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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Bom sinal

 

Tenho sido muito crítica de António José Seguro. Mas a verdade é que ultimamente tem tido iniciativa política, marcando a agenda e mostrando à troika que pode ser alternativa.

 

A carta enviada aos representantes do FMI, BCE e CE, seguida das conversas com os parceiros sociais, falando directamente com os decisores externos e com as forças da tão falada sociedade civil, são um bom sinal.

 

Espero que continuem estes bons sinais, porque todos os outros são deprimentes.

 

A noite passada

 

Sérgio Godinho

 

 

A noite passada acordei com o teu beijo

descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo

vinhas numa barca que não vi passar

corri pela margem até à beira do mar

até que te vi num castelo de areia

cantavas "sou gaivota e fui sereia"

ri-me de ti "então porque não voas?"

e então tu olhaste

depois sorriste

abriste a janela e voaste

 

A noite passada fui passear no mar

a viola irmã cuidou de me arrastar

chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo

olhei para baixo dormias lá no fundo

faltou-me o pé senti que me afundava

por entre as algas teu cabelo boiava

a lua cheia escureceu nas águas

e então falámos

e então dissemos

aqui vivemos muitos anos

 

A noite passada um paredão ruiu

pela fresta aberta o meu peito fugiu

estavas do outro lado a tricotar janelas

vias-me em segredo ao debruçar-te nelas

cheguei-me a ti disse baixinho "olá",

toquei-te no ombro e a marca ficou lá

o sol inteiro caiu entre os montes

e então olhaste

depois sorriste

disseste "ainda bem que voltaste"

 

Casa de feno

 

Convidei para o jantar... um poema

 

 

 

 

 

Havia rumor de passos de vozes ranger de tábuas

entre as rosas mistura de cheiros acres e baunilha.

Havia olhares prolongados de privações

anos de chão raspado por joelhos macerados.

Havia mãos diligentes que batiam ovos

zelosamente guardados em quartos de verão.

Infâncias de memórias casas de ventos

onde se depositam amenas tardes de feno.

 

 

Suspiro com leite-creme de beterraba e chocolate

 

O suspiro:

Batem-se 8 claras com uma pitada de sal em castelo bem firme, e juntam-se 400g de açúcar batendo sempre, durante mais um pouco, até ficar um creme branco e espesso. Espalha-se num tabuleiro e leva-se ao forno lento até cozer.

 

O leite-creme de beterraba e chocolate:

Cozem-se 200g de beterraba descascada e aos bocados em água, com raspa de 1 limão e de 1/2 laranja e 1 vagem de baunilha (aberta, raspada e cortada aos pedaços); depois de cozida escorre-se, retira-se a vagem da baunilha e reduz-se a puré (com a varinha mágica) juntamente com 1/2l de leite que, entretanto, ferveu com outra vagem de baunilha e 200g de chocolate preto (de culinária), cortado aos bocadinhos para ir derretendo. À parte misturam-se 8 gemas com 300g de açúcar, 2 colheres de sopa rasas de farinha e, a pouco e pouco, o restante 1/2 litro de leite. Côa-se o leite com a beterraba e leva-se ao lume, juntando com cuidado a restante mistura do leite, ovos, açúcar, farinha e leite. Deixa-se no lume até engrossar, torna-se a coar e está pronto.

 

Serve-se o suspiro banhado em leite-creme de beterraba e chocolate.

 

 

Esta é uma homenagem à minha avó.

 

Eu, bonzo, me confesso

 

 

Dos comentários ouvido na TSF - Bloco Central e Governo Sombra - e na SIC-N - Eixo do Mal - cheguei a algumas conclusões revolucionárias, e que enformarão o meu viver democrático e republicano daqui em diante:

  1. Segundo Ricardo Araújo Pereira, os cidadãos podem impedir um ministro de falar, porque é ministro, mas os ministros não podem impedir os cidadãos de falar, porque isso é fascista - daqui se depreende que os ministros não são cidadãos.
  2. Segundo João Miguel Tavares, como Miguel Relvas já devia ter sido demitido, por indecente e má figura, obviamente que os cidadãos (que não Miguel Relvas ou qualquer outro ministro, não sei se outros detentores de cargos públicos também estão incluídos) têm todo o direito a insultá-lo e impedi-lo de falar. Esta tese é também defendida por Clara Ferreira Alves e, mais difusamente e menos claramente, por Pedro Marques Lopes, Pedro Adão e Silva, Daniel Oliveira e Luís Pedro Nunes. Claro que é injusto fazer o mesmo a Paulo Macedo, ninguém explicou bem porquê, nem quem é que decide tal coisa.
  3. Segundo Clara Ferreira Alves, todos os que não apoiam nem aceitam estas teses, são bonzos, e teriam muito que aprender com Bocage, Almeida Garrett, Alexandre O´Neill e Natália Correia. Ela não, que já aprendeu tudo e, pelo contrário, tem muito a ensinar sobre liberdade e democracia mas, principalmente sobre cultura, toda ela, desde histórica a política, com especial ênfase na literária e, como pano de fundo, sobre a cultura da revolução permanente e formas de protesto renovadamente esclarecidas.

Daqui depreendo que a lei é variavelmente aplicável consoante se é Relvas, Paulo Macedo, Sócrates, Maria de Lurdes Rodrigues, Vítor Gaspar, João Semedo, Carlos Carvalhas, Jerónimo de Sousa, Ana Avoila, ou até Clara Ferreira Alves, Pedro Adão e Silva, Pedro Marques Lopes, João Miguel Tavares, Daniel Oliveira, Luís Pedro Nunes, Ricardo Araújo Pereira, Pacheco Pereira e muitos outros. Daqui depreendo que Miguel Relvas não conhece limites, mas que todos estes mentores das liberdades criativas sabem quais são os de Miguel Relvas mas não os deles.

 

Por isso visto a camisola de bonzo que se me cola à pele e que Clara Ferreira Alves tão apropriadamente desmascarou.

 

A partir de agora sempre que todos estes oradores aparecerem em conferências, lançamentos de livros, inaugurações de eventos ou quaisquer outras situações, é perfeitamente normal e até saudável, cantar, gritar, insultar, e até atirar ovos podres, visto que isso não belisca minimamente a liberdade de expressão de nenhum deles e é um direito que todos nós temos. A não ser que eles sejam cidadãos, e nós não. Ou é ao contrário?

 

Balada de Outono

 

Zeca Afonso

 

Águas

E pedras do rio

Meu sono vazio

Não vão

Acordar

 

Águas

Das fontes

calai

O ribeiras chorai

Que eu não volto

A cantar

Rios que vão dar ao mar

Deixem meus olhos secar

 

Águas

Das fontes calai

O ribeiras chorai

Que eu não volto

A cantar

 

Águas

Do rio correndo

Poentes morrendo

P'ras bandas do mar

 

Águas

Das fontes calai

O ribeiras chorai

Que eu não volto

A cantar

 

Apetrechos

 

 

Agora é que vai ser: o apuramento culinário e a capacidade de irmanar com os melhores cozinheiros, de todos os géneros e feitios, inventando iguarias de fazer rebolar de gozo o paladar de vários comensais, está ao meu alcance.

 

Após aconselhamento internáutico, parti rumo ao El Corte Inglés, em busca do afamado ralador Microplane. Mas vim de lá com vários apetrechos e muito agradavelmente surpreendida pela cortesia, conhecimento e afabilidade dos comerciantes, que simpaticamente me arranjaram um maçarico para queimar açúcar, com o respectivo gás e lição prática de uso, termómetro para pontos de açúcar e saca-rolhas que, espero eu, funcione bem.

 

Tudo isto porque quero aceitar este convite. Já tenho o poema e já imaginei o doce. Só que, entre a ideia e a sua concretização, vai alguma distância. Principalmente se há percalços como o talhar do leite-creme, e coisas semelhantes. Nada que me impeça de continuar a inventar, audaciosamente, até à volúpia aveludado de um leite-creme inovador, desconstruído e reafirmado.

 

Totalitarismo vanguardista

 

Grândola Vila Morena foi uma das senhas para o Movimento das Forças Armadas em 25 de Abril de 1974. Foi uma das senhas para a instauração de um regime democrático, o contrário do que os arruaceiros do movimento Que se lixe a Troika fazem quando a utilizam, de forma a conspurcá-la, tal como a conspurca o Ministro Miguel Relvas ao fazer chacota do acompanhamento musical desafinado e grosseiro, no Clube dos Pensadores.

 

Ao contrário do que Pedro Adão e Silva e Luís Delgado disseram, não me parece que isto seja um movimento inorgânico. Parece-me um movimento de uma minoria antidemocrática que, infelizmente, tem a compreensão dos media e dos comentadores, que ontem, na SIC-N, ao abordarem os desacatos à volta de Miguel Relvas nas redes sociais, apenas mostraram opiniões que validam e desculpabilizam este tipo de contestação.

 

Pois ela parece-me não só orgânica, organizada e orquestrada, como o contrário da oposição a um governo eleito democraticamente. Não conheço alternativas à democracia representativa, não sei o que é a democracia de rua, parafraseando a pergunta no forum da TSF.

 

Isto é um festim para as vanguardas esclarecidas e para ditadores frustrados, e está a tornar-se perigoso. Prefiro ministros como Miguel Relvas, que podem ser apeados e demitidos por Presidentes da República e por eleições livres e democráticas, que contestatários como os estudantes lixados pela troika, que nem sequer entendem o que é o protesto político, a pessoas surdas e incapazes de discutir alternativas, por muito desesperadas que estejam.

 

Desesperados e lixados estamos todos, com este governo, com esta Europa, com esta Troika, e mais ficaremos se a democracia da rua vencer.

 

Nota: Outras opiniões, que vale a pena ler:

Paulo Pedroso - Portugal está a desaprender a liberdade

Valupi - No país do Miguel Relvas

Diogo Serras - Alternativa zero

 

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