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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Burnout opinativo

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Tantas e tão variadas as causas que acendem os ânimos e desatam as iras. É obrigatório ter opinião sobre tudo, contra ou a favor, muito decidida e sem cambiantes, que a reflexão não é boa conselheira. A tolerância deixou de ser um valor por si só, resumindo-se a um título que os que se declaram dele ruidosos possuidores se manifestam nada praticantes. Do combate aos fogos à pedagogia do ensino básico, da obrigação dos coming outs à reserva da privacidade absoluta, dos eclipses solares aos estados de calamidade pública, do sexismo do Chico Buarque, tudo é motivo de absolutas declarações e insultos descabelados.

 

Eu estou cada vez mais apalermada com as minhas indecisões, cada vez mais fundas e sobre cada vez mais assuntos. Num dia penso uma coisa, noutro penso outra; leio uma opinião com que concordo, outra contrária onde descubro razão; entretanto tento informar-me melhor, mas o assunto já foi esquecido e já ferve nova polémica agreste e terrível. Cada vez tenho menos opiniões, até porque não consigo colocar-me de um dos lados da barricada e isso é, só por si, um crime sem perdão para os dois lados da dita.

 

Por exemplo: continuo a achar que a sexualidade seja de quem for é um assunto que não diz respeito ao público em geral e que não tem qualquer interesse nem interferência nas funções públicas seja de quem for. Ninguém é melhor ou pior governante, médico, electricista ou jogador de futebol por ser homossexual ou heterossexual – é irrelevante. Mas também é verdade que nem sequer nos apercebemos que ainda há diferenças entre homo e heterossexuais quando se trata de falar, em ambientes sociais ou profissionais, das mais diversas pequenas coisas quotidianas, como da família, dos filhos, das férias, das fotos, dos problemas conjugais, dos gostos, das doenças, dos sogros e sogras respectivos, das idas ao cinema e aos concertos, das companhias, dos ciúmes, das raivas e irritações, enfim, de tudo aquilo que faz a nossa vida. Isso significa que, na verdade, a irrelevância do assunto pode não ser real. Por isso, se calhar, até é importante que pessoas com visibilidade pública assumam a sua homossexualidade, acabando por normalizar aquilo que ainda não o é.

 

Outro exemplo: os livros de actividades escolares da Porto Editora, separados e distintos para meninos e para meninas. Acho um enorme disparate e demonstrativo de uma atitude bafienta e retrógrada no que diz respeito à promoção de igualdade de género - disso não tenho quaisquer dúvidas. Também me parece óbvio que a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CCIG) só poderia dar um parecer condenando tal anacronismo idiota. Há, no entanto, algumas coisas que não consegui esclarecer: esses livros tinham sido adoptados por algum estabelecimento de ensino? Público ou privado? Onde está o comunicado da CCIG que não consegui ler? Confesso que não gosto da recomendação de retirada de venda. Bem sei que é só uma recomendação mas soa a uma obrigação. Por muito que os ache detestáveis e estúpidos, e desde que nenhum estabelecimento de ensino os tenha adoptado como livros escolares (é obrigação do governo zelar por um ensino que não promova a discriminação de géneros), o resto é connosco, o público. Ou será que temos outra vez listas de livros certos e errados, os aceites e os proscritos?

 

Mas o que mais me incomoda é que a intensidade, o empenhamento e a importância das discussões são os mesmos para todos os temas, desde os excessos alimentares aos atentados terroristas. Tudo é tratado como se a sobrevivência da espécie estivesse em causa ou o mundo prestes a explodir, reduzindo tudo ao menor múltiplo comum.

 

Será da silly season. O problema é que estamos a eternizar a silly season e nós é que nos tornámos silly. Felizmente ainda se vão encontrando artigos de opinião que não têm nada de silly e são bons em qualquer season, como este de Maria de Lurdes Rodrigues: O terrorista integrado.

Da falsidade das notícias...

... ou de como o jornalismo é o campeão da desinformação

 

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Confesso que estremeci quando li a manchete do último Expresso, pensando num escândalo inominável e de uma imensa gravidade. Ao contrário do que é meu hábito, comprei o saquinho com todas aquelas folhas de papel de jornal, para ler com cuidado todo o artigo.

 

É mesmo um escândalo inominável - ter um semanário, como o Expresso, a fazer uma primeira página com uma falsidade que a própria notícia, depois de lida, desmente. Mais inominável ainda é ler o Expresso curto de hoje, onde Pedro Santos Guerreiro repete a falsidade e desmente-a, de novo, de seguida.

 

Afinal, quais e quantas são as vítimas de Pedrógão Grande que não estão incluídas na lista dos 64 mortos? Não existem. Até porque o critério de inclusão das vítimas está explícito na própria reportagem - aquelas que resultaram directamente do incêndio. E, infelizmente, são 64 mortos. Aliás, independentemente de concordar ou não com o critério, nunca o vi ser questionado noutras tragédias.

 

Além de ser uma notícia falsa, é manipuladora e pretende criar um facto político usando desavergonhadamente a tragédia de Pedrógão Grande. No entretanto, tanto o PSD como o BE continuaram o embuste e amplificaram o facto político, pedindo explicações sobre os mortos escondidos.

 

Passamos o tempo a falar do pseudo jornalismo do Correio da Manhã, mas ele já se espalhou. Tanto faz ler as notícias no facebook como nos jornais ditos de referência. Já não se distinguem. É pena que os pedidos de demissão dos vários actores políticos, permanentemente brandidos pelos jornalistas, que se auto nomearam os seus juízes, não se estendam a eles mesmos, actores políticos também, ma não eleitos.

 

Como é hábito após a compra do Expresso concluo que foi dinheiro atirado ao lixo.

Democracia - a linha divisória

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Comunistas portugueses defendem Maduro

 

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PCP votou contra homenagem a dissidente chinês. E ouviu: “Lembram-se de Tiananmen?”

 

O PCP não aprende nada com a História. Mantém a mesma linha ideológica totalitária e, contra as maiores evidências de atropelos à democracia, desde que perpetrados por regimes próximos dos comunistas, negam-os, enquanto os mesmos atropelos dos regimes de direita, denunciam-nos.

 

É por estas e por outras que a coabitação com o PS deixa tanta gente, eu incluída, com um sabor amargo e com a sensação de se estar a ultrapassar a linha que divide os verdadeiros democratas, que defendem a liberdade de expressão de pensamento e aceitam o jogo democrático, dos defensores das ditaduras, mesmo que empreguem muitas vezes a palavra democracia.

A Arte d(n)a Resistência

 

MoMA Takes a Stand: Art From Banned Countries Comes Center Stage

 

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Zaha Hadid

 

This work is by an artist from a nation whose citizens are being denied entry into the United States, according to a presidential executive order issued on January 27, 2017. This is one of several such artworks from the Museum’s collection installed throughout the fifth-floor galleries to affirm the ideals of welcome and freedom as vital to this Museum, as they are to the United States.

 

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Marcos Grigorian

 

This work is by an artist from a nation whose citizens are being denied entry into the United States, according to a presidential executive order issued on January 27, 2017. This is one of several such artworks from the Museum’s collection installed throughout the fifth-floor galleries to affirm the ideals of welcome and freedom as vital to this Museum, as they are to the United States.

 

 

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Parviz Tanavoli

 

This work is by an artist from a nation whose citizens are being denied entry into the United States, according to a presidential executive order issued on January 27, 2017. This is one of several such artworks from the Museum’s collection installed throughout the fifth-floor galleries to affirm the ideals of welcome and freedom as vital to this Museum, as they are to the United States.

 

 

A partir de Yvette Centeno

 

O primeiro Presidente eleito democraticamente

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António Ramalho Eanes

 

 

O primeiro Presidente eleito democraticamente foi o General António Ramalho Eanes, outro dos poucos bons homens de Portugal. Convém que não baralhemos as coisas. Mário Soares não precisa que lhe atribuam méritos alheios. E é importante que não desvirtuemos a História.

Da orfandade

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Mário Soares

 

 

É muito difícil explicar às mais novas gerações a importância e o significado que Mário Soares tem para nós, cidadãos que, ainda muito jovens, viveram a lua pela democracia a partir de 25 de Abril de 1974. Até a mim, quando revejo os inúmeros documentários e registos da época, me custa a acreditar que toda aquela frenética vivência foi real.

 

A paixão com que se esgrimiam razões, o imediato doutoramento que todos nós fizemos, em poucos dias (alguns em poucas horas), sobre regimes democráticos e ditatoriais, colonialismo e anti-colonialismo, greves, sindicatos, lutas operárias, liberdade de expressão de pensamento, fascismo, comunismo, patronato, trabalhadores, o mergulho naqueles revoltosos, turbulentos e fascinantes tempos, marcou-nos decisivamente.

 

Talvez por isso, ao ver desaparecer uma das mais decisivas figuras para a implementação e consolidação da democracia em Portugal, o sentimento de orfandade que alguns já manifestaram seja impossível de negar. Não precisamos de ter concordado com Mário Soares, sempre ou de vez em quando, não precisamos de ter votado nele, sempre ou de vez em quando. Mas a forma voluntariosa, decisiva, arriscada e eufórica com que Mário Soares exerceu os seus direitos de cidadão servindo o País, assumindo a política como uma actividade nobre e essencial à comunidade, moldou a nossa sociedade e o rumo de Portugal desde 25 de Abril de 1974.

 

Foram escolhas corajosas. A oposição ao regime de Salazar e Caetano, a oposição ao totalitarismo de esquerda durante o PREC, os governos sob assistência internacional, a adesão à União Europeia, o afastamento da linha oficial do PS aquando do apoio à candidatura de Eanes, a sua própria candidatura à Presidência e, já há poucos anos, a decisão de se candidar contra Cavaco Silva, a opinião contra a guerra do Iraque, decisões muitas vezes polémicas e pouco consensuais. Foi uma vida cheia e estou convencida que, apesar de muitos maus momentos, a terá percorrido com gosto e alegria, que era um dos seus traços mais cativantes.

 

Somos uma democracia, desenvolvemo-nos como uma sociedade solidária, integrados no espaço europeu muito por sua vontade e responsabilidade. Não o fez sozinho mas muito contribuiu, e decisivamente, para que assim fosse.

 

Há um filme americano cujo título é A few good men. Se traduzirmos esta expressão à letra - alguns bons homens - é a frase que me ocorre quando penso naquilo a que muitos chamam os pais fundadores da nossa democracia. Ele era - é - um deles.

 

Mário Soares

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Mário Soares

 

 

Quantas vezes polémico, quantas vezes magnânimo, outras tantas insolente, arrogante e prepotente, mas sempre amante da liberdade, combatente incansável e com um gosto genuíno pela luta política.

 

Quantas vezes o achei excessivo, ridículo até, mas sempre o admirei pela coragem e pela capacidade de ler a realidade e a sociedade portuguesa, que o fazia um temível adversário e um servidor público que marcou e modelou a nossa vida e a nossa democracia que, com muito poucos outros, fundou.

 

A ele, como a muito poucos outros, devemos a liberdade e a democracia, a viragem e abertura à Europa, a modernidade. A sua morte é o símbolo do fim de uma época.

 

Da construção de muros

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Zenos Frudakis

 

Não sei se contaminada pelo 25 de Abril de 74 se apenas pela euforia própria de quem leu muito na adolescência e aprendeu a falar de todos os assuntos, sem tabus, a nova forma de debate na nossa sociedade cheia de apelos e hinos à tolerância, espanta-me cada vez mais.

 

Não é possível trocar opiniões de forma aberta e leal, esgrimindo os argumentos com verdadeiro respeito pelo oponente. Neste momento ou se é a favor e consequentemente amigo, bom, sensível, sensato, amante dos pobres e oprimidos, solidário, justo, enfim, um anjo armado da justiça divina, ou se é contra e inevitavelmente horroroso, criminoso, nojento, estúpido, rígido e empedrado, com o ranço do reaccionário, do mau, do opressor, do amante do poder que corrompe.

 

O comportamento, a linguagem, os gestos, as vírgulas e a moralidade, julgada por quem se sente e julga detentor da verdade, estão sempre sob escrutínio. As causas que se defendem, com a certeza e o fundamentalismo sempre militantes, não deixam nunca margem para dúvidas, perguntas, remotas hipóteses de eventuais análises distintas e, muito menos, de qualquer possibilidade de reavaliação.

 

O espírito autoritário espreita a cada esquina e a rotulagem pública, antecedida e precedida de insultos mais ou menos criativos, é a norma, enquanto se defendem as liberdades das minorias, só de algumas, claro, porque só alguns comportamentos e só algumas escolhas morais podem ser sancionadas pelos bons e pelos bravos defensores da moral e dos bons costumes, cuja definição vai mudando ao longo dos tempos. As leis são brandidas quando justificam as suas ideias, tal como o anátema da pestilência para a desinfecção social, com céleres divulgações dos deveres dos puros para que evitem contaminações, mas logo relativizadas ou mesmo iníquas, se não preenchem as imediatas necessidades dos acusadores/ defensores.

 

É triste, redutor e cansativo. E pouco sério. E pouco, muito, muito pouco.