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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Ainda bem que não pararam

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Não sabia o que me esperava, nunca sei. Mas tenho sempre a absoluta certeza de que valerá a pena, quando vou assistir a um espectáculo do Meridional. E este, que comemora os 25 anos de uma carreira excepcional, prometia reflexão – DEVÍAMOS ter parado.

 

Quando acabou, as mais fortes sensações que me ficaram foram as de deslumbramento por um espectáculo belíssimo, e uma grande interrogação sobre tudo o que vi.

 

Esta não é uma peça de texto escrito ou falado, é uma peça de texto mímico e sensorial, em que o que se passa no palco conta uma história diferente para cada um dos espectadores. Aliás quem faz a história é cada um de nós, sendo os actores, a cenografia, a música, tudo, provocações de uma coisa que parece totalmente desligada e desconexa, mas que é uma forma de nos mantermos em interrogação permanente, de adaptarmos o que vamos vendo aos nossos percursos de vida. As personagens vestem e despem continuamente roupagens, que os fazem diferentes. Umas vezes experimentam, como se medissem as consequências, outras fazem-no rápida, repetida e atabalhoadamente, atropelando-se pelas mesmas roupas, outras normalizam-se e adquirem um tom executivo, assertivo e apressado, agressivo e devorador, outras ainda acabam por preferir a própria pele sem adereços, mergulhando numa posição quase fetal e isolada, à parte, como se se auto marginalizassem.

 

E por vezes encontram-se, como na cena em que duas actrizes têm vestido iguais, se movem da mesma maneira e olham espantadas à sua volta, meio crianças, meio bonecas, de mãos dadas. Por vezes encontram-se, como as que caiem nos braços uma da outra, como se desistissem e se amparassem mutuamente. Por vezes encontram-se, como se descobrissem o amor. Por vezes encontram-se, como se pudessem substituir ou acrescentar pormenores uns aos outros, adaptando-se a circunstâncias extremas.

 

E há algumas revoltas isoladas e inconsequentes, como a vontade de cantar de uma personagem que lembra as bailarinas da Paula Rego, que não sabe “o que querem que faça” e desafia “quem quer” com uma voz poderosa, há alguns desesperos, há um guarda-chuva que faz rir, um espelho que roda vagarosamente numa interpelação directa (somos nós que ali estamos), alguém que se passeia com nariz de palhaço e flores, murmurando palavras como silêncio e pausa.

 

A última cena é indescritível de bela. A música, as vozes, a luz, a melancolia, tudo misturado com a sensação de que não percebemos nada de nada, nada do que passámos, do que vivemos, do que somos, e ao mesmo tempo que, apesar de tudo, aquilo é connosco. Que, apesar de tudo, continuamos a procurar a nossa própria personagem, individual e colectiva.

 

Seria isto o que o Meridional pretendia? Penso que cada um fará uma interpretação diferente.

 

Mais uma vez estão todos de parabéns. Não percam, mesmo.

Meridional - 25 anos de encantamento

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O Teatro Meridional comemorou, no dia 21 de Julho, 25 anos.

 

Em 54 espectáculos, cerca de 2 por ano, o Teatro Meridional foi criando peças inesquecíveis, em que a simplicidade dos cenários e da música, a magia das palavras, ou mesmo a sua quase ausência, associadas e interligadas com o espantosa performance dos actores, fizeram e fazem a sua imagem de marca - qualidade, ternura, inteligência, humor. Esta qualidade tem vindo a ser reconhecida pelas dezenas de prémios com que tem sido distinguido, e pela presença do público incondicional e cada vez mais numeroso.

 

Desde há cerca de 15 anos que têm o seu espaço próprio no Beco da Mitra, a melhor sala de espectáculos do Poço do Bispo, como diz Miguel Seabra que, com Natália Luíza, dirige esta família de gente de excepção. Não faltam o café e o chá, o bolo, as mantas no Inverno e os leques no verão, tantos toques de atenção particular que, também por isso, fazem do Meridional um Teatro único.

 

Sinto-me uma privilegiada por ter podido partilhar estes 25 anos. Sempre que vou assistir a uma das suas peças, saio de lá mais atenta, mais alerta, mais feliz.

 

Muito obrigada.

Um quarto de século

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O Teatro Meridional comemora 25 anos e dá-nos a todos um excelente presente de aniversário.

 

Não percam o que de melhor se faz em Portugal em teatro, música, cenografia e encenação, jogo de luzes e representação. É tudo bom, desde o espaço no Poço do Bispo, à simpatia e generosidade com que se acolhem os espectadores, à incrível criatividade e persistência dos seus Directores Artísticos e de todos os que com eles colaboram, tornando cada espectáculo numa experiência única.

 

Para ver e/ ou rever, aqui fica o calendário das reposições para este ano:

  • AL PANTALONE, de Mário Botequilha - já em cena, até 5/ Fevereiro,
  • A LIÇÃO, de Ionesco - de 22/ Fevereiro a 12/ Março
  • ANTÓNIO E MARIA, a partir da obra de António Lobo Antunes - de 30/ Março a 9/ Abril
  • O SR. IBRAHIM E AS FLORES DO CORÃO, de Éric-Emmanuel Schmidt - de 10 a 28/ Maio
  • CONTOS EM VIAGEM – CABO VERDE - de 12 a 30/ Julho
  • AS CENTENÁRIAS, de Newton Moreno - de 13/ Setembro a 1/ Outubro

 

Parabéns a quem nos sabe fazer rir, sonhar, chorar e pensar.

 

Do teatro como ópio

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Contos em Viagem - Macau

 

 

Encantamento e ópio, vício e magia, perfume e névoa, poente e noite, caminhos interiores que se perdem e acham, habitar o ar e as profundezas, limbo, estranheza, vinho doce e veneno.

 

É muito difícil encontrar as palavras que adjectivem a experiência de assistir a um espectáculo destes. Não se encontra uma razão, uma história. E no entanto elas lá estão, as razões e as histórias, o sentimento e a perdição, o querer ir e o ficar.

 

O espaço cénico minimalista, que se metamorfoseia sempre inebriante, o jogo de luzes, os sons e a música como actores intervenientes, a bailarina que aproxima e afasta o nosso olhar, e as palavras ditas, sussurradas, cantadas por um actor, numa amálgama a que não se consegue resistir.

 

Nunca é demais repetir quão maravilhosos são os criadores do Teatro Meridional. Nunca é demais dizer que é um espectáculo imperdível. E que nos faz tão bem.

Do teatro, ibérico e outros

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Pequeno passeio rumo ao Centro Comercial Vasco da Gama, mais precisamente à FNAC, lugar onde me esperava The mousetrap and other plays, de Agatha Christie, para me preparar condignamente para a próxima viagem à capital londrina, mais precisamente ao St Martin's Theatre, a casa desta peça desde 1974, em cena desde 1952.

 

Adoro estas pequenas passeatas que transformam um banal almoço numa estimulante conversa. De Londres e do teatro passei a William Shakespeare e às comemorações do 4º centenário da sua morte, com inúmeros colóquios, reedições de obras, estudos histórico-literários, etc., que nos transmitem a importância do autor britânico na literatura e na dramaturgia ocidentais.

 

E no entanto, a literatura e especificamente o teatro, nos séculos XVI e XVII europeus, muito ficaram a dever aos autores espanhóis, nomeadamente a Lope de Vega e Pedro Calderón de La Barca, assim como ao francês Molière, mais ou menos contemporâneos de Shakespeare.

 

Mas anterior a todos estes apareceu Gil Vicente, cuja obra eu gostaria muito de ver alguma companhia teatral a revisitar. O nosso Gil Vicente, com o seu Monólogo do Vaqueiro, quase inaugurou a importância social e política do teatro, como espelho do e sátira ao poder e às classes sociais, da linguagem dos simples, das figuras mitológicas, do bem e do mal, enfim, dos grandes temas que nos preocupam.

 

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Roque Gameiro

 

Não há dúvida que a pressão da língua inglesa explica em parte a notoriedade de Shakespeare e o relativo embaciamento dos autores ibéricos e francês. Mas nos séculos XVI e XVII não seria bem assim, a língua erudita era o latim e as línguas neolatinas muito mais importantes que a inglesa. Nada disto retira o brilhantismo e o génio a Shakespeare. Só é pena não haver o mesmo realce para outros, tão geniais e brilhantes como ele.

 

Nota: Alguém que comigo partilha passeios e conversas, enviou-me uma informação interessante: é que a primeira peça que a RTP apresentou logo após o início das emissões regulares foi precisamente... Monólogo do Vaqueiro.

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Da espiritualidade da Arte

As minhas comemorações de Natal começaram a 5 deste mês, com A Colectividade colectiva, sediada no Teatro Meridional para comemorar o seu 75ª aniversário. Tive a sorte de ter havido uma desistência mesmo à última hora, pois já estava tudo esgotado. Muito, muito bom, como aliás é hábito do Meridional, nomeadamente de Natália Luíza. Os espectáculos são sempre inovadores, divertidos, inteligentes e comoventes, fazendo a ponte entre a realidade e o imaginário, a crítica irónica e a militância cívica, saio sempre com o coração dilatado de ternura e orgulho.

 

Depois fui ver A ponte dos espiões, seguido de um jantar ameno com alguém que me aquece e aconchega, com quem a conversa nunca se esgota.

 

E hoje entrei pelo júbilo místico com a Oratória de Natal de Johann Sebastian Bach (Cantatas I, III e VI) no CCB, pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, o Coro Lisboa Cantat, com os solistas Ana Quintans, Maria Luísa Freitas, Marco Alves dos Santos, João Fernandes, e os maestros Jorge Carvalho Alves (coro) e Leonardo García Alarcón (coro e orquestra). Que orgulho ouvir excelentes músicos e cantores líricos portugueses nesta maravilhosa interpretação das Cantatas de Bach.

 

Oratória de Natal, BWV 248 Cantata I

 

Oratória de Natal, BWV 248 Cantata III

 

Oratória de Natal, BWV 248 Cantata VI 

 

Investir na cultura deveria ser uma das prioridades para o desenvolvimento económico de Portugal. Sala cheia e aplausos demorados, de uma plateia cheia de gente sedenta de música. Começo bem o Natal.

Mar me quer

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 Mia Couto

Natália Luíza

Alberto Magassela, Cucha Carvalheiro, Daniel Martinho

Marta Carreiras

Rodrigo Leão

Miguel Seabra

 

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 Teatro Meridional

Rua do Açúcar, 64 Beco da Mitra

Poço do Bispo 1950 - 009 Lisboa 

(GPS: 38.737780,-9.103514)

(+351) 91 999 12 13

(+351) 91 804 66 31

(+351) 21 868 92 45

geral@teatromeridional.net

Portugal dos Poetas

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Ontem, através do magnífico recital de poesia, tive o privilégio de viajar pelos vários séculos portugueses (desde o XVI) até à contemporaneidade, no Teatro Meridional. Com Natália Luíza, a sua escolha de textos, o seu encadeamento de palavras, a sua voz e a sua interpretação, vi Portugal desfilar, mais especificamente os Portugueses, a crise, a mediocridade, o sonho, a pequena e lampejante esperança, a doçura, o desespero e a Queixa das Almas Jovens Censuradas, o extraordinário poema de outra Natália musicado e cantado por José Mário Branco.

 

Não vi nenhum dos nossos governantes, nenhuma daquelas personagens que preenchem o espaço mediático, que nos embaraçam precisamente com a sua ignorância, incompetência e banalidade. Ninguém que se olhasse naquele espelho onde todos nos olhámos, confortavelmente embrulhados numa manta que, gentilmente, o Teatro Meridional proporciona à plateia, depois de um átrio acolhedor, com chá e café à discrição e fatias de bolo a 1€, num mealheiro que confia na boa-fé de quem lá está.

 

Pelo bilhete de 5€, recebemos muito mais que qualquer dinheiro possa pagar - a magia, o estímulo, a emoção, a lição de História, o reencontro connosco, com este Portugal tão dilacerado e, no entanto, tão apelativo. Como nos parece impossível que este país sempre tenha sobrevivido a revoadas e a esta sina fatalista de ciclicamente se destratar, se envergonhar, se dividir, sempre por aqueles em quem confiamos e nos desmerecem, sempre pelas atitudes de resignação enfastiada e triste, d'Esta Gente/ Essa Gente que paga para ser humilhada, que não enterra o dente, embora permanecendo, no fundo da noite da desilusão, num qualquer espaço de alma, esperança.

 

Passa o tempo e nós vamos reinventando o sofrimento, de várias formas e nas várias modas, com a circularidade do inevitável, ou dos golpes e contragolpes que nos empurram para breves instantes de clarividência.

 

O Teatro Meridional habituou-me a espectáculos de luxo. Do luxo da qualidade da escolha dos textos representados, do espaço cénico, do jogo de luzes, do enquadramento musical. Habituou-me ao maravilhoso que é perceber quanto a inteligência, a sobriedade e a criatividade podem ser os motores do desenvolvimento, quanto a arte é indispensável a este animal que somos.

 

À Natália Luíza tenho até pudor de lhe dizer o quanto a admiro, o quanto me orgulho por poder fazer parte do público que a aplaudiu de pé, após um pouco mais de 1 hora em palco, a preto, branco e cinza, em círculos concêntricos do nosso destino marítimo, com essa voz que nos envolve e estimula, nos agride e acarinha.

 

A toda a equipa do Teatro Meridional os meus parabéns, renovados e embevecidos, por mais um momento de rara beleza. Já só faltam 3 recitais, nos próximos dias 19, 20 e 21 de Março (21:30h) - dêem-se ao luxo de não os perder.