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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

O futuro

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Daniel Arsham

 

 

O futuro que nos espera já passou por nós

numa velocidade de tempo e de espaço

sem pernas que pesem a escravidão.

A morte que nos tempera já aconteceu

e não tarda o próximo renascer

das rugas em rostos de indecisão.

 

Enquanto os dias se arrastam espelhados

o futuro estica as almas que se entregam

e morrem afogadas de sofreguidão.

 

Da súbita desgraça do metro de Lisboa

Vale a pena ouvir este episódio de Contas do Dia, rubrica que se ouve todos os dias na Antena 1, antes das 09h00. Helena Garrido faz eco da campanha a que temos assistido sobre o mau serviço que o metro de Lisboa presta. O contraditório, como agora se diz, é feito pelo próprio António Macedo.

 

E, se calhar, esta avalanche de queixas não é alheia ao facto do governo ter revertido a concessão do metro a privados. Será só coincidência?

RTP - serviço público ou privado?

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Assisti ao programa Prós e Contras sobre o cancro da mama, porque é um assunto muito importante e porque sou profissional de saúde. Pelo respeito que me merecem os doentes e todos aqueles que enfrentam a doença, no domicílio, nos Centros de Saúde e nas Instituições Hospitalares, grandes e pequenas, públicas e privadas, não posso deixar de me expressar quanto ao que penso ter sido um péssimo serviço público prestado ao País, principalmente a todos os doentes oncológicos, particularmente os que têm cancro da mama.

 

Perante o desconforto mais ou menos evidente da Presidente Sociedade Portuguesa de Oncologia e do Presidente do INFARMED, todo o programa foi um discorrer de razões para que a população percebesse que a única Unidade de Mama certificada no País era a da Fundação Champalimaud (FC), e que era portanto a única que sabia e estava em condições de tratar com qualidade os doentes a quem este fosse diagnosticado. Surpreendentemente, no site da FC afirma-se que a Unidade de Mama está em processo de certificação, o que acontece com várias unidades de mama (e não só) de outras Instituições Hospitalares, nacionais e internacionais. Por outro lado o Centro Hospitalar de Setúbal tem uma Unidade de Mama certificada desde 2015, pelos critérios do EUSOMA.

 

Repetiram-se à exaustão palavras como certificação, unidade multidisciplinar, qualidade, sem se explicar que a primeira decorre de um processo em que se procura que uma entidade externa assegure que um serviço/ laboratório/ hospital tem procedimentos padronizados e pode evidenciar que os cumpre, que o tratamento de cancro em consultas multidisciplinares existe nos hospitais há mais de 20 anos, e que a qualidade depende do cumprimento das boas práticas internacionais, que apenas se podem assegurar quando se demonstram resultados que são auditados por entidades externas.

 

Fizeram-se afirmações graves quanto aos excessivos e desnecessários tratamentos de cirurgia e quimioterapia a que as doentes eram sujeitas. Não se explicou que toda a terapêutica oncológica tem sofrido modificações ao longo do tempo, de agressiva para mais conservadora, fruto de investigação científica e de trabalhos de observação e comparação de períodos livres de doença e de sobrevida. Em concreto, o excesso de quimioterapia no cancro precoce da mama tem estado em estudo e os resultados desse trabalho foram publicados em Agosto. Isso foi dito, de facto, mas já depois de se ter criado a ideia de que as doentes eram sobre tratadas em Portugal.

 

Afirmou-se assertivamente que havia muitas discrepâncias de diagnóstico entre os efectuados na FC e nos outros serviços de Anatomia Patológica (SAP), colocando em causa todos os serviços, sem se detalhar as percentagens em que isso acontece, nem se explicando que as diferenças de interpretação dos são resultado das más condições de preservação das amostras biológicas antes de chegarem aos SAP – a chamada fase pré analítica. Já agora é bom que se divulgue que a imensa maioria, se não a totalidade, dos SAP, têm implementados controlos de qualidade externa das técnicas de imunohistoquímica (que estão em causa na determinação dos receptores hormonais) e muitos têm também controlos de qualidade externa do diagnóstico.

 

Foi ainda dito que muito Hospitais públicos dificultavam a disponibilização das amostras para revisão diagnóstica. Sempre trabalhei em hospitais do SNS e conheço a grande maioria dos SAP. Posso afirmar que nunca vi essa prática, muito pelo contrário. Os Patologistas são dos médicos que mais trocam opiniões, enviando amostras para peritos nacionais e internacionais, sempre que há dúvidas ou para isso são solicitados, utilizando inclusivamente os resultados dessas revisões como controlo de qualidade dos seus próprios serviços.

 

Em Portugal há várias unidades hospitalares a tratar cancro da mama, como se pode depreender pelos números de novos casos por ano, revelados no próprio programa. Se a FC trata 500 novos casos por ano, os restantes 5.500 são-no nas outras instituições, públicas e privadas. Todas as recomendações de boas práticas remetem para uma cada vez maior proximidade dos cuidados ao doente, assegurando os números mínimos por instituição (150 a 200 novos caso por ano), pelo que o que é imprescindível é multiplicar unidades que possam fazer o seu trabalho bem feito e em tempo útil. Isso sim, melhoraria a acessibilidade dos doentes e reduziria as desigualdades, existentes em todo o território nacional e por evidente falta de recursos humanos e técnicos.

 

Não, não está tudo bem no SNS. Há muitos constrangimentos e muitas insuficiências e, por vezes, erros e negligências. Devem ser conhecidos para que sejam resolvidos e para que os doentes sejam tratados com qualidade, em segurança e em tempo útil. A redução das desigualdades no acesso aos cuidados de saúde passa por ter um SNS bem equipado e bem organizado. Além disso a rede privada também tem o seu papel havendo, para além da FC, outras instituições privadas a tratar cancro, da mama e outros. Convém ainda lembrar que muitos dos profissionais que trabalham na FC também trabalham ou trabalharam no SNS onde, com certeza, aplicam e aplicavam as recomendações e guidelines internacionais quanto ao tratamento do cancro da mama, participam e participavam em reuniões multidisciplinares de decisão terapêutica.

 

Mas o que a mim mais me impressiona é que a ideia de que o SNS não responde à população, que é mau, que os seus profissionais não trabalham com qualidade e que os doentes têm que recorrer aos privados para serem bem tratados, está de tal forma enraizada, que todos acham normais as afirmações e sugestões proferidas durante todo o programa que, na realidade, se transformou em propraganda à FC, não se tendo ouvido nem lido qualquer reacção da parte de profissionais, associações de doentes, de responsáveis institucionais ou do governo.

 

E no entanto, todos os anos milhares de pessoas são tratadas, de cancro da mama, de outros cancros e de outras patologias, por profissionais dedicados e empenhados, que se deslocam semanalmente entre hospitais para assegurarem as reuniões multidisciplinares de decisão terapêutica, que inventam horas e coragem para enfrentar todas as limitações, falta de recursos e dificuldades imensas dos doentes, para lhes poder dar aquilo que as boas práticas e o estado da arte recomendam e que sempre se habituaram a fazer – a tratar bem os seus doentes.

 

Do teatro como ópio

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Contos em Viagem - Macau

 

 

Encantamento e ópio, vício e magia, perfume e névoa, poente e noite, caminhos interiores que se perdem e acham, habitar o ar e as profundezas, limbo, estranheza, vinho doce e veneno.

 

É muito difícil encontrar as palavras que adjectivem a experiência de assistir a um espectáculo destes. Não se encontra uma razão, uma história. E no entanto elas lá estão, as razões e as histórias, o sentimento e a perdição, o querer ir e o ficar.

 

O espaço cénico minimalista, que se metamorfoseia sempre inebriante, o jogo de luzes, os sons e a música como actores intervenientes, a bailarina que aproxima e afasta o nosso olhar, e as palavras ditas, sussurradas, cantadas por um actor, numa amálgama a que não se consegue resistir.

 

Nunca é demais repetir quão maravilhosos são os criadores do Teatro Meridional. Nunca é demais dizer que é um espectáculo imperdível. E que nos faz tão bem.

The times they are a-changin'

Foi grande a surpresa, mas fiquei bastante contente. É uma rotura com o estabelecido, mas justificada. Ainda bem que os tempos estão a mudar.

 

Bob Dylan

 

Come gather 'round people

Wherever you roam

And admit that the waters

Around you have grown

And accept it that soon

You'll be drenched to the bone.

If your time to you

Is worth savin'

Then you better start swimmin'

Or you'll sink like a stone

For the times they are a-changin'.

 

Come writers and critics

Who prophesize with your pen

And keep your eyes wide

The chance won't come again

And don't speak too soon

For the wheel's still in spin

And there's no tellin' who

That it's namin'.

For the loser now

Will be later to win

For the times they are a-changin'.

 

Come senators, congressmen

Please heed the call

Don't stand in the doorway

Don't block up the hall

For he that gets hurt

Will be he who has stalled

There's a battle outside

And it is ragin'.

It'll soon shake your windows

And rattle your walls

For the times they are a-changin'.

 

Come mothers and fathers

Throughout the land

And don't criticize

What you can't understand

Your sons and your daughters

Are beyond your command

Your old road is

Rapidly agin'.

Please get out of the new one

If you can't lend your hand

For the times they are a-changin'.

 

The line it is drawn

The curse it is cast

The slow one now

Will later be fast

As the present now

Will later be past

The order is

Rapidly fadin'.

And the first one now

Will later be last

For the times they are a-changin'.

Inadmissível

Sejam quais forem as razões dos taxistas é inadmissível o que se está a passar em Lisboa. Espero que o governo, que tem legitimidade democrática, assegure a normal circulação na cidade de Lisboa.

 

As imagens da forma irracional e violenta desta chamada manifestação, que bloqueia os acessos ao aeroporto, assalta veículos e ameaça toda a gente, foram a melhor propaganda para a UBER.

 

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