Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da reconcertação social

Confesso que não entendo muito bem a razão pela qual, se o PS podia ter acertado previamente com o PCP e o BE a redução do pagamento especial por conta, insistiu na baixa da TSU. Ter-se-ia evitado toda esta embrulhada, em que ninguém sai muito bem.

 

Penso que é muito importante a renovação de um compromisso, plataforma, acordo, chame-se o que se lhe chamar, para cimentar o apoio parlamentar ao governo. A repetição de episódios destes vai minando a Geringonça e adivinham-se novos confrontos entre governo e parlamento.

O adensar das nuvens

manuel alegre.JPG

Diário de Notícias

 

O BE e o PCP estão inebriados com a Geringonça. Espero que o PS seja mais realista e menos arrogante. Manuel Alegre tem toda a razão. O PS deveria preocupar-se em cimentar, com os seus parceiros da esquerda, um relacionamento parlamentar que garantisse mais 3 anos de legislatura, em vez de tentar calar e menorizar os descontentamentos e as opiniões contrárias.

 

É mau sinal e passa uma mensagem de enorme insegurança.

 

Do esboroar do projecto Europeu

antonio vitorino.jpg

A sensação difusa de que a União Europeia se está a esboroar está cada vez mais intensa e real. Quando António Vitorino, ex-comissário e europeísta convicto, na rentrée política do PS afirma que a divisão entre os grupos dos ganhadores e perdedores é uma ameaça ao projecto europeu, podemos estar certos de que, no PS, começa o afastamento ao europeísmo militante.

 

Já não é possível ignorar os sinais que se foram acumulando ao longo de tantos anos e que se agudizam diariamente. A desigualdade, a falta de solidariedade e de coesão entre os países da Europa Central e do Norte e a Europa do Sul, o desemprego galopante, o esfarelamento da democracia nos países da periferia sob o jugo das dívidas e da recessão económica e a crise dos refugiados, confluem para a tempestade perfeita.

 

O populismo e a xenofobia aumentam e estão predominantemente (mas não apenas) do lado dos euro-cépticos. O afastamento entre as populações e os representantes europeus é cada vez maior e está a ser arregimentada pelos extremismos. A crise dos refugiados ameaça ser a gota de água pela incapacidade demonstrada na sua resolução, com a proliferação de muros entre fronteiras e o alargamento das sensações de insegurança e de medo por entre as populações.

 

Angela Merkel está a perder o seu eleitorado sendo uma das poucas vozes que se mantém fiel ao seu compromisso com a integração e o acolhimento dos refugiados. Mas as opiniões públicas revoltam-se contra o que pensam ser a razão da sua própria pobreza e insegurança. Os líderes extremistas têm sido muito bem sucedidos em integrar o pensamento de que o que é diferente é perigoso.

 

Infelizmente estou convencida que as forças centrífugas são cada vez mais fortes e que não há arte, engenho nem vontade para dar a volta à situação, de forma a que os europeus se possam reconciliar uns com os outros, vencendo a desconfiança de que falava António Costa, recuperando os valores que estiveram na fundação desta União.

Da confiança - Orçamento de Estado aprovado

A direita desesperada tem produzido afirmações absolutamente obscenas, mas que não parecem indignar os nossos comentadores do costume. Não se sente o sobressalto ao ouvir o ridículo de afirmações como a de Passos Coelho, que acusa o governo de ajoelhar perante a Europa. É de uma desvergonha a que não consigo habituar-me.

 

Entretanto e calmamente, ao fim de tantos profetas da desgraça a vaticinarem as reticências do PCP e do BE, eis que o Orçamento será aprovado por toda a esquerda parlamentar, cumprindo o compromisso que a que se obrigaram - o PS a governar com o acordo do PCP, do BE e dos Verdes, O PCP, o BE e os Verdes a apoiarem o governo do PS.

 

Para o ano, logo se vê.

Da governança comprometida e descomprimida

governo debate.jpg

 

Bons sinais os deste governo. O clima vai descomprimindo e respira-se de alívio. António Costa está a justificar a fama de fazedor e de conseguir atingir compromissos.

 

O que se vai ouvindo da parte do Ministério da Saúde é de aplaudir de pé. Tenho falado várias vezes daquilo que, a meu ver, é urgente para uma verdadeira reforma do SNS, indispensável aos desafios que se colocam a uma sociedade que tem de acomodar o envelhecimento populacional e o consequente aumento de doenças crónicas e onerosas, o desenvolvimento tecnológico e o aumento exponencial dos custos, a crescente especialização e as alterações de gestão dos recursos humanos escassos, mal distribuídos e desmotivados.

 

Por isso vejo com muita esperança estes sinais de projectos de verdadeira mudança e vontade de resolução de problemas, com a saúde mais próximo dos cidadãos.

 

Gostaria de estar tão optimista em relação à Educação, mas o fim dos exames do 4º ano do ensino básico, assim como a suspensão da prova de avaliação dos professores contratados, deixam-me muitas dúvidas. Os exames aos alunos, principalmente em fins de ciclos, não me parecem nada mal e não comungo da opinião dos traumas e dos sustos das crianças. Acho que se deve encontrar um modelo que seja eficaz na avaliação das aprendizagens, responsabilização dos professores, das escolas e dos alunos. Por outro lado sempre defendi que o Estado deve escolher os profissionais mais capazes e mais competentes para seus servidores e a educação é um dos serviços públicos por excelência em que essa escolha se reveste de enorme importância. Aguardo qual a forma e modalidade de escolha definida por este governo. Entretanto o regresso do até-há-pouco-tempo-eclipsado Mário Nogueira não augura nada de bom.

 

Mas não há dúvida de que o governo tem merecido a nossa confiança. A tentativa de anulação da privatização da TAP, a reversão da concessão dos transportes colectivos de Lisboa e Porto e a forma como está a tentar resolver o problema do BANIF são provas de que tem um bom senso que nos permite ter alguma fé no futuro.

 

A ver vamos!

Um político a sério

governo esquerda.png

 

Mesmo parecendo contraditório com o que expus no post anterior, devo dizer que António Costa tem demonstrado ser um verdadeiro e hábil político. A forma como transformou uma derrota em vitória é inegável e é a razão porque tantos de nós o desejamos como Primeiro-ministro.

 

O que estamos a viver, com reservas ou sem elas, é bem o espelho de uma reviravolta histórica na nossa vida democrática. E devo ampliar a minha admiração a Catarina Martins e a Jerónimo de Sousa que, mesmo com todas as cautelas e cepticismos, souberam abrir uma hipótese de entendimento, impensável no próprio dia das eleições.

 

Espero que a Europa e os ditos "mercados" saibam respeitar a democracia em Portugal, com os seus tempos e as suas especificidades. Abre-se uma esperança de verdadeira mudança que pode alastrar a outros países. É do êxito dessa mudança que a direita tem medo.

 

Uma nota para o artigo de António Barreto de hoje, no DN, um homem que parece ter desistido da sua posição esclarecida e moderada. A síndroma de Medina Carreira é, infelizmente, contagiosa.

Clarificações

As alterações políticas a que assistimos desde 4 de Outubro fazem com que me sinta em grande confusão ideológica, pois queria muito uma alteração governativa com a inexorável derrota da política destes últimos 4 anos, e senti-me espantada e esperançosa com a hipótese de poder realizar este desejo.

 

Mas é bom que nos recentremos e nos distanciemos desses desejos e vontades, para que o realismo e o pragmatismo imperem:

  1. António Costa foi eleito Secretário Geral do PS, em substituição de António José Seguro porque, com ele, o PS teria assegurada uma estrondoso vitória eleitoral.
  2. António Costa apresentou-se a eleições como candidato a Primeiro-ministro, ambicionando uma maioria absoluta para governar. Sempre defendeu entendimentos com os partidos à sua esquerda e afirmou por diversas vezes a quase impossibilidade de acordos com a direita.
  3. António Costa perdeu as eleições por uma margem bastante clara.

 

Nada disto impede nem retira legitimidade democrática à alternativa de um governo com apoio parlamentar dos partidos à esquerda do PS. Mas a legitimidade política de António Costa para liderar esta solução é fraca, tenho que o admitir.

 

António Costa não procurou o reforço da sua legitimidade política propondo um congresso extraordinário e perguntando a opinião dos militantes e simpatizantes do PS - os mesmos que o elegeram para candidato a Primeiro-ministro. Por isso, por muito que me agrade a hipótese de um governo de esquerda, por muito que repita a mim própria que nestas eleições se escolhem deputados e não primeiro-ministros, por muito que eu saiba que a soma dos deputados de esquerda é superior à soma dos deputados de direita, não deixo de pensar que esta solução precisa de ser sufragada pelos cidadãos.

 

Sendo assim, acho que Cavaco Silva deverá dar posse a António Costa e que o próximo (ou próxima) Presidente da República deverá convocar eleições antecipadas de forma a clarificar qual a solução governativa que os cidadãos querem: uma coligação de direita, uma coligação de esquerda ou um governo minoritário com apoios parlamentares à medida das necessidades.

 

Na verdade não me sinto confortável com um governo liderado por um PS que, até há bem poucas semanas, declarava, e com razão, que a única forma de garantir um governo de esquerda era tendo uma maioria absoluta; e também com partidos que, até há bem poucas semanas, juravam que o PS era semelhante à direita.

 

Os pragmatismos podem ser invocados em todas as circunstâncias e podem ser argumento para opiniões simétricas e contrárias. O PCP mudou e abriu esta brecha - o povo deve confirmar que é esta a sua opção, com António Costa à frente de uma coligação de governo ou parlamentar.

 

Por muito que rejubile com um governo liderado pelo PS toda eu clamo por um governo com estes partidos e com ideias a ganharem eleições.

 

Nota: acabo de ouvir Jerónimo de Sousa dizer que o PCP aprova o acordo com o PS. Este é, de facto, um tempo histórico, seja o que for que vá acontecer daqui para a frente. O próximo acto será protagonizado pelo Presidente Cavaco Silva.

Da novidade da (velha) política

 

governo esquerda.png

 

Desde a noite das eleições que viajámos através de uma espécie de buraco negro, como se 40 anos se mudassem de uma assentada. O que, ao contrário de muitos dentro do PS, considero positivo.

 

É extraordinário ouvir, após 40 anos, o PCP admitir que não é o mesmo ser governado pela coligação PSD/CDS ou pelo PS. Este volte-face permitiu que o PS, mesmo reconhecendo-se que este, pela mão de António Costa, se tivesse recusado a excluir o PCP e o BE da responsabilidade governativa, se transformasse no fiel da balança deste equilíbrio bastante instável..

 

Por outro lado o Presidente da República, apostado em não deixar qualquer saudade pelo triste exercício da sua triste função, tem ajudado bastante ao foco dado a António Costa, deixando-lhe a iniciativa política de fazer o papel de negociador. Em vez de ter chamado de imediato todos os líderes partidários de forma a pedir-lhes os compromissos que declarou exigir para dar posse a um governo, resolveu ignorar essa formalidade constitucional e indigitar Passos Coelho a iniciar as diligências para a formação do governo.

 

Neste momento está tudo em jogo:

  • Se a coligação não conseguir um entendimento com o PS, será que o Presidente vai dar posse a um governo minoritário de direita que busque apoios parlamentares à medida das necessidades?
  • Se o PS recusar apoio à coligação e conseguir um compromisso com os partidos à sua esquerda, será que o Presidente dará posse a um governo de maioria de esquerda?
  • Se não for possível viabilizar nenhuma das coligações, haverá governo de iniciativa presidencial ou governo de gestão?

 

O PS está entre 2 espadas - se apoiar a coligação, nas próximas eleições poderá ser canibalizado pela esquerda; se formar um governo com apoio de uma maioria de esquerda parlamentar, nas próximas eleições poderá perder o seu segmento mais à direita, que não lhe perdoará a guinada revolucionária, mas também poderá crescer à custa do BE e/ ou do PCP.

 

O BE está entre a espada e a parede - se não apoiar o PS ficará com o ónus de inviabilizar um governo de esquerda; se deixar cair as suas linhas vermelhas poderá estar condenado a desaparecer.

 

No caso da coligação: ou está completamente desnorteada, porque perdeu a liderança do processo político e não soube lidar com a reviravolta na esquerda, ou está a dramatizar, jogando a cartada da vitimização para conseguir uma maioria absoluta nas próximas eleições.

 

Uma coisa parece quase certa - qualquer que seja a solução governativa encontrada não será duradoura. O próximo Presidente terá que convocar eleições em início de mandato.

 

Isto sou eu a arriscar-me a novos inconseguimentos, que já se transformaram numa tradição. A que somei a minha crença, que se provou errada, de que Marcelo Rebelo de Sousa não seria candidato à Presidência. Sempre defendi que não trocaria o seu papel de entertainer com o da função institucional. Mais uma vez, enganei-me.

 

ADENDA: Esqueci-me de dizer que Paulo Portas é um actor político... irrelevante.

Do meu próprio inconseguimento (2)

resultados eleitorais.JPG

 

Já por diversas vezes ficou bem provado a minha total ausência de clarividência política. Confesso a minha incapacidade para perceber vários fenómenos na sociedade portuguesa.

 

O primeiro é o fato de uma enorme percentagem dos meus concidadãos pura e simplesmente se absterem de votar. O alheamento e o encolher de ombros, a par do permanente ruído dos queixumes, são uma marca identitária que me custa a aceitar.

 

O segundo é o sentido de voto que resulta destas eleições, após quatro anos de empobrecimento e retrocesso. Escusamos de versejar e tentar relativizar a perda de maioria absoluta da coligação de direita. Para mim é mesmo incompreensível que tenha ganho, por muito ou por pouco.

 

O terceiro é a atitude de António Costa que, desde a primeira hora, teve o meu apoio. Após tão estrondosa derrota – não esqueço que defendi que era ele que poderia levar o PS ao governo, substituindo António José Seguro da sua liderança invertebrada, não tem uma palavra para o combate interno que, fatalmente, se seguirá. Mesmo que não se demitisse, e admito que até seja importante manter a serenidade neste período imediatamente anterior às presidenciais, o que estaria à espera era que, pelo menos, anunciasse a realização de um Congresso extraordinário onde poderia reforçar (ou não) a sua liderança. O PS vai precisar de ter um líder incontestado e, neste momento, ou António Costa assume o risco de pedir que o desafiem e lhe disputem o lugar de Secretário Geral, ou o PS vai continuar em lutas internas enfraquecendo-se e esboroando-se.

 

Mas claro, isto sou eu que não entendo o resultado das eleições. Uma coisa é certa – teremos PAF por mais uns belos tempos. Este modelo foi sufragado e o PS terá que ter força para conseguir negociar algumas das suas bandeiras eleitorais.

 

Quanto às presidenciais – e que tal o PS repensar também a sua estratégia? É que se anuncia mais uma estrondosa derrota, seja ela com Sampaio da Nóvoa ou com Maria de Belém.

Do meu próprio inconseguimento

legislativas 2015.JPG

Por mais análises que faça ou ouça, nada nem ninguém me consegue explicar como é possível que a coligação PSD/ CDS possa estar no mesmo patamar ou à frente na intenção de votos dos portugueses.

 

Não percebo como se pode preferir a continuação de uma coligação que troçou e troça todos os dias de todos quantos cá vivem, de todos quantos se vão embora para poder viver, a António Costa e ao PS. Por muitos erros de campanha do PS, por muito inábil que seja António Costa, o PS e o seu líder são incomparavelmente mais credíveis*, competentes e capazes que Passos Coelho, Paulo Portas e as suas respectivas formações partidárias.

 

Espero que os meus concidadãos votem a 4 de Outubro. Podemos fazer muitas manifestações, falar muito alto e escrever muitos abaixo-assinados, mas é com o voto que temos a possibilidade de mudar qualquer coisa. É preciso votar a 4 de Outubro. Seja em quem for. Seja como for. É nossa a responsabilidade de manter ou mudar o governo.

 

*Convém também dizer que António Costa é incomparavelmente melhor e mais credível que António José Seguro, independentemente do que vier a resultar das eleições. Mesmo que António Costa tenha que se demitir, o que fatalmente acontecerá se perder as eleições.