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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Dos abutres

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Diário de Notícias

 

 

Na rádio e na televisão os pivots insistem com todos os entrevistados na pergunta de como se poderia prever esta tragédia - falta de estratégia, escassez de meios, enfim, tudo.

 

Convinha que houvesse mais decoro. A procura de bodes expiatórios não é compreensível da parte de quem tem obrigação de informar e não desinformar. Há pouco um meteorologista disse que a causa da magnitude deste incêndio é a seca, a falta de água no solo e na atmosfera, para além dos ventos.

 

Tudo deve ser investigado e o que houver a corrigir corrigir-se. Mas a tentativa de aproveitamento político desta situação é vergonhosa e bem típica dos abutres.

Das memórias que moldamos

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Ontem fui ver o filme The sense of an ending. Tal como o livro, capta este dilema com que nos defrontamos ao revisitar a vida, as relações que tivemos, as aspirações, as desilusões, os caminhos que fomos percorrendo empurrados pelo caos ou pelo acaso. Excelentes actores, excelente atmosfera, numa adaptação muito feliz deste grande livro de Julian Barnes.

 

A forma como nos lembramos dos acontecimentos, sejam eles individuais ou coletivos, pode não ter nada a ver com a realidade. Aliás, o que é a realidade? Como registar os testemunhos das pessoas que, cada uma à sua maneira, com as suas vivências, as suas emoções, os seus receios, as suas capacidades e competências, nos soam tão diferentes? Cada olhar, cada vida, cada processamento dos acontecimentos é único e aparece como a única realidade. E todos processamos a nossa história protegendo-nos, guardando apenas o que menos nos dói ou afoga, o que mais nos ilustra e melhora, numa narrativa de boas intenções e pequenas vitórias, enterrando as cobardias, as indignidades, as mediocridades, a irrelevância de cada existência.

 

Quando falamos da nossa memória colectiva, de como nos esquecemos dos tempos traumáticos, das políticas transviadas, de políticos que não souberam ou não quiseram fazer serviço público, percebemos que, no fundo, estamos apenas a preservar a nossa imagem como povo, empurrando para as catacumbas os maus momentos, as más pessoas, apenas porque nos é penoso aceitar que confiámos e acreditámos em quem não merecia, que não soubemos ler para além da superfície.

 

Para mim, e fazendo a minha autoinvestigação retrógrada, é bastante óbvia a percepção que construí de José Sócrates. Nada do que possa agora pensar ou dizer apaga a inacreditável e assustadora incapacidade da Justiça, o perigo para a democracia e para a segurança dos cidadãos da inexistência de um Estado de Direito que o seja. O que realço é a minha própria resistência em ver e interpretar palavras, respostas, atitudes que, segundo as habituais normas de conduta pessoal e social, alteram e deslustram a imagem que dele fiz, ao longo destes anos. Não me é possível fechar os olhos e tapar os ouvidos às declarações, artigos e entrevistas que tem dado em todo este processo Kafkiano. Não me é possível, por muito que a dúvida sistemática e a crítica científica me guiem, aceitar como normais as amizades desinteressadas dos seus milionários amigos, as contraditórias versões que vai fornecendo, por si ou através dos seus advogados, a alteração de argumentos à medida das necessidades. É-me muito penoso olhar-me ao espelho e pensar que me deixei enganar, manipular, encantar, acreditar, na boa-fé de quem nos governou durante tantos anos.

 

Não estão em causa a legitimidade e a implementação de medidas, muitas de grande coragem e visão. Mas a verdade é que votamos em pessoas, mesmo que intelectualmente saibamos que são orientações políticas que estamos a escolher, mas estas só se concretizam com a actuação de pessoas para pessoas, e são sempre elas que mais importam. Por isso mesmo entendo o quão difícil é encararmos as nossas dúvidas, revermos a história que construímos com os factos que escolhemos, alterámos ou embelezámos, redescobrir aqueles a quem amámos, admirámos ou seguimos, os nossos líderes, amantes, amigos ou adversários, porque somos sempre nós, como seres individuais ou como comunidade, que colocamos em causa.

 

Somos mais do que nos lembramos e as nossas memórias moldam uma imagem que nos conforta. A sua revisitação é uma viagem dolorosa a que, mesmo sem aviso, o destino nos obriga.

Inadmissível

Sejam quais forem as razões dos taxistas é inadmissível o que se está a passar em Lisboa. Espero que o governo, que tem legitimidade democrática, assegure a normal circulação na cidade de Lisboa.

 

As imagens da forma irracional e violenta desta chamada manifestação, que bloqueia os acessos ao aeroporto, assalta veículos e ameaça toda a gente, foram a melhor propaganda para a UBER.

 

Da construção de muros

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Zenos Frudakis

 

Não sei se contaminada pelo 25 de Abril de 74 se apenas pela euforia própria de quem leu muito na adolescência e aprendeu a falar de todos os assuntos, sem tabus, a nova forma de debate na nossa sociedade cheia de apelos e hinos à tolerância, espanta-me cada vez mais.

 

Não é possível trocar opiniões de forma aberta e leal, esgrimindo os argumentos com verdadeiro respeito pelo oponente. Neste momento ou se é a favor e consequentemente amigo, bom, sensível, sensato, amante dos pobres e oprimidos, solidário, justo, enfim, um anjo armado da justiça divina, ou se é contra e inevitavelmente horroroso, criminoso, nojento, estúpido, rígido e empedrado, com o ranço do reaccionário, do mau, do opressor, do amante do poder que corrompe.

 

O comportamento, a linguagem, os gestos, as vírgulas e a moralidade, julgada por quem se sente e julga detentor da verdade, estão sempre sob escrutínio. As causas que se defendem, com a certeza e o fundamentalismo sempre militantes, não deixam nunca margem para dúvidas, perguntas, remotas hipóteses de eventuais análises distintas e, muito menos, de qualquer possibilidade de reavaliação.

 

O espírito autoritário espreita a cada esquina e a rotulagem pública, antecedida e precedida de insultos mais ou menos criativos, é a norma, enquanto se defendem as liberdades das minorias, só de algumas, claro, porque só alguns comportamentos e só algumas escolhas morais podem ser sancionadas pelos bons e pelos bravos defensores da moral e dos bons costumes, cuja definição vai mudando ao longo dos tempos. As leis são brandidas quando justificam as suas ideias, tal como o anátema da pestilência para a desinfecção social, com céleres divulgações dos deveres dos puros para que evitem contaminações, mas logo relativizadas ou mesmo iníquas, se não preenchem as imediatas necessidades dos acusadores/ defensores.

 

É triste, redutor e cansativo. E pouco sério. E pouco, muito, muito pouco.

 

Da incomodidade

Sempre me surpreenderam as pessoas que declaram não se importar nada como o que pensam delas. Eu não sou assim. Importo-me com o que as pessoas pensam de mim, principalmente se são pessoas que prezo e/ ou me são afectivamente próximas.

 

Fiquei bastante incomodada com a polémica gerada pelo meu post sobre o último livro de José António Saraiva. Tenho algumas certezas, mas estas são cada vez em menor quantidade, sobre cada vez menos assuntos e cada vez mais incertas. As dúvidas sobre o que leio e o que ouço são crescentes, pois é frequente, ao aprofundar os assuntos tocados pelos títulos e frases assertivas que pululam pelo espaço público, encontrar motivos que me levem a concluir o exacto contrário daquilo que tinha sido a minha opinião na primeira abordagem. Por outro lado, não gosto de me envolver em polémicas em que se dizem coisas de uma dureza que, habitualmente, não se usa quando em presença do outro. A face inexpressiva do monitor desliga muitos dos filtros de auto-censura, pelas mais diversas razões. Além disso, talvez pela cautela e pela tentativa de ver o outro lado da questão (até por deformação profissional), arranjo sempre argumentos que podem justificar várias conclusões que muitas vezes são contraditórias.

 

Por isso, e porque fiquei com a sensação de não estar a ser compreendida ou, pior ainda, de não estar a ser justa, acabei por decidir voltar ao tema, após grande hesitação. A intimidação de que falava referia-se ao julgamento público violento de abjecção e nojo para quem tivesse a audácia de ler o livro. As palavras têm um poder que reconhecemos, racional e emocionalmente, pelo que ninguém gosta de se ver englobada no grupo dos abjectos. Mesmo que a intenção não seja essa, estas trocas de palavras intimidam e acabam por refrear quem discorda, que prefere não o assumir. A possibilidade de estar a dar visibilidade a um livro e a uma pessoa com quem não devemos perder tempo, foram outros aspectos que me levaram a ponderar não abordar de novo a questão.

 

Enviaram-me o dito livro por email e li-o. É um livro medíocre, mal escrito e totalmente desinteressante de uma criatura com idênticas características. O que mais me impressionou foi confrontar-me, mais uma vez, com a menoridade intelectual e a mediocridade das pessoas que ocuparam lugares de destaque, em áreas tão importantes como, neste caso, o jornalismo dito de referência. A ideia que este indivíduo provinciano, bacoco e deslumbrado tem de si mesmo é espantosa, ao elucidar os leitores que divulga histórias que contribuem para a História. Mas que pensará Saraiva que são contributos para a História? É quase anedótico se não fosse tão triste. No fundo o que ele mostrou, qual pavão sem penas, é que foi e é uma pessoa importantíssima porque privou com os ilustres deste País e porque lhes servia de confidente.

 

Os crimes de devassa de privacidade que lá estão são isso mesmo – crimes - e como tal devem ser tratados. O problema é que num País em que a Justiça é lenta e cara e em que os cidadãos sentem a impunidade como a norma, as vítimas ficam impotentes perante a chacota de quem adora e se alimenta destas notícias. Não se pode impedir nem regulamentar a indecência mas podemos não a propagar e reagir contra ela. No entanto só sabemos o que ela é se a conhecermos, é só a devemos combater da forma que, na nossa sociedade civilizada, se entende por combate – nos tribunais. A minha total solidariedade é, obviamente, para quem viu a sua privacidade devassada e que não desiste de lutar pelos seus direitos.

 

É muito fácil perorar sobre os princípios e os valores quando os problemas não nos atingem directamente. Confesso que não sei se a minha reacção teria sido esta caso fosse eu uma das visadas pelo Saraiva. Mas quero acreditar que sim.

 

Portugal (cada vez mais) desigual

Eu ainda me lembro do Programa de Emergência Social, apresentado pelo governo PSD/ CDS. Esse plano tinha como objectivo minorar o impacto da crise nos segmentos mais desfavorecidos da sociedade.

 

No estudo tornado público pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, é bem patente quais os segmentos da sociedade que foram mais poupados durante a crise. Vale a pena visitar o site e meditar na tremenda hipocrisia de quem está agora tão preocupado com a hipótese de redireccionar os custos da crise para o sector minoritário que mais ganha, em Portugal e que, em termos percentuais, menos contribui com os seus impostos.

 

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Do empobrecimento dos pobres

O terrível e triste desperdício que foi a governação da Troika e da coligação PSD/CDS serão algumas das conclusões do estudo da Fundação Manuel dos Santos - Portugal desigual. Os jornais adiantam que os pobres, os jovens e as pessoas mais qualificadas foram aqueles que mais perderam com a crise. Hoje 1 em cada 5 portugueses vive com menos de 422 euros.

 

A desigualdade aumentou muito durante estes anos e quem menos perdeu foi precisamente o pequeno grupo de pessoas mais ricas. Isto não é populismo, é a realidade. Por isso, quando ouço falar de imóveis no valor de 600.000 euros facilmente adquiridos por quem pertence à classe média, sinto que a falta de vergonha não tem limites.

Moral e bons costumes

 

 

 

 

 

 

 

 

Tudo tapado, alguns destes outfits não deixam as caras destapadas. Vão começar a proibi-los também?

 

Este tipo de medidas não só são atentados contra a forma de viver e sentir ocidentais, como é totalmente contraproducente e apenas acentua a vitimização de quem se diz excluído e marginalizado. Esperemos que o bom senso impere.

Curtíssimas

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Jacob and the Angel

Sir Jacob Epstein

Tate

 

São de Verão, mas poderiam ser de qualquer outra estação.

 

  • O palavreado dos nossos políticos/ figuras públicas é cada vez mais vulgar - a lengalenga dos comentadores é sempre a mesma, os assuntos repetem-se ciclicamente nesta época, a aridez e a secura informativa queimam tudo.
  • É impressionante a desfaçatez, também eterna, das exigências de medalhas olímpicas a atletas e a modalidades de que ninguém fala durante os 4 anos de intervalos inter olimpíadas. Quanto à importância da participação independentemente do pódio, já não se disfarça a culpabilização de não se fazer parte da percentagem dos vencedores.
  • É uma pena que as experiências anteriores não ensinem nada - os secretários de estado que viajaram a expensas da GALP já se deveriam ter demitido. Independentemente dos contornos criminais que a conduta possa configurar, é uma ponta solta para o ataque político a que o governo não se pode dar ao luxo.
  • Tenho a sensação de que a Procuradoria-Geral da República abre inquéritos ao arrasto do ruído mediático.
  • Já todos sabemos que a apresentação de imagens e filmes de fogo vivo excitam e motivam os pirómanos, tal como a multiplicação mediática dos corpos e das chacinas perpetradas pelos criminosos e terroristas apenas servem para propagar o medo, mas não há o menor vislumbre de um sobressalto de consciência e de sensatez da parte das televisões que, pelo contrário, rivalizam entre si medindo os minutos dedicados à exposição das chamas, dos desgraçados que perderam tudo, do desespero das populações - a tudo isto chamam o direito à informação.
  • A informação veiculada pelos jornais está cada vez mais ao nível da que usufruímos ao ler as opiniões e as partilhas requentadas do facebook.

 

Não sei bem porque ainda vou escrevendo alguma coisa. A total irrelevância do que escrevo deveria ensinar-me a resoluta opção pelo silêncio. Aquilo a que chamo poesia talvez só o seja para mim; os arroubos de cidadania não têm qualquer impacto, a partilha de opiniões são-no apenas para um círculo muito restrito que não necessita de ler o blogue. Porquê esta necessidade de protagonismo mediático? Nem é protagonismo nem é mediático. Suspeito que seja apenas triste e ligeiramente ridículo.