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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Das proibições

Tenho estado um pouco afastada dos blogues, do facebook e das notícias em geral, um pouco pelos afazeres, muito por não ter nada de novo para dizer e muito também pelo mergulho nessa lama triste em que me sinto enrolada. Talvez por isso me assustem e me fascinem cada vez mais as ondas de indignação e violência que assolam as redes sociais e os media, a total inconsistência e superficialidade com que se abordam assuntos sérios, dramáticos mesmo, sem qualquer respeito pelos factos e pelas pessoas, utilizando-se em grande escala a boa-fé com que tantos se empolgam e exigem absurdos.

 

Transforma-se em assunto internacional os amores, desamores, infidelidades e arrufos do Presidente da República francês, trazendo para a praça pública as desavenças conjugais, os internamentos e os problemas psiquiátricos de Valérie Trierweiller que, pelo facto de viver com o Presidente francês, passa a não ter direito à reserva de intimidade. Qual é a relevância deste facto para os graves problemas políticos da República francesa e da Europa? Que nos interessa se François Hollande é a reencarnação de Dom Juan? Qual vai ser o limite para a polícia dos costumes nesta Europa tão liberal e democrática?

 

Tudo se comenta e expõe, desde as preferências sexuais aos hábitos tabágicos e alcoólicos, metendo tudo num saco em que a imagem das virtudes públicas  e a obrigação das virtudes privadas se impõe como modelo. A ditadura dos comportamentos, em que a vigilância mediática se empenha, desde a correcção da linguagem até ao esquadrinhamento dos hábitos gastronómicos, especialmente os de ingestão alcoólica, encontrou agora outra causa célebre – a proibição das praxes. A propósito de uma tragédia que ainda ninguém sabe exactamente como aconteceu, pede-se já o fecho da Universidade Lusófona com a punição dos responsáveis.

 

Uma vez mais sou, e sempre fui, contra as praxes. Acho ridículos os trajes académicos, que fingem uma tradição que não têm, acho disparatados os rituais, falta-me a paciência e o entendimento para aquela forma de iniciação de grupo, para aquela capacidade de pertença e de dependência total. Não compreendo estas entregas como não as compreendo nas claques de futebol, nas associações fundamentalistas de defesa dos animais, nos grupos que decidem apenas ingerir coisas cruas, e tantos outros. Mas isso não justifica a proibição da existência desse tipo de grupos, a não ser que pratiquem qualquer tipo de actos criminosos.

 

Que os responsáveis pela prática destes actos criminosos sejam punidos, que os dirigentes das universidades que aceitam que se cometam actos criminosos perpetrados por associações em seu nome, sejam responsabilizadas, é urgente. Mas convém que não caiamos na sanha persecutória e pirómana de queimar na santa inquisição tudo e todos os que defendem e praticam rituais de iniciação, mesmo que, para nós, eles sejam disparatados e ridículos, desde que sejam livremente aceites e não sejam crimes.

 

Um dia como os outros (137)

 

uma das coisas mais difíceis em crescer -- envelhecer talvez seja a expressão correcta -- é aprender que não sabemos o que sentimos. ou, melhor, que sentimos hoje uma coisa e amanhã outra e que qualquer delas é ou pode ser verdade. (...)

 

(...) mais: achamos que esquecemos e afinal não. ou que não e afinal sim. achamos que não queremos saber e afinal queremos. achamos que não desejamos e afinal. achamos que vamos dormir bem e dormimos mal ou não dormimos de todo. achamos que estávamos preparados e afinal não estávamos. que não ia doer e afinal doeu - ou ao contrário. achamos tanta coisa e enganamo-nos em tanta coisa. como podemos confiar em alguém se nós próprios não somos de confiança? (...)

 

Fernanda Câncio

Jogos palacianos

 

Por muito que nos pareça incrível, a coligação PSD/CDS prepara-se para ganhar as próximas eleições legislativas. A premonição do desastre é tão grande, que Ferro Rodrigues já declara que SE o PS vencer CLARAMENTE as europeias, deverá pedir eleições antecipadas. SE... CLARAMENTE...

 

Todos já demonstram a maravilha que foi esta política, a redenção da economia e a credibilidade de Portugal face aos Mercados, às agências financeiras, à Europa, ao FMI. Com a direita no poder, o caminho da revolução consolidou-se e o governo pode continuar a delapidar o estado, destruindo os serviços públicos de saúde e educação, reduzindo as forças armadas a um grupo de soldadinhos de chumbo, transformando a segurança social na esmola para os desvalidos, rumo a um admirável mundo novo.

 

Sendo assim podem perfilar-se os candidatos presidenciais. E é tal a pesporrência que já descartaram um dos candidatos mais mediáticos. O mais interessante é que eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa só estava à espera de encontrar um bom motivo para não ser candidato. Quanto a mim, lá no fundo Marcelo Rebelo de Sousa é capaz de suspeitar de que o povo, que tanto gosta de o ouvir e das suas brilhantes e divertidas prédicas dominicais, o olha como uma espécie de bobo da corte, negando-lhe as qualidades de postura e isenção consideradas importantes na Presidência da República. Marcelo Rebelo de Sousa é imprevisível e, depois, deixava de poder dar notas aos políticos, de comentar a bola, os concursos juvenis ou as vitórias do ténis, para além do despachar de livros à desfilada.

 

Por tudo isto nunca pensei que Marcelo Rebelo de Sousa fosse candidato a Belém. Será que Passos Coelho, mesmo sem querer, lhe fez um favor?

 

Mas outra questão se levanta - quem será o próximo candidato da direita? E da esquerda? Também nisso António José Seguro não tem opinião.

 

Das ofertas recebidas (3)

 

 

 

 

Este Natal cinéfilo continuou-se com a série de televisão da HBO - The Nº 1 Ladies Detective Agency - que, infelizmente, se ficou pela primeira série. O ritmo, as cores, o sentido de humor e a sensibilidade impregnadas estão de acordo com as histórias de Alexander McCall Smith. Esta série ganhou inúmeros prémios, não se percebendo a razão de não ter continuado. São 6 episódios deliciosos.

 

A protagonista Mma Ramotswe (Jill Scott) está perfeita. Mas a caracterização e interpretação que mais me maravilharam foi a de Mma Makutsi, encarnada por Anika Noni Rose. A dicção lenta e as legendas em inglês facilitam a compreensão e compensam a falta de legendas em português.

 

Uma oferta excelente e aconchegante para estes dias invernosos.

 

 

 

Sister - Miss Celie's blues

 

 

 Tata Vega

 

 

 Molly Johnson

 

 

 Chaka Khan

 

Sister, you've been on my mind
Sister, we're two of a kind
So, sister, I'm keepin' my eye on you.

I betcha think I don't know nothin'
But singin' the blues, oh, sister,

Have I got news for you, I'm something,
I hope you think that you're something too

Scufflin', I been up that lonesome road
And I seen alot of suns going down
Oh, but trust me,
No-o low life's gonna run me around.

So let me tell you something Sister,
Remember your name, No twister
Gonna steal your stuff away, my sister,
We sho' ain't got a whole lot of time,
So-o-o shake your shimmy Sister,
'Cause honey the 'shug' is feelin' fine.

 

Quincy Jones

 

Das múltiplas tragédias

 

Todos temos necessidade de encontrar justificações para as tragédias. Podemos culpar os deuses, a natureza, ou a incapacidade humana, seja ela de que tipo for, mas é-nos quase impossível aceitar o acaso ou o fortuito, o imprevisível, ou o previsível mas imparável, como a morte. Por isso é perfeitamente compreensível que as famílias dos jovens que morreram se questionem e exijam respostas, na tentativa de tentar compreender o incompreensível – a morte súbita, violenta e prematura de 6 jovens universitários. Como também é compreensível a tentativa da família do único sobrevivente em protege-lo e em preservar o mais possível a sua privacidade e recuperação.

 

Não consigo imaginar a dor e a revoltas das famílias dos que morreram, como não consigo imaginar a dor e os sentimentos de culpa do sobrevivente, tenha ou não tido responsabilidade na tragédia. Por isso tudo me arrepiam as notícias, as especulações e os julgamentos na praça pública que se estão a fazer em relação a tudo o que aconteceu. A comunicação social vai mantendo à tona o assunto, dando notícias a conta-gotas, de forma a alimentar na opinião pública a revolta e a condenação do sobrevivente, no pressuposto de que terá obrigado a qualquer coisa que tenha levado os colegas a afogarem-se. Não sei é verdade ou mentira, mas ninguém sabe e, no entanto, as opiniões chovem e as declarações multiplicam-se, com os familiares da vítima a serem arrastados a alimentar o festival.

 

Sou e sempre fui totalmente contra as praxes académicas, ou outras. Algumas das coisas a que chamam praxes não são mais do que actos de vandalismo e de violência que deveriam ser tratados como tal. É possível que tenha havida horríveis praxes, mas convém não especular, sem factos e sem provas, que terá sido esses actos que levaram à morte dos jovens. E é exactamente isso que todos, de uma forma mais ou menos velada, dizem.

 

Os familiares das vítimas têm direito a saber a verdade, o sobrevivente tem direito a ser respeitado, ouvido e, se for caso disso, julgado e condenado, mas em tribunais e por juízes, não nos jornais e nas televisões, sem direito a qualquer defesa, tal como tem direito a recuperar e a ser tratado do trauma provavelmente permanente que sofreu.

 

Podia ser qualquer um de nós nesta situação ou, pior ainda, qualquer dos nossos filhos. Convém que não tornemos a situação ainda mais horrível do que ela já é.

 

Dos pseudomoralismos ditatoriais

 

A aprovação parlamentar da proposta de referendo para a adopção e co-adopção de crianças por casais homossexuais é mais um passo na escalada do populismo pseudo moralista e ditatorial da direita que nos governa.

 

A vergonha maior, e o mais dramático, é que nem sequer será porque a maioria dos deputados assim pensa, mas porque o oportunismo político e a falta de coluna vertebral de muitos permite que se subvertam desta forma os valores democráticos e se implementem os costumes como o referencial do que é lei e do que se permite em sociedade.

 

Como em poucos anos se consegue destruir o que tantos anos demorou a construir. Disso esta maioria se pode gabar. E disso são responsáveis todos os que, por omissão, se não indignaram. Felizmente ainda há algumas almas que preferem o compromisso de consciência.

 

Aulas de Cozinha

 

 

 

É verdade, em resposta a um desafio de uma amiga e colega, autora de um livro sobre licores - Licores de Portugal (1880 - 1980) e organizadora de uma exposição no Centro de Artes Culinárias precisamente sobre licores - O Espírito dos Licores. Arte e Tradição, no próximo Domingo, dia 19, lá estarei para mostrar como se faz, na prática o licor de tangerina.

 

Para quem tiver muita curiosidade e estiver cheio de vontade de iniciar uma produção caseira apareça que eu, desde os tempos iniciais de grande labuta pré natalícia em busca de um sabor que se assemelhasse ao do licor que a minha avó fazia, já consigo produzir um licor que não será exactamente igual, mas não está longe.

 

Arrisquem-se! Caso não se interessem pelo labor licoreiro, há sempre a exposição, que vale muito a pena.

 

Nota: se a minha avó ainda cá estivesse, não caberia em si de espanto - eu, a dar lições de culinária... nunca visto! As voltas que a vida dá.

 

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