com os meus ou os teus deuses

um nada eterno que se agita.

Das datas fracturantes

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Manifestação do PS na Fonte Luminosa, na Alameda, em Lisboa (30-12-1975)

 

No dia 25 de Novembro de 1975 defrontaram-se duas concepções de sociedade - os defensores de um regime democrático multipartidário de tipo ocidental e os de um regime totalitário ditatorial de tipo comunista. Foi uma data fundamental para a consolidação da democracia portuguesa, tal como o 25 de Abril de 1974 foi a data fundacional desse mesmo regime. Ambas foram fracturantes e em ambas poderia ter eclodido uma guerra civil.

Aos militares que organizaram e concretizaram o golpe militar a 25 de Abril e aos que defenderam o regime democrático a 25 de Novembro, devemos o nosso reconhecimento e as nossas homenagens.

O PS foi o partido político mais importante no combate à deriva extremista e totalitária de 1975. Essa memória faz parte da sua e da nossa História recente. Durante muitos anos foi precisamente ese momento um dos grandes entraves ao entendimento entre o PS e os partidos que, no 25 de Novembro, representavam a facção antidemocrática. António Costa conseguiu ultrapassar ressentimentos e posicionamentos monolíticos, fazendo uma ponte indispensável entre o que unia o PS e os partidos à sua esquerda, seguindo a abertura do PCP, que a percebeu como a única forma de desapear a direita do poder.

Mas o PCP e o BE terão que perceber que o caminho reiniciado a 25 de Novembro foi aquele que permitiu que eles próprios sobrevivessem, para não falar da democracia e da liberdade. A existência da Geringonça não pode levar o PS a negar a sua história nem a sua identidade intrinsecamente democrática, para não ferir as sensibilidades dos seus parceiros.

Ao permitir que a direita e a extrema direita se mostrem como os únicos defensores do 25 de Novembro, reclamando-o como uma das suas vitórias, o PS acaba por se deixar colar aos que, nessa altura, estavam do lado do totalitarismo esquerdista, esquecendo que foi uma trave mestra da liberdade naqueles tempos revolucionários. Eu não o esqueço e penaliza-me muito que, no Parlamento, seja apenas a direita a querer homenagear o 25 de Novembro.

Adenda: Grupo parlamentar do CDS/PP - Voto de saudação n.º 41/XIV – Pelo 44.º Aniversário do 25 de Novembro

Grupo parlamentar do PS - Voto de saudação n.º 53/XIV - À construção da Democracia em Portugal

Nove de Novembro

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Em 1938, na Alemanha nazi, a noite de 9 de Novembro foi de violência contra os Judeus, com milhares de ataques a casas, a lojas e a sinagogas, levadas a cabo pelas SA e por cidadãos anónimos - Kristallnacht - Noite de Cristal. Anunciava-se o pesadelo e o horror de que o mundo inteiro se apercebeu após o fim da II Guerra Mundial - o Holocausto.

Em 1989, na noite de 9 de Novembro, caiu o símbolo da Guerra Fria, o muro que separava Berlim Leste de Berlim Oeste, erguido a 13 de Agosto de 1961 numa tentativa tosca de travar a hemorragia de gente que fugia do bloco comunista, numa bravata que podia ter iniciado a III Guerra Mundial.

Custa-nos hoje acreditar como foi possível tudo isto - a loucura nazi que perseguiu, torturou e matou milhões de pessoas, nomeadamente Judeus, arrastando o mundo para uma Guerra 21 anos após uma matança de proporções nunca vistas, a loucura comunista que fechou e dividiu o mundo, perseguiu, torturou e matou milhões de pessoas com base num totalitarismo pseudo científico e violento.

E no entanto as sementes do ódio e da intolerância estão a germinar de novo. A Europa vai-se esquecendo da sua História recente e os movimentos xenófobos, racistas e totalitários começam a ganhar cada vez mais força. Com os EUA perdidos na era Trump, é difícil recuperar a esperança renascida a 9 de Novembro de 1989 em que tudo parecia ser possível, como a reunificação da Alemanha no ano seguinte.

As desigualdades, as várias crises (demográfica, das migrações, climática, do trabalho), a emergência das novas organizações da sociedade e do trabalho com a era digital, a voragem exponencial que nos deixa em desequilíbrio permanente, os bloqueios políticos, os movimentos sociais que tão depressa inundam o quotidiano como se esquecem e descartam por outros, a irrealidade e irrelevância dos factos, a volatilidade da verdade, hordas de outros tempos neste nosso escasso e turbulento tempo.

Nove de Novembro é também a data de nascimento da minha mãe. Facto irrelevante para o resto do mundo, mas fundamental para este meu pequeno e invisível mundinho, onde diariamente me alimento de inquietação e esperança.

Pandemos

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Jorge de Sena

 

Dentífona apriuna a veste iguana

de que se escalca auroma e tentavela.

Como superta e buritânea amela

se palquitonará transcêndia inana!

 

Que vúlcios defuratos, que inumana

sussúrica donstália penicela

às trícotas relesta demiquela,

fissivirão boíneos, ó primana!

 

Dentívolos palpículos, baissai!

Lingâmicos dolins, refucarai!

Por manivornas contumai a veste!

 

E, quando prolifarem as sangrárias,

lambidonai tutílicos anárias,

tão placitantos como o pedipeste.

 

Jornalismo a sério...

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André Ventura: "Contradição entre a minha tese e o meu discurso? Não tem nada a ver"

 

...é isto - O populista André e o "politicamente correto" Ventura - um fantástico artigo de Fernanda Câncio, que resulta da leitura da tese de doutoramento do líder do CHEGA, André Ventura: Towards a new model of criminal justice system in the era of globalised criminality: the biggest challenges for criminal process legislation (Para um novo modelo de sistema de justiça criminal na era da criminalidade globalizada: os grandes desafios para a lei de processo penal).

Vale a pena perceber como se pode ser líder de um partido populista e de ultra-direita dizendo o exacto contrário do que se defendeu numa tese de doutoramento, sobre políticas securitárias, subversão dos direitos humanos, exploração do medo, xenofobia, racismo, etc.

Espero que este indivíduo seja confrontado em todo o lado, por maioria de razão no Parlamento, com as suas enormes contradições, para que seja desmascarado como um verdadeiro oportunista sedento de poder.

Coisas

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Thomas Dambo

 

Nestes dias molhados e peganhentos parece que tudo se encavalita, mistura e confunde. Os lençóis engelham, os sapatos encavalitam, os casacos não se despegam das cruzetas, as janelas emperram, os sacos de compras rouquejam pela rua, as folhas secas agarram-se às rodas do carro.

É nestas circunstâncias que se avolumam os objectos e as coisas que temos, que sempre achamos poucas mas que são muitas, demasiadas. Coisas, coisas e coisas, amontoadas e desarrumadas. Tropeçamos em fios dos computadores e telemóveis, enrolam-se os tapetes, afastamos almofadas, amontoamos frascos de colónia, pasta de dentes, copos, sabonetes, cremes e mais cremes, desodorizantes e amaciadores, esponjas e escovas, brincos, camisolas, meias, calças, candeeiros, livros, cadeiras.

Olhamos à volta e não percebemos o porquê da necessidade da maior parte das coisas que se multiplicam, que se reproduzem pelos cantos das salas e dos quartos e das cozinhas e das casas de banho, casas que se transformam em pletoras totalmente desviadas da nossa vida e do nosso mundo.

É urgente que nos desnudemos das coisas que nos rodeiam, das coisas que não nos preenchem mas apenas nos cobrem e impedem de olhar para o essencial, para o que somos, para o que queremos, para o que amamos.