Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Samba erudito

 

 

Paulo Vanzolini

Mônica Salmaso

Teco Cardoso & Nelson Ayres

 

 

Andei sobre as águas

Como São Pedro

Como Santos Dumont

Fui aos ares sem medo

Fui ao fundo do mar

Como o velho Picard

Só pra me exibir

Só pra te impressionar

 

Fiz uma poesia

Como Olavo Bilac

Soltei filipeta

Pra ter dar um Cadillac

Mas você nem ligou

Para tanta proeza

Põe um preço tão alto

Na sua beleza

 

E então, como Churchill

Eu tentei outra vez

Você foi demais

Pra paciência do inglês

Aí, me curvei

Ante a força dos fatos

Lavei minhas mãos

Como Pôncio Pilatos

 

Refundações e desmantelamentos

 

Ninguém percebe o que significa refundar o memorando, talvez porque não signifique absolutamente nada. A conversa sobre as funções do Estado, inaugurada por Vítor Gaspar, tem a enorme vantagem de nos confrontar com a realidade de pagarmos obscenamente serviços de que não usufruímos e que nos dizem, com a maior desfaçatez possível, que não podemos ter.

 

O governos transfigurou as palavras e prepara-se para, à boleia da sua incompetência, após uma execução orçamental totalmente falhada, que errou todos os objectivos, refundar o Estado evaziando-o das suas funções sociais. Assistimos ao espectáculo pornográfico, como se o país fosse uma enorme sala de cinema hardcore, em que se anunciam reduções de 10%, ou mesmo de 6% para subsídios de desemprego, rendimentos mínimos ou de inserção social - os tais que, apesar de miseráveis, alimentam a preguiça dos trabalhadores lusos.

 

No entretanto desmantela-se também o que resta do Estado de Direito, assim como a Constituição na qual se inscrevem os direitos e liberdades e garantias dos cidadãos, com o fenómeno Passos Coelho, que tem prazer e até gosto em que se publiquem as suas conversas privadas. O problema é que não é só ele a sofrer, mais tarde ou mais cedo, com esta colossal declaração, carregada de calculismo político e demagogia bacoca, seremos nós todos, pois a porta que estava aberta à violação da privacidade, escancara-se agora, com estas palavras do Primeiro-ministro.

 

O totalitarismo larvar vai crescendo. Aguiar Branco até já apelida de perigosos inimigos da pátria os comentadores que, não esqueçamos, há pouco mais de um ano eram clarividentes ao massacrarem José Sócrates, da mesma forma que agora massacram os membros deste governo.

 

Tanta mediocridade, essa sim muito perigosa para quem, diariamente, apela à sua própria serenidade, de forma a conseguir levantar-se de manhã e ir vivendo. Em tão poucos meses se destrói o que tantas décadas levou a construir.

 

Espelho

 

Pistoletto:

Mirrors

 

 

Gosto das imagens sem sons em que a mímica

dos rostos me prende e suspende.

Entendo melhor o brilho dos olhos a rugosidade

da pele o tremor das pálpebras,

antecipo a lava destruidora o gelo

das mãos caídas, estremeço nos braços abertos

de alguém que não me vê,

misturo as minhas com as lágrimas do espelho,

devolvo a névoa e o calor em novelo.

 

Tardam

 

Mais uma vez a justiça faz política. Em todos os jornais a notícia das últimas escutas mediáticas, para arrastar na lama o Primeiro-ministro. As empresas de comunicação são compradas por empresas angolanas. A informação na mão do poder económico na mão de um poder político ditatorial, que não tem qualquer respeito pela liberdade de expressão.

 

Num ano todos os pressupostos mudaram: de uma crise causada pelos governos socialistas, passámos a uma situação que só se resolve na Europa; de uma intervenção externa procurada por toda a oposição de direita e por quase todos os comentadores e economistas da nossa praça, passámos a um país intervencionado e abdicado de soberania e independência; de um memorando de entendimento que era o programa do governo, até pouco ambicioso, passámos a ter um governo que se clama sem alternativa perante as exigências em que já não se revê.

 

Com um PS sem qualquer brilho ou solução, sem um Presidente que sirva, pelo menos, para ouvir e entender a voz do povo, encurralado na sua própria pequenez e enredado na gestão dos vários ódios que alimentou, arrastamo-nos sem qualquer perspetiva de futuro.

 

Para quando a implosão do PS para podermos ter eleições com alguma hipótese de alternativa política? Para quando a implosão do PSD e do CDS? Tardam a apresentar-se os homens e as mulheres acordadas e alertas. Aqui e na Europa.

 

Poeira

 

Sherrie Rennie:

Inner-city Bred

 

 

1.

Nada me aquece neste muro construído

por minhas e outras mãos. Ouço vozes solitárias

de um fado torturado e infinito. Cada vez mais fria a ausência

do teu abraço. Ao meu lado o silêncio esfíngico

de alguém que desiste. Que sem querer mergulha na guitarra

e dedilha a dor permanente da realidade.

 

2.

Nego o passo para o monótono aviso da destruição

nego a inevitável avalanche da tristeza

uma apatia tão sem nexo nem solução

que nega o lampejo e a atração

pelo apetecível abismo.

 

3.

À minha volta a poeira desmaiada da cidade

sem ruas visíveis nem faróis fugazes.

Procuro algumas velas iguais à tremeluzente

incerteza que nos habita na usual capacidade

de apagamento que antecede a idade

das cinzas.

 

4.

Parto aplicadamente o tijolo em que

transformo os velhos pedaços deste

tecido envelhecido que

enforma o todo que já

foi habitado por

mim.

 

Ética

 

O recente parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), em resposta à solicitação do Ministro da Saúde sobre a fundamentação ética para o financiamento de retrovirais (doentes HIV+), medicamentos oncológicos e alguns dos medicamentos para a artrite reumatóide, mostrou-nos, mais uma vez, a incapacidade de se ler, discutir e opiniar seriamente sobre qualquer assunto, nomeadamente aqueles que mais serenidade e seriedade precisam, pela sua delicadeza e repercussões na vida do indivíduo e da sociedade.

 

A forma como a comunicação social divulgou o parecer, as opiniões de alguns agentes políticos e a atitude do Bastonário da Ordem dos Médicos foram de um populismo e oportunismo político totalmente inaceitáveis. Sem sequer se ter o cuidado de tentar perceber o significado dos termos empregues, parece que o que mais interessava era lançar na opinião pública a ideia de que o Ministro Paulo Macedo queria este parecer para deixar de fornecer medicamentos como consequência da necessária redução de custos e desperdícios que possibilitem a sustentabilidade do SNS.

 

Que eu me tenha dado conta, apenas Ana Matos Pires se indignou com estas posições, nomeadamente com a intenção revelada pelo Bastonário de levantar um processo de averiguações aos médicos que assinaram o parecer.

 

Não sou suspeita de apoiar este governo, mas concordo com muitas das medidas que Paulo Macedo tem tomado. Acho que é imperioso e ético que este pedido tenha sido feito, como o é que estes assuntos sejam pensados e discutidos por toda a sociedade, tal como o foram a desciminalização da IVG e o testamento vital. Li o parecer que me pareceu bastante equilibrado, apoiando-se em experiências de outros países, chamando a atenção para que a equidade de acesso e a saúde precisam de medidas intersectoriais, salvaguardando a independência dos prescritores e apelando ao envolvimento da sociedade e dos doentes na discussão das decisões terapêuticas.

 

Melhor que eu Maria de Lurdes Rodrigues explicita exactmente o que penso no programa Pares da República de hoje. Vale a pena ouvir. E vale a pena ler o parecer e pensar. Mesmo que não se concorde com o que diz, é necessário e urgente abrir a discussão e ser-se transparente nas decisões.

 

Vertical

 

 

Steven Givler

 

1.

Ontem passei no cais por onde andámos

mãos atracadas sem âncoras olhares longínquos

atravessados de ventos marés e amor bravio.

Ontem a sombra dos navios que navegámos

desenhou as velas recolhidas que esperam o dia

em que juntos desataremos o que a vida nos enredou.

 

2.

Em Lisboa o sol é agudo

a calçada aquece os passos de quem chama

pelos mudos impérios desatados.

Em Lisboa a vida tem arestas

abruptas paredes pintadas de chumbo

e gente vertical na luz branca do desespero.

 

Pág. 1/2