Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012
Demora

 

John Marin

 

 

Terei que saber reforçar os minutos que me sobram

pela angústia do conhecido.

Tenho que saber demorar as horas que não chegam

pela tácita compreensão da paciência.

Apresento-me à perícia

de quem repete diariamente gestos precisos

à avidez das inevitáveis dobras

de um tempo que demora a chegar

e tem pressa de partir.

 

 



publicado por Sofia Loureiro dos Santos às 21:43
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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012
Escolhas

 

 

 

Escolho o nada exactamente a simples existência do quotidiano sobressaltado alienado de trabalho e tarefas que se somam e seguem sem pausa. Escolho o conforto da mediania casa pão e mantas tardes de domingo em doce transformação do alimento em doce mansidão de carinho amassando o dia para os que amo. Escolho a surdez selectiva para o absurdo a cegueira propositada para a negrura a apatia planeada da placidez.

 

Passam rostos vozes entre o desligar da mente figuras indistintas e pomposas que se ouvem aplaudem acenam sisudas e bem vestidas apertadas e cingidas entre cinzentos e campainhas. Reconheço vagamente vultos de uma irrisória magnitude que incomodam como um arranhar agudo de giz na ardósia. Fogem os olhos da nuvem de poeira como as palavras pulverizadas dos fatos que se cumprimentam dos penteados que se opulenta.

 

Escolho o branco dos lençóis a música o ritmo repetitivo da vida que assinamos pontualmente desde que toca o despertador.

 



publicado por Sofia Loureiro dos Santos às 22:20
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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012
Espuma

 

Eugenia Pardue

 

Pequeno sabor a espuma que faz levitar

os dias pesados que enfrentamos.

Encosto as rugas e com elas as costas vergadas

no pequeno intervalo em que o mundo

se volta a encaixar.

 



publicado por Sofia Loureiro dos Santos às 11:08
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Domingo, 22 de Janeiro de 2012
Artesanato

 

 

 

Apesar de serem outros os órgãos detentores da corrente de escrita, apenas os dedos e os olhos materializam as letras. Pouco adequados instrumentos para tão sensíveis artesãos.

 

 



publicado por Sofia Loureiro dos Santos às 21:56
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012
Desligar

 

Que alternativas a esta situação? Vou tentando ouvir notícias, mas a saturação é demasiada. Um enorme bocejo e a exasperação esperam-me ao fim de poucos minutos. Vão passando dias e semanas com o burlesco trágico de marionetas que se levam a sério.

 

As figuras mediáticas, as representantes do nosso estado democrático, mantêm os contornos mas já perderam os pormenores. Os cidadãos nem sequer reconhecem os traços internos, já não vêm os limites das formas, já perceberam a ausência de espessura.

 

O ruído incomoda como mosquitos a meio da noite. É o melhor caminho para nos desligarmos da realidade.

 



publicado por Sofia Loureiro dos Santos às 22:36
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Sábado, 31 de Dezembro de 2011
Distraidamente

 

(…) passa distraidamente pelos vários canais de televisão à espera que passe o tempo que disparate isto do fim do ano é só um dia exatamente igual aos outros todos que mania esta de separar o tempo como se o tempo tivesse quebras e sinais vermelhos isto só serve mesmo é para comprar agendas diferentes e beber um copo a mais não lhe está a apetecer nada o espírito festivo pôr a mesa lavar a louça estar acordada até à meia-noite só porque é fim de ano tanta coisa que ainda ficou por fazer e o tempo não pára os dias passam à velocidade da luz exponencialmente mais depressa cada ano que envelhece a relativização do tempo que ainda estará para acontecer em relação ao que já passou já não aguenta mais retrospetivas nem as infindáveis listas de melhores qualquer coisa não percebe bem o que tem de comemorar quando o que se adivinha é tão mau suspira e desliga a televisão que são horas de andar com a festa pelo menos está dispensada delas por mais um ano (…)

 



publicado por Sofia Loureiro dos Santos às 18:46
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O banho

 

Degas

 

Não se lembra quando nem como começou o ritual. Todos os trinta e uns de Dezembro, pela tardinha, tomava um demorado banho, com tudo aquilo de que nunca se lembrava nos outros dias do ano. Sais, pétalas de rosa, espuma, horas de prazer e antecipação, pele delicadamente macia, fresca, rescendente a hidratantes e desodorizantes. Vagarosamente depilava-se, axilas, púbis, coxas e pernas, lábio superior, um retoque nas sobrancelhas. Quarto aquecido, a roupa de cerimónia a descansar no braço da poltrona, colar e brincos cintilantes em cima da cómoda, escova de crina para os seus cabelos.

 

A cerimónia de preparação demorava horas mas sempre perfeitamente cronometrada. Antes da meia-noite, com a mesa cheia de pequenas iguarias, o copo transbordante de champanhe, recebia o ano novo, como uma amante que se esmera para a consumação do ato. Mas ao contrário dos simples mortais, que de tanto ansiarem a felicidade nunca a encontram, a ela o primeiro de Janeiro nunca a desiludia. Só, entre o ambiente perfumado pela gula e pela luxúria, oferecia-se à celebração do que havia de acontecer.

 



publicado por Sofia Loureiro dos Santos às 15:36
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Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011
País

 

Carruço

 

País sem teto nem chão o meu país sem lágrimas

País sem beira nem perdão o meu país em lágrimas

País sem alma nem caixão o meu país sem nada.

 

Velo pelo meu País ardo pelo meu País

País sem ondas para navegar

País sem terra para semear

 

Grito pelo meu País caio pelo meu País

País sem medo para gritar

País sem tempo para esperar.

 



publicado por Sofia Loureiro dos Santos às 22:57
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Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011
Meio século

 

Cheryl Dolby

Grandmother Tree Sculpture

 

Depois será igual a antes

ontem idêntico a hoje

o mesmo que amanhã

uma linha contínua de tempo

com ligeiros desvios espaciais.

Cada instante diferente do anterior

distinto do seguinte

o ar do mundo a crosta da terra

a certeza do regresso

ao fundo ao fim a sempre

igual e diferente

naturalmente.

 



publicado por Sofia Loureiro dos Santos às 18:40
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Domingo, 25 de Dezembro de 2011
Rituais

Tiago Taron: 24ª madrugada 

 

Quando se comparam longínquos rituais em que se calam frustrações e solidões não assumidas, percebe-se que a felicidade se forma de pequenos instantes que lembramos e reconhecemos como inspiradores quando passados, enquanto a infelicidade se sente sempre presente e pressente-se quando se encara o futuro.

 



publicado por Sofia Loureiro dos Santos às 16:09
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(...) Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz/ mas isso era o passado e podia ser duro/ edificar sobre ele o portugal futuro [Ruy Belo]
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