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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

It seemed the better way

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It seemed the better way

When first I heard him speak

But now it’s much too late

To turn the other cheek

 

It sounded like the truth

It seemed the better way

You’d have to be a fool

To choose the meek today

 

I wonder what it was

I wonder what it meant

He seemed to touch on love

But then he touch on death

 

Better hold my tongue

Better learn my place

Lift my glass of blood

Try to say the Grace

 

Dez réis de esperança

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 Andy Scott

 

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto, 
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

 

António Gedeão

Balada de Outono

 Zeca Afonso

 

Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra 

 

 

Águas passadas do rio
Meu sonho vazio
Não vão acordar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P'ras bandas do mar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

A dor dos outros

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The mourners

 

A dor dos outros

Está fora da janela.

Entristece-nos

Como um ciclo de chuvas

Mas não nos molha os pés

Nem os cabelos.

 

Por vezes avistamo-la

Na soturna rua

Que a medo atravessamos.

Ou no café

Onde uma mão se estende.

 

Vamos então ao armário maior

Buscar o dó, a pena.

E ao porta-moedas

Rebuscar uns trocos.

 

Alguns de nós

Mas poucos, muito poucos,

Guardaram bagas

Que o tempo lhes ditou.

Verdades que hibernaram

No gelo das idades

E germinaram em caverna escura.

 

Só esses têm a coragem de ver

Que a dor dos outros

É sempre a nossa dor

Que anda em viagem.

E que, curvada,

Ao peso da bagagem

Nos persegue

E procura.

 

Isabel Fraga

Manual de despedida para mulheres sensíveis

vem a quinta feira.jpg

Filipa Leal

 

 

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,

não chorar para não enfraquecer o emigrante, 

mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,

dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas

com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala

que não pode levar mais de vinte quilos

(quanto pesará o coração dele? e o meu?),

três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,

oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia

e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,

ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda

(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),

pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,

pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas

e mesmo assim não chorar, nunca chorar, 

mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,

tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,

uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,

apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,

mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas, 

que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também

os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas 

até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,

com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,

e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,

cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,

cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.

 

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.

Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Mas que não chore. 

Desarrezoado amor, dentro em meu peito

Sa_de_Miranda.png

 

 

Desarrezoado amor, dentro em meu peito

Tem guerra com a razão, amor que jaz

E já de muitos dias, manda e faz

Tudo o que quer, a torto e a direito.

 

Não espera razões, tudo é despeito,

Tudo soberba e força, faz, desfaz,

Sem respeito nenhum, e quando em paz

Cuidais que sois, então tudo é desfeito.

 

Doutra parte a razão tempos espia,

Espia ocasiões de tarde em tarde,

Que ajunta o tempo: enfim vem o seu dia.

 

Então não tem lugar certo onde aguarde

Amor; trata traições, que não confia

Nem dos seus. Que farei quando tudo arde?

 

Sá de Miranda

A hard rain's a-gonna fall

Patti Smith

Prémios Nobel 20016

 

 Bob Dylan (1964)

 

 

Oh, where have you been, my blue-eyed son

And where have you been, my darling young one

I've stumbled on the side of twelve misty mountains

I've walked and I've crawled on six crooked highways

I've stepped in the middle of seven sad forests

I've been out in front of a dozen dead oceans

I've been ten thousand miles in the mouth of a graveyard

And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, and it's a hard

It's a hard rain's a-gonna fall

 

Oh, what did you see, my blue-eyed son

And what did you see, my darling young one

I saw a newborn baby with wild wolves all around it

I saw a highway of diamonds with nobody on it

I saw a black branch with blood that kept drippin'

I saw a room full of men with their hammers a-bleedin'

I saw a white ladder all covered with water

I saw ten thousand talkers whose tongues were all broken

I saw guns and sharp swords in the hands of young children

And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard

It's a hard rain's a-gonna fall

 

And what did you hear, my blue-eyed son?

And what did you hear, my darling young one?

I heard the sound of a thunder that roared out a warnin'

Heard the roar of a wave that could drown the whole world

Heard one hundred drummers whose hands were a-blazin'

Heard ten thousand whisperin' and nobody listenin'

Heard one person starve, I heard many people laughin'

Heard the song of a poet who died in the gutter

Heard the sound of a clown who cried in the alley

And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard

It's a hard rain's a-gonna fall

 

Oh, what did you meet, my blue-eyed son?

Who did you meet, my darling young one?

I met a young child beside a dead pony

I met a white man who walked a black dog

I met a young woman whose body was burning

I met a young girl, she gave me a rainbow

I met one man who was wounded in love

I met another man who was wounded with hatred

And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard

It's a hard rain's a-gonna fall

 

And what'll you do now, my blue-eyed son?

And what'll you do now, my darling young one?

I'm a-goin' back out 'fore the rain starts a-fallin'

I'll walk to the depths of the deepest black forest

Where the people are many and their hands are all empty

Where the pellets of poison are flooding their waters

Where the home in the valley meets the damp dirty prison

And the executioner's face is always well hidden

Where hunger is ugly, where souls are forgotten

Where black is the color, where none is the number

And I'll tell it and think it and speak it and breathe it

And reflect it from the mountain so all souls can see it

Then I'll stand on the ocean until I start sinkin'

But I'll know my song well before I start singin'

And it's a hard, it's a hard, it's a hard, it's a hard

It's a hard rain's a-gonna fall

 

Manual de Cardiologia

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Uma voz que de fora narra a dor, quase sussurrada, quase sem paixão, uma voz apaixonada por um amor que não chega, que não se chega, que não lhe chega.

 

O sofrimento da antecipação, da espera, do que sabe de antemão que falhará. A transmutação entre o amador e a amada, quando nos damos conta de que o narrador agora é a mulher, aquela por quem se sofre e se desce ao abismo. E a mulher é justificada por si mesma pelas palavras do amador que se funde nela, nas suas razões e nos seus desesperos.

 

Há um caminho de sofrimento e aproximação, de sofrimento e fusão, de sofrimento e distanciamento, sempre num sussurro lento e triste, por vezes mais arrebatado. O título é particularmente feliz ao aludir a uma observação clínica, em que as palavras encadeadas e ritmadas são o pulsar cardíaco, aquele músculo que mesmo depois de todo o sofrimento resiste a recupera, mais lento e com cicatrizes.

 

As palavras repetidas sugerem a cadência e o ritmo: aquela mulher, coração, pedra, palavra, casa, amor, espera. A casa como a materialização do corpo e da esperança que se desespera. É uma poesia com uma melodia própria e dolorosa.

 

Manual de Cardiologia, de Fernando Pinto do Amaral, é um livro absolutamente surpreendente, que nos dói e quase nos redime.

 

GENUFLEXÓRIO

 

Soou o meio-dia    Entra agora

nessa pequena ermida    Dizem ter

talvez quinhentos anos    Lá em baixo

a Torre de Belém

 

Entreabre essa porta

Cinco séculos depois ainda estás

aqui    ainda a vês

entrar contigo aqui    ainda ouves

o mesmo coração a sua mesma

música

e continuas sem saber porquê

 

Ajoelha de novo    Já não crês?

E todavia ficarás

À espera de uma voz    à espera de uma

primeira última luz

 

Encontro

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Aproxima-te mais    Só mais um passo

o último

Há uma velha amiga que te chama

Retribui-lhe esse amor

Está sempre à tua espera e ao contrário

da outra

esta não faltará ao teu encontro

 

Sede

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Está vazio o teu peito    No lugar

do coração talvez um ataúde

ou nem isso    uma sombra

igual a essa noite onde procuras

o mar    o imenso mar    e só encontras

sede