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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Estradas

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Earth

Brian Dettmer

 

 

1.

Onde está o mundo?

Aquele pequeno mundo a que me acostei

de coisas certas e semelhantes

tão iguais que os dias não se distinguem e os rostos

que se olham e se esquivam

são um e o mesmo desta mole humana

que o mundo alimenta e castiga.

 

2.

A estrada surge em combustão

e eu derreto devagar

enquanto sonho com a direcção

que tomarei à chegada.

 

3.

Compreendo o tempo que se esgota

e o corpo que se degrada

molécula a molécula

numa agonia pré programada

que nasce e connosco se enrola.

Falta-me apenas a inevitável aceitação

da derrota.

Desinteresse

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Javier Pérez

 

 

 

A ninguém interessa se morro

se deixo as mãos pousadas e os olhos fechados

se deixo as flores no canto da floresta

e os caminhos lisos e rasos com a erva verde quieta

se deixo o sol arrefecer o corpo e a água inchar no lago

sem as ondas da minha existência.

A ninguém interessa que os dias desaprendam o meu nome

pendurado devagar no galho da oliveira

e a mansidão da madrugada não seja por mim respirada.

A ninguém interessa que a desertificação

dos ventos e das areias que o tempo espalha

surja no espaço de uma outra vida que desponte.

 

Multidão

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Passing Crowd

Ronald Pope

 

 

1.

Quase em susto

enfrento os anónimos olhares

da gente que fala

os sons incompreensíveis do convívio. 

Espanto pela partilha

de tantas palavras sem mãos

todas iguais

na vivência da solidão.

 

2.

Hei-de ser eu

e outras tantas mais

para que possa dividir

o silêncio de mim

e possa articular

uma qualquer palavra

e depois calar

as outras tantas vozes

que me fazem

sobrar.

 

Capicua

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Alison Saar

 

 

Olho para o pergaminho da pele

o espelho de uma vida a passar.

Olho para o engelhamento do corpo

com a surpresa de uma adolescência maravilhada

ou com a surda e pesada sapiência dos anciãos

sem saber por onde fugiram os rios

para onde deixei escapar as viagens

onde terei guardado os socalcos e as obrigatórias estações

ancorada em tantas e tão movediças e íngremes margens.

Aeroporto

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The force of nature

Lorenzo Quinn 

 

 

À minha volta uma multidão de rostos

braços cabelos olhos lágrimas sorrisos malas

crianças gritos risos abraços roupa cabelos cães

gorros rodas pó luzes toques telemóveis pressa

ansiedade movimentos abruptos esperas

desesperança tristeza cansaço abandono.

 

E se quiser saber o que é a humanidade

a carne e o sangue de quem nos amassa

basta observar a ondulação das partidas e das chegadas

e a irreprimível sensação do amor do amor do amor.