John Marin
Terei que saber reforçar os minutos que me sobram
pela angústia do conhecido.
Tenho que saber demorar as horas que não chegam
pela tácita compreensão da paciência.
Apresento-me à perícia
de quem repete diariamente gestos precisos
à avidez das inevitáveis dobras
de um tempo que demora a chegar
e tem pressa de partir.
TipToland: Painting the Burning Fence
Escolho o nada exactamente a simples existência do quotidiano sobressaltado alienado de trabalho e tarefas que se somam e seguem sem pausa. Escolho o conforto da mediania casa pão e mantas tardes de domingo em doce transformação do alimento em doce mansidão de carinho amassando o dia para os que amo. Escolho a surdez selectiva para o absurdo a cegueira propositada para a negrura a apatia planeada da placidez.
Passam rostos vozes entre o desligar da mente figuras indistintas e pomposas que se ouvem aplaudem acenam sisudas e bem vestidas apertadas e cingidas entre cinzentos e campainhas. Reconheço vagamente vultos de uma irrisória magnitude que incomodam como um arranhar agudo de giz na ardósia. Fogem os olhos da nuvem de poeira como as palavras pulverizadas dos fatos que se cumprimentam dos penteados que se opulenta.
Escolho o branco dos lençóis a música o ritmo repetitivo da vida que assinamos pontualmente desde que toca o despertador.
Eugenia Pardue
Pequeno sabor a espuma que faz levitar
os dias pesados que enfrentamos.
Encosto as rugas e com elas as costas vergadas
no pequeno intervalo em que o mundo
se volta a encaixar.
Apesar de serem outros os órgãos detentores da corrente de escrita, apenas os dedos e os olhos materializam as letras. Pouco adequados instrumentos para tão sensíveis artesãos.
Que alternativas a esta situação? Vou tentando ouvir notícias, mas a saturação é demasiada. Um enorme bocejo e a exasperação esperam-me ao fim de poucos minutos. Vão passando dias e semanas com o burlesco trágico de marionetas que se levam a sério.
As figuras mediáticas, as representantes do nosso estado democrático, mantêm os contornos mas já perderam os pormenores. Os cidadãos nem sequer reconhecem os traços internos, já não vêm os limites das formas, já perceberam a ausência de espessura.
O ruído incomoda como mosquitos a meio da noite. É o melhor caminho para nos desligarmos da realidade.
(…) passa distraidamente pelos vários canais de televisão à espera que passe o tempo que disparate isto do fim do ano é só um dia exatamente igual aos outros todos que mania esta de separar o tempo como se o tempo tivesse quebras e sinais vermelhos isto só serve mesmo é para comprar agendas diferentes e beber um copo a mais não lhe está a apetecer nada o espírito festivo pôr a mesa lavar a louça estar acordada até à meia-noite só porque é fim de ano tanta coisa que ainda ficou por fazer e o tempo não pára os dias passam à velocidade da luz exponencialmente mais depressa cada ano que envelhece a relativização do tempo que ainda estará para acontecer em relação ao que já passou já não aguenta mais retrospetivas nem as infindáveis listas de melhores qualquer coisa não percebe bem o que tem de comemorar quando o que se adivinha é tão mau suspira e desliga a televisão que são horas de andar com a festa pelo menos está dispensada delas por mais um ano (…)
Degas
Não se lembra quando nem como começou o ritual. Todos os trinta e uns de Dezembro, pela tardinha, tomava um demorado banho, com tudo aquilo de que nunca se lembrava nos outros dias do ano. Sais, pétalas de rosa, espuma, horas de prazer e antecipação, pele delicadamente macia, fresca, rescendente a hidratantes e desodorizantes. Vagarosamente depilava-se, axilas, púbis, coxas e pernas, lábio superior, um retoque nas sobrancelhas. Quarto aquecido, a roupa de cerimónia a descansar no braço da poltrona, colar e brincos cintilantes em cima da cómoda, escova de crina para os seus cabelos.
A cerimónia de preparação demorava horas mas sempre perfeitamente cronometrada. Antes da meia-noite, com a mesa cheia de pequenas iguarias, o copo transbordante de champanhe, recebia o ano novo, como uma amante que se esmera para a consumação do ato. Mas ao contrário dos simples mortais, que de tanto ansiarem a felicidade nunca a encontram, a ela o primeiro de Janeiro nunca a desiludia. Só, entre o ambiente perfumado pela gula e pela luxúria, oferecia-se à celebração do que havia de acontecer.
País sem teto nem chão o meu país sem lágrimas
País sem beira nem perdão o meu país em lágrimas
País sem alma nem caixão o meu país sem nada.
Velo pelo meu País ardo pelo meu País
País sem ondas para navegar
País sem terra para semear
Grito pelo meu País caio pelo meu País
País sem medo para gritar
País sem tempo para esperar.
Cheryl Dolby
Grandmother Tree Sculpture
Depois será igual a antes
ontem idêntico a hoje
o mesmo que amanhã
uma linha contínua de tempo
com ligeiros desvios espaciais.
Cada instante diferente do anterior
distinto do seguinte
o ar do mundo a crosta da terra
a certeza do regresso
ao fundo ao fim a sempre
igual e diferente
naturalmente.
Tiago Taron: 24ª madrugada
Quando se comparam longínquos rituais em que se calam frustrações e solidões não assumidas, percebe-se que a felicidade se forma de pequenos instantes que lembramos e reconhecemos como inspiradores quando passados, enquanto a infelicidade se sente sempre presente e pressente-se quando se encara o futuro.

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Editora Livraria Republicana
Tiago Taron: 24ª madrugada
Abro Páginas Encontro Espelhos
Come chocolates, pequena; Come chocolates!
hoje há conquilhas, amanhã não sabemos
Comportamento Eleitoral dos Portugueses
Constituição República Portuguesa
Museu Virtual Aristides Sousa Mendes
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