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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da falsidade das notícias...

... ou de como o jornalismo é o campeão da desinformação

 

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Confesso que estremeci quando li a manchete do último Expresso, pensando num escândalo inominável e de uma imensa gravidade. Ao contrário do que é meu hábito, comprei o saquinho com todas aquelas folhas de papel de jornal, para ler com cuidado todo o artigo.

 

É mesmo um escândalo inominável - ter um semanário, como o Expresso, a fazer uma primeira página com uma falsidade que a própria notícia, depois de lida, desmente. Mais inominável ainda é ler o Expresso curto de hoje, onde Pedro Santos Guerreiro repete a falsidade e desmente-a, de novo, de seguida.

 

Afinal, quais e quantas são as vítimas de Pedrógão Grande que não estão incluídas na lista dos 64 mortos? Não existem. Até porque o critério de inclusão das vítimas está explícito na própria reportagem - aquelas que resultaram directamente do incêndio. E, infelizmente, são 64 mortos. Aliás, independentemente de concordar ou não com o critério, nunca o vi ser questionado noutras tragédias.

 

Além de ser uma notícia falsa, é manipuladora e pretende criar um facto político usando desavergonhadamente a tragédia de Pedrógão Grande. No entretanto, tanto o PSD como o BE continuaram o embuste e amplificaram o facto político, pedindo explicações sobre os mortos escondidos.

 

Passamos o tempo a falar do pseudo jornalismo do Correio da Manhã, mas ele já se espalhou. Tanto faz ler as notícias no facebook como nos jornais ditos de referência. Já não se distinguem. É pena que os pedidos de demissão dos vários actores políticos, permanentemente brandidos pelos jornalistas, que se auto nomearam os seus juízes, não se estendam a eles mesmos, actores políticos também, ma não eleitos.

 

Como é hábito após a compra do Expresso concluo que foi dinheiro atirado ao lixo.

Democracia - a linha divisória

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Comunistas portugueses defendem Maduro

 

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PCP votou contra homenagem a dissidente chinês. E ouviu: “Lembram-se de Tiananmen?”

 

O PCP não aprende nada com a História. Mantém a mesma linha ideológica totalitária e, contra as maiores evidências de atropelos à democracia, desde que perpetrados por regimes próximos dos comunistas, negam-os, enquanto os mesmos atropelos dos regimes de direita, denunciam-nos.

 

É por estas e por outras que a coabitação com o PS deixa tanta gente, eu incluída, com um sabor amargo e com a sensação de se estar a ultrapassar a linha que divide os verdadeiros democratas, que defendem a liberdade de expressão de pensamento e aceitam o jogo democrático, dos defensores das ditaduras, mesmo que empreguem muitas vezes a palavra democracia.

A Arte d(n)a Resistência

 

MoMA Takes a Stand: Art From Banned Countries Comes Center Stage

 

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Zaha Hadid

 

This work is by an artist from a nation whose citizens are being denied entry into the United States, according to a presidential executive order issued on January 27, 2017. This is one of several such artworks from the Museum’s collection installed throughout the fifth-floor galleries to affirm the ideals of welcome and freedom as vital to this Museum, as they are to the United States.

 

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Marcos Grigorian

 

This work is by an artist from a nation whose citizens are being denied entry into the United States, according to a presidential executive order issued on January 27, 2017. This is one of several such artworks from the Museum’s collection installed throughout the fifth-floor galleries to affirm the ideals of welcome and freedom as vital to this Museum, as they are to the United States.

 

 

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Parviz Tanavoli

 

This work is by an artist from a nation whose citizens are being denied entry into the United States, according to a presidential executive order issued on January 27, 2017. This is one of several such artworks from the Museum’s collection installed throughout the fifth-floor galleries to affirm the ideals of welcome and freedom as vital to this Museum, as they are to the United States.

 

 

A partir de Yvette Centeno

 

O primeiro Presidente eleito democraticamente

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António Ramalho Eanes

 

 

O primeiro Presidente eleito democraticamente foi o General António Ramalho Eanes, outro dos poucos bons homens de Portugal. Convém que não baralhemos as coisas. Mário Soares não precisa que lhe atribuam méritos alheios. E é importante que não desvirtuemos a História.

Da orfandade

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Mário Soares

 

 

É muito difícil explicar às mais novas gerações a importância e o significado que Mário Soares tem para nós, cidadãos que, ainda muito jovens, viveram a lua pela democracia a partir de 25 de Abril de 1974. Até a mim, quando revejo os inúmeros documentários e registos da época, me custa a acreditar que toda aquela frenética vivência foi real.

 

A paixão com que se esgrimiam razões, o imediato doutoramento que todos nós fizemos, em poucos dias (alguns em poucas horas), sobre regimes democráticos e ditatoriais, colonialismo e anti-colonialismo, greves, sindicatos, lutas operárias, liberdade de expressão de pensamento, fascismo, comunismo, patronato, trabalhadores, o mergulho naqueles revoltosos, turbulentos e fascinantes tempos, marcou-nos decisivamente.

 

Talvez por isso, ao ver desaparecer uma das mais decisivas figuras para a implementação e consolidação da democracia em Portugal, o sentimento de orfandade que alguns já manifestaram seja impossível de negar. Não precisamos de ter concordado com Mário Soares, sempre ou de vez em quando, não precisamos de ter votado nele, sempre ou de vez em quando. Mas a forma voluntariosa, decisiva, arriscada e eufórica com que Mário Soares exerceu os seus direitos de cidadão servindo o País, assumindo a política como uma actividade nobre e essencial à comunidade, moldou a nossa sociedade e o rumo de Portugal desde 25 de Abril de 1974.

 

Foram escolhas corajosas. A oposição ao regime de Salazar e Caetano, a oposição ao totalitarismo de esquerda durante o PREC, os governos sob assistência internacional, a adesão à União Europeia, o afastamento da linha oficial do PS aquando do apoio à candidatura de Eanes, a sua própria candidatura à Presidência e, já há poucos anos, a decisão de se candidar contra Cavaco Silva, a opinião contra a guerra do Iraque, decisões muitas vezes polémicas e pouco consensuais. Foi uma vida cheia e estou convencida que, apesar de muitos maus momentos, a terá percorrido com gosto e alegria, que era um dos seus traços mais cativantes.

 

Somos uma democracia, desenvolvemo-nos como uma sociedade solidária, integrados no espaço europeu muito por sua vontade e responsabilidade. Não o fez sozinho mas muito contribuiu, e decisivamente, para que assim fosse.

 

Há um filme americano cujo título é A few good men. Se traduzirmos esta expressão à letra - alguns bons homens - é a frase que me ocorre quando penso naquilo a que muitos chamam os pais fundadores da nossa democracia. Ele era - é - um deles.

 

Mário Soares

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Mário Soares

 

 

Quantas vezes polémico, quantas vezes magnânimo, outras tantas insolente, arrogante e prepotente, mas sempre amante da liberdade, combatente incansável e com um gosto genuíno pela luta política.

 

Quantas vezes o achei excessivo, ridículo até, mas sempre o admirei pela coragem e pela capacidade de ler a realidade e a sociedade portuguesa, que o fazia um temível adversário e um servidor público que marcou e modelou a nossa vida e a nossa democracia que, com muito poucos outros, fundou.

 

A ele, como a muito poucos outros, devemos a liberdade e a democracia, a viragem e abertura à Europa, a modernidade. A sua morte é o símbolo do fim de uma época.

 

Da construção de muros

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Zenos Frudakis

 

Não sei se contaminada pelo 25 de Abril de 74 se apenas pela euforia própria de quem leu muito na adolescência e aprendeu a falar de todos os assuntos, sem tabus, a nova forma de debate na nossa sociedade cheia de apelos e hinos à tolerância, espanta-me cada vez mais.

 

Não é possível trocar opiniões de forma aberta e leal, esgrimindo os argumentos com verdadeiro respeito pelo oponente. Neste momento ou se é a favor e consequentemente amigo, bom, sensível, sensato, amante dos pobres e oprimidos, solidário, justo, enfim, um anjo armado da justiça divina, ou se é contra e inevitavelmente horroroso, criminoso, nojento, estúpido, rígido e empedrado, com o ranço do reaccionário, do mau, do opressor, do amante do poder que corrompe.

 

O comportamento, a linguagem, os gestos, as vírgulas e a moralidade, julgada por quem se sente e julga detentor da verdade, estão sempre sob escrutínio. As causas que se defendem, com a certeza e o fundamentalismo sempre militantes, não deixam nunca margem para dúvidas, perguntas, remotas hipóteses de eventuais análises distintas e, muito menos, de qualquer possibilidade de reavaliação.

 

O espírito autoritário espreita a cada esquina e a rotulagem pública, antecedida e precedida de insultos mais ou menos criativos, é a norma, enquanto se defendem as liberdades das minorias, só de algumas, claro, porque só alguns comportamentos e só algumas escolhas morais podem ser sancionadas pelos bons e pelos bravos defensores da moral e dos bons costumes, cuja definição vai mudando ao longo dos tempos. As leis são brandidas quando justificam as suas ideias, tal como o anátema da pestilência para a desinfecção social, com céleres divulgações dos deveres dos puros para que evitem contaminações, mas logo relativizadas ou mesmo iníquas, se não preenchem as imediatas necessidades dos acusadores/ defensores.

 

É triste, redutor e cansativo. E pouco sério. E pouco, muito, muito pouco.

 

O que deve (ou não) ser lido

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Confesso que tenho um problema: de cada vez que vejo ou ouço uma unanimidade laudatória ou condenatória perante um livro, um autor, um filme, uma exposição, enfim, qualquer que seja a pessoa ou a área a que se dedica, de imediato cresce em mim um sentimento de contradição que me leva a ter vontade de fazer o exacto contrário do que todos recomendam que se faça. O circo mediático que se cria à volta de factos fabricados com intenções que por vezes são claras, outras imperscrutáveis, mas que são sempre intencionais, repete-se agora com o livro de José António Saraiva.

 

Não aprecio José António Saraiva nem as suas crónicas. Sempre me pareceu um factotum alimentado pelo seu nome, pelos contactos que tinha e tem e pelo sentimento auto-congratulatório e auto-admirativo. A saída deste livro e a publicidade que lhe foi associada - a coscuvilhice pura com a devassa das conversas privadas com figuras públicas - têm o óbvio objectivo de promover as vendas e de acicatar a maledicência e a criação de factos pseudo políticos. E tal como a José António Saraiva e à editora interessa que se fale muito e se venda muito, interessaria a Pedro Passos Coelho associar-se a um fenómeno mediático que abre os telejornais e cria casos nas redes sociais, numa tentativa de se mostrar e de colher dividendos dessa publicidade.

 

A veemente condenação prévia do livro e, principalmente, a confissão de Passos Coelho que não o tinha lido antes de aceitar o convite para o apresentar, mantendo mesmo assim a intenção de o fazer, apenas demonstra a armadilha em que caiu ou, em alternativa menos benéfica, que não teria possibilidade de lho negar (por eventuais favores que lhe devia?).

 

Não tenho vontade de ler o livro. Não me interessa o tema nem o autor. Mas também não percebo a iniciada sanha persecutória a quem o ler, como se fosse cúmplice de um crime, nem as repetidas declarações de repúdio e nojo de quem ainda o não conhece. Faz-me alguma confusão que as pessoas se pronunciem sobre algo que não conhecem, por muito que confiem na opinião de outros. Cada vez mais me apercebo de que é melhor formarmos as nossas opiniões de uma forma directa e objectiva, sempre que possível . O que se publica nos jornais, o que se diz que se disse e que se pensou e que se escreveu, na maior parte das vezes não corresponde à realidade.

 

Há já muitos anos, quando José Saramago publicou o seu excelentíssimo livro O Evangelho segundo Jesus Cristo, em conversa com alguém que é católica, apostólica e romana, fiquei muda de espanto perante a sua veemente condenação do livro, afirmando que nunca o leria pois o livro era uma provocação. Concluí que se a sua fé era fraca, tal o medo de ser posta em causa pela leitura de um livro.

 

Escrever o que se quer e ler o que ser quer, tudo faz parte da vivência em liberdade.