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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Dos sentimentos de uma burguesa

 

Beryl Cook

 

Há algumas semanas decidi mudar da TSF para a Rádio Comercial ao despertar, ver o mínimo possível de notícias, evitar ler jornais e, sobretudo, mudar o canal de tv quando aparecem os comentadores. Pareceu-me uma boa forma de me sentir em férias e de perceber como há um país que, apesar das dificuldades, consegue viver. As pessoas respiram e dormem, comem, melhor ou pior, casam-se, nascem e morrem, baptizam-se, apanham transportes, próprio ou públicos, oferecem-se prendas e carinho, riem-se bastante, vão à praia, enfim, apesar da crise, a vida continua.

 

Na continuidade deste espírito nada revolucionário descobri, ou melhor confirmei, a minha natureza irremediavelmente burguesa. Tudo em mim respira vontade de vida estável, poucos sobressaltos, casa limpa e arrumada, cozinha de conforto, como agora é moda dizer-se, feita pelo chef privativo, muito sossego, boa música, bons filmes, se possível brandos e bem dispostos, livros calmos, que disponham bem e que distraiam.

 

Até quando vou ao restaurante (a qualquer um, diga-se em abono da verdade, a única coisa que me importa é comer bem e a preços módicos), a minha natureza pouco tolerante vem rapidamente à superfície. Faz-me confusão a profusão de chinelas, havaianas ou outras, os calções de algodão mole amassados e esfiapados, as t-shirts de ginástica ou de alças a cair, a precisarem urgentemente de sabão, água e ferro de engomar, as calças com nódoas, as barrigas avantajadas à mostra, que as pessoas não se acanham de exibir, não porque não tenham dinheiro para outra indumentária mas porque estão à vontade.

 

Estar à vontade justifica a total falta de sentido estético e das proporções que se instalou na nossa sociedade. Ainda bem que não são necessários vestidos compridos nem disparates semelhantes para assistir a um espectáculo de ópera, mas será que é adequado ir almoçar de pijama? E as crianças, as tão amadas e endeusadas crianças, que ninguém controla quando guincham, correm pelo meio das mesas aos gritos, fazem birras e incomodam toda a gente? Será que não é importante que lhes seja mostrado que os outros, adultos ou não, têm o direito de estar em paz? Será que não é preciso que se lhes ensine a viver em comunidade?

 

Estar à vontade faz com que todos os infelizes comensais sejam obrigados a ouvir as conversas telefónicas com filhos, maridos, amantes, pais, mães, amigos, patrões, independentemente de ninguém ter nada a ver com a vida de quem assim enche os ouvidos dos outros, independentemente de ninguém querer saber da vida dos outros.

 

Estou, portanto, embrenhada na soberba da minha classe, sentindo-me numa bolha de algodão que ampara a amolece os desastres do mundo, imersa nos problemas filosóficos de moral e ética de Isabel Dalhousie, um esplendoroso exemplo da burguesia escocesa, mais precisamente de Edimburgo, e nas amáveis aventuras africanas de Precious Ramotswe, a orgulhosa dona da The Nº1 Ladie’s Detective Agency, da sua assistente Ma Makutsi, e do seu marido mecânico, Mr. J. L. B. Matekoni, o proprietário da Toklweng Road Speedy Motors.

 

Mas vai-se instalando a dúvida; interrogo-me se é agora que vivo alienada numa bolha irreal ou de algodão, ou se tenho vivido até agora numa outra bolha, real ou construída, mas sulfúrica.

 

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