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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

O regresso da extrema direita alemã

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Angela Merkel

 

 

Custa e preocupa muito apercebermo-nos de que a extrema direita alemã é a terceira força mais votada na Alemanha, regressando ao Parlamento donde estava afastada desde o fim da II Guerra Mundial.

 

Até hoje, e apesar dos diversos avisos, a liderança da Europa não tem ligado aos sinais de descontentamento dos cidadãos, nomeadamente em relação à União Europeia. A prolongada crise, as desigualdades e o voluntarismo dos partidos defensores da presente orientação política, empurrou todos os eurocépticos para a direita, pois não se sentem representados por nenhum partido tradicional. O último discurso de Juncker, com a proposta de um Ministro das Finanças comum, é mais uma fuga em frente na suposta necessidade de integração política, sem haja o cuidado de ter a explícita aprovação dos povos.

 

É claro que esta não é a única razão, mas parece-me uma razão muito importante. Para além disso o desaparecimento das gerações que viveram a II Grande Guerra, o terrorismo, a crise económica e a insegurança sentida dentro do espaço europeu, para além dos fluxos de refugiados, são mais razões para o aumento do racismo e da xenofobia.

 

É urgente o repensar da construção europeia, o respeito pelas democracias e pelas diferenças entre os vários Estados. São precisas novas políticas sociais, de emprego e de promoção da igualdade. Caminhamos a passos largos para um ciclo que acorda todos os nossos medos.

Do esboroar do projecto Europeu

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A sensação difusa de que a União Europeia se está a esboroar está cada vez mais intensa e real. Quando António Vitorino, ex-comissário e europeísta convicto, na rentrée política do PS afirma que a divisão entre os grupos dos ganhadores e perdedores é uma ameaça ao projecto europeu, podemos estar certos de que, no PS, começa o afastamento ao europeísmo militante.

 

Já não é possível ignorar os sinais que se foram acumulando ao longo de tantos anos e que se agudizam diariamente. A desigualdade, a falta de solidariedade e de coesão entre os países da Europa Central e do Norte e a Europa do Sul, o desemprego galopante, o esfarelamento da democracia nos países da periferia sob o jugo das dívidas e da recessão económica e a crise dos refugiados, confluem para a tempestade perfeita.

 

O populismo e a xenofobia aumentam e estão predominantemente (mas não apenas) do lado dos euro-cépticos. O afastamento entre as populações e os representantes europeus é cada vez maior e está a ser arregimentada pelos extremismos. A crise dos refugiados ameaça ser a gota de água pela incapacidade demonstrada na sua resolução, com a proliferação de muros entre fronteiras e o alargamento das sensações de insegurança e de medo por entre as populações.

 

Angela Merkel está a perder o seu eleitorado sendo uma das poucas vozes que se mantém fiel ao seu compromisso com a integração e o acolhimento dos refugiados. Mas as opiniões públicas revoltam-se contra o que pensam ser a razão da sua própria pobreza e insegurança. Os líderes extremistas têm sido muito bem sucedidos em integrar o pensamento de que o que é diferente é perigoso.

 

Infelizmente estou convencida que as forças centrífugas são cada vez mais fortes e que não há arte, engenho nem vontade para dar a volta à situação, de forma a que os europeus se possam reconciliar uns com os outros, vencendo a desconfiança de que falava António Costa, recuperando os valores que estiveram na fundação desta União.

E quais as conclusões políticas?

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Christine Lagarde

 

Afinal parece que as pessoas e os partidos que defendem e sempre defenderam uma reestruturação da dívida têm e tinham razão.

 

Quais vão ser as consequências? É agora que se vai avançar para a reestruturação da dívida? É agora que finalmente a Comissão Europeia vai fazer marcha atrás em relação à política que impôs nos últimos anos?

 

E se começássemos a falar de impostos mais progressivos para que quem mais tem seja quem mais pague? E se começássemos a falar da taxa Tobin? E se começássemos falar da redução dos horários de trabalho, não para 35h mas para 30h por semana, no público e no privado? E se começássemos a falar da renovação geracional dos quadros? E se começássemos a falar do aumento de emprego que isso significaria com a consequente melhoria na qualidade de vida, aumento da participação contributiva, perspectiva e segurança de emprego, para que as gerações que esperam indefinidamente a sua vez possam não ter que adiar cada vez mais a vontade de serem independentes, responsáveis, cidadãos activos, fundarem famílias, terem filhos? E se começássemos a pensar em investir na cultura, apostar na música como um elemento fundamental na educação e desenvolvimento das crianças e adolescentes?

 

E se retomássemos a ideia de procurar financiamentos para suprir as necessidades dos cidadãos em vez de as reduzirmos ao dinheiro existente? Não é assim que os empreendedores fazem? Não é isso o empreendedorismo?

Das surpresas pouco surpreendentes

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Helder Oliveira

 

É claro que Maria Luís Albuquerque tem toda a razão.

 

Se ela fosse (ainda) Ministra das Finanças, significaria que o governo do País era (ainda) de direita e que o Primeiro-ministro seria (ainda) Passos Coelho, e que o Vice Primeiro-ministro seria (ainda) Paulo Portas.

 

Ou seja, que a Comissão Europeia e o Eurogrupo certamente nunca avançariam com sanções a Portugal, mesmo que o défice tivesse dobrado os 3%.

 

Ou seja, que Wolfgang Schäuble e Klaus Regling não estariam minimamente preocupados com Portugal, porque Portugal (ainda) era um membro de pleno direito do status quo europeu.

 

Ou seja, a vontade de sancionar Portugal não tem nada a ver com o défice de 2015, mas apenas com a ousadia e o despautério deste País por ter arranjado uma Geringonça, ao contrário da Caranguejola que o status quo europeu queria que (ainda) governasse.

O (in)esperado resultado do referendo Britânico

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The Spectator

 

Ao contrário do que tenho lido e ouvido em vários comentários, feitos pelos habituais políticos, economistas e jornalistas, não estou nada surpreendida com o resultado do referendo no Reino Unido. E tenho muita dificuldade em perceber a surpresa generalizada quando, até ao assassinato da deputada inglesa, todas as sondagens davam maior expressão ao resultado favorável ao BREXIT.

 

Por outro lado, há anos que se ouvem vozes muito críticas à deriva tecnocrática, neoliberal e austeritária da União Europeia, à incapacidade das instituições europeias de lidar com as crises humanitárias dos refugiados, demográfica, das dívidas soberanas nos países periféricos, da anemia do crescimento económico, com a divisão entre uma Europa a várias velocidades, com a hegemonia da Alemanha, com o aumento das desigualdades e da pobreza, enfim, com a previsão de que havia cada vez mais possibilidade de desagregação europeia.

 

Outro ângulo de análise a que tenho assistido é a discussão da oportunidade e das motivações do referendo, que todos sabemos ter sido uma manobra de Cameron para garantir a sua sobrevivência política, para desvalorizar o seu resultado. Ou discutir a pertinência de se referendarem assuntos tão complexos, em que a resposta dada pelos cidadãos seja motivada por motivos circunstanciais (como ouvi Helena Garrido defender).

 

Por outro lado, tenho ouvido análises em que se colocam de um lado os defensores do BREXIT como velhos, xenófobos, ignorantes e racistas, do outro lado os defensores do BREMAIN como jovens, informados, livres, tolerantes e solidários. Tenho mesmo visto defender a repetição do referendo, com difusos argumentos de escassa participação ou de campanhas populistas e de medo - será que aceitariam o argumento caso tivesse ganho o BREMAIN?

 

Penso que estamos todos a não querer ver a realidade. O referendo é um instrumento democrático e o maior problema foi o de ter sido parcas vezes usado no que diz respeito à integração europeia. Lembro-me perfeitamente da promessa não cumprida de Sócrates quanto ao referendo ao Tratado de Lisboa. A menorização dos cidadãos, assumindo-se que não compreendem as questões ou as implicações das respostas, de serem manipulados pelas campanhas populistas, etc., pode servir para qualquer tipo de consulta popular, desde as eleições autárquicas às do Presidente da República.

 

As diversas crises que se instalaram na Europa, levando à perda de qualidade de vida, de esperança e de perspectiva de futuro, o descrédito no projecto de solidariedade europeia, o empobrecimento e a sensação de injustiça associada às desigualdades galopantes, a arrogância e pesporrência das Instituições Europeias, com o alheamento dos cidadãos em relação à política, patente em todos os actos eleitorais, predominantemente nos europeus, criaram levam ao aumento do sentimento anti União Europeia, sem que necessariamente se seja xenófobo ou racista.

 

O simplismo da divisão entre os bons (europeístas) e os maus (secessionista) só fará aprofundarem-se as desconfianças e o sentimento de exclusão dos povos. Infelizmente, as Instituições europeias reagiram com o despeito de virgens ofendidas, em vez de permanecerem calmas e de assumirem o resultado do referendo como uma decisão respeitável e democrática, que urge entender, ameaçando e fazendo voz grossa exigindo uma saída rápida.

 

Quero crer que estas situações não se podem resolver rapidamente nem com atitudes de ultraje pessoal. Será a melhor forma de incendiar os sentimentos de rejeição à União Europeia por parte de outros países.

 

É urgente que a União Europeia se remodele e se auto critique, de modo a que os cidadãos dos países que a compõem sintam que a sua existência lhes garante uma vida melhor, mais próspera e mais segura. As pessoas que constituem os povos são soberanas para decidirem. Se deixarmos de acreditar nisso, deixamos de defender a democracia. E os resultados das votações livres são para respeitar, mesmo que sejam o contrário do que gostaríamos que fossem.

 

Continuo a acreditar que a União Europeia foi e é uma organização que nos dá mais garantias de paz, de solidariedade, de crescimento, de tolerância e de interligação cultural. Mas para que continue tem que evoluir e transformar-se, reassumindo esses valores numa União de países soberanos e iguais entre si, que pugnam pelo respeito e consideração mútuas. Para que esse desejo seja uma realidade precisamos de refundar as Instituições, sem medo nem vacilações.

Este é o primeiro dia do resto das nossas vidas (*)

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 Não há volta a dar. É um golpe para a Europa

 

É o futuro da União Europeia que está em jogo. A decisão da Grã-Bretanha pode ser apenas o início de uma proliferação de referendos, em vários países, o que significará a implosão da União Europeia.

 

E não vale a pena refugiarmo-nos na justificação de que a culpa é da extrema direita. É um facto que a extrema direita é defensora do fim da União Europeia mas as razões de fundo não são apenas o populismo, a xenofobia e o racismo. Se for apenas essa a leitura deste resultado estaremos todos condenados a assistir ao desmoronar de um projecto de paz e prosperidade que foi o que esteve na base da construção de uma Europa unida.

 

A verdade é que muitos de nós, onde me incluo, queremos a continuação desse projecto e não de uma Europa totalmente divorciada dos valores que a fundaram, onde a actuação dos responsáveis políticos, internos e externos, muito têm contribuído para a insatisfação generalizada, o divórcio com as instituições europeias e o medrar de todos os fundamentalismos.

 

Não é de números nem do sobe e desce da libra ou do euro que deveríamos falar agora (por muito importante que isso seja) mas de política, de gente, de olhar para o que correu mal, para as razões do descontentamento, para as mudanças que se impõem. É preciso recuperarmos a soberania, o respeito pelas diferenças e pelas culturas dos vários povos, respeitando-os, de tratar cada país por igual, de olhar para a sociedade, para a demografia, para os movimentos de refugiados, para os desempregados, para a criação de riqueza. É preciso devolver às pessoas o direito de decidirem e de encontrar, em conjunto, soluções que permitam dinamizar a vida das populações.

 

Nada é impossível. Aproveitemos esta oportunidade.

 

(*) Título muito pouco original, concordo.

Bremain ou Brexit

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Hoje vota-se no Reino Unido se a Europa permanecerá uma União com a Grã-Bretanha ou sem ela.

 

Como já disse há dias, tenho muitas dívidas quanto ao que preferiria que acontecesse. Se por um lado penso que a União Europeia foi um projecto político que permitiu a paz durante tantos anos na Europa, também estou convencida que, a continuar como até agora sem que qualquer importante reforma das suas Instituições aconteça, aprofundará as desigualdades, os nacionalismos, a xenofobia e o racismo, para além da subversão dos princípios democráticos, com a total perda de capacidade dos povos e os seus votos decidirem e gerirem os respectivos destinos.

 

E no fundo isso é o que mais me preocupa – o medo do funcionamento da democracia. As campanhas que ambas as posições protagonizam são bem demonstrativas de que a sigla TINA (there is no alternative) não se coloca apenas em relação à política económica. Aliás, num assunto que é eminentemente político, os fantasmas que se agitam são de cariz económico e financeiro, um retrato daquilo a que se transformaram as prioridades na União Europeia.

 

Não sabemos muito bem as consequências do que será a decisão favorável ao Brexit, com o provável efeito dominó que poderá desencadear. Não nos lembramos já do que era Portugal (ou o resto da Europa) sem a livre circulação de pessoas, bens e serviços, sem a abertura e a troca de experiências e de culturas de uma comunidade tão diversa e rica. Mas é precisamente o esquecimento de que se devem respeitar as diferenças e de que a solidariedade foi um dos princípios fundadores deste projecto, com a subalternização da democracia à ditadura dos mais poderosos, que faz perigar e soçobrar o que parecia imutável.

 

Preferiria que o Bremain ganhasse e que esta situação fosse um alerta para os decisores políticos de cada país e da União Europeia. É preciso ser optimista. Mas de uma coisa estou absolutamente certa – nada é mais importante que o respeito pelo voto e pela democracia.