Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Dos vários tipos de oração

 

Bansky

 

 

Repetir sempre que os ombros se curvam

 

Tem que haver um outro país, uma outra gente. Tem que haver uma outra Europa, um outro mundo.

Não é verdade a tristeza e a desesperança. Não é verdade a pobreza e a insegurança.

Tem que haver um outro sonho, uma outra certeza.

Sabemos que é possível, sabemos que o ruído dos fatos surdos, os gestos e os sorrisos mudos de quem coordena marionetas, podem mudar. 

Sabemos que tudo muda. Basta juntar os sinos e repicar. Basta juntar as mãos e resistir. Basta abrir a estrada e caminhar. 

Tem que haver um outro viver – vamos lutar.

 

Corridinho de Belém

 

 

 

E vai de roda o meu país

corridinho já lá vem

ora ouçam o que ele diz

microfone de Belém.

 

Vai um passo mais à frente

e três passos mais atrás

um coelho de repente

dá um pulo para trás.

Abre portas sem receio

nesta dança de pigmeus

fecha as portas do recreio

ai Jesus valha-me Deus.

 

E vai de roda a contradança

neste vira de espantar

sai da roda a esperança

sem vislumbre de voltar.

 

Soa agora o cavaquinho

vai de roda até fartar

parte a asa pucarinho

que a ordem é casar.

Se é feio e desdentado

tu és coxo lá do siso

vade retro ó danado

que de ti já não preciso.

 

E vai de roda o meu país

corridinho do desdém

ninguém liga ao que ele diz

microfone de Belém.

 

Sílabas

 

Almada Negreiros

Partida de Emigrantes

 

O meu país divide-se em sílabas

- por - ele tudo de nada acontece. Afunda-se

encolhe-se enruga-se esvazia-se em gente

mole e arrastada – tu - e eu manchamos a terra.

O meu país divide-nos e abre

os rios por onde se espalha e cresce

em múltiplas sílabas de dor – gal - de fim

afinal

Portugal.

 

Alongar

 

 

Tejo 

 

 

1.

Inclinada a cidade esvai-se

sangra pelas ruas em pedras rolantes

e passos cansados exausta

de mundo de inverno de pó.

 

2.

Ficamos sentados à beira do tempo

desistentes da vida assistimos

ao dobrar dos troncos

ao vergar das nuvens.

 

3.

Desenhei num mapa que só tu entendes

os cruzamentos em que alongamos

imensas e surdas despedidas.

 

Vozes

 

Wendy Dunder

 

Sabia que a olhavam de lado, como a uma louca. Sabia que era louca, mas apenas por ser racional.

 

Começou a falar consigo desde muito cedo. O silêncio da casa, o enorme espaço vazio à sua volta, a todas as horas do dia, em todos os gestos que ecoavam a solidão. Parecia que as vozes dentro de si rebentavam, enchiam o mundo, entonteciam. Não conseguia distinguir os pensamentos dos sons exteriores a si, do mundo.

 

Falar consigo materializava alguém que lhe era intrínseco e que, no entanto, não conhecia. Não precisava de ter um interlocutor, não precisava que se sentasse ao seu lado, que anuísse ou discordasse, que lhe lesse passagens de um livro, que lhe apreciasse a comida, que necessitasse de companhia.

 

Falar consigo dava-lhe conforto e segurança. Era como uma cadeira que esperava pelo seu descanso.

 

Mistério segundo

 

milagre

Gao Xingjian

 

Segundo mistério o homem desaba entre

os muros de uma cidade sitiada. À volta

fervem vapores sulfúricos gritam mil cabeças de ganso.

Segundo o mistério que nos desequilibra vale mais

a acidez de uma queda que a extrema volatilidade

das almas.