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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Manual de despedida para mulheres sensíveis

vem a quinta feira.jpg

Filipa Leal

 

 

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,

não chorar para não enfraquecer o emigrante, 

mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,

dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas

com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala

que não pode levar mais de vinte quilos

(quanto pesará o coração dele? e o meu?),

três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,

oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia

e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,

ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda

(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),

pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,

pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas

e mesmo assim não chorar, nunca chorar, 

mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,

tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,

uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,

apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,

mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas, 

que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também

os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas 

até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,

com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,

e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,

cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,

cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.

 

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.

Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Mas que não chore. 

Sessenta horas de trabalho por semana

padaria portuguesa.JPG

 

 

 

Se dividirmos 60 horas por 7 dias (1 semana, incluindo sábado e domingo), verificamos que dá 8,5 horas por dia. Ou seja, o que Nuno Carvalho explica é que as leis laborais deveriam permitir que um colaborador pudesse trabalhar 8,5 horas por dia, sem sábados nem domingos, para a Padaria Portuguesa.

 

Se quisesse folgar ao sábado, poderia trabalhar 10 horas por dia, caso quisesse folgar sábado e domingo, poderia colaborar 12 horas em cada dia útil da semana. Claro que tudo isto sem pensar em horas extraordinárias.

 

Tudo isto é mesmo muito extraordinário.

Os mestres do fado

os mestres.JPG

 

Confesso que fui um pouco apreensiva assistir a este espectáculo. O meu gosto pelo fado passa mais pela rotura que Alain Oulman, com Amália Rodrigues, dando significado e expressão às palavras e aos poemas para além da beleza da música e dos trinados da guitarra e da voz que a acompanha, que se apodera de quem ouve num sentimento de doce e melancólica tristeza, dispensando a compreensão racional. Por outro lado tinha muita curiosidade em relação ao fado tradicional de Lisboa e às casas onde ele se canta, a solo ou à desgarrada.

 

O grande auditório estava repleto. A minha primeira surpresa surgiu ao ouvir as vozes poderosas e potentes de fadistas com mais de 70 anos. De repente, aqueles anciãos e anciãs, de fatos completos e xailes com lantejoulas, em penteados mais ou menos armados, em cima de uns saltos mais ou menos absurdos, com mais ou menos facilidade de locomoção, adquiriram uma presença e uma dignidade difíceis de descrever.

 

O dedilhar da guitarra soberbamente tocada, com o respectivo acompanhamento da viola e do baixo, aos quais se juntou um quarteto de violinos, elevando-se com o arranque das vozes moduladas, penetraram no corpo e na alma num enlevo que muito se assemelha ao que acontece com as mornas ou com o flamenco. Percebo bem o fascínio que o fado exerce, sendo um êxito em países cuja compreensão da língua é nula mas que comungam na apreciação da música e da voz, da guitarra e da quase magia que se instala, como uma névoa de um ópio invisível.

 

Obrigada a estes Mestres - António Rocha, Artur Batalha, Filipe Duarte, Nuno Aguiar, Maria Amélia Proença, Maria Armanda, Maria da Nazaré e Cidália Moreira. Foi uma noite verdadeiramente surpreendente.

 

Desarrezoado amor, dentro em meu peito

Sa_de_Miranda.png

 

 

Desarrezoado amor, dentro em meu peito

Tem guerra com a razão, amor que jaz

E já de muitos dias, manda e faz

Tudo o que quer, a torto e a direito.

 

Não espera razões, tudo é despeito,

Tudo soberba e força, faz, desfaz,

Sem respeito nenhum, e quando em paz

Cuidais que sois, então tudo é desfeito.

 

Doutra parte a razão tempos espia,

Espia ocasiões de tarde em tarde,

Que ajunta o tempo: enfim vem o seu dia.

 

Então não tem lugar certo onde aguarde

Amor; trata traições, que não confia

Nem dos seus. Que farei quando tudo arde?

 

Sá de Miranda

Da reconcertação social

Confesso que não entendo muito bem a razão pela qual, se o PS podia ter acertado previamente com o PCP e o BE a redução do pagamento especial por conta, insistiu na baixa da TSU. Ter-se-ia evitado toda esta embrulhada, em que ninguém sai muito bem.

 

Penso que é muito importante a renovação de um compromisso, plataforma, acordo, chame-se o que se lhe chamar, para cimentar o apoio parlamentar ao governo. A repetição de episódios destes vai minando a Geringonça e adivinham-se novos confrontos entre governo e parlamento.

Angola na era da pós-verdade

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José Ribeiro

 

 

(...) Portugal prepara-se para exercer uma interferência em massa nas eleições gerais deste ano em Angola. Com a ajuda de antigos colonos, servidores do apartheid, finança internacional, falsos jornalistas, canais televisivos e revolucionários de pacotilha, está em curso um plano diabólico. Talvez não fosse mau seguir as lições do passado e o exemplo de Trump. Deixem ser os próprios angolanos a decidir sobre os seus destinos!

 

Fantástico! Vale a pena ler este editorial de José Ribeiro no Jornal de Angola, um esteio do jornalismo livre e obviamente não alinhado com o totalitarismo reinante naquela democracia musculada.

 

Que tal uma série sobre os agentes secretos portugueses em Angola - Angola e o plano diabólico português.

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