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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da irrevogabilidade do novo ano

 

 

Lá se conseguiu passar 2013. Não sei se vem melhor se pior, mas a este já sobrevivemos.

 

Para o ano há mais. O optimismo não tem sido o meu forte, e o horizonte continua nublado e incerto.

 

Entretanto prepara-se a noite, calma e vagarosamente. Na cozinha há um alguidar de mexilhões à espera de uma esfrega, em sentido literal. A ideia é fazer mouclade dos mexilhoeiros, acompanhada de um vinho Saint-Bris. O remate será com fruta de calda, queijo e, para entrarmos bem-dispostos (e meio tontos) em 2014, está já no frigorífico uma garrafa de champagne Baron-Fuenté brut. Internacionalizemos pois os hábitos e a linguagem, para ficarmos em linha com a diáspora.

 

E o melhor é habituarmo-nos. A irrevogabilidade veio para ficar, mas ficou-se apenas pela redução dos ordenados, das comparticipações sociais e do emprego. Quanto ao país, depois da contagem decrescente para a nossa libertação, o ano da restauração começa já amanhã. Cantemos o novo dia.

 

PS - Espero que tenham todos um ano bem melhor que o que passou!

 

Das modas pretensiosas

 

 

A moda é isso mesmo - criar ou recriar alguma coisa que se torne indispensável, mesmo que seja totalmente supérflua. Fruto da nossa sociedade consumista mas também da insistente criatividade humana, que gosta de variar e procurar a diferença. A gastronomia está na moda - há inúmeros programas televisivos dedicados à causa, canais inteiros, concursos, lojas gourmet, utensílios de todos os tipos, máquinas maravilhosas, ingredientes exóticos, desconstruções e esfrangalhamentos, que vão do cheesecake ao bolo-rei.

 

Não escapam os restaurantes. Este ano abriu um em Campo de Ourique - MOULES&BEER- dedicado às moules-frites, um prato tradicional da Bélgica, que consiste em mexilhões, com mais ou menos molhos, acompanhados de batatas fritas. Este restaurante abriu a seguir a um outro, em Cascais, que se chama MOULES&GIN, uma bebida que também está na moda.

 

Mas voltemos ao MOULES&BEER - É um restaurante simpático, de dimensão razoável, com uma decoração minimalista, que pretende ser informal e sofisticada, tipo chic avant-garde. Mesas simples, com tampos de mármore, individuais de papel, com motivos em azulejos tridimensionais, luzes feitas com lâmpadas penduradas, talheres dentro de um frasco grande tipo compota, guardanapos em rolo de papel de cozinha, pão e manteiga dentro de um saco de pano.

 

Nada contra, mas este tipo de decoração, se não está atenta aos pormenores, acaba por ser negligente - o frasco de compota obriga a meter a mão lá dentro para pesquisar os talheres mais pequenos, o que não me parece muito higiénico; o rolo de cozinha pendurado também não é muito prático para quem tem as mãos sujas do molho das moules. Os alguidares onde servem as moules são demasiado fundos, o que não permite ir molhando o pão no molho, juntamente com a apreciação das ditas. A iluminação é mais escassa que discreta.

 

Mas o que mais me desagrada é a forma como dão a entender que estão tão cheios, que são tão procurados, que nunca têm mesa senão com marcação antecipada, o que também é uma moda que pegou e que impede vontades súbitas de ir jantar fora e de experimentar alguma coisa diferente (houve alguém que, num restaurante muito in, após a negação de uma mesa para duas pessoas por não ter reserva, perante uma sala completamente vazia saiu e, da rua em frente, fez o telefonema para reservar, tendo conseguido a almejada mesa para os 10 minutos seguintes). Por outro lado é desagradável reservar uma mesa para as 20h00 e ouvir dizer que esta teria que ser liberta até às 22h00, visto que havia dois turnos de refeição - isto numa 6ª feira à noite. Mais desagradável ainda é a mesa que se reservou para três pessoas ser pequena, não tendo quase espaço para a parafernália de sacos, alguidares e alguidarinhos, copos, frasco de talheres e rolo de cozinha. O serviço é correcto, mas pouco simpático e negligente, embora não seja demorado, o que é uma bênção. Ou seja, fazem-nos sentir que não fazemos falta nenhuma.

 

E no entanto, a razão de ser de um restaurante - a comida - é muito boa: as moules são muito bem feitas, com uma boa variedade de molhos - comi o camembert que estava delicioso e quem comeu o de caril também gostou - e as cervejas são um acompanhamento agradável, havendo uma grande oferta delas, à pressão e engarrafadas - experimentei uma frutada, mas não me lembro qual.

 

A verdade é que não fiquei com muita vontade de voltar.

 

Das ofertas recebidas (1)

 

 

Ellis Peters é um dos pseudónimos de Edith Pargeter, uma escritora inglesa que criou o Irmão Cadfael, um monge detective, cujas aventuras decorrem em Shrewsbury, entre os anos de 1137 e 1145, tendo como pano de fundo a guerra travada pela sucessão de Henrique I, entre Estêvão e Matilde de Inglaterra - The Cadfael Chronicles. Em Portugal estes livros, penso que a maioria, foi editada pela Europa-América.

 

Os livros desenvolvem-se na base de acontecimentos históricos reais. A figura de Cadfael [ˈkadvaɨl] é muito interessante visto que, antes de entrar para a vida monástica, foi combatente e marinheiro, o que lhe deu uma humanidade que, combinada com o conhecimento de ervas medicinais, lhe dá uma capacidade de entendimento, uma curiosidade e um raciocínio lógico que o leva a resolver os crimes e os mistérios que se lhe deparam.

 

Essa série de livros policiais foi adaptada para televisão, sendo o protagonista Derek Jacobi. É com um episódio por dia que faço durar esta maravilhosa prenda de Natal.

 

Monstros Antigos

 

 

Não é fácil falar de um livro de poesia. Pelo menos para mim, que gosto muito de poesia.

 

Monstros Antigos (Esfera do Caos Editores) de Porfírio Silva, é um livro belíssimo. De uma contenção, elegância, fluidez, musicalidade e ritmo que fazem com que as suas palavras se transformem nas nossas palavras. Transcrevo dois (de entre muitos) dos que mais gostei:

 

um desafio amoroso

 

Pássaro pesado sem asa

Navio ferido sem vela

Atravessas o deserto da casa

da primeira porta à última janela.

Forte a fome de fazer

Fraca a faca de cortar

É tarde:

Se ainda és de veras o homem que inventou as nuvens

Levanta-te e arde

 

 

a astúcia da razão

 

dez mil déspotas abrigados

à sombra do teu não.

tu resistes.

e na tua resistência está o seu pão.

 

É com a poesia que resistimos.

 

Nota: Ver também Eduardo Pitta

 

Das revoluções sem armas

 

Há uns dias discutia-se a importância do Maio de 1968, na perspectiva da cultura da sociedade europeia, nomeadamente no que diz respeito aos direitos da mulher e à sua libertação sexual.

 

Não me parece que a liberdade sexual da mulher e, consequentemente, do homem, tenha tido raízes ou sequer tenha sido catalisada pelo Maio de 68. Penso mesmo que a importância do Maio de 68 é muito hiper valorizada, tanto culturalmente como politicamente, dando lugar a um reforço do poder do General de Gaulle, tendo os partidos da esquerda francesa, que apadrinharam a crise estudantil e as greves que se lhe seguiram, sido pesadamente derrotados nas eleições para solucionar essa mesma criseque se lhe seguiram.

 

O grande marco civilizacional do século XX, que revolucionou e modificou a organização social no mundo ocidentalizado, foi a descoberta da pílula, a implementação dos serviços nacionais de saúde, com o pioneirismo do Reino Unido e o desenvolvimento do planeamento familiar com a massificação do uso da contracepção hormonal.

 

A liberdade da mulher nasce da capacidade que ela adquire em controlar, sem a dependência dos seus parceiros, o seu ciclo reprodutivo. E essa capacidade abriu-lhe as portas às ambições de trabalhar, de estudar, de ser economicamente sustentável e independente, de ultrapassar a culpa entranhada da cultura judaico-cristã que a não via como pessoa de pleno direitose desligada da função reprodutora.

 

Essa revolução alterou por completo a relação entre os dois géneros, a organização familiar e a demografia, lançando novos e complicados desafios à sociedade. Em Portugal, Albino Aroso foi um dos que ajudou a essa causa, tendo um papel preponderante na qualidade de vida das mulheres do nosso país. Todas nós lhe devemos uma boa parte da nossa forma de viver, com mais qualidade, segurança e responsabilidade. Ao contrário da geração que está agora no poder, em Portugal e em muitos países europeus, defendia a social democracia. Infelizmente, esta direita que nos governa, aqui e na Europa, não tem sabido honrar estas heranças.

 

Identidade

 

Jiyuseki

 

Afasto-me. Crio uma distância interior visão a preto e branco

de uma neve mais pura de um frio mais intenso.

Afasto-me do silêncio abrupto e gelado deste inverno

de todos os invernos acumulados que transbordam

de todas as solidariedades redondas como ornamentos

de todos os sorrisos desenhados a pincel

de todas estas harmonias amarrotadas

de todos os abraços de ocasião.

 

Afasto-me. De tudo de todos numa ingratidão egoísta

em luta pela sobrevivência de alguma sóbria

e resgatada identidade.

 

Do pecado da gula (2)

 

 

Pois todo o conceito de peru recheado foi desconstruído. Do peru comeram-se as pernas e o recheio foi exterior e não interior, como parece indicar a palavra. Mas todos sabemos, desde a decisão irrevogável de Paulo Portas, que as palavras ganharam outra vida e outros significados.

 

Não foi fácil colocar as pernas de peru, de uma dimensão dinossáurica, dentro do tabuleiro do forno, mas lá ficaram elas, um tantos atafulhadas, pouco elegantes, convenhamos. Escorridas do molho em que estavam há 2 dias, foram barradas e amassadas com uma pasta de 6 dentes de alho (altura ideal para descobrir que o esmagador de alhos estava partido), 2 colheres bem cheias de pimentão doce, alecrim, louro, piri piri e azeite. Espalhei um pouco de sal e reguei com um pouco de azeite, vinho branco (este generosamente) e as rodelas da laranja. Cobri com uma folha de alumínio e foi a assar durante cerca de 3 horas, em lume brando.

 

Quanto ao recheio, foi uma inspiração de momento. Fritei bacon (2 caixinhas), uma grande cebola, castanhas, tâmaras, passas de uva, nozes, azeitonas e cogumelos, tudo cortado aos bocadinhos, e fui temperando com um pouco de sal, piri piri e vinho (usei Porto seco e aguardente). Vai-se mexendo até ficar tudo cozinhado. Se não apreciar muito o sabor adocicado não junte as passas de uva.

 

Acompanhei com arroz branco e esparregado, uma iguaria gentilmente preparada por um dos comensais, e vinho tinto (Quinta do Portal 2007). A seguir foi a panóplia de doces que sobraram de ontem, com o respectivo café e seu licor, pelo que terei que caminhar vários quilómetros nos próximos dias, para digerir e reduzir a enorme quantidade de calorias que ingeri neste dias.

 

A operação Natal 2013 está encerrada. Iniciar-se-á, brevemente, a operação ano novo 2014.

 

Da decadência das rabanadas à revolução do bacalhau

 

 

A calda para os sonhos e as rabanadas está... miam... glup... miam...

 

Para 400g de açúcar adicionam-se 300ml de água, 3 paus de canela e casca de 1 laranja (pequena). Quando ferver junta-se um bom cálice de vinho do Porto... seco, e deixa-se ganhar ponto (cerca de 15 minutos). Já está numa taça funda, onde irão mergulhar os sonhos; o restante está noutra taça, para quem quiser regar as rabanadas.

 

O ano passado discutiu-se a lateralidade política das couves. Sim, cá em casa é tudo muito assumido em termos de debate democrático, e todos os gestos tradicionais são revirados, numa dialéctica comprometida e engajada. Temos que urgentemente decidir se comer bacalhau cozido com batatas e grão é considerado revolucionário e herdeiro de Abril, ou se o Natal em si, com a sua decadência doce e pegajosa, ou não houvesse açúcar que baste a lambuzar os pratos e os dedos, não é a mais pura e reaccionária expressão da direita ultraliberal fashion e caritativa.

 

Neste caso, a singeleza do bacalhau e as horas de escravidão que se passam a preparar o Natal bem podem ser assumidas como solidariedade operária, objecto de gente reivindicativa, como eu. A justa luta não tem tido grande resultado, acabando habitualmente na mais abjecta confraternização entre os representantes do capitalismo, que se levantam tarde e a más horas, e os defensores do trabalho e dos valores da liberdade, que mourejam todo o dia entre panelas. Nesta mesa a consertação acontece por entre os ruídos dos talheres e os perfumes que despertam os mais empedernidos dorminhocos.

 

A todos os companheiros e companheiras, camaradas de consoadas e réveillons, que passem um excelente natal, dignificando a causa em manifestações e comícios nocturnos porque, como sempre, a luta continua!

 

Continuar

 

Baemikkumi

 

Qualquer que fosse o esforço que fizesse

arrasar esta inquietação esta inamovível tristeza

qualquer que fosse a caminhada

a extensão da estrada que me esperasse

qualquer que fosse o longínquo obscuro lugar

que me quisesse talvez lá encontrasse

a força que me falta para continuar.

 

River

 

 

It's coming on Christmas

They're cutting down trees

They're putting up reindeer

And singing songs of joy and peace

Oh I wish I had a river I could skate away on

 

But it don't snow here

It stays pretty green

I'm going to make a lot of money

Then I'm going to quit this crazy scene

Oh I wish I had a river I could skate away on

 

I wish I had a river so long

I would teach my feet to fly

I wish I had a river I could skate away on

I made my baby cry

 

He tried hard to help me

You know, he put me at ease

And he loved me so naughty

Made me weak in the knees

Oh, I wish I had a river I could skate away on

 

I'm so hard to handle

I'm selfish and I'm sad

Now I've gone and lost the best baby

That I ever had

I wish I had a river I could skate away on

 

Oh, I wish I had a river so long

I would teach my feet to fly

I wish I had a river

I could skate away on

I made my baby say goodbye

 

It's coming on Christmas

They're cutting down trees

They're putting up reindeer

And singing songs of joy and peace

I wish I had a river I could skate away on

 

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