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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

As generalidades que desresponsabilizam

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Hugo Soares

 

 

Como todos os sábados, ouvi calmamente o programa da Antena 2 Um certo olhar, com Gabriela Canavilhas, Luísa Schmidt, António Araújo e Luís Caetano. Como era de esperar falou-se no escândalo da última semana em relação à especulação jornalística e à instrumentalização política da desgraça, concretamente, do número de mortos no incêndio de Pedrógão Grande.

 

Independentemente do que concordei ou não concordei com o que foi dito, não deixa de me espantar a cuidadosa fuga dos presentes (com exceoção de Gabriela Canavilhas) em criticarem abertamente o Expresso pela divulgação de uma notícia objectivamente falsa, e também a generalização da crítica aos políticos pela utilização deste assunto como arma de arremesso político.

 

Na verdade foi o Expresso que, a 22 de Julho, faz uma capa em que afirma que a lista oficial dos mortos no incêndio exclui as vítimas de Pedrógão. Imediatamente após desta notícia o PSD e o BE reagiram pedindo explicações ao governo, lançando portanto o anátema de que o governo estava a esconder informação e que tinha obrigação de provar que não estava, tendo Assunção Cristas reagido mais tarde, na exigência de toda a verdade. Apenas o PCP se absteve de alimentar a polémica. Catarina Martins recuou dois dias depois, enquanto o PSD subiu de tom e, de forma insana, faz ultimatos e coloca prazos de resposta.

 

Portanto: não foram os políticos que instrumentalizaram o assunto, foram alguns políticos do PSD, do CDS e, inicialmente, do BE, enquanto o PCP se demarcou e o PS reagiu escandalizado.

 

Por outro lado é muito interessante observar o facto de António Araújo desvalorizar a responsabilidade do Expresso, assumindo no entanto que se fosse verdade (que havia mortos escondidos) seria grave. Como se verificou que era mentira, já não é grave o artigo (e a insistência) do Expresso?

 

A desvalorização e a generalização destes episódios inenarráveis são perigosas. Os políticos e os jornalistas não são todos iguais. Além disso parece que Francisco Pinto Balsemão se indigna com as falsidades divulgadas pelas redes sociais. São, de facto, horríveis, mas as redes sociais não são jornalismo. As responsabilidades não são as mesmas, como ele muito bem sabe, e as exigências também não. Ou será que os jornalistas do Expresso usam os métodos e agem com a ligeireza daqueles que twitam e divulgam disparates?

 

Mesmo depois de tudo o que aconteceu, o Expresso publica editoriais e outros artigos de opinião em que, em vez de se desculpar, tenta justificar o injustificável, virando os factos de forma a fazer crer que tinha toda a razão e que os outros - mais uma vez os políticos - é que tinham usado mal uma profunda e certeira reportagem, agitando o ataque à liberdade de imprensa e outros chavões como manobras de diversão.

 

É muito triste assistir a este descalabro no jornalismo livre e independente. Porque livre ele é, independente, já duvido, e jornalismo, é que não é mesmo.

 

Nota: Tem-se criticado a empresária que terá sido a fonte da notícia do Expresso. Mas quem tem a obrigação de verificar as fontes não são os jornalistas?

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