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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da bebedeira dos mirtilos

compota mirtilos.png

Como este Natal foi muito intrincado em termos de tempo para arranjar os cabazes, ficando eles bastante áridos e descompostos, a tarefa prolongou-se para o início do ano, tentando correr contra os Reis, e não o conseguindo.

 

Mas como mais vale tarde que nunca, lá se materializaram os licores de folha de figueira e de mirtilos, há cerca de 1 ano a macerar em aguardente. Ficaram muitíssimo bons, de facto. No entanto a abundância de mirtilos criou um problema adicional – a quantidade dos mesmos, enrijecidos pela bebedeira anual, depositados numa panela e sem destino fácil de descortinar. Que fazer?

 

Bom, segundo a prática científica de que nada se perde e tudo se transforma, seria preciso em primeiro lugar rehidratar os mirtilos, o que fiz de imediato cobrindo-os de água com açúcar. Depois de uma noite e um dia nesta sopa doce, resolvi transformá-la em compota: juntei sumo de 3 limas, 4 paus de canela e deixei fazer ponto… que saiu um pouco demasiado. Mas o doce resultou bastante bem, tendo sido rapidamente enviado a terceiros, para que eu não cedesse à melosa tentação.

 

Triste sina a minha

que nem passando fome

fico magrinha.

Dos atrasadíssimos inícios das festividades natalícias

Mesmo quase em cima dos acontecimentos afadigo-me nos preparativos da época natalícia. Este ano, ainda por cima, tenho o compromisso de preparar iguarias saudáveis e hipocalóricas que, como bem sabemos, são a negação da volúpia e do prazer da degustação gastronómica, e o contrário do espírito peganhento e decadente do Natal.

 

Mas nada me faz desistir. Sendo assim, aproveitando uma cabazada de abacates que amavelmente me ofereceram, com o recado de que era isso que poderia comer por estes dias, com o compromisso de abater as calorias em fartos e penosos treinos pós pantagruélicas refeições (sem açúcar, sem farinha, sem frituras, etc., coisas a que será deveras difícil obedecer), rumei a destinos desconhecidos no que diz respeito à confecção de compotas.

doce de abacate 2.jpg

 

Inventei uma. Pela cara de um dos habitantes cá de casa não terá sido um êxito retumbante, mas come-se.

 

Cortam-se as passas aos bocadinhos para dentro de um tacho; a seguir junta-se a raspa de 2 limas; depois cortam-se os abacates ao meio (cerca de 8), retiram-se os caroços e, com uma colher, a polpa que se desfaz à garfada, regando com o sumo das 2 limas, aos poucos; faz-se o mesmo com 3 bananas e põe-se tudo ao lume. Misturam-se umas colheradas de mel (no meu caso 3), a gosto, e deixa-se cozinhar, pelo menos uns 45 minutos, mexendo sempre. No fim reduz-se a puré com a varinha mágica.

 

doce de abacate.jpg

Ideal para comer com iogurte (daqueles sem açúcar, sem gordura, sem sabor, enfim), flocos de aveia integrais e sementes de sésamo.

 

O licor de folha de figueira é a parte herdada da vida de deboche gastronómico, feito com a verdadeira aguardente, as folhas de figueira e açúcar. Maravilhoso.

licor folha figueira.jpg

Amanhã será a vez do ritual do bacalhau, da aletria, das rabanadas, do Natal com gente, conversa e tradição. Tudo é já tradicional, desde o pequeno almoço saboreado na cama, a bonança antes da tempestade, à azáfama de uma tarde passada na cozinha e à noite entre a família e os amigos.

 

Que todos possam passar um excelente Natal.

Geleia de espumante

geleia de espumante.png

 

Podem experimentar que é muito bom. Pelo menos eu gosto.

 

Esta foi uma ideia de uma colega minha, que me desafiou a fazer geleia de champanhe. Confesso que nunca tinha ouvido falar de tal mas, numa coincidência engraçada, uns dias depois ofereceram-me geleia de vinho, que é bastante interessante.

 

Como não sou de ignorar um tal desafio, inaugurei a época de confecção natalícia com a dita geleia. Para me inspirar fui à internet ver receitas (está lá tudo). E cumpri (quase) à risca a receita que vi.

 

Cozi um quilo de maçãs cortadas em quartos, com casca mas sem sementes num litro de água, durante 40 minutos (royal gala - que têm bastante teor de pectina). Escorri as maçãs, medi 600 ml do líquido restante e misturei com o sumo de 2 limões, 500 gr de açúcar e uma garrafa de espumante (achei que para experimentação científica bastava).

 

Deixei ferver até que começaram a formar-se muitas bolhas na superfície do cozinhado. Usei o truque de deitar um pouco num prato frio e ver se fazia ponto de estrada, para verificar o ponto. Logo que isso se verificou desliguei o lume – estava pronta.

 

Claro que depois ficou a remanescente maçã em papa, com as cascas. Retirei as cascas e misturei a papa de maçã com uma colher de chá de gengibre em pó, outra colher de chá de canela e um pouco de açúcar. Depois juntei amendoins, sultanas e favas fritas, deitei tudo para um tabuleiro de ir ao forno e deixei a assar (forno médio) durante 20 minutos.

 

Ontem aproveitei também para me desfazer de uma abóbora que carinhosamente me tinham dado (já há algumas semanas) adulando-me indecentemente com os elogios a uma compota de abóbora com chocolate que tinha feito o ano passado. Portanto repeti a dose e já está enfrascada, assim como a geleia de espumante. Começam a compor-se os cabazes de Natal.

 

Para o próximo fim de semana será a vez dos licores.

Ouvir

 

 

 

Gosta mais de ouvir do que de falar. Gosta mais de pequenas reuniões do que de grandes manifestações, sejam elas de júbilo, reivindicativas ou sociais. Nisso é uma mulher convencional e muito conservadora. Ouve muitas histórias, algumas repetidamente outras novas e imaginativas. As vidas à sua volta sempre ricas, sempre diferentes e mais interessantes que a sua.

 

À volta da mesa cozinham-se afectos e rezas, em lume brando depuram-se dores e risos, mexem-se vagarosamente meladas e sensuais ânsias, agarram-se teimas e suores. Mais precisas que num laboratório, as medidas usadas, de tão qualitativas, correspondem aos mais altos níveis de qualidade e sensibilidade.

 

Daquela vez foi em finas rodelas de laranja, bem descascada, dispostas às camadas alternando com açúcar, pequenos e escassos fragmentos de gengibre fresco, paus de canela e jeropiga a cobrir. Completando com água sem afogar a mistela, o fogo lento e a colher envolvendo ritmadamente durante horas, até quase se acabar a conversa, o chá e os longos e paralelos silêncios que correm subterrâneos por dentro de cada alma.

 

 

Compota de laranja com gengibre e jeropiga

 

4 Kg de laranja descascada (em rodelas fininhas)

vidrado da casca de 2 laranjas/Kg (em bocadinhos muito pequenos)

3 Kg de açúcar

gengibre fresco (em bocadinhos muito pequenos)

0,5l de jeropiga

8 paus de canela

água (que baste para cobrir tudo o resto)

 

Doce de pêra com jeropiga

 

 

Pois o doce da temporada demorou a materializar-se na minha cabeça. Não gosto muito de cozinhar nem o faço muitas vezes. Cá em casa até preferem que o não faça, embora sejam de uma injustiça de bradar aos céus.

 

No fundo, criticam-me a elevada criatividade quando preferem coisas mais amenas, ortodoxas, iguais a sempre. Por isso dou largas à minha imaginação na altura de confeccionar as prendas natalícias.

 

Pois este ano, depois de uma tarde a lutar com uma abóbora enorme mas bastante oca, cheguei à conclusão que precisava de aumentar o número de frascos de doce. Pensei em pêras rocha, que já me serviram para um Natal de compota com noz e gengibre, uma especialidade.

 

No entretanto apareceram-me em casa alguns litros de jeropiga, de várias e boas proveniências. Pareceu-me que, se havia um doce maravilhoso que dava pelo nome de pêras bêbedas, em que se cozem as ditas em vinho tinto, açúcar e canela, porque não haveria eu de fazer uma compota usando a jeropiga?

 

Num dos últimos sábados lá fui eu em demanda de 6 quilos de pêras rocha, limão miolo de noz e gengibre, que não havia. Paciência, desiste-se do gengibre.

 

Armada de uma balança de cozinha e muita paciência, descasquei aquelas pêras todas. O peso das cascas e das sementes é enorme, tendo ficado apenas com 3,6K de pêras aos bocadinhos. Espremi algumas laranjas que tinha e misturei o sumo (400ml) com 1L de jeropiga. Misturei com as pêras e resolvi deixá-las cozer durante 5 minutos na jeropiga com sumo de laranja e 5 paus de canela. Depois juntei 2,5K de açúcar (0,5K açúcar por 1K/1L de fruta/jeropiga, respectivamente - tive que misturar açúcar branco e amarelo porque não tinha branco que chegasse) e sumo de 4 limões (por causa da pectina que a pêra não tem).

 

A seguir esperei o mais pacientemente que pude pelo famigerado ponto de estrada. Ao fim da tarde lá consegui fazer a estrada e conduzi rapidamente a compota para os frascos.

 

Podem acreditar que está divinal. Os cabazes já estão compostinhos.
 

 

Doce de abóbora

Ontem foi dia de descascar e cortar uma abóbora com um monte de quilos, o que se revelou mais difícil do que esperava. Primeiro porque o balcão é alto e eu sou pequena; segundo porque a faca era demasiado grande e nem por isso cortava grande coisa; terceiro porque este tipo de trabalhos são efectuados uma vez por ano e portanto há pouca prática.

 

Mas vontade (boa) há muita. Lá está o panelão cheio de pedaços de abóbora (que encolheram menos do que é habitual, espero que não signifique nada de pior), açúcar (750 gramas por quilo de abóbora, já descascada) e vários paus de canela (acho que 2 por quilo de abóbora). Desde ontem que está a macerar e hoje, após sumo de limão (2 por quilo de abóbora) lá vai tudo para o lume.

 

Espera-me uma tarde de doce de abóbora, de colheres de pau, de nozes para quebrar e partir em bocados grossos (penso que utilizarei o velho método da pancada, depois de envolver o miolo das nozes num pano limpo) e do tão difícil ponto de estrada, que permitirá que o doce fique no ponto certo.

 

Esse é o problema mais difícil. Por isso agora deixo o doce a arrefecer no próprio panelão e só enfrasco no dia seguinte. Se for preciso mais lume ou, pelo contrário, mais água, escuso de despejar de novo o doce dos frascos para o panelão.

 

Falta-me ainda imprimir do Publisher os rótulos do doce, para os colar aos frascos que, entretanto, fui coleccionando. Há de tudo, desde frascos de molhos até frascos de azeitonas, boiões de vidro de iogurte, etc.

 

Começaram os preparativos para o Natal. Esperam-me ainda vários frascos de infusão de café, aguardente, açúcar e canela que se irão transformar em licor, num dos próximos fins-de-semana.

 

Época Natalícia

Este ano parece difícil adquirir o espírito natalício. O país anda pouco festivo, mais cinzento e húmido que verde e vermelho, mais prata baça que dourados flamejantes.

Não se vêem turbas multas nas lojas, acotovelamentos, pais natais, renas e neve a fingir. Vêem-se caras coladas às montras, olhares vagarosos pelas portas abertas, espreitando a sedução das cores.

Quando os miúdos da família e dos amigos eram pequenos, eu tinha verdadeiros ataques de pânico na altura das prendas, quando comprava e quando recebia. Por muito que alertasse para a enorme quantidade de bugigangas que enchiam os quartos, a que eles não ligavam nenhuma, a não ser os escassos segundos que demoravam a rasgar os papéis de fantasia, as pilhas de coisas inúteis que atravancavam a casa e a minha alma, a noção de desperdício, da imoralidade da abundância, não era possível travar a avalanche presenteadora.

De há uns anos para cá resolvi que nunca mais gastaria dinheiro, tempo e imaginação a correr de loja em loja. Resolvi que, com a mesma imaginação e o mesmo tempo, era capaz de idealizar ofertas manufacturadas para os meus amigos e familiares. É surpreendente o que podemos criar com as mãos, boa vontade e muita paciência.

Hoje inaugurei a minha própria época de Natal, ligeiramente atrasada, com uma sessão compoteira. Para quem quiser experimentar, aqui fica a receita:

 

Compota de marmelos com laranja:

  • Descascam-se os marmelos e tiram-se as sementes e o núcleo (se se quiserem aproveitar as cascas e as sementes para fazer geleia, convém lavar os marmelos muitíssimo bem!);
  • Cortam-se os marmelos em pedaços pequenos (mais ou menos cubos com 1,5 cm de lado);
  • Pesam-se os pedaços de marmelo e colocam-se numa panela / tacho bem grande;
  • Espremem-se várias laranjas até perfazer o mesmo peso (1 l de sumo e polpa de laranja / 1 Kg de marmelo);
  • Cozem-se os marmelos no sumo e polpa de laranja durante cerca de 15 minutos, com paus de canela (1 por cada quilo);
  • Quando os marmelos estiverem cozidos (espeta-se um garfo para ver se estão macios) junta-se 650 g de açúcar por cada quilo de fruta (marmelos e laranja, ou seja, 1 Kg de marmelos com 1 l de sumo de laranja correspondem a 2 quilos de fruta);
  • Deixa-se ferver até adquirir o ponto certo, que é o ponto de estrada (deita-se um pouco de doce para um prato frio e passa-se uma colher por ele. Se ficar um espaço sem doce, sem que este se precipite liquidamente para o espaço, está feito);
  • Deita-se em frascos de boca larga e fecha-se bem.

Truque: como já tive que desenfrascar o doce outra vez para ganhar mais ponto, se tinha pouco, ou diluí-lo com água, se estava com ponto a mais, agora deixo-o na panela até arrefecer. Se estiver bem, enfrasco, se não, vai outra vez ao lume.