Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Burnout opinativo

debate.jpg

 

 

Tantas e tão variadas as causas que acendem os ânimos e desatam as iras. É obrigatório ter opinião sobre tudo, contra ou a favor, muito decidida e sem cambiantes, que a reflexão não é boa conselheira. A tolerância deixou de ser um valor por si só, resumindo-se a um título que os que se declaram dele ruidosos possuidores se manifestam nada praticantes. Do combate aos fogos à pedagogia do ensino básico, da obrigação dos coming outs à reserva da privacidade absoluta, dos eclipses solares aos estados de calamidade pública, do sexismo do Chico Buarque, tudo é motivo de absolutas declarações e insultos descabelados.

 

Eu estou cada vez mais apalermada com as minhas indecisões, cada vez mais fundas e sobre cada vez mais assuntos. Num dia penso uma coisa, noutro penso outra; leio uma opinião com que concordo, outra contrária onde descubro razão; entretanto tento informar-me melhor, mas o assunto já foi esquecido e já ferve nova polémica agreste e terrível. Cada vez tenho menos opiniões, até porque não consigo colocar-me de um dos lados da barricada e isso é, só por si, um crime sem perdão para os dois lados da dita.

 

Por exemplo: continuo a achar que a sexualidade seja de quem for é um assunto que não diz respeito ao público em geral e que não tem qualquer interesse nem interferência nas funções públicas seja de quem for. Ninguém é melhor ou pior governante, médico, electricista ou jogador de futebol por ser homossexual ou heterossexual – é irrelevante. Mas também é verdade que nem sequer nos apercebemos que ainda há diferenças entre homo e heterossexuais quando se trata de falar, em ambientes sociais ou profissionais, das mais diversas pequenas coisas quotidianas, como da família, dos filhos, das férias, das fotos, dos problemas conjugais, dos gostos, das doenças, dos sogros e sogras respectivos, das idas ao cinema e aos concertos, das companhias, dos ciúmes, das raivas e irritações, enfim, de tudo aquilo que faz a nossa vida. Isso significa que, na verdade, a irrelevância do assunto pode não ser real. Por isso, se calhar, até é importante que pessoas com visibilidade pública assumam a sua homossexualidade, acabando por normalizar aquilo que ainda não o é.

 

Outro exemplo: os livros de actividades escolares da Porto Editora, separados e distintos para meninos e para meninas. Acho um enorme disparate e demonstrativo de uma atitude bafienta e retrógrada no que diz respeito à promoção de igualdade de género - disso não tenho quaisquer dúvidas. Também me parece óbvio que a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CCIG) só poderia dar um parecer condenando tal anacronismo idiota. Há, no entanto, algumas coisas que não consegui esclarecer: esses livros tinham sido adoptados por algum estabelecimento de ensino? Público ou privado? Onde está o comunicado da CCIG que não consegui ler? Confesso que não gosto da recomendação de retirada de venda. Bem sei que é só uma recomendação mas soa a uma obrigação. Por muito que os ache detestáveis e estúpidos, e desde que nenhum estabelecimento de ensino os tenha adoptado como livros escolares (é obrigação do governo zelar por um ensino que não promova a discriminação de géneros), o resto é connosco, o público. Ou será que temos outra vez listas de livros certos e errados, os aceites e os proscritos?

 

Mas o que mais me incomoda é que a intensidade, o empenhamento e a importância das discussões são os mesmos para todos os temas, desde os excessos alimentares aos atentados terroristas. Tudo é tratado como se a sobrevivência da espécie estivesse em causa ou o mundo prestes a explodir, reduzindo tudo ao menor múltiplo comum.

 

Será da silly season. O problema é que estamos a eternizar a silly season e nós é que nos tornámos silly. Felizmente ainda se vão encontrando artigos de opinião que não têm nada de silly e são bons em qualquer season, como este de Maria de Lurdes Rodrigues: O terrorista integrado.

Uma excelente ideia

Aqui está uma bela ideia, que poderia ser copiada por muitos outros: um supermercado alemão retirou todos os produtos não alemães das prateleiras para combater o racismo e a xenofobia.

 

 

super alemao.jpg

“Esta prateleira seria bastante aborrecida sem diversidade”

“É assim que uma prateleira é sem [produtos] estrangeiros”

“Sem diversidade seremos assim tão pobres”

Cortinas

esfera Fritz Koenig.JPG

Esfera

Fritz Koenig

 

As nossas janelas

pintam-se de cinza esguicham

sangue gritam os desastres

do mundo. Se correr as cortinas

e quiser viajar percorrendo

longos poemas claridades

imaginadas amores muito ansiados

os olhos abandonam-me

e atravessam as colinas

do desespero.

Reacender

Sagrada_Familia_01.jpg

Sagrada Família

 

 

 

Penduramos diariamente palavras desgostadas

e olhos lacrimosos de tantas e tão frequentes

almas danadas desesperadas enlouquecidas

que nos dilaceram e transformam em papa

de forma a maltratarmos e descosermos

as razões da tolerância.

 

Estão árvores janelas candeeiros e mãos

retalhadas e cheias de letras

gastos os versos e fechado o olhar

para que se possam reacender.

A nova estratégia

Marques Mendes anuncia crescimento da economia acima de 3%. A seguir o INE apura 2,8% também no 3º trimestre. Logo:

 

PSD: "Crescimento ficou aquém das previsões, mas continua a ser positivo"

 

Pelo que me lembro, as previsões do governo eram de um crescimento de 1,8%, que tem sido superado trimestre a trimestre. Aquém de Marques Mendes? A desvergonha do PSD não tem fim.

Das modernas torturas

hipo 1.jpg

 

 

Depois de 4 anos sem me mexer, ou seja a mexer-me alguns passos da cama para a cadeira, da cadeira para o carro, do carro para a cadeira, e assim sucessivamente, com o aumento de peso correspondente apesar das mais draconianas dietas, entortada e encarquilhada por anos de inactividade e rarefacção óssea concomitante, associados à média idade que já cá chegou, fui obrigada por uma colega muito simpática e muito assertiva a iniciar o calvário do exercício físico.

 

Claro que para uma matrona como eu, do século XXI, só mesmo com um PT (personal trainer), novos arautos da beleza e bem-estar, indispensável profissão de futuro, e muito trendy (na moda, da última moda, moderno, badalado, inovador, em voga, actual). Rendida e convencida, procurei o mais perto de casa que pude um ginásio (ou catedral do fitness); foi-me atribuída uma PT que me avaliou. Logo nessa avaliação, sem saber muito bem como, uma máquina que nos pesa e deita cá para fora as percentagens de gordura, tecido ósseo, água e metabolismo, fiquei a saber que o meu estava ao nível do das septuagenárias. Além disso iniciou-se logo um duelo amigável sobre dietas glúten-free e lactose-free e... tudo-free.

 

Nunca imaginei que o meu estado de depauperamento físico fosse tão desmesurado. Dobrar-me, equilibrar-me, fazer abdominais, pranchas, step, lunges e sei lá o que mais, intervalando com uns segundos para bebericar uns golos de água e recuperar o fôlego (acho que já preguei uns valentes sustos à PT, que me obrigou a comprar uma geringonça para medir a frequência cardíaca). Confesso que me sinto uma alma presa numa cela de carne e osso, mole e gigantesca, que primeiro que se mova, levante, dobre, estique, é o cabo dos trabalhos.

 

Acho que tive sorte com a PT. Apesar de franzina e incondicional e fervorosa adepta da alimentação sem pão, sem leite, sem queijo, sem iogurtes (não investiguei ainda o que mais inflama os meus interiores), é delicada, simpática e assertiva, estando sempre pronta a inventar novas torturas, mas com o apoio certo, sempre que necessário.

 

Mas há esperança: a propósito dos Campeonatos Mundiais de Atletismo que ontem terminaram, fiquei a saber que há tabelas de recordes por idades, para 100m, 200m, 400m, 800m, (…) e maratonas (50 Km). E há um indivíduo que tem vários recordes absolutos de todas estas distâncias aos 100 anos.

 

Quem sabe se daqui a 34 anos não figurarei também como recordista da maratona feminina aos 90 anos? Querer é poder. Principalmente se passar a alimentar-me de ervas e de sementes e fizer muitos lunges até lá.

 

Fauja Singh.jpg

Fauja Singh

Estradas

Brian Dettmer.png

Earth

Brian Dettmer

 

 

1.

Onde está o mundo?

Aquele pequeno mundo a que me acostei

de coisas certas e semelhantes

tão iguais que os dias não se distinguem e os rostos

que se olham e se esquivam

são um e o mesmo desta mole humana

que o mundo alimenta e castiga.

 

2.

A estrada surge em combustão

e eu derreto devagar

enquanto sonho com a direcção

que tomarei à chegada.

 

3.

Compreendo o tempo que se esgota

e o corpo que se degrada

molécula a molécula

numa agonia pré programada

que nasce e connosco se enrola.

Falta-me apenas a inevitável aceitação

da derrota.