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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Cortinas

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Esfera

Fritz Koenig

 

As nossas janelas

pintam-se de cinza esguicham

sangue gritam os desastres

do mundo. Se correr as cortinas

e quiser viajar percorrendo

longos poemas claridades

imaginadas amores muito ansiados

os olhos abandonam-me

e atravessam as colinas

do desespero.

Reacender

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Sagrada Família

 

 

 

Penduramos diariamente palavras desgostadas

e olhos lacrimosos de tantas e tão frequentes

almas danadas desesperadas enlouquecidas

que nos dilaceram e transformam em papa

de forma a maltratarmos e descosermos

as razões da tolerância.

 

Estão árvores janelas candeeiros e mãos

retalhadas e cheias de letras

gastos os versos e fechado o olhar

para que se possam reacender.

A nova estratégia

Marques Mendes anuncia crescimento da economia acima de 3%. A seguir o INE apura 2,8% também no 3º trimestre. Logo:

 

PSD: "Crescimento ficou aquém das previsões, mas continua a ser positivo"

 

Pelo que me lembro, as previsões do governo eram de um crescimento de 1,8%, que tem sido superado trimestre a trimestre. Aquém de Marques Mendes? A desvergonha do PSD não tem fim.

Das modernas torturas

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Depois de 4 anos sem me mexer, ou seja a mexer-me alguns passos da cama para a cadeira, da cadeira para o carro, do carro para a cadeira, e assim sucessivamente, com o aumento de peso correspondente apesar das mais draconianas dietas, entortada e encarquilhada por anos de inactividade e rarefacção óssea concomitante, associados à média idade que já cá chegou, fui obrigada por uma colega muito simpática e muito assertiva a iniciar o calvário do exercício físico.

 

Claro que para uma matrona como eu, do século XXI, só mesmo com um PT (personal trainer), novos arautos da beleza e bem-estar, indispensável profissão de futuro, e muito trendy (na moda, da última moda, moderno, badalado, inovador, em voga, actual). Rendida e convencida, procurei o mais perto de casa que pude um ginásio (ou catedral do fitness); foi-me atribuída uma PT que me avaliou. Logo nessa avaliação, sem saber muito bem como, uma máquina que nos pesa e deita cá para fora as percentagens de gordura, tecido ósseo, água e metabolismo, fiquei a saber que o meu estava ao nível do das septuagenárias. Além disso iniciou-se logo um duelo amigável sobre dietas glúten-free e lactose-free e... tudo-free.

 

Nunca imaginei que o meu estado de depauperamento físico fosse tão desmesurado. Dobrar-me, equilibrar-me, fazer abdominais, pranchas, step, lunges e sei lá o que mais, intervalando com uns segundos para bebericar uns golos de água e recuperar o fôlego (acho que já preguei uns valentes sustos à PT, que me obrigou a comprar uma geringonça para medir a frequência cardíaca). Confesso que me sinto uma alma presa numa cela de carne e osso, mole e gigantesca, que primeiro que se mova, levante, dobre, estique, é o cabo dos trabalhos.

 

Acho que tive sorte com a PT. Apesar de franzina e incondicional e fervorosa adepta da alimentação sem pão, sem leite, sem queijo, sem iogurtes (não investiguei ainda o que mais inflama os meus interiores), é delicada, simpática e assertiva, estando sempre pronta a inventar novas torturas, mas com o apoio certo, sempre que necessário.

 

Mas há esperança: a propósito dos Campeonatos Mundiais de Atletismo que ontem terminaram, fiquei a saber que há tabelas de recordes por idades, para 100m, 200m, 400m, 800m, (…) e maratonas (50 Km). E há um indivíduo que tem vários recordes absolutos de todas estas distâncias aos 100 anos.

 

Quem sabe se daqui a 34 anos não figurarei também como recordista da maratona feminina aos 90 anos? Querer é poder. Principalmente se passar a alimentar-me de ervas e de sementes e fizer muitos lunges até lá.

 

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Fauja Singh

Estradas

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Earth

Brian Dettmer

 

 

1.

Onde está o mundo?

Aquele pequeno mundo a que me acostei

de coisas certas e semelhantes

tão iguais que os dias não se distinguem e os rostos

que se olham e se esquivam

são um e o mesmo desta mole humana

que o mundo alimenta e castiga.

 

2.

A estrada surge em combustão

e eu derreto devagar

enquanto sonho com a direcção

que tomarei à chegada.

 

3.

Compreendo o tempo que se esgota

e o corpo que se degrada

molécula a molécula

numa agonia pré programada

que nasce e connosco se enrola.

Falta-me apenas a inevitável aceitação

da derrota.

Casta Diva

Há pouco vi uma ligação que alguém colocou, no facebook, de uma gravação de Casta Diva cantada por Maria Callas. Fui ouvi-la, assim como a variadíssimas interpretações da mesmíssima ária da ópera de Vicenzo Bellini, antes de ir pesquisar exactamente o que dizia Norma, assim como a sinopse da história (libreto de Felice Romani).

 

Transcrevo aqui a letra no original e a sua tradução em inglês. Norma é uma Grande sacerdotisa da Gália, na época da ocupação romana (50 AC); os Druidas vêm pedir-lhe a sua autorização (a sua bênção) para se revoltarem contra os ocupantes, mas Norma convence-os de que não chegou ainda a altura de fazer, movida pelo seu amor secreto, que era Romano. Casta Diva é uma prece que Norma dirige à Lua, para que acalme os espíritos revoltosos dos Druidas, confessando o seu amor e dizendo que tudo fará para o proteger.

 

De todas as interpretações que ouvi a que mais me agradou foi a de Cecilia Bartoli, em que a excelência da voz se une à delicadeza de quem reza e de quem sofre por amor.

 

 

 

Casta Diva, che inargenti                               O pure Goddess, who silver

queste sacre antiche piante,                       These sacred ancient plants,

a noi volgi il bel sembiante                           Turn thy beautiful semblance on us

senza nube e senza vel...                             Unclouded and unveiled...

Tempra, o Diva,                                                Temper, o Goddess,

tempra tu de’ cori ardenti                           The brave zeal

tempra ancora lo zelo audace,                   Of the ardent spirits,

spargi in terra quella pace                            Scatter on the earth the peace

che regnar tu fai nel ciel...                            Thou make reign in the sky... 

 

Fine al rito: e il sacro bosco                          Complete the rite : and the sacred wood

Sia disgombro dai profani.                            Be clear of the laity.

Quando il Nume irato e fosco,                    When the irate and gloomy God 

Chiegga il sangue dei Romani,                    Asks for the Roman’s blood       

Dal Druidico delubro                                       My voice will thunder

La mia voce tuonerà.                                      From the Druidic temple.

Cadrà; punirlo io posso.                                 He will fall; I can punish him

(Ma, punirlo, il cor non sa.                            (But my heart is unable to do so).            

Ah! bello a me ritorna                                    (Ah! Return to me beautiful

Del fido amor primiero;                                 In your first true love;

E contro il mondo intiero...                          I’ll protect you

Difesa a te sarò.                                                                Against the entire world.

Ah! bello a me ritorna                                    Ah! Return to me beautiful

Del raggio tuo sereno;                                   With your serene ray;

E vita nel tuo seno,                                          I’ll have life, sky

E patria e cielo avrò.                                        And homeland in your heart.

Ah, riedi ancora qual eri allora,                   Ah, return again as you were then,

Quando il cor ti diedi allora,                         When I gave you my heart then,

Ah, riedi a me.)                                                 Ah, come back to me.)

 

As generalidades que desresponsabilizam

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Hugo Soares

 

 

Como todos os sábados, ouvi calmamente o programa da Antena 2 Um certo olhar, com Gabriela Canavilhas, Luísa Schmidt, António Araújo e Luís Caetano. Como era de esperar falou-se no escândalo da última semana em relação à especulação jornalística e à instrumentalização política da desgraça, concretamente, do número de mortos no incêndio de Pedrógão Grande.

 

Independentemente do que concordei ou não concordei com o que foi dito, não deixa de me espantar a cuidadosa fuga dos presentes (com exceoção de Gabriela Canavilhas) em criticarem abertamente o Expresso pela divulgação de uma notícia objectivamente falsa, e também a generalização da crítica aos políticos pela utilização deste assunto como arma de arremesso político.

 

Na verdade foi o Expresso que, a 22 de Julho, faz uma capa em que afirma que a lista oficial dos mortos no incêndio exclui as vítimas de Pedrógão. Imediatamente após desta notícia o PSD e o BE reagiram pedindo explicações ao governo, lançando portanto o anátema de que o governo estava a esconder informação e que tinha obrigação de provar que não estava, tendo Assunção Cristas reagido mais tarde, na exigência de toda a verdade. Apenas o PCP se absteve de alimentar a polémica. Catarina Martins recuou dois dias depois, enquanto o PSD subiu de tom e, de forma insana, faz ultimatos e coloca prazos de resposta.

 

Portanto: não foram os políticos que instrumentalizaram o assunto, foram alguns políticos do PSD, do CDS e, inicialmente, do BE, enquanto o PCP se demarcou e o PS reagiu escandalizado.

 

Por outro lado é muito interessante observar o facto de António Araújo desvalorizar a responsabilidade do Expresso, assumindo no entanto que se fosse verdade (que havia mortos escondidos) seria grave. Como se verificou que era mentira, já não é grave o artigo (e a insistência) do Expresso?

 

A desvalorização e a generalização destes episódios inenarráveis são perigosas. Os políticos e os jornalistas não são todos iguais. Além disso parece que Francisco Pinto Balsemão se indigna com as falsidades divulgadas pelas redes sociais. São, de facto, horríveis, mas as redes sociais não são jornalismo. As responsabilidades não são as mesmas, como ele muito bem sabe, e as exigências também não. Ou será que os jornalistas do Expresso usam os métodos e agem com a ligeireza daqueles que twitam e divulgam disparates?

 

Mesmo depois de tudo o que aconteceu, o Expresso publica editoriais e outros artigos de opinião em que, em vez de se desculpar, tenta justificar o injustificável, virando os factos de forma a fazer crer que tinha toda a razão e que os outros - mais uma vez os políticos - é que tinham usado mal uma profunda e certeira reportagem, agitando o ataque à liberdade de imprensa e outros chavões como manobras de diversão.

 

É muito triste assistir a este descalabro no jornalismo livre e independente. Porque livre ele é, independente, já duvido, e jornalismo, é que não é mesmo.

 

Nota: Tem-se criticado a empresária que terá sido a fonte da notícia do Expresso. Mas quem tem a obrigação de verificar as fontes não são os jornalistas?

Desinteresse

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Javier Pérez

 

 

 

A ninguém interessa se morro

se deixo as mãos pousadas e os olhos fechados

se deixo as flores no canto da floresta

e os caminhos lisos e rasos com a erva verde quieta

se deixo o sol arrefecer o corpo e a água inchar no lago

sem as ondas da minha existência.

A ninguém interessa que os dias desaprendam o meu nome

pendurado devagar no galho da oliveira

e a mansidão da madrugada não seja por mim respirada.

A ninguém interessa que a desertificação

dos ventos e das areias que o tempo espalha

surja no espaço de uma outra vida que desponte.