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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Do desconforto longínquo

Estes 2 últimos anos foram de descompressão e alívio da profunda crise económica, financeira e social em Portugal, devolvendo rendimentos, criando empregos mas, principalmente, abrindo um pouco a esperança num futuro melhor. Muitos não acreditavam que fosse possível, mas a Geringonça, o novo Presidente e a conjuntura internacional permitiram que pudéssemos, de novo, respirar.

 

Mas convém que não nos embriaguemos com estes maravilhosos resultados, porque nem no País nem no resto do mundo houve a reviravolta que gostaríamos após a crise iniciada há cerca de 10 anos. E há sinais preocupantes dos quais não nos podemos alhear.

 

Nas Contas do Dia de 31 de Outubro, Nicolau Santos chama a atenção para o facto de, na globalidade, haver um saldo positivo na criação de emprego e uma apreciável redução do desemprego. No entanto, alerta para que uma grande percentagem dos empregos criados serem para pessoal não qualificado, para além de se registar de novo um aumento do desemprego entre os jovens.

 

Marco Capitão Ferreira, a 1 de Novembro, no Expresso, escreve um artigo sobre o aumento insustentável do preço do imobiliário, estando-se a formar novamente uma bolha que, por enquanto, é pequena, mas que tem todas as condições para se tornar gigantesca.

 

Por fim Michael Ash (Público, 2 de Novembro) afirma que, após a crise de 2008/2009, nada foi feito em relação aos desequilíbrios económicos e à regulação das actividades financeiras, apesar das lições que, pelos vistos, ninguém aprendeu.

 

Somando tudo isto à vitória de Trump, à subida larvar dos populismos, da xenofobia e do racismo, à desagregação das relações entre os Estados (como com o BREXIT) e dentro dos Estados (como com a Catalunha) e às alterações climáticas e ambientais que parecem imparáveis, vão-se agregando nuvens negras sobre as nossas cabeças que estão prenhes de ameaças em vez da tão almejada e redentora chuva.

Da violência gratuita

 

 

Estamos a construir uma sociedade estranha, em que os actos de violência inusitada e gratuita ocupam o espaço mediático. Agressões entre adolescentes filmadas por colegas que acicatam ou não reagem, agressões pela polícia ou por seguranças privados, em discotecas, nas esquadras ou na praça pública, com ou sem provocação, arrepia a forma generalizada e continuada daquilo que se está a tornar um hábito.

 

Ontem dei comigo a ver um vídeo da Sport TV em que se via uma criatura, identificada como adepto sportinguista, a agredir em directo o pobre coitado a que chamam Emplastro, que mais não fez nem faz do que ser um verdadeiro emplastro. A rapidez deste ataque súbito e violento não foi de imediato condenada, nem vi ninguém deter o inacreditável energúmeno riscado de verde. Assustador e revoltante.

Da irresponsabilidade perigosa

As atitudes e decisões políticas de Carles Puigdemont e outros independentistas catalães tem sido uma fuga em frente, mostrando uma irresponsabilidade e insensatez difíceis de entender.

 

Mas o que o governo central de Madrid está a fazer é totalmente descabido e perigosíssimo. Parece que estão a fazer os possíveis para extremar as posições arriscando-se a que as tensões cheguem a limites violentos. Não percebo mesmo. Estão dispostos a outra guerra civil?

Um dia como os outros (179)

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Uma declaração de independência que não foi, porque seguiu-se a respetiva suspensão, tem agora uma independência que não o é, porque os independentistas vão a eleições que, afinal, lhe são permitidas pelos colonizadores, que não o são. Nem burlesco de Cervantes nem surrealismo de Dalí, mas, como prova de que o nacionalismo, hoje, está ultrapassado, uma chanchada brasileira. Catalunha merecia melhor. O líder que a atrapalha, Carles Puigdemont, fugiu para o exílio, numa fuga desnecessária para um exílio inexistente. Foi para o exílio em fins de outubro, para um provável regresso a meados de dezembro para votar e ser votado. Exílio é outra coisa, não tem prazo de validade nem a certeza de votos. Exílio viveu-o o socialista madrileno Largo Caballero, presidente do governo da República espanhola, que com a vitória de Franco foi levado para o campo de concentração nazi de Sachsenhausen. E viveu-o o republicano catalão Lluís Companys, presidente da Generalitat da Catalunha, entregue pelos nazis a Franco e fuzilado. O exílio de Carles Puigdemont é coisa para rir, é um insulto aos verdadeiros exilados espanhóis da trágica história recente. É como comparar a livre, democrática, autónoma e progressista Catalunha a países colonizados e ocupados. Nenhuma das hipóteses com que Puigdemont contava aconteceu: nem a independência surtiu nem os tanques vieram... Restava-lhe a fuga para a frente. Partiu, com uma decisão categórica tão rara nele, para um exílio de comédia.

 

Ferreira Fernandes

Da intriga canhestra

Não consigo compreender o objectivo de alguém, dentro do governo ou no PS, com eco partidário posterior, arranjar uma querela com Marcelo Rebelo de Sousa, ainda por cima centrado no problema dos incêndios.

 

Não me interessa se o Presidente sabia ou não, muito provavelmente sabia. Mas o que ficou abertamente evidente foi a falta de capacidade de liderança de António Costa e do governo imediatamente após a segunda tragédia, com a desastrada comunicação ao País de António Costa, que Marcelo Rebelo de Sousa esperou. O Presidente, e muitíssimo bem, ocupou um vazio deixado pelo Primeiro-ministro e colou, com severidade e com empatia, e com excelente sentido e faro político, dando às pessoas aquilo que elas esperavam – liderança.

 

Por isso a tentativa canhestra e estúpida de tentar enrolar Marcelo Rebelo de Sousa numa intrigalhada apenas penalizou ainda mais o governo.

Um Senhor Presidente

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No meio de tanto azar, incúria e desgraça, temos a sorte de, neste momento, contar com um Presidente como Marcelo Rebelo de Sousa. Como um mastro no meio da tempestade, tem sido aquele para quem todos olham, a quem todos respeitam e, mais importante que tudo isso, de quem todos gostam e em quem todos confiam.

 

No meio de tanta aflição, de tanta inimaginável desvergonha, oportunismo e demagogia, o Presidente exige a quem tem de exigir e conforta quem tem que ser confortado. António Costa, inexplicavelmente, cavou bem fundo o seu afastamento com os atónitos cidadãos, que perderam a vida, a família, a casa, o emprego, os meios de subsistência. Colocou o governo numa dificílima situação, com a sua insuficiente e atabalhoada leitura da forma como liderar após a tragédia.

 

No entanto é minha convicção que se alguém tem capacidade para, de facto, reformar e devolver a esperança ao País que vive sem que se dê por ele, se alguém tem possibilidade, ambição e resiliência para revolucionar a floresta e fazer o que durante décadas ninguém fez, é este governo e António Costa.

 

Espero, sinceramente, que não esteja enganada. Ouvi ontem, durante o dia, as várias intervenções dos membros do governo e do Primeiro-ministro. Pareceu-me tudo bem fundamentado, digno e rigoroso. Falta cumprir, acompanhar e avaliar. A vida de quem tanto perdeu é o mais importante.