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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da incomodidade

Sempre me surpreenderam as pessoas que declaram não se importar nada como o que pensam delas. Eu não sou assim. Importo-me com o que as pessoas pensam de mim, principalmente se são pessoas que prezo e/ ou me são afectivamente próximas.

 

Fiquei bastante incomodada com a polémica gerada pelo meu post sobre o último livro de José António Saraiva. Tenho algumas certezas, mas estas são cada vez em menor quantidade, sobre cada vez menos assuntos e cada vez mais incertas. As dúvidas sobre o que leio e o que ouço são crescentes, pois é frequente, ao aprofundar os assuntos tocados pelos títulos e frases assertivas que pululam pelo espaço público, encontrar motivos que me levem a concluir o exacto contrário daquilo que tinha sido a minha opinião na primeira abordagem. Por outro lado, não gosto de me envolver em polémicas em que se dizem coisas de uma dureza que, habitualmente, não se usa quando em presença do outro. A face inexpressiva do monitor desliga muitos dos filtros de auto-censura, pelas mais diversas razões. Além disso, talvez pela cautela e pela tentativa de ver o outro lado da questão (até por deformação profissional), arranjo sempre argumentos que podem justificar várias conclusões que muitas vezes são contraditórias.

 

Por isso, e porque fiquei com a sensação de não estar a ser compreendida ou, pior ainda, de não estar a ser justa, acabei por decidir voltar ao tema, após grande hesitação. A intimidação de que falava referia-se ao julgamento público violento de abjecção e nojo para quem tivesse a audácia de ler o livro. As palavras têm um poder que reconhecemos, racional e emocionalmente, pelo que ninguém gosta de se ver englobada no grupo dos abjectos. Mesmo que a intenção não seja essa, estas trocas de palavras intimidam e acabam por refrear quem discorda, que prefere não o assumir. A possibilidade de estar a dar visibilidade a um livro e a uma pessoa com quem não devemos perder tempo, foram outros aspectos que me levaram a ponderar não abordar de novo a questão.

 

Enviaram-me o dito livro por email e li-o. É um livro medíocre, mal escrito e totalmente desinteressante de uma criatura com idênticas características. O que mais me impressionou foi confrontar-me, mais uma vez, com a menoridade intelectual e a mediocridade das pessoas que ocuparam lugares de destaque, em áreas tão importantes como, neste caso, o jornalismo dito de referência. A ideia que este indivíduo provinciano, bacoco e deslumbrado tem de si mesmo é espantosa, ao elucidar os leitores que divulga histórias que contribuem para a História. Mas que pensará Saraiva que são contributos para a História? É quase anedótico se não fosse tão triste. No fundo o que ele mostrou, qual pavão sem penas, é que foi e é uma pessoa importantíssima porque privou com os ilustres deste País e porque lhes servia de confidente.

 

Os crimes de devassa de privacidade que lá estão são isso mesmo – crimes - e como tal devem ser tratados. O problema é que num País em que a Justiça é lenta e cara e em que os cidadãos sentem a impunidade como a norma, as vítimas ficam impotentes perante a chacota de quem adora e se alimenta destas notícias. Não se pode impedir nem regulamentar a indecência mas podemos não a propagar e reagir contra ela. No entanto só sabemos o que ela é se a conhecermos, é só a devemos combater da forma que, na nossa sociedade civilizada, se entende por combate – nos tribunais. A minha total solidariedade é, obviamente, para quem viu a sua privacidade devassada e que não desiste de lutar pelos seus direitos.

 

É muito fácil perorar sobre os princípios e os valores quando os problemas não nos atingem directamente. Confesso que não sei se a minha reacção teria sido esta caso fosse eu uma das visadas pelo Saraiva. Mas quero acreditar que sim.

 

Da dignidade

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Tenho-me abstido o mais que posso de comentar tudo o que diz respeito a José Sócrates e à envolvente da Operação Marquês.

 

Por isso mesmo vou assistindo forçadamente calada às manchetes dos pseudo-jornais e dos pseudo-canais televisivos, em que se declamam fragmentos de escutas telefónicas, mensagens de telemóveis trocadas entre as pessoas que conviviam com o ex Primeiro-ministro, com o objectivo de manter acesa a curiosidade da população, que quanto mais espreitar para dentro da intimidade das figuras públicas mais se sente igual a elas.

 

Continuo a aguardar que a Justiça faça o seu papel, acusando e julgando José Sócrates, cuja vida já está arruinada, tenha ou não culpa, tal como a vida dos seus familiares e amigos, tenham ou não cumplicidade nas suas eventuais malfeitorias.

 

Independentemente do julgamento da sua acção política, não há ninguém que possa afirmar hoje em dia, eu incluída, que não tenha dúvidas crescentes quanto à boa-fé de Sócrates, pois o que tem vindo a público pelas suas próprias palavras é, no mínimo, muito estranho e duvidoso. E aceitar que uma pessoa em quem confiámos a responsabilidade de nos governar nos usou e ludibriou é muito difícil, principalmente para a imagem que temos de nós próprios – como é possível termos sido assim enganados?

 

Fernanda Câncio foi apanhada nesta voragem. Não goza das simpatias de muita imprensa e de muita gente por inúmeros motivos: pela sua personalidade, pela sua forma de fazer jornalismo de causas, tantas vezes truculenta e totalmente engajada, mas principalmente porque foi namorada de José Sócrates e não há nada como a devassa das relações amorosas, associadas a eventuais crimes de colarinho branco de políticos, para manter acesa a chama do voyerismo. E além disso há muito quem justifique o prazer que retira com a queda em desgraça dos poderosos com o dito popular (tal como o da seriedade da mulher de César, que serve a tantos e tantas vezes é dito) - quem com ferro mata com ferro morre. Mas não deixo de admirar a sua força e a sua determinação em lutar por aquilo que acredita estar certo. Quem tem opiniões está sempre sujeito a crítica e Fernanda Câncio nunca escolheu o conforto de não se pronunciar.

 

Foi por isso com algum pudor que li o texto que publicou na Visão. Um texto de quem não vê outra alternativa se não expor-se, revelando pormenores da vida privada que sempre manteve a recato da praça pública. Infelizmente tenho sérias dúvidas de que este testemunho altere as opiniões já formadas a seu respeito. Ninguém gosta de se ver ao espelho e de perceber que não é presciente e que a sua confiança nos outros foi traída. É muito mais fácil concluir que os poderosos são vilãos e corruptos e que se acompanham de gente igual, e que quem rodeia os poderosos só o faz para se aproveitar deles. Mas, como ela própria diz, o mais importante é não perder a identidade e o respeito por si própria. Sempre lhe admirei a coragem e a determinação apesar do desacordo com muitas das suas posições.

 

À Fernanda Câncio, e a todos os que prezam a sua privacidade e o respeito pela sua dignidade, a minha total solidariedade.

Dos golpes muito democráticos

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Como já vai sendo hábito vou degustando lentamente as ofertas cinematográficas do Natal. Este ano uma das séries que aterrou cá em casa, pela mão de alguém muito atento e conhecedor, foi A Very British Coup.

 

Não podia ter sido mais oportuna. Esta série tem 28 anos e parece ter sido realizada hoje. Podemos fazer algumas comparações directas, não só com o que se está a passar no Brasil mas também com o que se passa na Europa.

 

Dilma e Lula cometeram um erro colossal - a primeira por nomear o segundo por aceitar a nomeação. Independentemente do envolvimento real ou manipulado de Lula e/ ou Dilma em corrupção, esta foi a pior forma de contornar o assunto. Nunca se livrarão da suspeita de tentativa de encobrimento político e de fuga à justiça.

 

Não conheço o sistema político nem a Constituição brasileira, mas não duvido da tentativa e da manipulação das forças mais retrógradas e revanchistas da direita brasileira para apear a esquerda vencedora das últimas eleições. Infelizmente a esquerda está a ajudar. 

São os astros que se alinham

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Há fenómenos naturais que são surpreendentes e os astros aí estão para nos deslumbrar.

 

Por vezes os planetas alinham-se com o Sol, há eclipses lunares e solares, enfim, cometas passam ao largo e são avistados. A nossa Justiça tem conseguido superar todas essas maravilhas e, naturalmente, no meio da gigantesca Operação Marquês, que envolve meios nacionais e internacionais, consegue a proeza de coincidir nas descobertas e, principalmente, nas detenções, precisamente quando há alguns sinais políticos favoráveis ao PS.

 

É Deus está que com a maioria.

Por uma justiça decente

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 Alfredo Ceschiatti 

 

Tenho tentado estar o mais possível distante do assunto Sócrates. Mas por muito trabalho que tenha, por muito que mude de canal sempre que começam as notícias, por muitas séries policiais soporíferas e ansiolíticas que veja, Sócrates é servido em bolus pelos media, sempre que é necessário distrair o País da direita que nos desgoverna ou desviar as atenções da alternativa que o PS protagoniza.

 

Muitos têm uma opinião sobre a culpabilidade de Sócrates, por preconceito puro e simples e pelas razões opostas: a hipótese de ser um criminoso é uma verdade inquestionável para uns, enquanto a sua inocência é um dogma para outros. Mas há ainda um grupo de gente que, apesar da campanha negra que continuamente é feita contra Sócrates, com a conivência, se não com a ajuda do Ministério Público, tentam esperar pelo julgamento e pela produção das provas para concluir, ou esperam que as provas e o julgamento demonstrem aquilo em que, no íntimo acreditam.

 

Mas quando se quer fazer crer que este é um caso de justiça e não um caso de política está a prestar-se um péssimo serviço à Justiça, ao País e à Democracia. O processo que envolve José Sócrates, a ser verdade o que já foi tornado público, nomeadamente que está em investigação há 3 anos, e que vai de caso em caso, de empresa em empresa, de País em País, de conta bancária em conta bancária, torna o Processo Marquês num enorme embuste e numa caricatura daquilo que deve ser um Estado de Direito.

 

Felizmente começam a aparecer várias pessoas insuspeitas de serem seus amigos, admiradores ou camaradas de partido, que se mostram chocadas e apreensivas com o estado da Justiça. Mas é preciso não esquecer que alguns dos que agora se indignam forma responsáveis pelo clima de ódio criado em torno da figura de José Sócrates, pois participaram na campanha de ataque ao seu caracter e ao vilipêndio de todos quantos se atreviam a concordar com as suas políticas. Não me esqueço de pessoas com responsabilidade como Pacheco Pereira, que publicamente decretava sociedades maléficas atrás dos blogues que continham pessoas simpatizantes com a política de Sócrates, que fez eco do caso das escutas de Belém, ou da asfixia democrática, que permanentemente colaborou na intoxicação da opinião pública contra o ex-Primeiro-ministro.

 

Todo este episódio da alteração da medida de coação aplicada a Sócrates é verdadeiramente extraordinário: qual a alteração no processo levou a que a acusação propusesse esta alteração? Como é possível continuar a sustentar que haja perigo de fuga e/ ou de perturbação da investigação? Como é possível que não se reaja oficialmente à obscenidade da publicação das transcrições do interrogatório a Sócrates imediatamente a seguir à sua recusa em aceitar a prisão domiciliária nas condições propostas? Como é possível continuar a manter uma prisão preventiva ao fim de 3 anos de investigação que não resultaram ainda em qualquer acusação?

 

Não é possível continuar a ignorar o contexto obviamente político de todo este caso. Vale a pena, mesmo salvaguardando todas as diferenças, ver o que se passou com o caso Strauss-Kahn.  Temos o direito e o dever de questionar este caso e esta forma de administrar a Justiça. Nenhum de nós está a salvo num País em que os direitos dos cidadãos são ignorados e atropelados pelas espadas do justicialismo e pela substituição do poder político pelo poder judicial.

 

Por muito que António Costa queira despoluir o debate político, ele está há muito contaminado pelas questões judiciais. Começa a ser ensurdecedor o silêncio do líder do PS. Por muito delicada e sensível que seja esta questão, o problema não está especificamente na pessoa de José Sócrates. O problema somos nós todos, no dia em que tivermos a infelicidade de estarmos envolvidos em qualquer tipo de processo judicial.

 

Este é um dos fundamentos de uma sociedade digna, que respeita os cidadãos. A confiança na Justiça é fulcral para a vivência em comunidade e para a democracia. Precisamos de políticos corajosos e que saibam destrinçar entre o prioritário e o acessório, que não tenham receio de afrontar as opiniões públicas, que mostrem as suas ideias e os seus valores.

 

Nota: vale a pena ler: Pedro Marques Lopes, Miguel Sousa TavaresFernanda CâncioLeonel Moura.