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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Verdun

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 Ossuário

 

A Batalha de Verdun escreveu uma das mais devastadoras páginas da nossa História, da primeira metade do século XX, com a morte de cerca de 300.000 soldados franceses e alemães. Toda a área à volta de Verdun, agora verdejante e bucólica, é um imenso cemitério. Disso nos damos conta quando visitamos a Citadela subterrânea da Praça Fortificada de Verdun, com um muito bem conseguido percurso animado com projecções cinematográficas a 3 dimensões, retratando vários episódios-tipo da vida dos Poilus.

 

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 Citadela de Verdun

 

No Fort de Douaumont, onde chegaram a estar 3.000 soldados, deambulamos pelos labirínticos e gelados corredores e salas, imaginando o que era estar ali, sofrendo em permanência os bombardeamentos, dos quais os terrenos envolventes literalmente aos buracos são testemunha, para além dos restos das trincheiras que aí se vêem. Por todo o lado encontramos cemitérios militares, pequenos grupos de túmulos com os nomes daqueles que ali morreram.

 

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Forte de Douaumont

 

Fizemos a via sacra de Verdun a Bar-le-Duc - uma estrada que permitia o abastecimento das tropas em Verdun - assinalada por marcos quilométricos encimados por une casque. Também, entre Verdun e Reims, percorremos um pouco da via da liberdade, que simboliza o caminho da libertação de França, Bélgica e Luxemburgo, efectuado pelo 3º Exército americano, comandado pelo General Patton, na II Guerra Mundial.

 

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via sacra

 

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via da liberdade

 

O Ossuário de Douaumont é absolutamente esmagador. Como foi possível, depois de todo aquele desperdício de vidas humanas que, 20 anos depois, novo conflito mundial tenha surgido? Será que as negociações de Chamberlain com Hitler não teria sido uma tentativa de evitar uma nova mortandade?

 

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Cemitério militar, perto de Reims

 

Pergunto-me muitas vezes se os cidadãos da nossa sociedade europeia actual aceitariam combater da forma como o fizeram os jovens (e os menos jovens) nas Guerras Mundiais, principalmente na Grande Guerra. Na verdade, quantos daqueles soldados, de qualquer dos países envolvidos, tinha sequer saído da sua terra natal? Quais as suas motivações, para além da doutrinação que provavelmente era feita, na altura da mobilização e do treino militares? Seria hoje possível uma tal mobilização, uma tal doutrinação, uma tal entrega? Por outro lado, se calhar as próximas guerras mundiais não se centrarão em bombardear casas e pessoas, matar e esventrar países e continentes, bastam ataques informáticos para desestruturar a vida dos países e das pessoas.

 

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trincheira em Verdun

 

Em Verdun a nossa alma encolhe. Quanto podem os homens fazer mal a si próprios e, ao mesmo tempo, quanto podem os homens sacrificar-se por si e pelos outros. Após um século convém lembrar a realidade daquilo que ninguém imaginava ser possível a 27 de Julho de 1914.