Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Um Senhor Presidente

marcelo.png

 

No meio de tanto azar, incúria e desgraça, temos a sorte de, neste momento, contar com um Presidente como Marcelo Rebelo de Sousa. Como um mastro no meio da tempestade, tem sido aquele para quem todos olham, a quem todos respeitam e, mais importante que tudo isso, de quem todos gostam e em quem todos confiam.

 

No meio de tanta aflição, de tanta inimaginável desvergonha, oportunismo e demagogia, o Presidente exige a quem tem de exigir e conforta quem tem que ser confortado. António Costa, inexplicavelmente, cavou bem fundo o seu afastamento com os atónitos cidadãos, que perderam a vida, a família, a casa, o emprego, os meios de subsistência. Colocou o governo numa dificílima situação, com a sua insuficiente e atabalhoada leitura da forma como liderar após a tragédia.

 

No entanto é minha convicção que se alguém tem capacidade para, de facto, reformar e devolver a esperança ao País que vive sem que se dê por ele, se alguém tem possibilidade, ambição e resiliência para revolucionar a floresta e fazer o que durante décadas ninguém fez, é este governo e António Costa.

 

Espero, sinceramente, que não esteja enganada. Ouvi ontem, durante o dia, as várias intervenções dos membros do governo e do Primeiro-ministro. Pareceu-me tudo bem fundamentado, digno e rigoroso. Falta cumprir, acompanhar e avaliar. A vida de quem tanto perdeu é o mais importante.

Luto

incendios-luto.jpg

Move notícias

 

 

Quantas e tantas pessoas boas genuínas preocupadas e sabedoras

dizem e gritam e choram e blasfemam e opinam e decidem e exigem.

Quantas e tantas pessoas generosas e emotivas

explicam e pedem e replicam e escrevem e declamam.

Só eu com os meus dedos com a minha voz com as minhas lágrimas

gelei dentro da minha agonia da minha indecisão do meu espanto da minha dor.

Só eu que não tenho gestos para apagar incêndios

nem salmos que sustenham a terra nem mãos que reguem a vida

quero tanto o jorro da chuva a limpeza do vento

alguma coisa que lave a alma

do peso do negrume da desesperança.

Pudor

incendios.jpg

Euronews

 

 

 

De cinza e branco de negro e ocre

esfarelam as mãos e calcinam esperanças

de olhos parados na solidão dos escombros.

A exigência do silêncio a obrigação ao pudor

de todos os que esquecemos o resto do mundo.

O Relatório sobre o incêndio de Pedrógão

relatorio pedrogao.png

 

 

Do relatório elaborado pela Comissão Técnica Independente sobre o incêndio de Pedrógão Grande apenas li o sumário executivo, mas com muita atenção. E sugiro que todos o leiam.

 

Sem qualquer rebuço os relatores indicam a responsabilidade à Protecção Civil, à incapacidade de previsão atempada, à actuação descoordenada e tardia, as extremos factores atmosféricos e de solo.

 

Mas dizem muito mais e é nisso que nos devemos focar - é preciso mudar tudo, aceitar e integrar o conhecimento científico na verdadeira prevenção e combate aos incêndios, mudar a floresta, envolver as populações e as Forças Armadas, qualificar e profissionalizar os vários agentes, avaliar permanentemente as condições e as performances, descontaminar os Postos de Comando de jornalistas e políticos, actualizar os meios tecnológicos de comunicação, que estão obsoletos.

 

Ou seja, transformar esta tragédia numa lição aprendida e usar o relatório para implementar as mudanças que se impõem. Foi exactamente isso que disse o Presidente, terminando com a frase que, repetidamente, se escreveu nos jornais como exigência ao governo, mas que é uma exigência a todos nós - já perdemos todos tempo demais.

 

Mas o Estado é o responsável pela Protecção Civil. Como tal, deve indemnizações às vítimas. Além disso este governo também foi responsável pela nomeação do Presidente da Autoridade Nacional de Protecção Civil que, obviamente, deve ser demitido.

 

Penso que a Ministra também deve demitir-se. Constança Urbano de Sousa sai muito fragilizada e, mesmo que a admire até pela coragem em ter ficado, sujeitando-se a ataques e vitupérios permanentes, ela é o rosto do governo nesta matéria. O que aconteceu foi demasiado grave para que não se assuma, ao mais alto nível, os custos dessa tragédia.

 

António Costa vai reflectir em Conselho de Ministros. Espero que da reflexão do governo resulte uma verdadeira reforma florestal, uma verdadeira reforma da estrutura da protecção civil, uma verdadeira revolução na forma como olhamos e usamos a floresta.

Da Justiça

Ainda a propósito da acusação a José Sócrates, a justiça que esperamos de um sistema que defenda os cidadãos não tem aqui cabimento, como também não teve noutros casos.

 

A lentidão dos processos, o enxovalho público dos acusados e de todos os que, de uma forma ou de outra, com eles se cruzaram, o autêntico bulling a que estão sujeitos, são tudo o que de contrário é justo.

As últimas autárquicas

autarquicas 2017.PNG

Público

 

É divertido o afadigar com que tantos se apressam a vaticinar a instabilidade social e o tremer da Geringonça, após o fraco resultado do PCP, nas últimas eleições autárquicas.

 

Este continuará a perder votos à medida que o tempo passa, pela própria natureza do PCP, que mantém uma matriz autoritária e totalitária, enquistado e anquilosado, por muito que reconheça que Jerónimo de Sousa foi o primeiro suporte desta solução governativa.

 

Quanto a mim (que raramente acerto, diga-se em abono da verdade) este resultado só reforçou o governo. Nem o PCP nem o BE tiveram resultados que lhes permitam forçar uma outra alternativa. Se precipitarem eleições serão ainda mais penalizados.

 

A direita teve uma derrota bastante pesada, tanto o PSD como o CDS - a vitória de Assunção Cristas ofuscou a mediocridade dos resultados no resto do País. Passos Coelho sai de cena, finalmente, mas parece que ninguém quer, verdadeiramentedisputar-lhe o lugar.

O discurso do Rei

 

bandeira espanha.png estelada.JPG

 

Mais uma vez reafirmo que não tenho opinião em relação às pretensões separatistas da Catalunha. Penso que têm todo o direito de querer e tentar a independência, no respeito pelos princípios democráticos e de liberdade de expressão de pensamento de todos os catalães.

 

Não me parece que o apoio ou a falta dele da União Europeia faça qualquer diferença. Na verdade a opinião das Instituições europeias não são confiáveis e variam conforme as conveniências da própria Europa. Todos nos lembramos das ameaças da União Europeia caso a Escócia escolhesse a independência, e do namoro explícito aquando do referendo do Brexit.

 

Aquilo a que assistimos no domingo, com as cargas policiais e a brutalidade da Guardia Civil sobre os catalães não tem desculpa, justificação ou perdão. E foi essa referência, esse reconhecimento e essa palavra de repúdio que faltou no discurso do Rei. Não esperava que deixasse de defender a unidade do Estado, a Constituição e a legalidade, acusando os separatistas de aventureiros perigosos e em rotura com a democracia e o Estado de Direito, mas o apagamento da repressão gratuita na Catalunha remeteu-o para um apoiante incondicional da facção centralista, protagonizada por Rajoy.

 

Na realidade todo este problema está inquinado pelos extremismos, o populismo e a fuga em frente. A verdade é que não sei quantos são os catalães que querem a independência. Não me parece ter havido igualdade de circunstância ou oportunidades para as divulgações e propagandas de ambas as partes, a consulta referendária foi um simulacro (participação de 43,03%) sem qualquer garantia de cumprimento das mais elementares regras democráticas.

 

Enquanto não houver serenidade e reconhecimento do poder central da necessidade de auscultar a opinião dos catalães, dando-lhes a possibilidade de referendar a independência a sério, tal como o reconhecimento das autoridades catalãs em querer saber verdadeiramente a opinião do seu povo, enquanto não houver compromissos de parte a parte, nada se resolverá.

 

Infelizmente o discurso do rei foi uma oportunidade perdida. Radicalizou os catalães já radicalizados e não condenou nem se afastou das soluções totalitárias e violentas de Rajoy. Penso que o Rei acabou por cavar mais fundo a sepultura da monarquia espanhola.

Pág. 1/2