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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Vamos lá a domesticá-lo

 

 

Fim de ano a dois, na mais absoluta clandestinidade. Repasto frugal, para quem está (para) sempre em dieta, mas muito apetitoso, com um docinho também, posto que vamos dar as boas-vindas a mais um ano (para esquecer). Portanto precisamos de muita paciência, coragem e boa disposição, por muito difícil que seja. Estou mesmo em crer que este governo já foi demitido pelo ridículo e pela paródia, tal é o desrespeito com que nos trata e com que é tratado.

 

Mas enfim, lá vamos nós para mais um dia, que isto de fins-de-ano é exactamente igual aos fins-de-tarde e aos princípios-de-dia. A crise transforma qualquer casa no restaurante mais sofisticado que existe e qualquer filme a passar no DVD no melhor espectáculo do mundo. Estamos com mesa marcada para as 20:30h. O começo não foi muito promissor, diga-se em abono da verdade: as farófias estão um pouco desfeitas e o leite de creme retalhou, vá-se lá saber porquê. Lá encafuei tudo para dentro de uma tigela que está bastante transbordante. Esperam-nos uns camarões mais ou menos à Tio Fausto (camarões congelados com casca, nem dos maiores nem dos mais pequenos, em cama de cebola, alho, azeite, pimento verde e muita salsa, com um ou dois goles de vinho bom, a suar num tacho tapado), uns berbigões mais ou menos à Bulhão Pato (berbigões na concha, depois de uma noite em água e sal, numa frigideira com azeite, muito alho, salsa – não encontrámos coentros - e limão) e legumes guisados. Uma pequena tábua de queijos, tostinhas e um bom Chardonnay iniciam e acompanham o banquete. O champanhe está já a gelar e temos conversa e companhia até chegar 2013.

 

O melhor de tudo é estar com quem queremos, desfrutando do conforto de amarmos, muito, sempre, em todos os dias do ano (com excepção daqueles em que nos apetece fugir, mudar de identidade, etc.).

 

Bom ano para todos ou, pelo menos, que não seja pior do que aquele que finda.

 

Nota: imperdoável a omissão de umas maravilhosas vieiras no forno. Estavam muito boas (como tudo o resto). Intouchables e A Praire Home Companion completaram o início de 2013. Nada mal, para começo.

 

Certo

 

 

David Freedman

 

Vou secando as flores

drenando a água em que mergulho

a felicidade momentânea.

Gasto a alma absorvo dilúvios

e reduzo a pó a grandeza que antecipo.

A solidão ecoa e infiltra todos

os poros da vida arestas que magoam.

Só o inatingível me parece certo

na prisão do encantamento.

 

Por pudor ou medo não quero

precisar tanto de amor.

 

Balancetes

 

Tenho pensado no balanço que posso fazer deste ano que está quase a acabar. O grande feito foi sobreviver com a cabeça minimamente sã (embora à minha volta não me considerem lá muito normal), neste país de doidos perigosos.

 

As coisas que já ninguém aguenta começam no governo, passam pelo Presidente e acabam na oposição. É tudo tão mau e deprimente que mergulhamos nas nossas vidas, estejam elas ocupadas pelo trabalho ou pelo desespero do desemprego, sempre preenchidas pelas contas dos tostões que não se deveriam gastar. Não se percebe muito bem como sair deste marasmo, embora saibamos que alguma coisa irá acontecer. Vou-me preparando para piores e mais confusos dias, enquanto não consigo acender a esperança.

 

Algumas coisas boas me aconteceram, no entanto. Consegui manter o peso alcançado em 2011, numa dieta férrea (com alguns precedentes), em que minguei bastante, felizmente. Freud explicaria, com toda a certeza, o fascínio galopante pela culinária e pelo fazer de iguarias que não posso comer, apenas provar muito ao de leve. Mas tenho-me divertido imenso a fazer tartes e folhados, a aproveitar sobras e a experimentar bolos, pudins e até biscoitos.

 

 

Foi uma grande vitória sobre o peso e tem sido uma grande vitória sobre a gula, que espreita a todo o tempo e nunca se dá por vencida. Nunca fiz propaganda do método porque acho que os métodos são todos bons desde que funcionem e não matem da cura. Cada um de nós é que tem que se agarrar a um qualquer plano de emagrecimento, que passa sempre pela redução da ingestão calórica e pelo aumento do gasto, em proporções várias. Fraccionar as refeições e beber umas litradas de água por dia são outros truques para enganar o estômago. O telemóvel funciona bem para nos lembrar de comer, no máximo de 3 em 3 horas.

 

Enfim, depois de ter arranjado uma modista que ajeitasse a roupa ao meu corpo, de camisolas a casacos, de calças a saias, sinto-me uma sílfide capaz de me mexer muito melhor, sem me cansar. Mesmo conseguindo, sem esforço, subir aos bancos para chegar aos armários da cozinha que, inexplicavelmente, estão sempre a uma altura de gigantes, ofereci-me a mim própria um banquinho que comprei no IKEA, onde me empoleiro e me sinto esticada e poderosa.

 

 

Portanto fiquei mais concentrada – nas fúrias, nas resoluções, na determinação, a mesma quantidade de emoções em menor superfície corporal. O que me leva ao objectivo primordial para 2013: sobreviver a mais um ano deprimente e arrepiante que, tudo indica, será pior que este. Não tenho grandes ilusões em relação à capacidade de Cavaco Silva fazer seja o que for para limpar um pouco o ambiente. Esperemos que Paulo Portas dissolva a coligação. No entretanto faço votos para que haja uma imensa luta interna no PS de modo a que se vislumbre uma nova liderança que possa corporizar uma alternativa à esquerda. Mas temo que nos espere mais do mesmo em tudo.

 

Resta-me desejar que passe depressa, o ano de 2013. E que possa defender muito a sustentabilidade do SNS não o utilizando, estendendo essa defesa a toda a população. E que haja algo, mesmo que venha do infinito e mais além, que possa inocular um pouco de decência aos nossos governantes, que dela estão bem afastados.

 

Prevenções

 

Aguardo o dia em que cada bolo que se ingerir tenha um imposto adicionado, ou a inscrição num qualquer cadastro sanitário, para retirar possibilidades de atendimento ou tratamento no serviço de saúde, cada vez menos nacional. Este tipo de moralismo, assacando a culpa das doenças aos cidadãos, criminalizando costumes e hábitos é assustador e autoritário.

 

Quanto à prevenção, que tal o Ministério da Saúde apostar a sério nos rastreios contra o cancro do colo do útero, só para dar um exemplo? Essa estratégia de prevenção da mortalidade e morbilidade por cancro tem provas mais do que dadas em vários países europeus e, para além da melhoria da qualidade de vida das mulheres, é muitíssimo poupadora de recursos financeiros. Dito de outra forma, talvez fosse mais importante investir em educação populacional, com informação abundante e actualizada, em rastreios de base populacional, em infra-estruturas e curricula que incentivem à prática de desporto e a escolhas de vida mais saudáveis, em vez de ameaças veladas e decretos de autoridade e eficácia bastante duvidosas, para garantir a sustentabilidade do SNS.

 

Duodécimos

 

Não tenho nada contra a distribuição dos subsídios de férias e de Natal por todos os meses do ano. Na realidade esse dinheiro deve ser encarado como parte da remuneração mensal e não como um prémio a dar aos trabalhadores, de 6 em 6 meses. O que acontece é que a entidade empregadora se substitui aos trabalhadores, obrigando-os a uma poupança forçada e disponibilizando-lhes essa poupança 2 vezes por ano. Ou seja, a entidade empregadora fica com o correspondente a 2 meses de ordenado (cerca de 14% da remuneração anual) nos seus cofres, em vez de ficarem nos cofres dos trabalhadores.

 

Por isso não consigo perceber a rejeição, por parte dos trabalhadores e da oposição, da distribuição dos subsídios em duodécimos. O que é essencial é que esse dinheiro seja distribuído e não suprimido, tal como o governo decretou, primeiro para os funcionários públicos, depois para os do sector privado. Contra isso sim, deveremos lutar incessantemente. Agora acho muito bem que o distribuam todos os meses. A minha poupança deve ser por mim decidida, não pela minha entidade patronal.

Anjos esquecidos

 

 

Às vezes parece que estes dias formam uma espécie de mundo à parte, uma ponte sobre a vida em que apenas as coisas doces e confortáveis existem. Gostamos de nos sentir assim, sem que a terra seca, as cidades poluídas, a miséria, o crime e a solidão nos assombrem.

 

Natal não é esse estado de levitação. Natal é haver grupos de pessoas que estão junto da noite e da tristeza, varrendo as cinzas e soprando a pouca poeira de luz, iluminando alguns cantos abandonados.

 

E nós, dentro dos nossos quentes agasalhos de afectos, nem sempre nos lembramos desses esquecidos anjos cansados e terrenos, com olheiras, mãos e palavras que curam.

 

Ética

 

Penso que estas declarações do Bastonário reflectem bem a forma como o representante da Ordem dos Médicos lida com as opiniões que divergem da sua. O modo como reagiu publicamente ao parecer do Conselho Nacional de Ética e Ciências da Vida sobre racionamento de medicamentos, ameaçando os médicos com processos disciplinares, e a irrelevância com que desconsidera o documento do Conselho Nacional de Ética e Deontologia Médicas, que não divulgou, são demonstrativos de falta de honestidade intelectual e autoritarismo.

 

O debate e as trocas de informações são essenciais para o esclarecimento e para a tomada de decisões políticas, mais ainda em assuntos extremamente delicados como estes. O Bastonário e a Ordem dos Médicos deveriam ser referências de ponderação e não exemplos de atitudes pouco éticas.

 

História de Carnaval

 

 

Não há dúvida de que o presente recebido pelo governo, com a panóplia de entrevistas e opiniões de Artur Baptista da Silva, era difícil de imaginar. Por muito que a substância possa ser razoável, ninguém leva a sério quem gozou com os órgãos de informação nacionais e internacionais, com a ONU e com tantos economistas e comentadores, fazendo fé nas notícias que desmentem os vários cargos, títulos e especializações da personagem.

 

Ouvimos aquilo que queremos ouvir. Além disso o nosso sentido crítico desliga-se quando alguém se apresenta com as referências de doutoramentos em Universidades estrangeiras, para além da chancela de organizações internacionais sonantes. Devemos todos aprender a lição e olharmo-nos ao espelho. Fica bem ao Expresso e a Nicolau Santos o reconhecimento do erro, mas também a credibilidade do jornalismo de referência foi arrasada.

 

Ao mesmo tempo é de uma comicidade extrema. O desplante do indivíduo é deslumbrante. Portugal deveria exportar burlões. Bem, na verdade exporta: Vale e Azevedo foi exercer em Inglaterra.

 

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