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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Escrita íntima

 

 

As viagens de comboio são óptimas oportunidades para ler. Ultimamente tenho passado várias horas entre Lisboa, Porto e Coimbra, aproveitando para me deliciar com alguns livros que vão aguardando em cima das mesas.

 

Escrita íntima é um livro editado pela Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM) e pela Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva (FAZVS) e é constituído por um conjunto de cartas trocadas entre os dois pintores, organizadas em três grupos: o primeiro nos anos 30, o segundo durante o seu exílio brasileiro e o terceiro entre 1947 e 1961, correspondendo ao regresso a Paris e à reconstrução das suas vidas.

 

É um livro fascinante, porque fascinante foi a história de cada um dos pintores, a sua obra, o enquadramento histórico com as guerras, as ditaduras, os anos de interregno ao fugirem para o Brasil (Arpad Szene era judeu), a efervescência artística e intelectual na pintura, na escultura, na literatura e até na música, as viagens, o desenvolvimento da sua arte individualmente e inserida nas correntes das várias épocas que atravessaram e, principalmente, pela sua história como casal que se encontrou e se amou tão total e completamente que faz deles os protagonistas de uma extraordinária história de amor.

 

As cartas que agora são publicadas, no original (francês com vários termos estrangeirados e adaptados, na sua maioria códigos de carinho e ternura) e traduzidas para o português, com fotografias das próprias cartas e de alguns dos desenhos com que se comunicavam, de quadros e de fotografias dos dois, em casa, com amigos, a trabalharem, mostram uma entrega e um amor através dos mais simples e habituais momentos diários, que não deixa ninguém indiferente.

 

Imagino que tenham tido uma vida cheia cheia, com partidas e recomeços, com dificuldades e coragem, sempre perseverando na procura dos seus caminhos, influenciando-se e apoiando-se mutuamente, sendo um o guia e a inspiração do outro, núcleo da sua força e amparo das suas fraquezas.

 

Onde estão os escritores, os guionistas, os realizadores, os investigadores deste país, que não se debruçam sobre esta incrível história de dois artistas amantes por toda uma vida tão repleta de experiências, tensões, viagens e arte, que estiveram no centro de movimentos artísticos tão importantes, que viveram a intensidade, as misérias e os fulgores do século XX?

 

É um livro inspirador. Está também a decorrer uma exposição, na FAZVS a propósito desta Escrita íntima, a não perder, certamente.