Domingo, 10 de Abril de 2011
Não foi notícia

Entre 7 e 9 de Abril decorreu, no Porto, o XIV Congresso Nacional de Anatomia Patológica. Ao contrário de outros congressos de outras especialidades, não houve antes, nem depois, qualquer notícia sobre o assunto.
A Anatomia Patológica não é uma especialidade mediática, nem glamorosa. Os médicos de Anatomia Patológica praticam uma ciência quase invisível, mas absolutamente central em toda a actividade de diagnóstico, de decisão e monitorização terapêutica, de avaliação de factores prognósticos, de investigação e de ensino.
Um dos convidados foi Adalberto Campos Fernandes que, de uma forma simples e clara, discorreu sobre as várias ineficiências do nosso sistema de saúde, a necessidade de modificação da cultura de gestão, da aposta nos recursos humanos com a fidelização dos profissionais a tempo inteiro, uma remuneração condigna, exigência, rigor e avaliação de desempenho, reforço das lideranças intermédias e manutenção da universalidade do SNS, desmontando a argumentação crescente do paradigma do utilizador/pagador.
Rigor, trabalho, estudo e investigação, partilha de ideias e de experiências, formação contínua, a Anatomia Patológica é o paradigma da tradição que se alia à inovação, da responsabilidade que se junta à ousadia e enforma o verdadeiro núcleo da Medicina.
Nota ou declaração de interesses: sou Anatomopatologista.
Domingo, 16 de Janeiro de 2011
Investigação Científica

Nos últimos dois dias decorreu, na Fundação Champalimaud, o 2011 Champalimaud Cancer Research Symposium, em homenagem trabalho de Judah Folkman, organizado por James Watson (foi quem, juntamente com Francis Crick, descobriu a estrutura da molécula de DNA) e Raghu Kalluri.
Foi um acontecimento científico do mais alto nível. Estiveram presentes cientistas cujo trabalho se tem centrado em perceber os mecanismos do microambiente tumoral, mais precisamente da angiogénese, com o objectivo de desenvolver terapêuticas que impeçam o fenómeno da mestastização.
Apesar da simplicidade dos palestrantes, do entusiasmo dos interlocutores e das perguntas dos participantes, não pude deixar de me aperceber, com alguma angústia e muita humildade, a enorme quantidade de descobertas que diariamente são feitas, a perseverança e persistência dos cientistas, o quanto não sei e gostaria de saber.
No meio da transcrição genética, dos supressores dos factores de crescimento vascular, dos indutores da hipoxia e da diferenciação celular, reverente e esperançosa como numa catedral, senti um imenso orgulho por poder assistir a este meeting, num auditório belíssimo, repleto de gente nova e faminta de novidades.
Sábado, 18 de Dezembro de 2010
Prémio Pessoa 2010

Maria do Carmo Fonseca: Instituto de Medicina Molecular
Reunido em Seteais, o Júri do Prémio Pessoa 2010, constituído por Francisco Pinto Balsemão, (Presidente), Fernando Faria de Oliveira (Vice-Presidente), António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, Eduardo Souto de Moura, João José Fraústo da Silva, João Lobo Antunes, José Luís Porfírio, Maria de Sousa, Mário Soares, Miguel Veiga, Rui Magalhães Baião e Rui Vieira Nery, decidiu atribuir o Prémio Pessoa 2010 a Maria do Carmo Fonseca.
Maria do Carmo Fonseca é Professora Catedrática e Diretora do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina de Lisboa. A sua contribuição original, que inclui cinco publicações durante o ano de 2010 em revistas de grande prestígio internacional, consiste na identificação dos mecanismos de transmissão de mensagens no interior da célula e tem como objetivo final a melhor compreensão de doenças causadas por erros da natureza que afetam esse processo. De um modo simples, pode descrever-se a sua investigação como o estudo do genoma em ação, pela visualização de fenómenos biológicos, por meio de técnicas muito sofisticadas de microscopia.
A cultura de rigor na prática científica que promove no Instituto de Medicina Molecular tem sido determinante na atração de uma plêiade de jovens investigadores, muitos dos quais doutorados fora do país, que constituem a garantia de uma excelência que se tem afirmado cada vez mais nos últimos anos.
Ao conceder este Prémio a Maria do Carmo Fonseca, o Júri quis reconhecer também a importância da ciência no desenvolvimento do país e afirmar a sua confiança no futuro da investigação básica em Portugal.
Expresso
Terça-feira, 5 de Outubro de 2010
Educação e ciência
A inauguração de 100 escolas e do Centro de Investigação da Fundação Champalimaud parecem-me uma forma apropriada e condigan de comemorar o Centenário da Implantação da República.
Leonor Beleza, de quem discordei muito de medidas que tomou enquanto Ministra da Saúde (não esquecer que a ela se deve o início da acentuada redução de vagas para os cursos de Medicina, a tentativa de acabar com a remuneração no Internato Geral - agora Ano Comum do Internato), teve uma visão e uma política de saúde que, em muitos pontos, nomeadamente na necessidade de incentivar a exclusividade de funções no sector público, foi mais socialista do que ministros de governos socialistas.
Neste momento, e por mérito próprio, está à frente de um projecto que prestigia o país e que contribuirá, certamente, para uma melhor compreensão dos mecanismos da doença oncológica e seu tratamento.
Sábado, 14 de Agosto de 2010
Sudário de Turim

reprodução
Outro exemplo é o Sudário de Turim. Já todos sabíamos que era uma falsificação, feita na Idade Média. Mas Luigi Garlaschelli, um cientista italiano, reproduziu o sudário com as técnicas e os materiais que estariam disponíveis na época em que foi criado.
O triângulo das Bermudas
Lembro-me de ler O triângulo das Bermudas há muitos anos e de pensar seriamente na hipótese de seres estranhos e fenómenos de outros mundos, tal como entrar em discussões apaixonadas sobre a identidade extraterrestre de Jesus Cristo.
É claro que os mitos vão sendo substituídos. Nos tempos que correm são muito mais interessantes os estudos sobre a vida humana de Jesus, o casamento com Maria Madalena, a substituição de Maria Madalena pelo culto da Virgem Mãe, etc.
Mas descobrir que os aviões e os navios desapareciam por causa de gás metano destrói todo o encanto do mistério e do romantismo do triângulo das Bermudas.
Quinta-feira, 8 de Julho de 2010
Trabalho e investigação
Acaba hoje um excelente congresso, de alto nível científico, em que especialistas de várias áreas apresentaram os seus trabalhos sobre os mais recentes avanços no conhecimento do Papilomavirus humano: a sua classificação, as várias estirpes, a capacidade de algumas delas infectarem várias mucosas, não só as genitais, algumas de uma forma persistente e destas, numa percentagem de casos felizmente pequena, de induzirem a transformação neoplásica dos tecidos, causando verrugas, condilomas e carcinomas. Discutiram-se estratégias de rastreio de cancro do colo do útero, estratégias de vacinação, avaliação dos vários tipos de rastreio e de vacinação, previram-se cenários vários, fizeram-se análises de custo/benefício para cada tipo de rastreio, etc.
Venho sempre destes encontros científicos com sentimentos muito contraditórios. Por um lado, satisfeita e maravilhada com as novas possibilidades que o avanço da tecnologia, as capacidades de trabalho e inventivas de tantas pessoas por todo o mundo, a comunicação que atravessa fronteiras, a acelerada evolução do conhecimento que nos permite saber cada vez mais, prevenindo a doença e tratando-a, quando ela já existe.
Por outro lado, a sensação de que a quantidade de trabalho que é feita, pelo menos nalgumas especialidades médicas como a minha, pela escassez aflitiva de médicos, nos impede de estarmos disponíveis para analisar os dados que temos, pensar sobre eles, trocar ideias com outros colegas, estudar, investigar. Já para não falar da dificuldade de financiamento dos trabalhos de investigação.
O conceito de SNS, para além de assegurar a igualdade de acesso aos mesmos cuidados de saúde, abrange também, pelo menos para mim, a aposta na investigação, nas terapêuticas mais arrojadas, em manter o estado da arte em todas as áreas do conhecimento médico. Neste congresso, por exemplo, todos os investigadores começavam as suas palestras com uma declaração de interesses porque, ou trabalhavam para as empresas que comercializam medicamentos e tecnologias, ou tinham os trabalhos financiados por elas.
As políticas restritivas da entrada de médicos nos cursos de medicina, com os serviços reduzidos ao mínimo para prestar cuidados de saúde e o desinvestimento nos recursos humanos terá consequências a todos os níveis, e este não me parece menos importante. É menos visível, mas com impacto a mais longo prazo.
Segunda-feira, 24 de Maio de 2010
Vida sintética
Sábado, 28 de Novembro de 2009
Ligações atómicas

A não perder, no dia 14 de Dezembro, este livro de divulgação científica de José Lopes da Silva e Palmira Ferreira da Silva. Todos feitos de átomos lá estaremos, demonstrando as inúmeras ligações.
(Também aqui)
Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
Telómeros e telomerase
Este ano o prémio Nobel de Fisiologia e Medicina distinguiu três investigadores - Elizabeth H. Blackburn, Carol W. Greider e Jack W. Szostak - pelos trabalhos desenvolvidos sobre a importância dos telómeros e da telomerase.
Os telómeros são as pontas dos cromossomas dos seres que são formados por células com núcleos (eucariotas).
As células são as unidades que formam os tecidos (a pele, os osso, o coração, etc.). As células são como o ovo – têm um núcleo (a gema) onde está a informação vital da célula e onde está o material genético – os cromossomas, constituídos por um dupla hélice de DNA - e o citoplasma (a clara), onde está a maquinaria e os ingredientes que alimentam a célula.

Cromossomas; telómeros - pontas brancas
wikipédia
De cada vez que as células se dividem tem que haver uma duplicação dos cromossomas, que depois se separam e formam duas células com a mesma informação genética que a célula mãe. Em teoria é assim, mas na prática sabemos que todos nós resultamos de uma célula única e nos transformamos naquilo que somos, um conjunto de milhões de células.
Para que os cromossomas se dupliquem é preciso que a dupla hélice se abra e se formem cópias das hélices, complementares às primeiras. Mas quando a separação chega à ponta dos cromossomas – os telómeros (do grego telos - final, e meros – parte), que não são mais que uma sequência de DNA, diferente para cada espécie, tendo a função de impedir que as pontas dos cromossomas abertas se possam unir com fragmentos que não são de lá, resultando naquilo a que se chamam mutações (material genético anormal por junção ou perda), acaba por haver encurtamento dos telómeros. Por isso, à medida que a célula se divide, essas pontas vão perdendo vários genes (informação importante) o que, pensa-se agora, levará inexoravelmente à morte celular, ao fim de algum tempo, pelo encurtamento sucessivo dos cromossomas – um dos mecanismos que contribui para o envelhecimento celular.

Representação do DNA do telómero
wikipédia
Mas a verdade é que algumas células, como as células embrionárias e as células tumorais, conseguem dividir-se quase indefinidamente sem perda nem encurtamento dos telómeros. Descbriu-se que isso é devido a uma enzima – a telomerase – que é capaz de reconstruir o bocado de telómero encurtado, mantendo o cromossoma sempre igual.

Representação da telomerase
wikipédia
É claro que isto é uma simplificação grosseira de um dos fenómenos mais intrigantes e complexos a nível celular. Estas investigações e estas descobertas podem abrir caminho a novas terapêuticas contra o cancro, se percebermos como é possível impedir que as telomerases actuem em células malignas. Por outro lado podemos perceber melhor qual o mecanismo da senescência celular e, quem sabe, retardar a morte celular.
Nota: para quem estiver interessado...