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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Dos populismos caseiros

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A peseudo-tragédia das candidaturas da autarquia portuense, com a pseudo-bravata de Rui Moreira contra as declarações de Ana Catarina Mendes, é uma pequena amostra, para quem ainda não quis ver, do que é o populismo dos tão propalados independentes.

 

Rui Moreira é mais um exemplo do nojo anti-partidário com tiques autoritários e trauliteiros, neste caso com a pronúncia do norte. É fantástico, muito sério e muito honesto e não precisa nada da peçonha partidária, com excepção dos votos, claro.

 

Manuel Pizarro é bom como cidadão, mas como dirigente do PS deve ser mantido a uma sanitária distância. Nada de lugares para os membros dos partidos, deles só necessita da campanha, da máquina de angariar votos e do trabalho posterior.

 

A responsabilidade é mesmo do PS, não por causa das observações de Ana Catarina Mendes que, mesmo que infelizes, não me parecem graves a nenhum título, mas porque prescindiu de assumir um candidato, mesmo não ganhador.

 

Espero que Manuel Pizarro se candidate autonomamente e que defenda as suas ideias e os votos no seu partido. A democracia sem partidos e com movimentos abrangentes e de cidadãos todos eles muito fantásticos, sérios e apartidários, é uma falácia que só quem não quer não entende. E talvez os portuenses o possam dizer nas urnas.

Das declarações de princípios

Não sei se o facto de Mélenchon não apelar ao voto em Macron tem ou não influência nas pessoas que votaram nele na 1ª volta das presidenciais francesas. Também não sei se, caso ele apelasse ao voto em Macron, houvesse alguma diferença na votação dos seus eleitores.

 

Mas isso não me impede de considerar um erro histórico o facto de Mélenchon não fazer tudo o que é possível para derrotar Marine Le Pen, para que a expressão eleitoral dela seja a menor possível, para mobilizar todos os eleitores a votar na 2ª volta das presidenciais. E isso só se consegue votando em Macron.

 

É uma questão de princípios e de prioridades, da essência da escolha. Acho um tremendo erro. E espero sinceramente que o seu calculismo político não o venha fazer arrepender-se desta posição.

Dos prováveis impossíveis

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Depois do referendo inglês em que o BREMAIN estava seguro e as eleições americanas com a vitória certa de Hillary Clinton, esperemos que não venham as presidenciais francesas com a óbvia derrota à segunda volta de Marine Le Pen.

 

Nada é previsível com uma percentagem de indecisos e de abstenções tão grande. Mas ao contrário das outras duas situações, desta vez tenho uma terrível premonição.

 

O que vale é que eu nunca acerto! Tal como o princípio da anti-bússola, que cá em casa me atribuem descaradamente, pode ser que tenha também o princípio da anti-adivinhação eleitoral! Neste caso dava algum jeito!

Acordemos

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Hillary Clinton

 

Depois do enorme duche de água gelada após a inimaginável vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA, vale a pena acalmar e pensar em várias questões:

  1. Não podemos assumir que as únicas razões para a votação em Donald Trump são a estupidez, a ignorância, a xenofobia e o sexismo, embora essas razões também devem ter estados presentes.
  2. Temos que tentar perceber que a insatisfação, a desigualdade, o desemprego e a crise económica desenvolveram uma crise social que afasta as pessoas dos políticos e da política, levando-as a acreditar em alguém que as convence estar fora do sistema.
  3. Os políticos, nomeadamente os de esquerda, menorizam e inferiorizam os eleitores, tratando-os com desdém e com sobranceria, em vez de tentarem compreender os seus anseios e procurarem soluções para os seus problemas.
  4. A constante afronta aos políticos e à política, falando-se continuamente de corrupção, com suspeitas constantes, acusações, faltas de respeito e desvalorização das funções públicas, são contraproducentes e só alimentam a desconfiança das populações em relação aos seus representantes.
  5. É urgente perceber o que causou os erros das projecções e das sondagens - as pessoas mentiram? Os autores das sondagens não valorizaram ou não contabilizaram com rigor as intenções de voto em Trump? Foram deliberadamente alteradas?
  6. É urgente perceber a crescente irrelevância dos media na cobertura das campanhas e na forma como, deliberadamente ou não, condicionam os leitores, provavelmente levando-os a fazer o contrário daquilo que advogam.

Este é um sinal, mais um depois do BREXIT, que deve acender todas as lanternas vermelhas em todos os cantos da Europa. As ondas populistas continuam e crescem e, enquanto as instituições nacionais e internacionais, como por exemplo a União Europeia, mantiverem o estado de negação e não olharem para os seus povos, para as suas angústias e temores, sem paternalismos nem juízos morais, para tentarem resolver os reais problemas das pessoas, a lenha continuará a ser lançada para estas fogueiras.

 

Não vale a pena lamentarmo-nos. A democracia funcionou e funciona. Mas se esta é a vontade da maioria, por algum motivo essa maioria tem esta vontade. O combate tem que ser frontal, diário e com actos, não apenas com intenções e discursos retumbantes.

 

Esperemos que o Trump Presidente não cumpra as promessas do Trump candidato. De resto, o futuro afigura-se-me bastante incerto e com cores bastantes escuras.

 

Clarificações

As alterações políticas a que assistimos desde 4 de Outubro fazem com que me sinta em grande confusão ideológica, pois queria muito uma alteração governativa com a inexorável derrota da política destes últimos 4 anos, e senti-me espantada e esperançosa com a hipótese de poder realizar este desejo.

 

Mas é bom que nos recentremos e nos distanciemos desses desejos e vontades, para que o realismo e o pragmatismo imperem:

  1. António Costa foi eleito Secretário Geral do PS, em substituição de António José Seguro porque, com ele, o PS teria assegurada uma estrondoso vitória eleitoral.
  2. António Costa apresentou-se a eleições como candidato a Primeiro-ministro, ambicionando uma maioria absoluta para governar. Sempre defendeu entendimentos com os partidos à sua esquerda e afirmou por diversas vezes a quase impossibilidade de acordos com a direita.
  3. António Costa perdeu as eleições por uma margem bastante clara.

 

Nada disto impede nem retira legitimidade democrática à alternativa de um governo com apoio parlamentar dos partidos à esquerda do PS. Mas a legitimidade política de António Costa para liderar esta solução é fraca, tenho que o admitir.

 

António Costa não procurou o reforço da sua legitimidade política propondo um congresso extraordinário e perguntando a opinião dos militantes e simpatizantes do PS - os mesmos que o elegeram para candidato a Primeiro-ministro. Por isso, por muito que me agrade a hipótese de um governo de esquerda, por muito que repita a mim própria que nestas eleições se escolhem deputados e não primeiro-ministros, por muito que eu saiba que a soma dos deputados de esquerda é superior à soma dos deputados de direita, não deixo de pensar que esta solução precisa de ser sufragada pelos cidadãos.

 

Sendo assim, acho que Cavaco Silva deverá dar posse a António Costa e que o próximo (ou próxima) Presidente da República deverá convocar eleições antecipadas de forma a clarificar qual a solução governativa que os cidadãos querem: uma coligação de direita, uma coligação de esquerda ou um governo minoritário com apoios parlamentares à medida das necessidades.

 

Na verdade não me sinto confortável com um governo liderado por um PS que, até há bem poucas semanas, declarava, e com razão, que a única forma de garantir um governo de esquerda era tendo uma maioria absoluta; e também com partidos que, até há bem poucas semanas, juravam que o PS era semelhante à direita.

 

Os pragmatismos podem ser invocados em todas as circunstâncias e podem ser argumento para opiniões simétricas e contrárias. O PCP mudou e abriu esta brecha - o povo deve confirmar que é esta a sua opção, com António Costa à frente de uma coligação de governo ou parlamentar.

 

Por muito que rejubile com um governo liderado pelo PS toda eu clamo por um governo com estes partidos e com ideias a ganharem eleições.

 

Nota: acabo de ouvir Jerónimo de Sousa dizer que o PCP aprova o acordo com o PS. Este é, de facto, um tempo histórico, seja o que for que vá acontecer daqui para a frente. O próximo acto será protagonizado pelo Presidente Cavaco Silva.

A hora da verdade (2)

No seguimento do post anterior, se se confirmar a rejeição em bloco do governo de Passos Coelho no Parlamento, não é certo que Cavaco Silva emposse António Costa.

 

O Presidente pode manter o governo em funções de gestão, se considerar que, embora exista um acordo para a legislatura com o BE, o PCP e o PEV, este não assegura a estabilidade para um governo de 4 anos. Neste caso o Presidente condicionará a actuação do seu sucessor, obrigando-o a convocar eleições imediatamente após a sua posse. Por outro lado a coligação de esquerda poderá ganhar votos com a eventual vitimização pela situação criada.

 

Mas se o Presidente decidir aceitar as garantias desse (ainda inexistente) acordo entre os 4 partidos, será o PAF que se vitimizará e tudo fará para pressionar o próximo Presidente a convocar eleições antecipadas. Toda a campanha presidencial será à volta deste tema. Os candidatos serão obrigados a pronunciar-se sobre a sua opção, caso ganhem as eleições. E o tempo do PS no governo será muito escasso para que, de alguma forma, consiga provar que é, de facto, uma alternativa ao pensamento único da direita.

 

Seja qual for a sua decisão, Cavaco Silva será criticado por cerca de metade da população. Por sua inteira responsabilidade.

A hora da verdade (1)

À hora em que escrevo este post ainda não há um acordo de compromisso para a legislatura assinado com o PCP. Ou seja, ainda não é certo que António Costa tenha uma proposta alternativa a apresentar ao Presidente Cavaco Silva, honrando a sua promessa de só rejeitar o governo da coligação PSD/ CDS se obtiver um documento escrito em que os partidos de esquerda asseguram a estabilidade governativa do PS no Parlamento.

 

Se o PCP não assinar o acordo, veremos se o PS mantém a sua decisão e se, depois de toda esta reviravolta, o governo de Passos Coelho não acabará por passar na Assembleia da República. Neste cenário o PCP será acusado de inviabilizar o governo de esquerda e será altamente penalizado numas próximas eleições. Pelo contrário, o PS e o BE capitalizarão e reforçarão o seu eleitorado e será óbvio, como o foi até 4 de Outubro, que para eleger um governo de esquerda o voto no PCP é um desperdício.

 

Se o PCP assinar o acordo, Cavaco Silva terá nas suas mãos a decisão que, qualquer que seja, desagradará a cerca de metade da população.