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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

En passant par la Lorraine*

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Place Stanislas

 

De Estrasburgo para Nancy a paisagem é semelhante mas a cor das casas vai-se modificando, mais pálidas, sem traves que se entre-cruzam. Nancy apresenta-se bastante movimentada, principalmente à noite, em torno da Place Stanislas, em que as portes flamandes que unem os edifícios que enformam a praça, de estilo rococó, dão uma cor ocre e luminosa devido ao ferro com que são construidas. As ruas que para lá convergem estão pejadas de gente nova e menos nova, que conversa descontraidamente e bebe uns copos. Há inúmeros cafés com esplanadas formigando.

 

A etapa seguinte - Metz - foi um pouco decepcionante, talvez por ser domingo, o que desertificou as ruas e fechou as portas das casas comerciais e dos restaurantes. Demos uma pequena volta a pé, até ao Centre Pompidou, e resolvemos continuar até Verdun.

 

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Centro George Pompidou

 

Pelo caminho passámos por Gravelotte, local de uma importante batalha da guerra franco-prussiona. Repentinamente demos conta da existência do Musée de la Guerre 1870, mesmo em frente ao Cemitério de Gravelotte, muito interessantes, onde pudemos visitar a exposição permanente sobre essa batalha de 16 (mais precisamente em Rezonville) e 18 (mais precisamente em Saint-Privatt) de Agosto de 1870, onde a quantidade de soldados franceses e prussianos mortos e/ ou a quantidade de fuzilaria originaram a expressão tomber ou pleuvoir comme à Gravelotte. A batalha foi perdida pelos franceses e, nessa guerra, a Alsácia e a Lorena foram anexadas à Alemanha, perdidas de novo, após a I Guerra Mundial para a França.

 

 

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Museu de Gravelotte

 

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 Cemitério militar de Gravelotte

 

Chegados a Verdun foi fácil encontrar o Hotel, cuja fachada nos deixou em guarda - parecia um prédio e uma estalagem semelhante a uma outra onde, há muito anos já, tínhamos ficado numa vila portuguesa fronteiriça, a que chamámos a Pensão do Alcino. Infelizmente não era só a fachada. O quarto era bastante acanhado, com as paredes brancas totalmente nuas, uma cama de casal baixa, apenas revestida pelos lençóis e pelo edredão, umas mesas de cabeceira que não eram mais que umas tiras retorcidas de contraplacado oco, uma mesa pregada à parede, em riscos de ser arrancada para ajeitar o espaço, e uma casa de banho minúscula.

 

No entanto as janelas eram grandes e abriam-se para um espaço cheio de árvores, a água do duche era forte e revigorante, o colchão confortável. Parecia uma cela de um mosteiro. Na entrada do hotel estava uma miniatura de uma mota, se calhar lembrando a condição de motard do dono. Enfim, jantámos umas sanduíches literalmente gigantescas, feitas na Boulangerie mesmo em frente, com jambom et emmental, numa verdadeira baguette estaladiça.

 

*En passant par la Lorraine

Dos pombos sacrificados

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Com a alma pesada e em silêncio, saímos do museu à procura de um sítio para almoçar, que nos tinham informado haver em Natzweiler. Depois de curvas e contracurvas por uma estrada íngreme e estreita, por uma povoação que, mais uma vez, parecia totalmente deserta, não vislumbrávamos nada que a tal se assemelhasse. Apressámos o carro até um outro que se preparava para debandar e, num francês bastante macarrónico (o meu), perguntámos por um restaurante para almoçar. Com um grande sorriso o nosso interlocutor, um homem baixo e troncudo, de uns 60 anos, aponta-nos um Auberge, mesmo à nossa frente, com uma exclamação: Cést bon!

 

Era numa casa alsaciana, com um pátio atrás e outro à frente, e uma porta de entrada larga. O hall espaçoso transpirava serenidade. A sala de almoço era bastante confortável, com mesas muito bonitas e simples, com talheres e louçaria sofisticados, alguns quadros com cores fortes nas paredes.

 

A nossa anfitriã recebeu-nos com simpatia, sentou-nos numa mesa para dois e, pouco depois, trouxe uma ardósia com o menu e as sugestões do dia. Não sou capaz de reproduzir a ementa, mas escolhemos uma entrada de arenque com salada e um molho maravilhoso, uma dourada com legumes e um pigeon com pommes Dauphine et des frites, isto escrito e dito complexa e requintadamente. A sobremesa constou de poire Belle-Hélène e profiteroles. No fim ainda perguntou de onde éramos e, quando ouviu a palavra Portugal, conseguiu gracejar com o facto de termos saído do país precisamente no dia em que o Papa celebrava o centenário de Fátima.

 

Foi uma opípara refeição e restaurou a nossa bonomia. A verdade é que não há agrura que não ceda aos prazeres da comida. Foi uma excelente surpresa num local tão isolado e de tão cinzentas memórias.

Do horror indizível

 

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À entrada do campo

 

No meio de um paraíso florestal, do ar e do canto dos pássaros, esconde-se um dos espaços das ruínas do espírito humano.

 

O campo de concentração de Natzweiler-Sturdhof, construído junto a afloramentos de granito rosa, foi construído pelos alemães precisamente para a sua exploração. Nada melhor que juntar o agradável - a estância turística onde se praticava sky - ao útil – campo de internamento e trabalhos forçados para presos de delito comum, presos políticos, prisoneiros de guerra, resistentes e, por fim, judeus.

 

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Campo de concentração

 

Campo de detenção, de morte, de fome, de tortura, de experiências pseudocientíficas com agentes químicos e para recolha de cadáveres com o objectivo de fornecer esqueletos de judeus para a uma colecção para o Instituto de Anatomia da Reichsuniversität Straßburg. Escolherem-se pois 115 judeus, homens e mulheres, 86 dos quais morreram na câmara de gás existente no campo.

 

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À entrada do museu

 

O museu tem uma mostra dos vários campos de concentração e extermínio, com alguns dados sobre cada um, inclusivamente a estimativa de mortos por campo. Observam-se ainda as reproduções de desenhos efectuados por Henri Gayot, um pintor e professor de pintura deportado para este campo após ser capturado pelas suas actividades na Resistência francesa. Depois há o campo, como os socalcos onde se localizavam as barracas dos deportados, o crematório, a prisão – sim, também havia uma prisão – o arame farpado, as torres de vigia, a porta de entrada sinistra, e a câmara de gás, afastada cerca de 1 Km do campo.

 

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Henri Gayot

 

Há um silêncio que nos incomoda, pesado, aflito e de culpa, mesmo que já tenham passado gerações após estas atrocidades. Não sei se é compreensível como foi possível a seres humanos submeterem outros seres humanos a este tipo de crueldade, até porque a achavam natural e não a consideravam crime. O que pensavam? Como dormiam, comiam, amavam os seus filhos, os seus amantes, os seus semelhantes? Como poderiam aceitar tais horrores?

 

E mais assustador e incompreensível ainda é o facto de continuar a existir, tal como nessa época e nos muitos séculos anteriores, um doentio racismo larvar, uma xenofobia persistente que, mal se fazem sentir os rigores das crises financeiras e sociais, renascem das névoas invisíveis mas permanentes que assolam os corações dos povos.

 

Combater a penúria, a fome, a crise, o egoísmo, o racismo, a xenofobia, contribuir para uma efectiva cultura de solidariedade e tolerância, de respeito pelas diferenças sem abafar nenhuma minoria ou maioria, sem perder as características identitárias, e mostrar o que se passou, com rigor, sobriedade e verdade, mas sem ceder à preguiça de nos escondermos dos horrores pelos quais, com mais ou menos consciência, fomos de certa forma cúmplices, mesmo que em tempos e de maneiras distintas. A divulgação do que se passou no regime nazi, como em todos os totalitarismos, é obrigatório e deve ser uma preocupação permanente. Porque é de tal forma inacreditável que podemos mesmo enterrar esse conhecimento no mais fundo das nossas consciências. É muito mais fácil.

Dos intervalos recriativos

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Estrasburgo é uma cidade muito bonita, acolhedora, de uma cor ocre acastanhada, casas típicas alsacianas, muito bem cuidadas, muita gente na rua, flores e mais flores, cafés, brasseries, restaurantes, esplanadas. As pessoas tem um aspecto próspero sem luxo nem sofisticação demasiados. É um sítio onde parece viver-se bem e normalmente.

 

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A catedral (Catedral de Nossa Senhora de Estrasburgo) é deslumbrante. Repentinamente saídos de uma rua lateral, damos com a enormíssima fachada, toda esculpida e rendilhada, que esmaga pelo esplendor. Lá dentro há um relógio astronómico, semelhante ao de Praga, que é uma maravilha. É a terceira versão do mesmo, datando a primeira de 1352 / 1354. As ruas são encurvadas, deixando entrever ao longe as fachadas das casas. De vez em quando pinga mas a temperatura está mesmo boa para passear. Entramos na livraria Kleber, numa das esquinas da praça do mesmo nome, e quase nos perdemos. Muitos e belos livros, dispostos por colecções, por autores, por temas, ficção, não ficção, história, romance, política, banda desenhada, enfim, uma perdição.

 

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Depois de alguns quilómetros a pé, temos direito a uns éclaires numa Pâtisserie digna do mesmo nome. À noite provámos a tarte flambée, parecida com uma pizza, e um croque-monsieur (uma espécie de tosta mista), acompanhadas por uma cerveja de seu nome Rouge Kasteel – forte, mas muito boa, ideal para acabar o dia.

 

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Da imprevisibilidade das previsões

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 Forte de Schoenenbourg

 

 

A linha Maginot é uma estrutura defensiva que a França construiu após o fim da I Guerra Mundial, imaginada como uma espécie de upgrade da guerra de trincheiras, mas desta vez de betão, pensada e planeada para manter uma grande quantidade de tropas, desde os soldados aos seus comandantes, com todas as infra-estruturas necessárias. Era constituída por vários fortes ao longo da fronteira franco-alemã. Um deles foi o Forte de Schoenenbourg.

 

Não foi muito fácil lá chegar, pois as indicações eram escassa e pouco claras. Mas com GPS, mapas e atenção, lá chegámos. Na bilheteira uma jovem rapariga, cujo copain é português, avisou-nos de que deveríamos contar com 1,5 a 2 horas de visita. A descida pelo elevador, embora opcional (há escadas), levou-nos a cerca de 30 metros de profundidade.

 

É difícil descrever a sensação meio claustrofóbica, mesmo sendo os corredores amplos, que experimentei. No chão dois carris por onde passavam as carruagens eléctricas, para transporte de equipamentos, armas, munições, comestíveis e, provavelmente, pessoas. Nas paredes laterais, a todo o comprimento daqueles corredores um pouco labirínticos, cabos de electricidade, telefónicos, etc. Depois percorremos as instalações dos soldados, camaratas, cozinhas, despensaa, farmácias, enfermarias, alojamentos dos oficiais, postos de comando, prisão, capela e casa mortuária, nada tinha sido esquecido.

 

Após alguns quilómetros percorridos, no lado oposto, ficavam os blocos de bombardeamento, onde se encontravam os vários locais (6) com a maquinaria para bombardear e observar, abaixo de umas cúpulas semiesféricas que se vêm de fora.

 

É extraordinário o esforço de construção daquelas estruturas, não só o planeamento mas também a execução, a enorme quantidade de recursos que ali forma empregues, e que se revelaram totalmente inúteis. Aquilo que, quem imaginou e decidiu a sua construção, previa como uma especialização da guerra de trincheiras, errou totalmente pois na II Guerra Mundial as trincheiras estavam obsoletas. É quase inacreditável percorrer aquela cidade militar subterrânea, imaginando a azáfama, a preparação, a tensão, a vida sem ar nem luz, que nunca depois se concretizou, nunca chegando a defender a França contra o seu agressor que, pelo seu lado, fez uma coisa semelhante – a linha Siegfried.

 

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Murais feitos pelos soldados

 

Quando ouvimos tantas previsões para o futuro, em relação a energias renováveis, carros eléctricos, etc., convém lembrarmo-nos de que há muitas previsões que nunca se concretizam. Na verdade é muito complicado saber e decidir para onde se devem concentrar os esforços de desenvolvimento de uma qualquer ideia de futuro. Há quem acerte, de facto, mas são raros os que o conseguem e muitos os que o não fazem. Além disso, quantos recursos se não desviaram de outros investimentos bem mais úteis, até mesmo militares?

 

Foi uma visita longa, um pouco cansativa, que me deixou com um mal-estar difuso e a certeza da inutilidade de tantas construções humanas. Lembrei-me ainda de um programa que ouvi há algumas semanas - Um certo olhar, na Antena 2, em que se falava de Turismo Negro. Discordei de muito do que foi dito nesse programa, pois penso que é muito importante que se visitem e estudem estes locais (assim como Oradour-sur-Glane, campos de concentração, etc.) para que nunca nos esqueçamos da pequenez, da crueldade, da loucura, mas também da grandeza de que somos capazes. Por outro lado concordo que se deve manter este tipo de visitas com grande rigor e sobriedade, não permitindo que se transformem em locais de brincadeiras de mau gosto.

 

Cruzámo-nos com um grande grupo de miúdos italianos, aí com os seus 14 anos que, ao aperceberem-se da nossa proveniência lusitana, nos cumprimentaram efusivamente ao som de Cristiano Ronaldo e Euro 2016 – o futebol como ícone nacional.

 

O dia acabou calmamente, a jantar muito bem no Hotel, em que a tarte de maçã e ruibarbo e a eau de vie Gewurztraminer foram uns verdadeiros pontos altos. E, ao contrário do que tinha acontecido na noite anterior, num quarto quentíssimo e abafado, a noite foi reconfortante, dormindo o sono dos justos.

Do deambular sem fronteiras

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Citadela de Biche

 

 

A Europa é isto mesmo, passear do Luxemburgo para França, de França para a Alemanha, da Alemanha para França de novo, sem passaportes, alfândegas e polícias, sem trocar de moedas, sem trocar de carro, etc. É já difícil lembrarmo-nos de como era antes de existir um espaço comum, em que há livre circulação de pessoas e bens.

 

Deambulando pela região de Saar ou de Sarre, conforme em Alemão ou Francês, passando por Sarreguemines, uma vila mesmo junto à fronteira franco-alemã, parámos para uma pausa de chocotat chaud aux menthe. Arrancando depois pela Forêt des Voges até Bitche que descobrimos por acaso, mas com uma citadela lindíssima e uma vista deslumbrante pela região. O senhor que vendia os bilhetes e nos deu explicações sobre a visita era luso descendente e, com um grande sorriso e uma extraordinária amabilidade, falou-nos em português, desculpando-se pela sua insuficiência, que era inexistente, e pelo seu carregado sotaque.

 

O almoço foi despachado num Kebab, nome de restaurante que não engana nas origens, onde servem umas saladas muito interessantes, a muito bom preço, e que respeitam (mais ou menos) os rigorosos limites dietéticos. Vi várias pessoas irem buscar sanduíches e pratos de kebab para almoçarem noutro local. Sempre que falamos dos imigrantes esquecemo-nos rapidamente como eles se inserem nas nossas comunidades, nos nossos hábitos e nas nossas necessidades, nomeadamente a nível gastronómico.

 

Continuando até Climbach, onde ficaríamos para visitarmos o Forte de Schoennenourg, passamos por várias aldeias/ vilas que pareciam desertas. Nem vivalma na rua, mesmo com as casas de tipo alsaciano cuidadas, com os jardins e as sebes arranjadas, cortinas nas janelas, enfim, parecia que algum extraterrestre as tinha raptado.

 

O mesmo em Climbach. Localizámos o Hotel, parámos o carro e batemos à porta (fechada) várias vezes. Nada, ninguém, silêncio absoluto, fora e dentro. Demos a volta ao edifício, uma casa com a arquitectura típica desta zona, muito bem arranjada, mas com aspecto abandonado. Batemos nas traseiras, uma e outra vez, e nada. Mais uma vez temendo o desastre, decidimos telefonar ao Hotel. Atendeu-nos uma senhora a quem dissemos que estávamos à porta.

 

Lá nos abriram, com grandes desculpas e sorrisos, uma senhora já com alguma idade e, talvez, um pouco dura de ouvido. Escalámos as escadas e todos os nossos receios se desvaneceram – lindíssimo quarto, confortável, com uma banheira daquelas que quase precisa de livros de instruções, cama grande, tudo espaçoso e acolhedor.

 

Com grandes suspiros de alívio, preparámo-nos para encontrar a linha Maginot.

Dos planeamentos ineficazes

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Luxemburgo

 

Exactamente, de partida, feliz e contente, malas aviadas a preceito e revisão oral da matéria, antes de fechar a porta de casa às 06:00 da manhã, para que tudo se proceda de modo calmo e fluido no aeroporto: cartão do cidadão, cartão de embarque, cartão de crédito, aluguer de carro e reservas de hotéis, tudo na sua ordem perfeita e natural.

 

Avião maneirinho, viagem sem história, bagagem sem mácula, empresa de rent a car facilmente acessível. Bonjour madame, bonjour monsieur, entregamos o comprovativo previamente impresso (à antiga portuguesa), et voilávotre permis de conduire, madame, s'il vous plait...

...esquecido em casa, ou deverei mesmo dizer, cuidadosamente deixado de parte com os papéis e a chave do carro, dos quais não iria obviamente necessitar. Portanto tudo em meu nome, pagamento, cartão de crédito, etc., e nada de carta de condução. E não, não se poderia aceitar a carta da minha cara metade parce que vous n’avez pas le méme nom de famille!

 

Depois de um pequeno mas intenso momento de pânico silencioso, a simpática senhora que nos atendeu lá foi pedir autorização para mudar tudo para o nome do meu apreensivo e ligeiramente irritado esposo.

 

En route, enfin! Allons enfants pour l´hôtel. E chegámos sem problemas, a um IBIS que, como é hábito, é de dimensões bastante diminutas...

...mas também não era preciso exagerar. O parking era minuscule, sendo as manobras para entrar e sair do dito trabalhosas e delicadas. Lá retirámos as malas, subindo dois íngremes lanços de escada até à recepção. Entrar no quarto revelou-se um verdadeiro dilema, pois o objectivo era cabermos os dois. Entrava um, arrastava-se a cama, felizmente com facilidade, voavam as malas por cima, e só depois entrava o outro. A casa de banho revelou-se um prodígio de malabarismo, mas nada que nos retirasse a felicidade.

 

Cidade plana e simpática, com portugueses nas esquinas, nos cafés, nas lojas, a passear, à espera de autocarro. Na fachada do edifício da Caixa Geral de Depósitos um enorme painel de azulejos da Fábrica de Sant’Anna. O tempo ajudou e o passeio foi agradável, mas Luxemburgo não me deixou impressionada.

I’m a Stranger Here Myself

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Anne Sofie von Otter

fotografia de Ewa-Marie-Rundquist

 

 

Muitos parabéns a Anne Sofie von Otter, que faz hoje anos. É uma excelentíssima mezzo-soprano que eu admiro imenso.

 

Ouvi-a hoje, numa canção de Kurt Weill, com letra de Ogden Nash, do disco Speak Low com John Eliot Gardiner). 

 

 

 

Tell me is love still a popular suggestion

Or merely an obsolete art?

Forgive me for asking, this simple question

 

 

I'm unfamiliar with his heart

I am a stranger here myself

 

Why is it wrong to murmur, "I adore him"

When it's shamefully obvious I do?

Does love embarrass him, or does it bore him?

I'm only waiting for my clue

I'm a stranger here myself

 

I dream of a day of a gay warm day

With my face between his hands

Have I missed the path? Have I gone astray?

I ask but no one understands

 

Love me or leave me

That seems to be the question

I don't know the tactics to use

But if he should offer

 

A personal suggestion

How could I possibly refuse

When I'm a stranger here myself?

 

Please tell me, tell a stranger

My curiosity goaded

Is there really any danger

That love his now out-moded?

 

I'm interested especially

In knowing why you waste it

True romance is so fleshly

With what have you replaced it?

 

What is your latest foibal?

Is Gin Rummy more exquisite?

Is skiing more enjoyable?

For heaven's sake what is it?

 

I can't believe

That love has lost its glamor

That passion is really passé

If gender is just a term in grammar

How can I ever find my way?

Since I'm a stranger here myself

 

How can he ignore my

Available condition?

Why these Victorian views?

You see here before you

 

A woman with a mission

I must discover the key to his ignition

And then if he should make

A diplomatic proposition

 

How could I possibly refuse?

How could I possibly refuse

When I'm a stranger here myself?

Dos preparativos

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Harry Rabinger

 

 

A idade trás destas coisas: não só ficamos mais vagarosos, a mexer-nos, a pensar, a decidir como, e talvez por isso, mais cautelosos, mais pensativos, mais prudentes. Planear uma viagem de 10 dias com alguns jovens adultos por perto, habituados a ver num avião um sucedâneo de um autocarro ou de um comboio, com inúmeras vantagens, é um exercício de divertimento dos mesmos perante a abordagem de expedição ao fim do mundo a que assistem.

 

Para mim o planeamento e a antecipação de uma tão desejada viagem são elementos indispensáveis para a felicidade, que começa precisamente pela degustação do prazer que se vai ter. Além disso, como somos nós próprios a fazer tudo, desde a criteriosa escolha dos locais a visitar, necessariamente muito poucos em comparação com o desejado, usando todas as ferramentas antigas e modernas, até às marcações das viagens, reserva de hotéis, carros de aluguer, museus, monumentos históricos, etc., a viagem não se reduz a ela própria mas expande-se a toda a uma constelação de cumplicidades e gozo da antevisão do paraíso.

 

Sob o olhar de condescendência ternurenta dos profissionais, imprimimos os cartões de embarque, os comprovativos do aluguer da viatura, os comprovativos dos hotéis, carregamos e actualizamos o GPS, confirmamos as previsões meteorológicas (que muitas vezes não acertam), avaliamos as possíveis dimensões e pesos das malas, ponderamos a necessidade de agasalhos, listamos os medicamentos (sim, também já temos essa parte), pedimos o táxi para o aeroporto, fazemos as contas aos horários para não nos atrasarmos, etc.

 

Se pensar bem, a primeira vez que me lembro de ter viajado de avião para um país estrangeiro - para França (não contando com Angola e Cabo Verde que, quando lá vivi, não eram estrangeiros) - já era (jovem) mãe de 2 filhos. Por muito que as viagens pela Europa se tenham banalizado, se calhar nunca conseguirei encará-las com a naturalidade de quem já nasceu numa Europa sem fronteiras e sem passaportes, que é o caso do pessoal mais novo. A liberdade de circulação de pessoas e bens é uma grande conquista do espaço europeu e uma grande vantagem destas gerações em relação à minha. A casa deles é mesmo o mundo.

 

Pois bem, estou de partida para uns dias de recreio e evasão.