Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Um ano a recordar - 2011

 

 

Há datas que são hipnóticas e indiciam comportamentos compulsivos. É o caso dos últimos dias de Dezembro em que nos surpreendemos sempre na atividade de balanço do ano que termina. Pois 2011 merece ser recordado pela reviravolta ideológica que protagonizou, com as consequentes mudanças políticas, sociais e económicas, em Portugal e na Europa.

 

Toda a manipulação mediática sobre o falhanço e o desgoverno de Sócrates e Teixeira dos Santos serviram um objetivo único – a substituição de um governo de centro esquerda por um governo de direita. Como se constata agora, com a pouco subtil alteração do discurso da maioria parlamentar, a crise passou a ser europeia, se não mundial, as medidas adicionais tomadas pelo governo de Passos Coelho não foram negociadas com a troika, resultando de uma opção política, e não havia desvio colossal que justificasse o corte no subsídio de Natal.

 

As bandeiras da esquerda democrática, como a educação pública, a aposta na qualificação das populações, nas energias limpas e renováveis, nas tecnologias de informação, no combate aos desperdícios, nas reorganizações e fusões de organismos, foram palco de descredibilização e campanhas negras. Muitas das obrigações contratuais do estado foram rasgadas, assistindo-se a uma alteração das condições de remuneração, horários laborais, reformas, subsídios de desemprego, etc., que significam a total ausência de negociação, fazendo-se da inevitabilidade do desmantelamento dos direitos e garantias a coberto das supostas imposições da troika, justificação para as referidas escolhas ideológicas. Na Europa a democracia deixou de ser importante. Para alguns países há o direito natural de liderança e poder, para outros há o destino natural de empobrecimento e servilismo.

 

Será com este quadro político nacional e internacional que 2012 se enfrentará. Não sou minimamente a favor de confrontos e radicalismos sociais. O movimento sindical, tal como ele existe em Portugal, não tem a menor relevância. As relações de poder entre os trabalhadores e os empregadores são totalmente diferentes das que existiam nos anos 70/80. Há palavras e conceitos que parecem agora obscenidades, como solidariedade, igualdade de oportunidades, estado, serviços públicos, direitos, garantias.

 

Como vencer? Como lutar? De todas as formas que a democracia entende, com o cuidado de não piorar, com as formas de luta, a vida de quem tem mais dificuldades, de quem tem menos representantes. Escrever, falar, manifestar-se, informar-se, discutir. Mas nunca a violência, nunca a recusa ao diálogo, nunca greves que apenas penalizam as próprias empresas e os próprios trabalhadores. Dentro da legalidade democrática e dentro daquilo que é um estado de direito, procurar representações políticas nestes partidos ou em novas associações políticas, mas nunca denegrindo a atividade política, cívica e de cidadania, nunca desistindo de pensar e nunca entregando a condução dos nossos destinos a pretensos especialistas missionários.

 

Começar com música

  

Concerto de Ano Novo, CCB

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

  

Direcção musical - Mark Laycock

 

JOHANN STRAUSS II 
Abertura de O Morcego, op. 367; Abram alas, polca rápida, op. 45; Na floresta de
Krapfen
, op. 336; Sejais abraçado, milhões!, op. 443

JOSEF STRAUSS 
Amor Ardente, polca-mazurca, op. 129
JOHANN STRAUSS II 
Galope dos Bandidos, op. 378
JOSEF STRAUSS 
Valsa Delírio, op. 212
ALMICARE PONCHIELLI 
Dança das Horas, bailado da ópera La Gioconda
JOHANN STRAUSS II 
Danúbio Azul, valsa, op. 314
JOHANN STRAUSS I 
Marcha Radetzky, op. 228

 

 

Versão da Orquesta Filarmónica de Viena - Concerto de Ano Novo (2011)

Do novo ano

 

 

 

Precisamos de rituais, mesmo que saibamos a inutilidade das garrafas de champanhe, a pobreza dos alegres votos de felicidade, repartidos e partilhados com quem, em nenhuma outra ocasião, mereceu alguns segundos de atenção.

 

Repentinamente, por muito que honestamente sonhemos com autenticidade e simplicidade, vemo-nos arrastados pelos balanços próprios e alheios, pelos receios veiculados por futuristas profissionais, sem percebermos exactamente a futilidade das introspecções por decreto.

 

Tenho os meus rituais, ridículos ou sublimes, confortáveis ou inevitáveis, que passam pelo preenchimento da nova agenda Moleskine, alternadamente encarnada ou preta, pela assistência ao Concerto de Ano Novo, e pela solene resolução de ser feliz.

 

Passeio pela casa, abro as janelas para o dia solarengo e brilhante, vestindo lentamente o dia, igual aos anteriores e aos seguintes que, pelas barreiras que nos vamos colocando e pelas metas que vamos alcançando, se transforma numa divisória.

 

Recomecemos. E talvez a minha relação difícil com as vozes que se investem duma autoridade que ninguém lhes outorgou, me leve à firme intenção de fazer deste ano um conjunto de dias, projectos e felicidades muito melhores e maiores que os anteriores.