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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Das cautelosas cautelas do PCP

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O PCP só tem certezas quando se trata dos desmandos dos EUA, dos seus aliados capitalistas e opressores do povo trabalhador. Quanto à Rússia e aos seus amigos e protegidos, tudo são dúvidas existenciais e cautelas adicionais.

 

Será que há uma perseguição contra os LGBT na Chechénia? Será que estão a colocar pessoas em campos de concentração devido à sua orientação sexual? Será que a Coreia do Norte é uma democracia? Será que o regime Sírio tem armas químicas e as pode usar contra o seu povo? Será?

Da manipulação participativa

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Vivemos tempos perigosos, se calhar como sempre, mas quanto mais dentro deles estamos mais perigosos os sentimos. O que mais mudou, pelo menos para mim, é a credibilidade das notícias que circulam pelos media, multiplicados e amplificados pelas redes sociais. Nunca se sabe o que é verdade, o que foi truncado, o que foi escondido, o que foi manipulado.

 

Por isso mesmo a cautela deve ser cada vez maior, quando pretendemos formar uma opinião e partilhar as nossas conclusões, pois os factos são cada vez mais alternativos. Tenho assistido estupefacta à divulgação e partilha de artigos, excertos de reportagens, declarações inflamadas sobre o ataque com armas sírias a 4 de Abril, correspondentes a 2013, 2014 e 2016, mas nunca a este ataque específico. Aliás a única notícia do Conselho de Segurança das Nações Unidas que encontrei em relação ao assunto, realça a impossibilidade de ter sido aprovada uma resolução que condenava o ataque e pedia ao governo sírio que cooperasse numa investigação ao incidente, pelo veto da Rússia (e da Bolívia), que foi consentânea com a do PCP em Portugal, ao recusar-se a votar favoravelmente a condenação parlamentar desse crime de guerra, redireccionando as suas críticas aos EUA por terem retaliado de imediato.

 

É tal a cegueira que muitos não se dão sequer ao trabalho de ler os artigos que linkam, pois se o fizessem aperceber-se-iam de imediato do logro. Há de tudo: repórteres a falarem de um ataque químico de 2013, excertos de um relatório das Nações Unidas, de 2013, sobre o facto dos "Rebeldes" terem acesso armas químicas, documentários de uma televisão de extrema direita sobre os sírio, enfim, um manancial de desinformação que conta com a activa participação da nossa negligência.

 

Não sei quem perpretou o ataque com armas químicas. Fosse quem fosse que o fez, é um crime e deve ser unanimemente condenado. Quanto à Administração Trump, ela é uma ameaça à estabilidade e à paz mundial, antes e depois do ataque à Síria.

Do arraso da decência

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Ainda me consigo surpreender com a falta de vergonha da ex-PAF. A era da pós-verdade, da mentira ou iniquidade, tanto faz, tem adeptos ferrenhos em Portugal.

 

Como é possível, depois de tudo o que se passou com o BES, Novo Banco, vende não vende, Sérgio Monteiro, etc., Assunção Cristas e Luís Montenegro tenham feita as declarações desavergonhadas que fizeram?

 

Não há quem não concorde que a solução é má,mas também parece que é a menos má de todas. É bom não esquecer que o ex-governo do PAF (e a Troika) escamoteou e escondeu os problemas da banca, pelo que o mínimo que se poderia esperar era um silêncio prudente e discreto.

Segredos e mentiras (*)

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(...) Afinal, a alteração ao Estatuto do Gestor Público que os ex-administradores da Caixa invocam ter tido como objetivo dispensar a entrega das declarações ao TC ainda reforçou essa obrigatoriedade. (...)

 

(...) O Tribunal Constitucional decidiu que Domingues e a sua equipa são obrigados a declarar rendimentos e património. O acórdão ainda não decide sobre o pedido de reserva da informação. (...)

 

Se não fosse triste era mesmo para rir.

 

(*) Título roubado ao filme Secrets & Lies, de 1996, de Mike Leigh

Angola na era da pós-verdade

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José Ribeiro

 

 

(...) Portugal prepara-se para exercer uma interferência em massa nas eleições gerais deste ano em Angola. Com a ajuda de antigos colonos, servidores do apartheid, finança internacional, falsos jornalistas, canais televisivos e revolucionários de pacotilha, está em curso um plano diabólico. Talvez não fosse mau seguir as lições do passado e o exemplo de Trump. Deixem ser os próprios angolanos a decidir sobre os seus destinos!

 

Fantástico! Vale a pena ler este editorial de José Ribeiro no Jornal de Angola, um esteio do jornalismo livre e obviamente não alinhado com o totalitarismo reinante naquela democracia musculada.

 

Que tal uma série sobre os agentes secretos portugueses em Angola - Angola e o plano diabólico português.

Da hipocrisia militante

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O infindável caso da entrega das declarações de rendimentos e património dos administradores da CGD ao Tribunal Constitucional, do eventual compromisso do Ministério das Finanças em dispensá-los de tal obrigação, o folhetim das várias lateralidades indignadas, à esquerda pelo facto de ser impensável fugir ao escrutínio público, à direita pelo não cumprimento de promessas escritas, não me parece ser uma coincidência.

 

Convém esclarecer desde já que não consigo compreender como é possível, num país em que o rendimento líquido médio mensal é de 838 euros, haja alguém a receber por mês muito mais do que a média dos cidadãos recebem por ano, por muito competente que seja no seu trabalho. E não me venham explicar que no sector privado é isso que se aufere porque isso não pode justificar uma tão grande desigualdade salarial.

 

Mas a verdade é que todo este frenesim tem apenas o objectivo de atingir politicamente Mário Centeno. Ficámos a saber, pela mesma imprensa que tanto tem atacado a administração da CGD, que os anteriores presidentes da Administração entregaram, de facto, as declarações de rendimentos e de património, mas em branco ou com informações incompletas. E mais ainda, é que nada aconteceu: o Tribunal Constitucional não fez rigorosamente nada e os nossos jornalistas de investigação, colunistas, opinadores, comentadores e políticos encartados, nunca tiveram qualquer curiosidade em perscrutar as ditas declarações públicas, pois só agora se aperceberam disso.

 

Ou seja, tudo isto é de uma hipocrisia sem nome. E não me parece coincidência porque os ataques políticos têm atingido vários ministros, chegando agora a vez de Mário Centeno.

Da súbita desgraça do metro de Lisboa

Vale a pena ouvir este episódio de Contas do Dia, rubrica que se ouve todos os dias na Antena 1, antes das 09h00. Helena Garrido faz eco da campanha a que temos assistido sobre o mau serviço que o metro de Lisboa presta. O contraditório, como agora se diz, é feito pelo próprio António Macedo.

 

E, se calhar, esta avalanche de queixas não é alheia ao facto do governo ter revertido a concessão do metro a privados. Será só coincidência?

RTP - serviço público ou privado?

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Assisti ao programa Prós e Contras sobre o cancro da mama, porque é um assunto muito importante e porque sou profissional de saúde. Pelo respeito que me merecem os doentes e todos aqueles que enfrentam a doença, no domicílio, nos Centros de Saúde e nas Instituições Hospitalares, grandes e pequenas, públicas e privadas, não posso deixar de me expressar quanto ao que penso ter sido um péssimo serviço público prestado ao País, principalmente a todos os doentes oncológicos, particularmente os que têm cancro da mama.

 

Perante o desconforto mais ou menos evidente da Presidente Sociedade Portuguesa de Oncologia e do Presidente do INFARMED, todo o programa foi um discorrer de razões para que a população percebesse que a única Unidade de Mama certificada no País era a da Fundação Champalimaud (FC), e que era portanto a única que sabia e estava em condições de tratar com qualidade os doentes a quem este fosse diagnosticado. Surpreendentemente, no site da FC afirma-se que a Unidade de Mama está em processo de certificação, o que acontece com várias unidades de mama (e não só) de outras Instituições Hospitalares, nacionais e internacionais. Por outro lado o Centro Hospitalar de Setúbal tem uma Unidade de Mama certificada desde 2015, pelos critérios do EUSOMA.

 

Repetiram-se à exaustão palavras como certificação, unidade multidisciplinar, qualidade, sem se explicar que a primeira decorre de um processo em que se procura que uma entidade externa assegure que um serviço/ laboratório/ hospital tem procedimentos padronizados e pode evidenciar que os cumpre, que o tratamento de cancro em consultas multidisciplinares existe nos hospitais há mais de 20 anos, e que a qualidade depende do cumprimento das boas práticas internacionais, que apenas se podem assegurar quando se demonstram resultados que são auditados por entidades externas.

 

Fizeram-se afirmações graves quanto aos excessivos e desnecessários tratamentos de cirurgia e quimioterapia a que as doentes eram sujeitas. Não se explicou que toda a terapêutica oncológica tem sofrido modificações ao longo do tempo, de agressiva para mais conservadora, fruto de investigação científica e de trabalhos de observação e comparação de períodos livres de doença e de sobrevida. Em concreto, o excesso de quimioterapia no cancro precoce da mama tem estado em estudo e os resultados desse trabalho foram publicados em Agosto. Isso foi dito, de facto, mas já depois de se ter criado a ideia de que as doentes eram sobre tratadas em Portugal.

 

Afirmou-se assertivamente que havia muitas discrepâncias de diagnóstico entre os efectuados na FC e nos outros serviços de Anatomia Patológica (SAP), colocando em causa todos os serviços, sem se detalhar as percentagens em que isso acontece, nem se explicando que as diferenças de interpretação dos são resultado das más condições de preservação das amostras biológicas antes de chegarem aos SAP – a chamada fase pré analítica. Já agora é bom que se divulgue que a imensa maioria, se não a totalidade, dos SAP, têm implementados controlos de qualidade externa das técnicas de imunohistoquímica (que estão em causa na determinação dos receptores hormonais) e muitos têm também controlos de qualidade externa do diagnóstico.

 

Foi ainda dito que muito Hospitais públicos dificultavam a disponibilização das amostras para revisão diagnóstica. Sempre trabalhei em hospitais do SNS e conheço a grande maioria dos SAP. Posso afirmar que nunca vi essa prática, muito pelo contrário. Os Patologistas são dos médicos que mais trocam opiniões, enviando amostras para peritos nacionais e internacionais, sempre que há dúvidas ou para isso são solicitados, utilizando inclusivamente os resultados dessas revisões como controlo de qualidade dos seus próprios serviços.

 

Em Portugal há várias unidades hospitalares a tratar cancro da mama, como se pode depreender pelos números de novos casos por ano, revelados no próprio programa. Se a FC trata 500 novos casos por ano, os restantes 5.500 são-no nas outras instituições, públicas e privadas. Todas as recomendações de boas práticas remetem para uma cada vez maior proximidade dos cuidados ao doente, assegurando os números mínimos por instituição (150 a 200 novos caso por ano), pelo que o que é imprescindível é multiplicar unidades que possam fazer o seu trabalho bem feito e em tempo útil. Isso sim, melhoraria a acessibilidade dos doentes e reduziria as desigualdades, existentes em todo o território nacional e por evidente falta de recursos humanos e técnicos.

 

Não, não está tudo bem no SNS. Há muitos constrangimentos e muitas insuficiências e, por vezes, erros e negligências. Devem ser conhecidos para que sejam resolvidos e para que os doentes sejam tratados com qualidade, em segurança e em tempo útil. A redução das desigualdades no acesso aos cuidados de saúde passa por ter um SNS bem equipado e bem organizado. Além disso a rede privada também tem o seu papel havendo, para além da FC, outras instituições privadas a tratar cancro, da mama e outros. Convém ainda lembrar que muitos dos profissionais que trabalham na FC também trabalham ou trabalharam no SNS onde, com certeza, aplicam e aplicavam as recomendações e guidelines internacionais quanto ao tratamento do cancro da mama, participam e participavam em reuniões multidisciplinares de decisão terapêutica.

 

Mas o que a mim mais me impressiona é que a ideia de que o SNS não responde à população, que é mau, que os seus profissionais não trabalham com qualidade e que os doentes têm que recorrer aos privados para serem bem tratados, está de tal forma enraizada, que todos acham normais as afirmações e sugestões proferidas durante todo o programa que, na realidade, se transformou em propraganda à FC, não se tendo ouvido nem lido qualquer reacção da parte de profissionais, associações de doentes, de responsáveis institucionais ou do governo.

 

E no entanto, todos os anos milhares de pessoas são tratadas, de cancro da mama, de outros cancros e de outras patologias, por profissionais dedicados e empenhados, que se deslocam semanalmente entre hospitais para assegurarem as reuniões multidisciplinares de decisão terapêutica, que inventam horas e coragem para enfrentar todas as limitações, falta de recursos e dificuldades imensas dos doentes, para lhes poder dar aquilo que as boas práticas e o estado da arte recomendam e que sempre se habituaram a fazer – a tratar bem os seus doentes.

 

Da incomodidade

Sempre me surpreenderam as pessoas que declaram não se importar nada como o que pensam delas. Eu não sou assim. Importo-me com o que as pessoas pensam de mim, principalmente se são pessoas que prezo e/ ou me são afectivamente próximas.

 

Fiquei bastante incomodada com a polémica gerada pelo meu post sobre o último livro de José António Saraiva. Tenho algumas certezas, mas estas são cada vez em menor quantidade, sobre cada vez menos assuntos e cada vez mais incertas. As dúvidas sobre o que leio e o que ouço são crescentes, pois é frequente, ao aprofundar os assuntos tocados pelos títulos e frases assertivas que pululam pelo espaço público, encontrar motivos que me levem a concluir o exacto contrário daquilo que tinha sido a minha opinião na primeira abordagem. Por outro lado, não gosto de me envolver em polémicas em que se dizem coisas de uma dureza que, habitualmente, não se usa quando em presença do outro. A face inexpressiva do monitor desliga muitos dos filtros de auto-censura, pelas mais diversas razões. Além disso, talvez pela cautela e pela tentativa de ver o outro lado da questão (até por deformação profissional), arranjo sempre argumentos que podem justificar várias conclusões que muitas vezes são contraditórias.

 

Por isso, e porque fiquei com a sensação de não estar a ser compreendida ou, pior ainda, de não estar a ser justa, acabei por decidir voltar ao tema, após grande hesitação. A intimidação de que falava referia-se ao julgamento público violento de abjecção e nojo para quem tivesse a audácia de ler o livro. As palavras têm um poder que reconhecemos, racional e emocionalmente, pelo que ninguém gosta de se ver englobada no grupo dos abjectos. Mesmo que a intenção não seja essa, estas trocas de palavras intimidam e acabam por refrear quem discorda, que prefere não o assumir. A possibilidade de estar a dar visibilidade a um livro e a uma pessoa com quem não devemos perder tempo, foram outros aspectos que me levaram a ponderar não abordar de novo a questão.

 

Enviaram-me o dito livro por email e li-o. É um livro medíocre, mal escrito e totalmente desinteressante de uma criatura com idênticas características. O que mais me impressionou foi confrontar-me, mais uma vez, com a menoridade intelectual e a mediocridade das pessoas que ocuparam lugares de destaque, em áreas tão importantes como, neste caso, o jornalismo dito de referência. A ideia que este indivíduo provinciano, bacoco e deslumbrado tem de si mesmo é espantosa, ao elucidar os leitores que divulga histórias que contribuem para a História. Mas que pensará Saraiva que são contributos para a História? É quase anedótico se não fosse tão triste. No fundo o que ele mostrou, qual pavão sem penas, é que foi e é uma pessoa importantíssima porque privou com os ilustres deste País e porque lhes servia de confidente.

 

Os crimes de devassa de privacidade que lá estão são isso mesmo – crimes - e como tal devem ser tratados. O problema é que num País em que a Justiça é lenta e cara e em que os cidadãos sentem a impunidade como a norma, as vítimas ficam impotentes perante a chacota de quem adora e se alimenta destas notícias. Não se pode impedir nem regulamentar a indecência mas podemos não a propagar e reagir contra ela. No entanto só sabemos o que ela é se a conhecermos, é só a devemos combater da forma que, na nossa sociedade civilizada, se entende por combate – nos tribunais. A minha total solidariedade é, obviamente, para quem viu a sua privacidade devassada e que não desiste de lutar pelos seus direitos.

 

É muito fácil perorar sobre os princípios e os valores quando os problemas não nos atingem directamente. Confesso que não sei se a minha reacção teria sido esta caso fosse eu uma das visadas pelo Saraiva. Mas quero acreditar que sim.