Vários andares, níveis de consciência, capacidade em estar atento. Vários espelhos onde se vê e revê a memória, o passado, o corpo, onde se encontra o próprio ou a imagem que se projecta para fora do próprio.
Vários sons, aflitos, suaves, assustadores, arrepiantes, calmos, ondulantes. Poucas vozes as dos poemas, poucos os poemas nesse poema inteiro. Poucas as palavras ouvidas em tom de confidência. Vários os tons de branco e castanho velado, de dourados secos e velhos, de vermelho e ocre. Várias as texturas dos tecidos, das pedras, das madeiras, da água, da poeira.
Várias as portas e as chaves que se abrem e fecham, que escondem e mostram, que começam e acabam, por onde se entra e se sai. Vários os movimentos de dança e desespero, de poder e submissão, de amor e de ódio, de recolha, de manipulação, de despojamento. Vários os momentos de partilha e solidão, de crueldade e sedução.
Caóticos e loucos, calados e gritantes, desconexos e pueris, inacabados e em fragmentos, de risos e viagens, sonhos de mulheres que são, que fizeram, que tiveram, que deram, que quiseram, que desejaram, que fugiram, que romperam. Tantos os sapatos que podemos calçar, que nos ensinam a calçar e que nos fazem meninas e velhas, monstros e anjos. Impossíveis as palavras para este espectáculo, defini-lo ou contá-lo, explicá-lo ou senti-lo. Surpreendente, impensável, lindíssimo e provocador.
Mais uma vez parabéns ao Teatro Meridional e a todos os colaboradores, que fazem de cada trabalho uma experiência imperdível. Destaque para as extraordinárias actuações das actrizes Ana Lúcia Palminha, Carla Galvão e Susana Madeira.
2 de Março a 15 de Abril
Um sonho ou um poema cénico, em que as narrativas se fragmentam em imagens que passam, se transformam e diluem.
São “poemas” e sonhos de mulheres, onde o feminino encontra os seus referentes em contos de fadas, nas deusas gregas e sempre nas mulheres de muitas histórias e de muitos lugares.
Povoado de símbolos que despoletam ou prenunciam diferentes acções, procurámos dar voz aos arquétipos, às imagens primordiais femininas, na constante repetição da mesma experiência realizada durante muitas gerações.
Diz a tradição que uma das missões dos Anjos é ajudar a humanidade a aproximar-se de Deus. Aqui, as mulheres são alguns dos “anjos” que têm fome do mundo e de si próprias.
Criação - Teatro Meridional
Encenação e Dramaturgia - Natália Luíza
Poemas - Al Berto, Fernando Pessoa, Herberto Helder, Gastão Cruz, Gonçalo M. Tavares, Teixeira de Pascoaes
Elenco - Ana Lúcia Palminha, Carla Galvão, Susana Madeira
Espaço Cénico e Figurinos - Marta Carreiras
Música original - Fernando Mota
Desenho de luz - Miguel Seabra
Vozes Gravadas - António Fonseca, Miguel Seabra e Natália Luiza
Fotografia - Nuno Figueira
Assistência de Encenação - Maria João Santos
Design gráfico e Vídeo - Patrícia Poção
Assistência de cenografia - Marco Fonseca
Operação técnica - Nuno Figueira
Montagem - Marco Fonseca e Nuno Figueira
Produção Executiva - Natália Alves
Direcção de Produção - Maria Folque
Direcção Artística TM - Miguel Seabra e Natália Luiza
Mas apetece ouvir, falar e escrever dos e sobre os nossos artistas, os que melhor são e fazem. Como exemplo escolho o Teatro Meridional.
Não há peça deles a que tenha assistido que me tenha deixado desiludida. A imaginação com que tratam temas actuais, compondo textos imprevisíveis, rigorosos, absurdos, corrosivos, cómicos, a simplicidade dos cenários, depurados, minimalistas, o jogo de luzes e de sombras, a música e o excelente trabalho de excelentes actores, transformam os espectáculos em experiências memoráveis e difíceis de traduzir.
Em Especialistas, agora em cena (e até 7 de Agosto), o Teatro Meridional usa a sustentabilidade ambiental, centrada no problema da energia, para ilustrar aquilo que a nossa sociedade ocidental transformou na ditadura das linguagens dos divulgadores especializados em parcelas do conhecimento. A manipulação da informação é um facto, misturando nos discursos apelos aos instintos do consumismo, do misticismo, da especulação, da mesquinhez, do altruísmo e da ingenuidade, sob a capa da imparcialidade científica, económica, psicológica e moralizadora.
Um retrato contemporâneo, em que a preponderância dos Especialistas e a hegemonia da especialização, ao olhar apenas segmentos desligados de um corpo social, é incapaz de manter um cimento entre os vários sectores, de avaliar as necessidades, os valores, os anseios desse corpo, privilegiando uns em detrimento de outros para manter equilíbrios, tal como se vai afastando daquilo que é a escolha de todos para impor a opinião de alguns – a dos Especialistas que ninguém pode, sabe ou quer escolher.
Acresce ao excelente espectáculo o espaço e o ambiente de conforto e acolhimento, onde nunca falta café, chá, e até bolo, associado à preocupação de bilhetes com preços em consonância com estes tempos de crise.
Parabéns a todo o grupo do Teatro Meridional por mais este magnífico espectáculo.
Em cena, na Sala Vermelha do Teatro Aberto, uma peça de Rui Herbon - Grande Prémio de Teatro Português de 2010 (Teatro Aberto e Sociedade Portuguesa de Autores), com música original de Pedro Jóia.
Não são precisos prémios para sabermos que o Teatro Meridional é uma das companhias de teatro mais criativas e interessantes do nosso país. Mas é sempre bom percebermos, no meio de todo o negativismo e pessimismo que nos tolhe, que não só entre portas se reconhece esse mérito.
O Teatro Meridional, cuja direcção (da Companhia e artística) é assegurada por Miguel Seabra e Natália Luiza, tem levado ao palco e ao público inúmeras peças originais, baseadas em textos variados, como colagens ou como recriações, em espaços cénicos de um cuidado e simplicidades extremas, em que a encenação, a música, as luzes e as palavras se completam e formam unidades de espectáculo únicas.
A 12.ª edição do Prémio Europa Novas Realidades Teatrais distinguiu, juntamente com 5 companhias de teatro de outros países europeus (Eslováquia/República Checa, Reino Unido, Rússia, Finlândia e Islândia), o Teatro Meridional.
A próxima peça desta Companhia será apresentada no Teatro Nacional D. Maria II, com estreia a 18 de Novembro, 5ª feira, às 21:30h, e chama-se 1974. A não perder.
Tal como disse José Pedro Gomes (em baixo, aos 3 minutos), António Feio fez muito pelo teatro. Tanto que hoje, devido ao António, à noite vai haver teatro a passar na RTP1, na SIC e, ao domingo, na RTP2, coisa raramente vista.
Para variar, para além do trabalho, há muitas coisas que nos alargam a mente e que nos alegram os dias:
Gostaria de falar da cidade como teatro da vida; do desenho urbano, que se vai modificando ao longo dos tempos, como cenário; dos enredos da evolução social e urbana, como sucessivos textos; da tão diversa roupagem que a cobre, como figurinos; dos decisores que nela actuam segundo papeis previamente distribuídos, mas sempre em aberto, como actores; dos poderes e contra-poderes, às vezes em conflito com texto e cenário, como encenadores; e dos cidadãos que detêm o poder de a todo o momento subverter a cena, como actores-autores de uma peça que, por mais que se escreva, está sempre já escrita e por escrever. (Helena Roseta)
A cidade, a sua organização, os seus habitantes, o poder que têm ou a que se submetem, o espaço público, fechado ou aberto, os templos, o poder, o teatro.
Como se transformam as cidades, como nos transformamos a nós, como nos transformam as cidades? Que significa o crescer da urbe em volta de becos, em volta dos operários, em volta de ruelas? Que significam os estrangeiros, os povoadores, os que chegam de fora?
Que significa planear, conceber, reformar, determinar, ordenar?
Onde está o palco, onde estão os actores, as imagens, os templos?
Onde está a cidadania, o poder dos habitantes honrados das cidades de hoje, iguais, desumanizadas, envelhecidas, insalubres, decrépitas, que não servem os seus cidadãos? Como podemos nós ser os argumentistas das peças multirraciais das cidades de hoje?
Uma conferência entre cruzamentos de imagens, de olhares, entre o desenho e a construção das cidades e o salão nobre do Teatro D. Maria II, conduzida pela Arquitecta Helena Roseta, cidadã honrada e mulher de muitos caminhos e de muitas interrogações, numa excelente iniciativa do Teatro com Cruzamentos. Foi ontem, ao fim da tarde, mas haverá mais.
No Teatro Nacional D. Maria II, há Teatro com Cruzamentos (Projecto Teia).
Personalidades conceituadas de várias áreas profissionais são convidadas a darem uma “aula aberta”, criando uma relação entre o seu campo específico de estudo ou actividade e o teatro, na pluralidade de disciplinas que o TEATRO encerra. Profissionais de áreas tão diversas como a Estratégia Militar, a Medicina, o Direito, a Biologia ou a Política, mostram qual a importância que pode ter para o teatro a vitalidade dos discursos das Ciências e da Filosofia.
No Salão Nobre, às 18:30h: convidado - Prof. Dr. Alexandre Quintanilha - já no dia 21 deste mês.
A viagem dos caminhos, a viagem das letras, das palavras, dos gestos, das histórias, do espaço, do mar, a viagem da vida que esperamos e da vida que temos e da vida que sonhamos, a viagem da luz, do som, dos objectos que nos compõem.
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Tiago Taron: 24ª madrugada
Abro Páginas Encontro Espelhos
Come chocolates, pequena; Come chocolates!
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