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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da defesa do regime

 

 

Apesar de ter passado alguns dias autocentrada por causa do lançamento do livro, não estive de todo alheada do que se passava na actualidade do país. E os motivos de preocupação e tristeza aumentam.

 

O que se passou na manifestação da polícia, com o assalto à escadaria do Parlamento sem reacção por parte de quem deveria ter impedido esse assalto, foi um atentado ao estado de direito e à própria democracia, um sinal de alarme a que todos os democratas e amantes da liberdade devem estar atentos.

 

Começo por não concordar com a existência de sindicatos e associações profissionais de forças militares ou militarizadas, magistrados ou juízes. Muito menos concordo com cercos ou assaltos ao Parlamento, arruaças, grandoladas ou comícios nas galerias da Assembleia da República. A democracia tem regras e num estado de direito essas regras são para serem cumpridas.

 

O que se passou na 5ª feira foi gravíssimo. Ou temos uma força de intervenção cúmplice dos manifestantes por corporativismo, ou temos uma força de intervenção que só é forte com os fracos. O sinal é evidente, em qualquer das circunstâncias – o regime não tem quem o defenda. E isto é um passo de gigante para a violência generalizada e para a destruição da democracia.

 

As razões que assistem à revolta dos polícias são um outro assunto. Os deputados que têm assento na Assembleia, o Presidente da República e o governo resultaram de eleições democráticas e livres. Qualquer destas instituições têm que ser defendidas e preservadas até serem substituídas por meios democráticos. As forças de segurança terão que exercer a sua função porque são para isso mandatadas pelo poder que se originou no voto dos cidadãos.

 

O que me leva às declarações de Mário Soares e ao pedido de demissão de Cavaco Silva. Convém que não nos esqueçamos das manifestações, da recessão, dos salários em atraso, da fome, etc., que aconteceram na altura da intervenção do FMI, quando Mário Soares era Primeiro-minostro. Convém que não se confundam manifestações e apelos, por muitos e clamorosos que sejam, com a vontade do povo. Essa expressa-se em eleições.

 

A liderança do maior partido da oposição anda desaparecida em parte incerta. António José Seguro tanto se faz de morto que já ninguém espera que ressuscite.

 

Caminho dos ossos

 

 

 

 

É com o tempo que me enredo entre os campos da memória e dos afectos.

 

Lá fora caminhamos sobre escolhos de sonhos que foram, e ainda não sabemos como salvar a vastidão de perguntas que nos restam. Sobram meses sem estação definida, tudo numa mistura sem sabor nem cor que se deseje.

 

Dizemos lá fora para que a fronteira definida pelo corpo alastre e guarde todos os que são as nossas projecções, de carne ou apenas de vontade.

 

Dizemos lá fora para explicar o agreste rumorar dos ruídos estranhos e azedos, o amargo do desperdício.

 

Dizemos lá fora como bandeira de resistência e paixão, como se fosse essencial separar, quebrar o enguiço deste tempo sem cerejas mas com caroços, deste caminho de pedras.

 

É este o tempo da insensível e mórbida mesquinhez. Cada vez mais isolados neste abrigo de névoa, tendemos ao esquecimento das estradas que abrimos e dos sonhos que nos visitam, tentações de felicidade.

 

É este o tempo da revolta, em que as barricadas que erguemos se somam aos abismos cíclicos, aos socalcos do retrocesso.

 

É por isso, meu amor, que em ti me centro, como rocha inamovível de segurança e perfeição, como amparo de ombro e de chão. É por isso meu amor que te detenho, fresco oásis e sombra em dias de solidão.

 

Claros são estes sentidos, claros como as portas que esperam o renovar da terra e o acordar deste sono imenso que nos tolhe e nos aquieta. Ao pó que somos havemos de chegar, de ossos ou de cinza, mas moldados na dignidade de quem tem uma relação de posse com a vida.

 

E assim seremos.

 

Casa Fernando Pessoa, 22 de Novembro de 2013

 

Obrigada a todos os que quiseram partilhar comigo o lançamento do meu livro. Apesar do caos do trânsito, da chuva, do frio, do cansaço de uma semana de trabalho, tive o privilégio de contar com os meus amigos num espaço emblemático.

 

Agradeço especialmente ao Tiago Taron, que transformou um livro numa pequena obra de arte, ao Nelson Ferreira, que emprestou à sessão a delicadeza e a profundidade de Bach, à Natália Luíza, que deu aos poemas uma magia que eu lhes desconhecia, ao Prof. Fernando Pinto do Amaral, cuja intervenção resultou numa brilhante palestra sobre poesia e, finalmente, ao Carlos Lopes que, mais uma vez, assumiu o risco de publicar um livro de poesia.

 

Em Lisboa, o livro estará disponível nas livrarias Barata e Pó dos Livros e, directamente através do site da Edita-Me.

 

Das apropriações culturais

 

 

Pelo que pude entender, Paulo Branco atropelou a lei ao não pedir autorização aos herdeiros de João César Monteiro para que fossem lidos textos seus numa homenagem que decorreria no Lisbon & Estoril Film Festival, titulada Leitores improváveis, o que é lamentável e inaceitável.

 

Na carta aberta dirigida ao produtor, afirma-se, a certa altura:

(...) agora com um ministro, rodeado por numeroso séquito hemicílico, a ler uma carta do César a um organismo estatal e sabe-se lá mais o quê de igual jaez e esperta solicitude. Que "eles" comem tudo, está na canção e na sabedoria popular, por (forçada) experiência própria. Mas "que não deixam nada", já é de contestar. Porque deixam: deixam um rasto repulsivo, que soma ao abuso puro e duro o intuito subjacente de branquear, neutralizar, festivalar o furor interventivo, manifestamente Anti-Sistema, do cineasta, assim posto à mercê de tais canibais homenageantes. (...)

 

Ainda sobre este assunto, a realizadora Margarida Gil terá dito que:

(...) mas pôr um ministro, um governante, a ler um texto do João César é desfavorecer e desprezar ainda mais o cinema em Portugal (...)

 

Ficamos pois a saber que há cidadãos que estão proibidos de ler certos textos, ou de os interpretar, talvez porque se lhes mutaram os genes da emoção, do gosto pelas artes ou da sensibilidade. Isto porque são de direita ou governantes. Quando se preenchem estes dois critérios, não há poeta que lhes valha.

 

Isto é uma síndroma sobejamente conhecida, em Portugal - a apropriação do coração, da cultura e da delicadeza pela classe artística de esquerda. Diria mesmo mais, não há artistas se não os de esquerda. E quem disser o contrário é porque é de direita.

 

Da justiça divina

 

 Jonathan Borofsky

 

Nos últimos dias têm-se multiplicado posts e declarações a propósito de uma entrevista publicada na Visão, em que Fernando Moreira de Sá explica como se utilizaram meios de desinformação e manipulação da opinião pública a partir de blogues, de contas de facebook e de twiter, para campanhas sujas contra opositores de Passos Coelho e contra José Sócrates.

 

Não me esqueço de ter sido envolvida numa questão semelhante após um artigo, se não me engano do jornal i, em que se publicitaram as afirmações de um indivíduo que fez parte do blogue SIMplex - Carlos Santos* - e que foi um dos fundadores do blogue A Regra do Jogo, aos quais também pertenci. Não me esqueço também que essa criatura foi ouvida por alguns dos que, agora, se sentem ofendidos com o que Fernando Moreira de Sá diz.

 

Não sei o que se passou nos blogues de campanha patrocinados pelo PSD, mas sei o que se passou no SIMplex, e posso afirmar hoje, como o fiz na altura, que nunca assisti a manobras de desinformação e manipulação, campanhas de assassinatos de carácter e inundação de notícias falsas. Portanto as notícias veiculadas por Fernando Moreira de Sá merecer-me-iam a mesma credibilidade que as de Carlos Santos - nenhuma.

 

Por isso eu até entenderia a revolta de Pedro Correia. Talvez agora ele venha a ter mais capacidade de entender a dos outros. Não tenho dúvidas de que se manipulam informações e de que a luta política suja se trava através de blogues e de redes sociais, e que há uma enorme promiscuidade entre jornalistas e políticos, em todo o espectro partidário. Mas convém também não esquecer que as campanhas movidas contra blogues, apenas porque pertencem ao outro lado da barricada, como as que existiram e existem contra tudo o que tinha e tem a ver com o PS e com José Sócrates, nomeadamente contra os blogues Câmara Corporativa, Aspirina B ou SIMplex, contaram com a conivência, nem que fosse pelo silêncio, daqueles que agora se sentem atingidos e melindrados.

 

Como diria uma amiga minha: a justiça divina tarda, mas fulmina. Talvez o Pedro Correia perceba, agora, que as más companhias podem acontecer aos que se julgam mais prevenidos.

 

E em relação a este tipo de manipulação - e para que servem os comentadores televisivos, os tais que, após entrevistas, declarações ou debates, aparecem a explicar-nos o que devemos concluir? E qual é a surpresa da explicitação de manipulações, desinformações e campanhas sujas? Só agora acontecem? Uma coisa é considerarmos essas práticas condenáveis, outra muito diferente é fingirmos que as desconhecemos. O problema é a falta de um sistema de justiça a funcionar, para que as ilegalidades, assim como as calúnias e as difamações, possam ser tratadas e punidas exemplar e atempadamente.

 

A incapacidade de debater ideias, se calhar porque não as há, sunbstituiu o combate político por assassinatos de carácter e perseguições pessoais. Tudo serve, desde o embuste do problema do anonimato, até às insinuações das promessas de prémios em troca de serviços ínvios e condenáveis. Todos os dias e a toda a hora somos inundados por desinformação. Felizmente estamos em democracia, e podemos escolher entre as inúmeras e variadas desinformações aquela que mais nos convence.

 

*Carlos Santos apagou o blogue A Regra do Jogo e todas as suas intervenções nos blogues SIMplex, Corta-fitas e Aventar.

 

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