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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Luto

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Move notícias

 

 

Quantas e tantas pessoas boas genuínas preocupadas e sabedoras

dizem e gritam e choram e blasfemam e opinam e decidem e exigem.

Quantas e tantas pessoas generosas e emotivas

explicam e pedem e replicam e escrevem e declamam.

Só eu com os meus dedos com a minha voz com as minhas lágrimas

gelei dentro da minha agonia da minha indecisão do meu espanto da minha dor.

Só eu que não tenho gestos para apagar incêndios

nem salmos que sustenham a terra nem mãos que reguem a vida

quero tanto o jorro da chuva a limpeza do vento

alguma coisa que lave a alma

do peso do negrume da desesperança.

Pudor

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Euronews

 

 

 

De cinza e branco de negro e ocre

esfarelam as mãos e calcinam esperanças

de olhos parados na solidão dos escombros.

A exigência do silêncio a obrigação ao pudor

de todos os que esquecemos o resto do mundo.

Cortinas

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Esfera

Fritz Koenig

 

As nossas janelas

pintam-se de cinza esguicham

sangue gritam os desastres

do mundo. Se correr as cortinas

e quiser viajar percorrendo

longos poemas claridades

imaginadas amores muito ansiados

os olhos abandonam-me

e atravessam as colinas

do desespero.

Reacender

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Sagrada Família

 

 

 

Penduramos diariamente palavras desgostadas

e olhos lacrimosos de tantas e tão frequentes

almas danadas desesperadas enlouquecidas

que nos dilaceram e transformam em papa

de forma a maltratarmos e descosermos

as razões da tolerância.

 

Estão árvores janelas candeeiros e mãos

retalhadas e cheias de letras

gastos os versos e fechado o olhar

para que se possam reacender.

Estradas

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Earth

Brian Dettmer

 

 

1.

Onde está o mundo?

Aquele pequeno mundo a que me acostei

de coisas certas e semelhantes

tão iguais que os dias não se distinguem e os rostos

que se olham e se esquivam

são um e o mesmo desta mole humana

que o mundo alimenta e castiga.

 

2.

A estrada surge em combustão

e eu derreto devagar

enquanto sonho com a direcção

que tomarei à chegada.

 

3.

Compreendo o tempo que se esgota

e o corpo que se degrada

molécula a molécula

numa agonia pré programada

que nasce e connosco se enrola.

Falta-me apenas a inevitável aceitação

da derrota.

Desinteresse

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Javier Pérez

 

 

 

A ninguém interessa se morro

se deixo as mãos pousadas e os olhos fechados

se deixo as flores no canto da floresta

e os caminhos lisos e rasos com a erva verde quieta

se deixo o sol arrefecer o corpo e a água inchar no lago

sem as ondas da minha existência.

A ninguém interessa que os dias desaprendam o meu nome

pendurado devagar no galho da oliveira

e a mansidão da madrugada não seja por mim respirada.

A ninguém interessa que a desertificação

dos ventos e das areias que o tempo espalha

surja no espaço de uma outra vida que desponte.

 

Pousio

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metal crabs

Karen Lancey

 

 

Fatias deste denso Verão

que fumega embranquecido de névoa

que derrete estarrecido de sede.

Olhamos de um e de outro lado

amodorrados e dolentes despedindo

o pensamento em pousio.

As horas

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Hours

Lotta Blokker

 

 

 

A cada tarde que desperdiço

em langores dispensados de pensamento

em cada noite que mortifico

de culpas somadas à vigília

 

sinto-me a correr para um fim

de qualquer coisa talvez da vida

que deixo escorrer pelas janelas

pesadas de quietude

e de promessas por cumprir.

 

Tantas viagens programadas

tantos os caminhos percorridos

tantas palavras inventadas

no silêncio de mim mesma.

 

E mastigo os dias sem reparar

que se encurtam as viagens os caminhos

as vigílias os langores as promessas

que se movem as horas inexoráveis e vazias

para o fim.