Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

As brumas do futuro

 

 

Antonio Victorino D'Almeida

Pedro Ayres de Magalhães

Madredeus

 

Sim, foi assim que a minha mão
Surgiu de entre o silêncio obscuro
E com cuidado, guardou lugar
À flor da Primavera e a tudo

 

Manhã de Abril
E um gesto puro
Coincidiu com a multidão
Que tudo esperava e descobriu
Que a razão de um povo inteiro
Leva tempo a construir

 

Ficámos nós

Só a pensar

Se o gesto fora bem seguro

Ficámos nós

A hesitar
Por entre as brumas do futuro

 

A outra acção prudente
Que termo dava
À solidão da gente
Que deseperava
Na calada e fria noite
De uma terra inconsolável


Adormeci 
Com a sensação
Que tinhamos mudado o mundo
Na madrugada
A multidão
Gritava os sonhos mais profundos

 

Mas além disso
Um outro breve início
Deixou palavras de ordem
Nos muros da cidade
Quebrando as leis do medo
Foi mostrando os caminhos
E a cada um a voz
Que a voz de cada era
A sua voz
A sua voz

Um dia diferente

No fim da estrada

 

A história está juncada de revoluções traídas. Escrito sobre a russa de 1917, Animal Farm, de Orwell, podia ser sobre quase todas: à esperança e ao deslumbramento iniciais seguem-se o terror de ver outros (ou os mesmos) tomarem o lugar dos antigos senhores.

 

Poucas - não vamos debater se o 25 de Abril foi ou não uma revolução - podem ser 40 anos depois celebradas sem que o essencial da sua promessa se tenha perdido. Mas por mais que haja quem, reclamando-se dos alvores abrilistas, decrete que do dia inicial de Sophia só resta um encantamento amargo, não é assim. Todas as suas grandes promessas foram cumpridas. A quem afiança que "há liberdade mas" e prossegue com "não há verdadeira democracia", ou "verdadeira justiça", ou "verdadeira igualdade", certificando até, em alguns casos (entre os quais pontua, incrivelmente, Mário Soares), "viver-se pior agora do que pré-74", só podemos apontar o caminho do Instituto Nacional de Estatística.

 

A paz, o pão, a habitação, saúde, educação - todas as reivindicações da canção Liberdade, de Sérgio Godinho, se concretizaram. Tínhamos uma guerra estulta e brutal - 169 mil soldados foram enviados para as colónias, morrendo mais de 8000 - e deixámos de ter. Havia fome - calcula-se que 10% da população portuguesa emigrou nos anos 60, grande parte "a salto", para engrossar bairros de lata nos países de destino - e hoje, persistindo carência, desemprego e exclusão, não há comparação possível. Havia dezenas de milhares de barracas - grande parte das casas eram como barracas - e hoje são uma realidade residual. Havia números de mortalidade infantil africanos, uma rede hospitalar incipiente, e temos hoje um Serviço Nacional de Saúde que ombreia com os melhores e uma mortalidade infantil entre as dez mais baixas do mundo (só entre 1990 e 2011 diminuiu 77%). Em 1970, a taxa de analfabetismo raiava os 30%, hoje é 5%; a taxa de escolarização no secundário era 3,8%, agora é 72,3%; os doutoramentos contavam-se anualmente em dezenas, agora são milhares.

 

Quem, do PC ao PNR, passando por este Governo de maçães, resume os 40 anos a "desperdício", "corrupção" e "traição" não está bem da cabeça. Outra coisa é dizer que é tudo perfeito, que chegámos ao fim da estrada da canção de Gomes Ferreira (o escritor, não confundir). Aliás, a ideia de que um golpe de Estado nos colocaria, por milagre, na terra do leite e do mel, bastando-nos agradecer a dádiva, comunga da infantilidade amorfa que nos fez, como país, aguentar 48 anos de uma ditadura tacanha. Se há falhanço nestas quatro décadas é esse - o de tanta gente achar que a política é uma coisa que lhe acontece, não algo que se faz. Ter nojo "dos políticos", achando que "são todos iguais", entregando-lhes ao mesmo tempo o destino, é capaz de ser uma grande estupidez - e para isso é que, de certeza, não foi feito o 25 de Abril.

 

Fernanda Câncio 

Quarenta anos depois

 

 

 

Ao ver documentários sobre a revolução dos cravos em Portugal, e de tudo o que se lhe seguiu, quando se consegue comparar a sociedade existente antes e depois de Abril, não me restam dúvidas de que este é um País diferente e que estas são gentes particulares.

 

E ainda bem. Para os saudosos de revoluções e de grandes reivindicações bombásticas e bombísticas, de armas de fogo e pedras, de cercos a assembleias e legitimidades outras que não as eleitorais, é muito importante que se lembrem do que aconteceu e do que poderia ter acontecido, entre banhos de sangue, desmantelamento social e substituição de uma ditadura por outra de sinal contrário.

 

Quarenta anos depois, com todos os problemas que existem, estamos num país democrático, livre, aberto ao mundo e habituado às diferenças, às minorias e aos direitos humanos. É isso que temos que defender e manter. Não nos esqueçamos que a mediocridade, a mesquinhez e a falta de ambição e valores democráticos são a raiz da destruição das comunidades.

 

E é por isso que o slogan continua actual - 25 de Abril sempre!

 

Em modo revolucionário - segundo e terceiro comunicados do MFA

 

Rádio Clube Português

 

 

04h45

 

A todos os elementos das forças militarizadas e policiais o comando do Movimento das Forças Armadas aconselha a máxima prudência, a fim de serem evitados quaisquer recontros perigosos. 

Não há intenção deliberada de fazer correr sangue desnecessariamente, mas tal acontecerá caso alguma provocação se venha a verificar. Apelamos para que regressem imediatamente aos seus quartéis, aguardando as ordens que lhes serão dadas pelo Movimento das Forças Armadas. Serão severamente responsabilizados todos os comandos que tentarem, por qualquer forma, conduzir os seus subordinados à luta com as Forças Armadas.

 

Apelo às forças militarizadas


Aqui Posto de Comando das Forças Armadas. Informa-se a população de que, no sentido de evitar todo e qualquer incidente, ainda que involuntário, deverá recolher às suas casas, mantendo absoluta calma. A todos os componentes das forças militarizadas, nomeadamente às forças da G. N. R., P. S. P. e ainda às forças da ID. G. S. e da Legião Portuguesa, que abusivamente foram recrutadas, lembra-se o seu dever cívico de contribuírem para a manutenção da ordem pública, o que na presente situação só poderá ser alcançado se não for oposta qualquer reacção às Forças Armadas. Tal reacção nada teria de vantajoso pois apenas conduziria a um indesejável derramamento de sangue que em nada contribuiria para a união de todos os portugueses. Embora estando crentes no civismo e no bom senso de todos os portugueses no sentido de evitarem todo e qualquer recontro armado, apelamos para que os médicos e pessoal de enfermagem se apresente aos hospitais para uma colaboração que fazemos votos por que seja desnecessária.

 

05h00

 

Atenção elementos das forças militarizadas e policiais. Uma vez que as Forças Armadas decidiram tomar a seu cargo a presente situação será considerado delito grave qualquer oposição das forças militarizadas e policiais às unidades militares que cercam a cidade de Lisboa. A não obediência a este aviso poderá provocar um inútil derramamento de sangue cuja responsabilidade lhes será inteiramente atribuída. Deverá por conseguinte, conservar-se dentro dos seus quartéis até receberem ordens do Movimento das Forças Armadas.  

Os comandos das forças militarizadas e policiais serão severamente responsabilizados caso incitem os seus subordinados à luta armada.

 

Das comemorações da Liberdade

 

 

Temos um País a empobrecer, estamos a perder a coesão social, há um refulgir da ideologia em que os direitos sociais não existem, são dados pelos que têm poder, quase por direito divino.

 

Tudo isso é verdade, em Portugal e na Europa. Os cidadãos divorciam-se dos seus representantes e a tristeza abunda.

 

Mas nada se pode comparar com o que existia antes do 25 de Abril de 1974. Por muito erros que tenhamos cometido, como comunidade, a liberdade de mudar é nossa. Podemos escrever, falar, pintar, desenhar, viajar, casar, ter filhos ou não ter, quando e como quisermos. Também é certo que nada é absoluto e tudo é relativo, que a dependência económica das pessoas e dos países limita a liberdade.

 

Buscamos sempre a perfeição. Mas a democracia existe e, em nome da democracia que fundaram, os Militares da Associação 25 de Abril, deveriam ter sido tratados com respeito pela Presidente da Assembleia da República. Se o discurso que têm a fazer é crítico e incómodo, pois que seja - é isso a liberdade de expressão, foi por isso que se revoltaram.

 

Mas também não deveriam os representantes da Associação 25 de Abril imporem condições para estarem presentes nas comemorações oficiais parlamentares. Não são donos da liberdade e o parlamento foi eleito pelo povo, em eleições livres e democráticas. O respeito pelas Instituições democráticas é também um sinal de que o 25 de Abril triunfou.

 

Há 24 horas num dia - 25 de Abril de 2014 terá 24 horas, suficientes para as comemorações oficiais e para as manifestações no Largo do Carmo. Não nos fica bem, como país democrático que preza a sua História, transformar estes eventos em episódios menores e mesquinhos.

 

Mário Soares foi Presidente da República durante 10 anos, para além de outros cargos de elevada responsabilidade que ocupou. Há muitos cidadãos que nunca gostaram de Mário Soares. No entanto, as maiorias eleitorais deram-lhe a Presidência. Assim ocorreu com Cavaco Silva e com Passos Coelho/Paulo Portas. Nada disto faz sentido. As diferenças de opinião não deveriam nunca ensombrar as comemorações de uma data que permitiu que se possam expressar essas mesmas diferenças.

 

Em modo revolucionário - primeiro comunicado MFA

 

Rádio Clube Português

 

Joaquim Furtado

  

Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo.


Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica esperando a sua acorrência aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração que se deseja, sinceramente, desnecessária.

 

Novo léxico político

 

 

Este período de governo PSD/CDS, Passos Coelho/Paulo Portas, sob o beneplácito e aplauso mudo de Cavaco Silva, tem sido riquíssimo para o léxico da política portuguesa - a requalificação, o inconseguimento, a desoneração, a convergência, redefinição, fusão, guião de reforma, reestruturação, empreendorismo, gorduras do estado, consumos intermédios, rescisões amigáveis, tudo muito colossal.

 

Estou certa que há inúmeros temas para teses de mestrado e doutoramento para fazer nas próximas décadas.

 

Nota: maçadoria, elencar e deselencar...

Em modo recosto pós prandial

 

 

Vieiira da Silva

 

 

Do cabrito reza uma história que não sei contar. Talvez lá para as bandas do último dos Romanos se possa descortinar a receita. Sei apenas que ocupou uma prateleira do frigorífico durante vários dias, mergulhado numa molhanga encarniçada. O passeio diário de 180 graus era bastante custoso, pois os 2 garfos compridos, quais forquilhas do demo, eram parcos para tanta costela. Fiquei mesmo com a impressão que a metade tinha um multiplicador, como agora está na moda dizer-se a propósito da austeridade, mas este era de aumentação.

 

Mas que estava uma delícia, isso é um facto, com acompanhamento de castanhas e esparregado, regado com o costumeiro vinho que já se tornou tradição pascal, cá em casa.

 

Para não mencionar um maravilhoso pudim, também da autoria do cozinheiro de serviço, que era uma bomba calórica, mistura entre leite condensado, leite de coco, gelatina e frutos silvestres, mas que se derretia na boca e se deglutia quase sem se perceber.

 

Enfim, se os impostos sobre produtos nocivos já estivessem activos, nós hoje já tínhamos contribuído com uma bela percentagem para a redução do défice. Só faltou mesmo um certo canadiano de empréstimo para que o dia fosse perfeito...

 

Pág. 1/3