Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

No limite

musico sem cabeca.jpg

Músico sem cabeça

Hans Stellingwerf 

 

 

1.

Queremos-te plana sem rugosidades centrais

ou periféricas. Silenciosa no trabalho

da sobrevivência. Transparência total e etérea

na competência da inexistência. Queremos-te invisível

na omnipresença do amaciar da nossa vida.

Aprende.

 

 

2.

No limite do dia escolho a chuva

os passos na calçada que se esvai.

Ao procurar as luzes que se apagam

acendo os olhos solto os cacos

da renovada ilha onde me escondo.

Nada quero e nada sou

neste espaço limitado que escolhi.

 

Apagamento

guardians of time.PNG

The Guardians of Time

Manfred Kielnhofer

 

 

Se me encontrares a vaguear

braços e pernas disciplinadas

na estrada do esquecimento

pegadas de areia nas névoas

do olhar

 

se me chamares pelo nome

que se despegou do corpo

e se gastou como a pele

que me cobre o embaraço

do olhar

 

se me pegares docemente

e me guiares até ao abismo

alisando a água e o tempo

finalmente poderei apagar

o olhar.

 

Intervalo

super lua 1.png

 

 

Agora que o dia se despe

numa cama com sonhos à medida

agora que a noite de veste

numa lua de sombra descabida

guardo nas horas que dispo e visto

as roupas de um mundo que espera

o intervalo de uma vida.

Luto

incendios-luto.jpg

Move notícias

 

 

Quantas e tantas pessoas boas genuínas preocupadas e sabedoras

dizem e gritam e choram e blasfemam e opinam e decidem e exigem.

Quantas e tantas pessoas generosas e emotivas

explicam e pedem e replicam e escrevem e declamam.

Só eu com os meus dedos com a minha voz com as minhas lágrimas

gelei dentro da minha agonia da minha indecisão do meu espanto da minha dor.

Só eu que não tenho gestos para apagar incêndios

nem salmos que sustenham a terra nem mãos que reguem a vida

quero tanto o jorro da chuva a limpeza do vento

alguma coisa que lave a alma

do peso do negrume da desesperança.

Pudor

incendios.jpg

Euronews

 

 

 

De cinza e branco de negro e ocre

esfarelam as mãos e calcinam esperanças

de olhos parados na solidão dos escombros.

A exigência do silêncio a obrigação ao pudor

de todos os que esquecemos o resto do mundo.

Cortinas

esfera Fritz Koenig.JPG

Esfera

Fritz Koenig

 

As nossas janelas

pintam-se de cinza esguicham

sangue gritam os desastres

do mundo. Se correr as cortinas

e quiser viajar percorrendo

longos poemas claridades

imaginadas amores muito ansiados

os olhos abandonam-me

e atravessam as colinas

do desespero.

Reacender

Sagrada_Familia_01.jpg

Sagrada Família

 

 

 

Penduramos diariamente palavras desgostadas

e olhos lacrimosos de tantas e tão frequentes

almas danadas desesperadas enlouquecidas

que nos dilaceram e transformam em papa

de forma a maltratarmos e descosermos

as razões da tolerância.

 

Estão árvores janelas candeeiros e mãos

retalhadas e cheias de letras

gastos os versos e fechado o olhar

para que se possam reacender.