Não é possível fugir. Estamos a chegar ao Natal, essa época de consumo desbragado e obrigatoriedade de bondade, sorriso e felicitações, mesmo que nos apeteça emigrar para os confins do universo.
Como há amarras demasiado fortes que impedem o isolamento total, debaixo de uma camada de cobertores e silêncio que elimine os sinos e as canções melodiosas, junto-me sempre com espírito de missão às festividades. Como dizia um outro sou uma escrava do dever. Mesmo assim ainda me divirto. Este ano vou reeditar o licor de laranja, experimentado nos idos de 2002, altura em que a crise tinha essa mesma cor.
Mas como a crise se mantém, para que possamos maldizer a nossa vida para todo o sempre, com essa cor ou com outra, e o licor de pétalas de rosa que já fiz ficou horroroso, lá terá que ser. Claro que estas iguarias necessitam de tempo. Já estão as cascas das ditas laranjas a tomar banho em aguardente há cerca de 1,5 meses. As cascas têm que ser cortadas às tiras fininhas e só se pode aproveitar a parte cor-de-laranja. A parte branca deve retirar-se sob a ameaça de ficarmos com um licor amarguíssimo.
A quantidade de cascas de laranja é mais ou menos a olho. Normalmente encho 1/3 do volume do frasco (de boca larga) e 2/3 com aguardente e vou mexendo de vez em quando. Quando o líquido já está bem da cor das cascas, passa-se à finalização.
Para cada litro de aguardente faz-se um xarope com água e açúcar (1l água/1kg açúcar). A quantidade de água e açúcar pode ser menor se pretendemos um licor mais forte (para cada litro de aguardente 7,5 dl de xarope).
Temos que filtrar a aguardente, temos que filtrar o xarope feito à parte (deixar a água ferver com o açúcar durante 10 a 15 minutos), misturar, filtrar de novo e engarrafar. Os filtros desafiam a nossa imaginação – podem usar-se guardanapos de linho ou filtros para café.
As garrafas são um prodígio de reciclagem moderna e ambiental. Lavam-se e escaldam-se, rolham-se (boa sorte para encontrar rolhas de cortiça, o que não está fácil, embora também se possam reciclar as das garrafas de vinho). Depois é só rotulá-las.
Eu costumo ir provando e provar várias vezes é um mecanismo excelente para aguentarmos as horas na cozinha a que esta função obriga.

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